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quarta-feira, 25 de março de 2009

Eterníndia

Aborígine desta terra de Alencar,
Deusa de Martin,
Acaricio tua linda pele ainda morna do ocaso.
A areia escorre entre meus dedos
Como a vida que se vai...

Os grânulos voltam à praia.
Aguardam outra mão que os afague,
Amores que nele rolem,
Qualquer coisa...

Encanto-me em pensar que mal vivi duas décadas
E estas bilenares areias já ha muito aqui estão.
Foram cenários de digladiares tupi,
Cataclismos... Fenômenos mil que os meus olhos não creriam.
Viram cenas de ódio e de paixões,
Ouviram sussurros, cantos, vida... Vida...

Um dia não mais poderei acariciar-te, Iracema.
Presentearei este cetro à posteridade.
Verás outros dedos te tocarem,
Outras vidas a te verem... Te irem...

Testemunharás o futuro desta terra.
Ouvirás o que nunca sonhei.
Assistirás ao resto deste conto universal como nunca cogitei.
Outros cantarão tuas belezas.
Mas talvez me ausente apenas parte de uma eternidade
E, quem sabe, ti vivo novamente...





Fortaleza, Praia de Iracema, 26 de junho de 1996 – 22h.
Poesia premiada no I festival de poesias da casa de Juvenal Galeno






terça-feira, 24 de março de 2009

O Admirador - Parte 1: As coroas

(Maristela Scheuer Deves)

Os relâmpagos rasgavam o céu e iluminavam o quarto, apesar das janelas e dos olhos fechados. Os trovões, ecoando ao longe, pareciam chegar cada vez mais perto, enquanto a chuva desabava com força sobre o telhado. Encolhida sob as cobertas, pensou em quando costumava, em noites assim, arrastar o colchão para o quarto dos pais. O pai fazia troça, mas ela se sentia protegida. Agora os pais estavam a centenas de quilômetros de distância, e ela, sozinha no apartamento enorme. E com medo, mais uma vez.

O estrondo de um novo trovão sobressaltou-a e a fez pensar nos ramos bentos que a mãe queimava para acalmar tempestades. Chegou a afastar as cobertas para o lado na intenção de procurar aquele maço de galhos de oliveira, mas, suspirando, abandonou a idéia. Seu medo atual, ela se forçou a admitir, não era causado pelas forças da natureza. Na semi-obscuridade do quarto, lançou um olhar para o fone fora do gancho. O celular, ao lado, também estava desligado havia dias.Se a mãe tentara contatá-la, devia estar preocupada, pensou, fazendo uma anotação mental para ligar-lhe no dia seguinte.

Diria que os telefones estavam com defeito, mas era mentira. A verdade, nua e crua, é que seus nervos não agüentavam mais.Três meses! Ou seriam quatro, já? Não podia entender, agora, como de início achara graça naquilo. Repassou em pensamento a primeira vez que a campainha tocara, o entregador com uma braçada de rosas vermelhas. No cartão, no lugar da esperada assinatura do namorado, apenas um "você ainda vai ser minha" rabiscado em letras maiúsculas. Divertida com a idéia de um admirador secreto, colocara as flores em um vaso, na sala.

Ainda podia sentir o cheiro delas. Não apenas daquelas rosas, mas de todas as outras que vieram depois. E, também, das coroas – as coroas fúnebres que passaram a chegar ao mesmo tempo em que as ligações em que ninguém dizia nada. Arrepiou-se só de lembrar o telefone tocando de madrugada, e ficando mudo quando atendia. Quando aquelas macabras coroas começaram a ser entregues, uma após a outra, dia após dia, com o seu nome gravado, achou que iria enlouquecer. Quem, em nome de Deus, estaria fazendo aquilo? E por quê?

Em princípio tentara considerar tudo como uma brincadeira de mau gosto, mas não dava mais. Contara 47 coroas entregues em seu apartamento nos últimos meses. E, faziam duas semanas, elas passaram a ser entregues também no seu local de trabalho.

(continua no mês que vem...)





segunda-feira, 23 de março de 2009

Solidão a dois em tempos de crise- Giselle Sato




A crise financeira vem influenciando vários aspectos do cotidiano. Se antes pensávamos em lingerie e jantar a luz de velas, hoje damos trato à bola tentando driblar cobranças e pendências. Até que ponto a relação é forte o suficiente para superar tantas crises? Começa com as contas atrasadas, discussões na hora de checar o cartão de crédito, quem gastou mais e as intermináveis justificativas.


O dia se arrasta e a comida desce com tempero de ressentimentos. Finalmente chega a hora de dormir, dividir a cama pode transformar-se em um grande pesadelo. O casal não consegue desligar o mecanismo da preocupação e o peso das dívidas. O clima romântico não suporta a pressão e o afastamento é natural. Cada qual monta um mosaico de pesos e medidas. Existe o medo de iniciar um diálogo e começar uma briga, o receio de expor sentimentos e ser rechaçado. Muitas mulheres afirmam que problemas financeiros terminaram com a vida sexual. Esta solidão que chega de mansinho e se apossa de vez é cada vez maior. Não serão receitas de sedução que trarão o parceiro de volta.


