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domingo, 3 de maio de 2009

Um quase-palhaço


Foto por Diogo Figueira em http://www.flickr.com/photos/coxao/2693908891/



Não era o que eu esperava. A cada visão, uma nova realidade surgia. Cores, formas, gente, vida! E quão bom era isso!


Cheguei sem muitas pretensões: um rapaz curioso, sorrindo a todos, tentando ser simpático e achando que viveria um dia como qualquer outro. Engano, completo engano. Assim que entrei no local – um misto de "muvuca", parque de diversões e festa cultural –, percebi que algo mágico aconteceria; no mínimo, alguma situação inusitada.


Cumprimentei os rostos conhecidos – pareciam todos muito satisfeitos. Caminhei em várias direções, sem saber ao certo aonde ir. Enquanto caminhava, uma gritaria chamou-me a atenção. Na verdade, uma bela apresentação se desenrolava. Dois quase-palhaços tomavam as atenções de todos, principalmente crianças. Fui me aproximando, cada vez mais perto... Acomodei-me ao lado do quase-picadeiro. Admirando os sorrisos sinceros de uma centena de crianças, fui surpreendido por uma frase bem sugestiva:


– Ah! Então você está por aqui! – era um dos quase-palhaços "me reconhecendo". E ele tinha um baita chicote na mão! Eu iria discordar?!


O fato é que fui intimado a atuar como voluntário no próximo número do espetáculo. Bem... acabei indo... As gargalhadas da criançada eram um convite irresistível!


O número consistia em manobra extremamente arriscada. Tentarei explicar...


Um dos quase-palhaços, o vestido de coelho (chamemos de Coelho para facilitar), deveria passar, com toda habilidade possível, por um arco (bambolê) suspenso no ar por uma garotinha. Mas... antes disso... deveria transpor uma barreira humana formada por quatro "voluntários" – eis onde eu estava. O outro quase-palhaço, o do chicote (chamemos apenas de Chicote), organizava a bagunça (ou bagunçava a organização?!). Ele me colocou, vejam só, de testa colada com outro rapaz – simpático, até. Do nosso lado, outra dupla igual a nós. No meio, não sei exatamente como, Chicote apertou um menino que, creio eu, servia mais para rir da situação que para qualquer outra coisa. Na ponta dessa "fila", a garotinha suspendia alto, em sua "outra mão esquerda" (palavras de Chicote), o aro entregue por ele. Como se pode notar, a arquitetura do número se fazia estranha e arriscada. O que aconteceria ali, só Deus, Coelho e Chicote sabiam. O restante do povo ria, como toda a criançada, ou chorava, como eu (mentira, não chorei não, mas fiquei com um bocado de vergonha).


Tudo pronto, Coelho tomou distância, Chicote estalou seu chicote no chão, rufaram-se os tambores (na verdade ouvia-se um rock clássico que multiplicava a drama de tudo)... e eu, lá. Lá vinha Coelho, e eu, lá. Em velocidade descomunal, comparável à mais habilidosa tartaruga, ele vinha. Vinha, e não chegava nunca. "Meu Deus, vem logo, Coelho!", era o que eu pensava. Enfim, chegou. Com destreza olímpica, Chicote auxiliou Coelho a subir na cabeça dos voluntários. Na minha cabeça! Que situação! E o povo rindo! E eu rindo! "Vai logo, Coelho!", eu queria gritar, mas usava todas minhas forças para mantê-lo no ar, como o mais belo pássaro em vôo livre. Os outros ajudavam. Tudo muito, muito arriscado! A garotinha ergueu mais o bambolê, que só não se fazia mais medonho por não estar envolto em chamas.


E ia Coelho, quase um Chapolim Colorado, passando por dentro do arco! Primeiro foram as orelhas, depois a cabeça suada e seu sorriso infantil – e o arco ficando para trás. A garotinha se preocupava. Chicote orquestrava os movimentos delicados. E eu empurrando: "Vai, Coelho!"


Tudo se deu em longos minutos – justificáveis pela periculosidade do número! Ao final, despejamos "carinhosamente" o Coelho no chão cimentado. Quase como mágica, imediatamente depois de ele ser despejado, o público mostrou o orgulho por seus quase-palhaços em longa e calorosa salva de palmas! Estranhamente, o bocadinho de vergonha que eu sentia transformou-se numa prazerosa satisfação. Algo como experimentar um belo de um algodão doce! E quantas crianças alegres eu via, quanta felicidade!


De fato, não era o que eu esperava... Para quem chegou sem pretensões, tornar-se um quase-palhaço já estava de bom tamanho. Contudo, ficou aquele “gostinho de quero mais”.

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