Dividir preocupações e tentar encontrar soluções juntos é delicado e requer jogo de cintura. Por sua natureza emotiva, normalmente as mulheres esperam demonstrações de carinho como forma de incentivo. Muitas vezes não encontram mais que o silencio que tomam como acusação ou descaso. Pares perfeitos que há bem pouco tempo viviam em perfeita harmonia, hoje em dia andam as turras com a falta de dinheiro. Não há como fingir que a vida segue cor de rosa, é preciso lutar para preservar o ‘’bom do amor’’. O que nos trouxe até o convívio sob o mesmo teto não tem prestações atrasadas nem juros. Talvez esteja perdido em alguma gaveta e com certeza fazia parte do plano inicial.


Carinho não paga mercado nem traz alívio ao coração. Mas como a alma agradece! Um abraço apertado vale muito quando estamos nos sentindo fracassados. Partilhar a falta de palavras custa apenas sentar ao lado e se muito, dar as mãos. Abandonar velhos hábitos como sair com amigos, fazer compras e jantar em bons restaurantes não é fácil. Pode parecer fútil para alguns, no entanto não vamos julgar os valores alheios. No mínimo ouvir sem dar palpite já ajuda muito quem reclama. Não adianta começar a falar em pensamento positivo e que melhores dias virão para uma pessoa com o especial estourado. É hora de cada um no seu quadrado e aos pouquinhos juntar as peças. Lentamente e com cuidado porque magoar é fácil demais neste momento.


Sexo. Vai existir um instante propício em que a cumplicidade e o carinho vencerão a resistência. Não há libido que supere as preocupações com o desemprego, sobrevivência e expectativas. Nunca houve tantos semblantes preocupados e tristes caminhando aos pares. Cada vez que me deparo com um deles, recordo o desabafo das amigas da velha firma que todos julgavam inquebrável. Pouquíssimas conseguiram manter o casamento. Casais que pareciam existir um para o outro, tornaram-se inimigos por conta da partilha de louças. São tantas histórias, contadas de ângulos diversos... A única certeza é que querendo encontrar soluções sozinhas ou resguardar o companheiro excluímos ajuda. Em ambas as situações, estaremos lutando sem qualquer apoio. O velho chavão: ‘’A união faz a força’’ ainda vale.


Solidão a dois: Momento em que não há mais nada a dizer nem sonhos a compartilhar. A total ausência de esperança, afeto, respeito e amizade. A certeza de dias sombrios em tempos conturbados. E o medo de não saber quando o pesadelo irá terminar.





sábado, 21 de março de 2009

Jogo da Memória

Marcia Szajnbok

Como dois vetores que se anulam, iam pela rua, mesma direção, sentido contrário. O encontro dos olhares não durou mais que a metade de um instante.


Ele: Puxa, há quanto tempo! (Nossa! Ela continua linda...).

Ela, sorrindo um pouco sem graça: É mesmo... (Meu deus! Quem é?).

Ele: Quantos anos faz que terminamos a escola? Uns vinte? (Não acredito... Ela não se lembra de mim?!).

Ela: Por aí... (Meu deus! Quem é?).

Ele: Me conta, você faz o quê da vida? (Me diga que está solteira... ou separada...).

Ela: Fiz jornalismo, mas não trabalho com isso... É uma área difícil, sabe? O mercado... blá-blá-blá... (Meu deus! Quem é?).

Ele: Pois é... Coisas do nosso país... Veja você, eu sou engenheiro... blá-blá-blá... (Não tem aliança no dedo, mas esse pessoal das humanas é meio diferente...).

Ela: blá-blá-blá... (Essa cara não é estranha… da escola… raio de memória que me deixa sempre de saia justa!).

Ele: blá-blá-blá... (Ela me dizia tanta coisa… Como pode ter esquecido?).

...

Ele, depois de um breve silêncio: E... você se casou? (Diga que não...).

Ela: Não… (Melhor omitir os detalhes…) E você?

Ele: Casei, descasei, no momento estou de volta ao mundo dos solteiros...

Ela sorri.

Ele continua: (A-ha... got you, baby!) Você ainda tem contato com alguém daquela época?

Ela: Não... mudei tanto de casa que ninguém mais deve ter me achado...

Ele: (Eu percebi...) Outro dia encontrei o Edu, lembra dele? Aqueles bailinhos de garagem, com luz negra e som de vitrola... A mãe dele sempre punha um monte de gelo na cuba-libre, assim ninguém ficava bêbado! (Não é possível que ela tenha esquecido aquele bailinho...).

Ela, rindo: Era mesmo uma delícia... (Edu, Edu... acho que tinha mesmo um Edu na minha classe...) .

Ele: Nossa! Todo mundo queria dançar igual ao Travolta!

Ela: Nos Embalos de Sábado à Noite... (Há quanto tempo não me lembrava disso? Eram bons mesmo aqueles bailes...).

Ele: Muito namoro começou naquela garagem, ao som dos Bee Gees... (Xeque mate!).

Ela, sem ter tempo de pensar, cantarolou: “Nobody gets too much heaven no more...”

Ele pôs as mãos nos ombros dela, puxou-a para perto, beijou-lhe de leve o rosto, depois os lábios.

...

Ele: Olha, eu preciso mesmo te dizer uma coisa, sabe? É que quando vi você se aproximando, parece até que voltei no tempo... Tudo bem, lá se foram vinte anos, ou mais... Tudo bem, éramos quase crianças, mas nunca esqueci daquele beijo que você me deu, naquele bailinho na casa do Edu... Nossa! E pensar que você ainda se lembra da música... “Too Much Heaven”, era isso mesmo.... Nesse tempo todo, tanta gente passou pela minha vida, mas você sempre esteve na minha cabeça... Te procurei muito, sabe? Mas ninguém tinha sua pista, parecia até que tinha evaporado... Eu não era santo, pisei mesmo na bola, eu sei... Mas, olha... A gente tinha o quê? Dezesseis, dezessete anos? Cabeça de vento, quanta bobagem se faz quando se pensa que é gente grande e não se passa de um menino metido a besta... Deve ter sido algum anjo que pôs você bem aqui no meu caminho hoje... Porque acordei pensando que não vou viver muito, sabe? Mas não queria morrer sem te dizer isso: aquele namoro não passou de umas semanas, mas... falando sério... nunca amei ninguém do jeito que amei você, Silvia.

Ela arqueou as sobrancelhas de modo que seu rosto ganhou um ar de interrogação: Silvia???

...

Do rubor à palidez foram segundos. Muito constrangido, ele encolheu os ombros, baixou os olhos e foi-se embora, tão rápido que ela nem pode ouvir seu pedido de desculpas pelo equívoco.

Ela ficou acompanhando com o olhar o vulto masculino que se afastava. (Que pena... Um moço tão bonito... Que grande imbecil deve ser essa Silvia!).

Segundos depois, estavam ambos diluídos na multidão que caminhava desordenada.





sexta-feira, 20 de março de 2009

Tentativas de existência

Léo Borges

Maria das Dores relutava em viver tantos anos com o mesmo nome. Cada revés na vida era merecedor de uma nova graça para apagar as cicatrizes.

Quando terminasse de receber os castigos de seus pais, seria Cândida; após descobrir que fora traída pelo amor de sua vida, seria Ângela; depois de ser demitida do emprego de secretária, seria Virgínia.

E já programara que seu último nome refletiria a cor clara das águas, o azul de um céu límpido e pacífico, redenção aos 80 anos de uma mulher sofrida. Mas seu filho Antenor, que prometera que quando virasse José a ajudaria, voltou atrás ainda Jônatas.

Tampouco a auxiliou o neto, Luiz, outrora Caio. O ocaso chegou sem maiores alardes e, então, a solidão companheira deixou que a anciã pulasse do oitavo andar, impedindo, assim, o nascimento de Celeste.





O Amor segundo o Ódio

Léo Borges

Acima de tudo, falso. Utiliza-se de ardil para a conquista; sob outro meandro, para o sexo. Não existe em forma pura, sendo que, mesmo o de mãe, dito incondicional, subordina-se ao fator sanguíneo. Conheço sua postura mesquinha, mas o tolero por vivermos em interseção. Quem acredita que o sente, carrega-me na alma. Quem promove a guerra, ama. Esta, sim, a verdadeira demonstração de afeto, de importância ao outro, onde se corrige o diferente, mostrando seu erro e servindo-lhe com a verdade. Certo está que seu antônimo não sou eu; somos da mesma fonte. O contrário do Amor, como ele se recusa a admitir, é a Indiferença.





O anômalo

Léo Borges

Uma aula de antropologia nunca me saiu da cabeça. Foi quando a professora comentou sobre como o preconceito procura brechas no famigerado “politicamente correto” para se perpetuar. Ela citara o exemplo de jovens alemães que espancavam tunisianos, turcos e marroquinos com a ideologia de que estavam sendo cívicos, isto é, inibindo a presença de estrangeiros que queriam tomar seus empregos. Preconceito? Que nada. Estavam apenas exercendo um ato soberano, digno de defesa da pátria.

O respaldo em questão é necessário para que não haja uma conduta violenta sem fundamento. Assim, tudo é justificado convenientemente e as raízes do preconceito não são abordadas e muito menos discutidas, mas ao contrário, mantidas e propagadas. As conseqüências dos atos advindos de uma cultura preconceituosa são normalmente discriminatórias e violentas, mas tanto o preconceito quanto a influência retórica que o suporta são amplos e sutis, delicados como a própria hipocrisia humana.

Nessa mesma aula a professora ainda comentou sobre um suposto episódio ocorrido entre neonazistas tupiniquins e europeus. A polícia havia descoberto uma conexão entre eles em que os tais novos nazistas brasileiros solicitavam aos congêneres da Europa verbas para que pudessem dar continuidade ao combate contra os negros, índios e homossexuais no Brasil. O bando europeu achou a idéia bastante interessante e apoiou o trabalho. Entretanto, não liberou o dinheiro por um entrave burocrático sinistro: na lista de execrados dos nazis do Velho Continente apareciam também os latino-americanos.

A biologia evolutiva especula que o ser humano é um animal naturalmente preconceituoso. Nesse sentido, a experiência cultural apenas encobre tal característica que, de acordo com essa tese, foi essencial para a nossa sobrevivência e evolução. O ranço discriminatório é impossível de ser extirpado, mas a maneira como lidamos com ele poderia ser abordada de outra forma, já que o modo superficial com que é tratado – principalmente em campanhas e projetos governamentais –, além de não eliminar o problema, o deixa latente, acuado em algum ponto da subconsciência esperando uma chance para emergir.

De acordo com a Anti-Defamation League (organização americana que combate ações preconceituosas) até os seis anos de idade praticamente metade das crianças já proferiu algum termo pejorativo em detrimento de alguém que não possuísse traços semelhantes aos seus. Sem cerimônia, algumas delas apontam diferenças e, não raro, achincalham parentes obesos ou pessoas que tenham algum detalhe que não lhes pareça comum. Diante disso, são admoestadas por seus pais, que, por sua vez, na luta para melhor se ajustarem a uma digna conduta social, compartilham um sentimento que forja uma noção de justiça – frágil ante sua essência –, que visa, com alguma nobreza, conter a sanha racista da qual somos portadores.

Mas foi conversando com conhecidos num bar que tirei algumas conclusões sobre a profundidade da coisa. Começou quando alguém comentou sobre o capítulo de uma novela. Um dos presentes, ao ser inquirido, simplesmente disse que não assistira porque não possuía televisão em casa. Bom, o espanto (meu inclusive) foi geral, pois em princípio pensamos que ele não tinha recursos para isso e houve um efêmero sentimento de dó em relação ao cara (primeiro conceito concebido sem esclarecimento). Mas logo se viu que ele não tinha TV porque não queria ter TV, e não por não ter dinheiro para comprar. De pena, o sentimento passou a ser de perplexidade em rota migratória para o inconformismo (segundo conceito concebido sem base fática). Como alguém poderia não querer ter um aparelho de TV hoje em dia?

Segundo uma sentença proferida recentemente pelo 2º Juizado Especial Cível de Campos, no Norte do Estado do Rio de Janeiro, é, realmente, impensável alguém ficar sem este tipo de aparelho em casa. Não é um eletrodoméstico supérfluo, como bem deixou claro o juiz na sentença do caso de um homem que reclamou da longa espera pelo conserto de sua TV. O magistrado disse que “o aparelho é considerado essencial aos lares brasileiros”, e citou ainda, como referência, o fato de o pobre indivíduo ficar sem poder assistir “jogos do Flamengo e o ’Big Brother Brasil’” (Processo nº: 2008.014.010008-2). Ou seja, o nosso camarada que desprezava o singelo eletrodoméstico contrariou, ainda por cima, uma decisão jurídica.

Ele argumentava que não tinha o aparelho por não gostar de ver televisão, de não gostar do que a TV exibe. E não queria gastar dinheiro para ver a barbárie nos telejornais ou as assépticas tramas novelísticas. Não queria ver seriados, programas de auditório e talk shows. Sua alegação era a de que filmes ele via no cinema; esportes ele ia ao estádio. Notícias? Lia jornal ou acessava a internet (cujo computador ficava em outro cômodo que não o seu quarto, conforme frisava). O sujeito começou, então, a ser visto como um eremita e muitos passaram, a partir daí, a boicotá-lo nas conversas, mesmo com provas irrefutáveis de que ele possuía plena condição de debater qualquer assunto. E esse era o seu diferencial: gostava de viajar, de ler, de interagir, se recusando a participar como pólo passivo - sentado, mudo e sonolento – diante de um ruidoso aparelho de TV.

Uma senhora comentou entusiasmada que achava "muito bacana" a atitude dele, mas que não tinha "coragem de fazer o mesmo". Aqui podemos observar como é interessante o termo "coragem" empregado por ela. É como se ficar sem TV fosse um vertiginoso salto em queda-livre sem a proteção de uma grade televisiva. Um outro freqüentador da roda comentou, posteriormente, que acreditava que esse “Sem-TV” era algum tipo de “metido a intelectual”, que queria passar a imagem de “alternativo”, mas que no fundo era, sim, “um anômalo”. Ele usou essa palavra com uma sinceridade aterradora. Seria anomalia uma pessoa não querer gastar uma grana num aparelho de TV? A máquina de consumo não iria gostar se muitas pessoas agissem como ele, pois algumas lojas e indústrias teriam de enxugar seus quadros e demitir. O Poder Judiciário também iria ter de rever suas decisões. Tudo por causa de um anômalo irresponsável que não quis comprar um televisor, aparelho este que já existe, inclusive, em modelos ultrafinos, de plasma ou LCD, podendo ser adquiridos em módicas prestações.

É. O tal sujeito que relutava em ter um aparelho de TV talvez fosse mesmo um anômalo, pedante, subversivo, indolente, desrespeitador, um elemento altamente nocivo à engrenagem capitalista, essa mesma que seduz as crianças com o Papai Noel de gorro vermelho, todo encasacado no verão de 42 graus brasileiro, exibindo os "pleisteichons" a preço de banana no canal de compras da TV por assinatura. Mas, o que mais me intrigou nisso tudo não foi o fato de termos entre nós um indivíduo que resistia em comprar um aparelho de televisão, mas como aquilo, discretamente, transtornou o comportamento dos demais. As pessoas nitidamente, nos encontros em que ele estava presente, não abordavam mais assuntos que pudessem criar algum possível embaraço (terceiro preconceito enraizado). Outros, que faziam a vez de defensores do Homem Sem-TV (como se ele precisasse de advogados), diziam que ele estava certo mesmo, que a programação da TV apenas cria na cabeça do espectador necessidades supérfluas, que prolifera injustiças e "idiotiza a massa". O cidadão em questão não desenvolvia o assunto quando estava no centro do debate. Ficava sem jeito, pois não queria ser um "anômalo", um bicho de circo dos horrores por não ter uma simples televisão. Queria apenas conversar. Desde que não fosse sobre o último capítulo de alguma novela, pois sobre isso ele não teria a mais vaga idéia.





quinta-feira, 19 de março de 2009

Gauderiadas I

Volmar Camargo Junior


Entre as coisas que eu mais gosto no nosso jeito de falar são as gauderiadas que se usa mesmo entre os citadinos. Não é exatamente uma expressão cultural, porque não se ensina e não se aprende: parece que gaúcho já nasce gaudério... 

Uma dessas coisas é o "tchê". Fora o professor e escritor Luís Augusto Fischer, um ou outro dicionarista teve o trabalho de dizer o que ele significa. Mesmo assim, é o pronome de tratamento mais comum por aqui. A verdade é que o tchê é uma das coisas que nos identifica junto aos "estrangeiros" que moram do lado errado do Rio Uruguai. O problema é que, para eles, nós usamos essa - e outras - gauderiada linguística as vinte e quatro horas do dia. Além disso, muitos estrangeiros pensam que o "que tri!" é de uso comum entre os gaúchos, o que não é verdade. Esse sim é um dizer bem mais urbano, mais portoalegrense, néah. Mas sobre isso eu falo outra hora.

Talvez o nosso tchê seja equivalente ao  do caipira, já que na sintaxe, exercem a mesma função:


- Buenos dia, tchê.

vertendo para o outro idioma - o caipira

- Bão dia, sô.



Na verdade, não precisa nem nascer no Rio Grande do Sul; é genético. Filho de gaúcho - até neto, ouvi dizer - pode nascer no Acre, que se considera gaúcho. Por outro lado, tem gente que repudia sua origem. E desses, só se pode fazer o mesmo que tenho feito pelos resultados dos últimos grenais: lamenta-se. Mas no íntimo, e quando se descuida, esses filhos ingratos deixam escapar, não raro, um bah! e ainda menos raramente, um tchê. 

Não só de sintaxe, semântica e pragmática, esses termos fazem parte do nosso modo de ver as coisas. Nem todo gaúcho gosta de música tradicionalista, nem anda pilchado, e há ainda os que nem gostam de chimarrão (eu mesmo, só comecei a tomar mate depois de adulto). Mas essa coisa meio abarbarada que nos faz dizer "bah!" pra qualquer situação, boa ou ruim, ou dizer "E aí, tchê!" na maior, sem vergonha nenhuma, nos identifica muito mais do que imaginamos. 





quarta-feira, 18 de março de 2009

Monumento ao vandalismo

Joaquim Bispo
(no Parque Eduardo VII, em Lisboa)

Alguém vislumbrou, mentalmente, esta forma imersa na pedra amorfa e executou este trabalho grandioso; obra difícil de conceber, dolorosa de parir.


Outro alguém optou por dar início à tarefa fácil, mesquinha, perversa de a desagregar e devolver ao informe.
Que mente doentia, que espírito atormentado, que alma putrefacta é que toma por missão mutilar e desfigurar uma escultura em pedra, tão simples e majestosa como esta?

Concedamos, esta escultura não é das melhores obras que a Humanidade já produziu mas, ainda que fosse a mais aberrante, ninguém tem o direito de alterá-la, e, desde o momento em que ela foi entregue ao público e se tornou bem cultural colectivo, nem mesmo o artista que a concebeu.

(E quanto alguns querem alterar a sua obra! É paradigmática a história dum pintor francês que, tendo uma obra sua num museu importante, mas estando descontente com um determinado matiz que tinha usado, conseguiu a colaboração de um amigo para entreter o vigilante, enquanto pincelava rapidamente a zona em causa com um matiz que achava mais adequado.)

Esta escultura foi adulterada e é curioso que essa alteração lhe acrescentou significados. Já não representa só uma deusa ou uma virtude, representa agora, também, a maneira como esta sociedade lida com as suas obras de arte expostas e o que isso significa de divórcio em relação à arte da tradição cultural e de desrespeito pelo espaço público e pelo outro. Ou, o que era uma entidade majestosa e poderosa se ter transformado em vítima impotente. Ou outros sentimentos que nos acodem ao ver esta figura mutilada. É toda uma outra obra de arte que temos perante nós. Que algum artista plástico podia ter concebido, assim mesmo, mutilada. Como no século XIX se construíam ruínas de raiz.

Neste sentido, pode-se questionar se se deve devolver a estátua à sua forma original. Tenho a certeza que, se houvesse discussão pública sobre este assunto, haveria quem defendesse a manutenção do estado actual da obra. Assim, como está, transmite muito mais da sua história como escultura e da mentalidade desta sociedade.

Significa isto que se pode desculpar quem vandaliza esculturas no espaço público? Nem um bocadinho! E é condenável alguma cultura da novidade, alguma postura de repúdio pelo que vem de trás, pela cultura dos pais e dos avós, só porque tem umas dezenas de anos; pelo património, só porque apresenta alguma pátina que o tempo dá.


É sintomático que estejam a substituir as esculturas em pedra no espaço público por esculturas em bronze e aço. A ver se resistem aos activos interventores de espaço público que por aí obram. Como esta, de Teixeira Lopes, que fazia conjunto com um busto de Eça de Queirós com a legenda «Sob o manto diáfano da fantasia, a nudez forte da verdade», retirada de «A Relíquia» do citado romancista.

Acho bem que as substituam. É que, além do mais, não é necessário mais do que 1 monumento ao vandalismo na mesma cidade!
(Fotos pelo autor do texto)





Nós, mulheres, as eternas insatisfeitas

(Maristela Scheuer Deves)

Está ali, no espelho: esse cabelo não toma jeito, mesmo! Quem dera ele fosse igual ao daquela colega, ou ao daquela outra amiga... Duvido que haja mulher que não tenha ainda vivido essa cena. Eu, pelo menos, ainda não entendi por que Deus me fez nascer de cabelos lisos, quando sempre adorei vê-los ondulados. E vai baby liss, rolos, horas no salão de beleza para deixá-los cheios de cachinhos - isso de vez em quando, pois já que a natureza não quis assim, meu bolso se recusa a acompanhar o preço das manobras necessárias para driblar a genética. A cor, claro, também precisa ser mudada de vez em quando. Ora, onde já se viu, quem escolheu esse castanho sem sal para colorir minhas madeixas?

Por essas e outras, fico pasma quando amigas me contam das escovas e chapinhas que fazem para domar os rebeldes cabelos crespos. Fico com vontade de perguntar se querem trocar seus crespos pelo meu escorrido... Aliás, não é só o cabelo que tenho vontade de "intercambiar", às vezes, com outras eternas insatisfeitas como eu. Agora que cheguei no meu peso ideal (até passei um pouquinho, confesso), desisti de querer uns quilinhos emprestados de quem sofre para perdê-los, mas continuaria aceitando doações, se fosse possível, daquelas que reclamam dos seios volumosos demais. E eu, que sonho em um dia ter verba suficiente para botar silicone!

E meus tão desejados olhos verdes? Minha mãe tem olhos verdes, minha irmã também, e idem os meus dois sobrinhos Por que a maldita genética me deu olhos castanhos? Já que nunca conseguiria usar lentes, torço agora para que um dia a minha prole herde o verde-esmeralda que eu não herdei. Ah, meus filhos poderiam, também, serem loiros, já que a mãe deles não é... Quanto à altura, meus 30 (e poucos) anos não me permitem mais sonhar em ultrapassar os 1,63 metro. Assim, a solução são os sapatos de salto alto (acostumei tanto que nem consigo mais andar sem eles).

Pelo menos, adoro as minhas unhas, longas, em vez daquelas quadradas que acho tão horrorosas - viu? Nem todo mundo é um defeito completo! A vantagem é que estou mais satisfeita e menos complexada do que há alguns anos, pois consegui vencer o estigma de ser muito magra. Já imaginou, cabelos lisos, castanhos, olhos castanhos, baixinha, e ainda por cima magérrima? Sim, eu sei, não passar dos 50 quilos é o sonho de muitas candidatas a modelo, mas euzinha sou uma simples jornalista que sempre quis ter formas arredondadas. Só tenho de me cuidar, agora, para não entrar no time das gordinhas. Aliás (suspiros), a minha cintura já não tem mais 60 centímetros...





As incongruências do "né?"

Léo Borges

Um grande temor que percebo no mundo de hoje é o medo por algo que não deu certo ou pelo que pode vir a não dar. Se fechou bem, ótimo, a coisa funcionou, foi adiante, cumpriu seu papel. Mas e se existir a possibilidade de dar errado? Ou se ainda restam dúvidas, muitas vezes frágeis, que admitem um trágico fim da operação e que estão ali apenas para tentar dividir a culpa? Bom, é aí que entra em ação o tão decantado "né?".

Essa corruptela de “não é?” é uma das engenhosidades do ser humano para fazer com que o receptor da mensagem se veja encurralado. Ele deverá assumir uma situação já fracassada, próxima do desastre ou com a qual não está nem um pouco familiarizado. As duas letrinhas e a indefectível interrogação vêm sempre no final da frase e buscam a redenção da mesma.

- Todo mundo estudou pra essa prova, né? – pergunta um dos alunos que não estudou nada e que quer saber se vai poder encontrar alguém que lhe forneça a cola. A pergunta, em princípio, aparenta que ele também estudou, mas o “né” desarticula completamente essa impressão.

O “né”, em sua essência, é cínico, medroso, falso, despudorado, sarcástico, persuasivo, ameaçador e irritante. De tanto ser utilizado por quem precisa de uma escapatória, de um alicerce opinativo, de uma salvação argumentativa, ele vira cacoete. E essa, a meu ver, é a sua forma mais pobre:

- Então, tá, né?

Se “tá”, por que o “né”? Está feito, garantido, resolvido. Mas a pessoa não consegue ser forte e parar ali. Precisa do seu cão-de-guarda “né” por perto. Pior que isso é o “é, né?”. Ou seja, a pessoa concorda para logo imediatamente colocar em dúvida o que acabou de concordar. Para essa pessoa o fato “é”, mas, inconseqüentemente e com grande irresponsabilidade, “deixou de ser” e passou a ser dúvida, reenviada para a confirmação do emissor.

O povo é sábio e os ditados populares não caem nessa esparrela. "Cavalo dado não se olha os dentes, né?". Ninguém confere a “cárie” do presente recebido. É de graça, então a firmeza é a alma dessa afirmativa, não admitindo um "né?" gaiato. Ou "Antes tarde do que nunca, né?". Nem pensar. Aí o "né" daria margem para o evento nunca ser realizado.

Imaginem as grandes tiradas da Humanidade com o "né" incutido nelas. "Independência ou morte, né?". Né?! Que isso! Bom, ainda bem que Dom Pedro não titubeou nessa. E já imaginaram os milicos com "Brasil: ame-o ou deixei-o, né?". Com certeza não seria coisa de militar essa frase pusilânime. Os sisudos astronautas da NASA vacilando com “Houston, nós temos um problema, né?” trocaria o drama pela comicidade. A base responderia de pronto: “Apollo XIII, vocês têm ou não têm um problema, cacete?”. Ou ainda o ridículo que seria o lobo-mau respondendo à Chapeuzinho Vermelho sobre o tamanho de seus olhos: "são para te enxergar melhor, né?". A menina perceberia na hora a artimanha fake do bicho e veria que aquela vovó era um blefe, um engodo, uma farsa.

As pichações de muros, que muitos acham que é só molecagem, são quase sempre sérias quando abordam esse detalhe técnico. Não vemos por aí em spray vermelho coisas do tipo "Não jogue lixo aqui, né?" ou "Eu amo a Simone, né?”. Todos perceberiam a frouxidão da coisa e largariam entulhos sob o rabisco e zombariam da infeliz que, como estaria bem claro, era mentirosamente amada.

De modo semelhante temos o “you know” na língua inglesa. É o chantagista e coercitivo “você sabe” maroto - que também polui o final das frases - colocando na parede o coitado do interlocutor. Como o sujeito vai saber de alguma coisa se ainda pouco ou nada foi dito? É da mesma linhagem.

Eu sempre me patrulho para não largar um “né” nos finais das minhas falas. Acho um recurso feio esteticamente que não acrescenta nada ao discurso, a não ser a tal passada de responsabilidade. Se o outro responder ao “né” com “é” é porque ele assumiu a coisa e vai ter de se virar com isso.

Então, vamos combinar que esse negócio de “né” pra cá, “né” pra lá não está com nada, né? Ou melhor... Você não concorda?





No confessionário

Mariana Valle

Chiquinho estava agitado. Misturados ao seu alívio e àquela preguiçinha boa que dá logo após uma relação sexual, havia no ar uma agonia, um desespero. Sabe quando um claustrofóbico fica confinado com várias pessoas num elevador minúsculo? A sensação era exatamente essa. A angústia lhe tomava o corpo sempre depois do prazer. O que não o impedia de ter a próxima relação, claro. Só aumentava a vontade de entrar em ação. Era como se, para compensar a angústia, ele tivesse que embarcar nas delícias do sexo novamente. Aliás, parecia até que Chico ansiava por essa inquietude. Estranho. José Francisco da Silva resolveu se confessar.

Dom Geraldo adorava ouvir relatos de luxúria. Aquela divisória de madeira entre ele e o penitente era perfeita para esconder sua inevitável excitação. Ainda mais quando o pecado da carne era confessado por uma voz masculina. Geraldo tinha que fazer um esforço infernal para não demonstrar seu desejo se avolumando. E a culpa por trás daquelas palavras em especial era um verdadeiro bálsamo para seus ouvidos. Geraldo enfim sentia-se compreendido. Como ele queria derrubar aquela parede!

Dom Geraldo não se aguentou de curiosidade e inquiriu o penitente:
- Mas por que praticar o amor tanto lhe angustia, meu jovem? Acaso não é casado?
- Sou sim, seu padre. Muito bem casado, graças a Deus.
- Mas, então? Estaria o fiel cometendo o pecado do adultério?
- Tô e num tô, excelência.
- Não compreendi. Explique-se, por obséquio.
- É que está tudo em família, não sabe? Na verdade, acho até que fiz um bem à minha esposa.
- O senhor está querendo afirmar que trair sua esposa é uma atitude generosa?
- Vou lhe contar como tudo começou, pro senhor me entender. Quando casei com a Josefa, ela tinha uma filhinha linda, branquinha como a neve, com os cabelos assim cheios de voltinhas. Parecia um anjinho. Só que ela tinha um problema, sabe? Problema de cabeça. O disgramado do pai só sirviu pra fazer essa menina com defeito e depois "meteu o pé".
- Meteu o pé na filha?
- Não, seu padre. "Meteu o pé", fugiu, foi embora.
- Ah, sim... Continue, meu filho, continue...
- Então a garota – ela se chama Jéssica – foi crescendo cada vez mais bonita e cada vez mais maluca. Era um sofrimento pra minha mulher, coitada. E pra menina também. Ela não pode ser feliz assim com esse problema, não é seu padre?
- Deus sabe o que faz, meu filho. Mas e o que aconteceu com Jéssica?
- Comecei a sentir umas coisas estranhas, seu padre. Toda vez que estava lá no “bem bom” com a minha nega, só conseguia pensar na Jéssica. Um dia quase troquei o nome da mãe pelo da filha.
- Pecado, pecado... Continue, sem demora.
- Então um dia a Jéssica tinha ido numa festa à fantasia no colégio. Josefa vestiu a menina de princesa. E ela estava mesmo uma princesa. Parecia ter saído daqueles desenhos animados da televisão, sabe? Estava com sete anos na época.
- Sei. A princesa...
- É, seu padre. Você precisava ver que coisa mais linda! Era muita tentação. Tanto é que Deus me ajudou.
- Como Deus lhe ajudou?
- A jararaca da minha sogra ligou lá pra casa porque tava passando mal e a minha mulher foi correndo pra casa dela. E foi assim que eu fiquei sozinho com a princesa.
– Você quis dizer: a Jéssica.
- Seu padre, ela lá, maluquinha, toda lindinha de princesa, eu podia fazer qualquer coisa que ninguém nunca ia saber, não é mesmo? A bichinha nem falar, fala!
- E o que você fez, filho?
- Ah, padre... Foi a primeira de muitas noites maravilhosas. Mas eu fui carinhoso com a menina, não sabe? Acho até que ela sorriu. Coitada, tem uma vida tão disgramada com aquela sem-graça da Josefa o tempo todo ao lado. Quando ela está sozinha comigo tem os momentos mais felizes de sua vida.
- Josefa é a sua esposa, a mãe da Jéssica?
- É, seu padre. A velha. A Jéssica não. É nova, linda, branquinha. O problema é que ela não para de crescer e eu já to começando a achar que a menina vai ficar igual à minha patroa.
- Mas o que sua patroa tem a ver com essa história?
- Não, seu padre. Minha patroa é modo de falar. Minha patroa é minha mulher.
- Ah, tá...
- Pois é, seu padre. A menina tá crescendo, mas isso não é nada, porque tem também a irmã menor dela. Eu te falei da Janete?
- Não, não falou não.
- A Jéssica tá agora com quatorze anos e a Janete, com nove.
- Mas a Janete também tem problema mental?
- Que nada, homem! Ela é normalzinha da silva. E também é uma princesa. Ainda mais bonita do que a Jéssica, porque é mais nova e inteligente.
- Então, com essa você não faz nada, né?
- Que isso? Aí é que eu faço mesmo. É muito melhor. Porque primeiro, quando eu comecei com ela, fui aos poucos e ela foi gostando, sabe? Dizia que sentia cosquinha, dava umas risadinhas lindas. Depois, ela começou a chorar. Não sei o que deu na menina.
- Não sabe...
- Não sei, padre. Com ela eu sou ainda mais carinhoso do que com a mais velha. Essa sabe falar e não é maluca, né?
- Mas e a "patroa", meu filho, não sabe o que você faz?
- Que nada! Ela pensa que eu tenho outras, porque eu não procuro mais ela, sabe? Mal sabe que as outras dormem no quarto ao lado!
- Então o senhor está aqui por que se arrependeu dos seus pecados e quer uma penitência?
- Não é por isso não, padre. É porque a pequena ficou grávida, os médicos descobriram e está todo mundo querendo acabar com a vida da minha filha que nem nasceu ainda. E eu não acho isso certo.
- É, filho. Não é certo mesmo. O que você fez é errado, mas o que eles estão fazendo é mais errado ainda. É um pecado literalmente mortal. Ainda bem que você me avisou.
- Por que, seu padre? Vai me ajudar?
- Vou, meu filho, mas primeiro eu preciso que você me dê o nome desses assassinos que estão querendo abortar o seu bebê.
- Tá bom, padre. Mas e eu, fiz mesmo alguma coisa errada?
- Fez, filho, fez.
- Quero consertar isso. Vou cuidar bem da minha filha. Já pensou se ela nasce tão linda como a Jéssica e a Janete?





Livin' in America - Obama, o 44º presidente branco

Sei que é um pouco tarde para falar da eleição à presidência de Barack Obama, principalmente porque os votos já foram contados e ele até já tomou posse, mas há algo que me inquieta, desde que todo este furor começou e Obama despontou como o favorito à Casa Branca.

Dois eventos em particular despertaram minha desconfiança sobre esta eleição; dois eventos frívolos, corriqueiros, mas que me revelaram uma nova perspectiva sobre como os americanos brancos viam Obama.

Havia três cachorros na rua: um preto, um marronzinho (quase bege-claro) e um branco. Alguns mendigos passaram e apontaram para os cachorros e começaram a nomeá-los. O branco era a Hillary Clinton, o preto era Colin Powell e o bege era, para minha surpresa, Obama.
Minha esposa imediatamente retrucou:
- Não, o Obama é o preto.
Mas os mendigos não aceitaram.
- Não, o Obama é metade branco, o Obama é o cachorro bege.

E o segundo evento foi quando, en passant, escutei, com o rabo de ouvido, a conversa entre uma mulher e um homem, brancos, sobre a eleição. A mulher, aparentemente defendendo seu ponto de vista e justificando seu voto em Obama, disse:
- Sabe o que é estranho? Eu não vejo Obama como um negro, mas apenas como um homem.

Estas duas histórias imediatamente me fizeram recordar do nosso presidente Lula. Toda a imagem que havia sido criada durante a carreira política dele era a do sindicalista, camiseta vermelha, barba desgrenhada e gritos de ordem sobre um palanque improvisado.
Mas esta imagem de político revolucionário-comunista não ganha eleições. Era mais ou menos na época da primeira vez que Lula se candidatou que eu ouvia muito as pessoas comentando:
- Eu não vou votar no Lula, porque senão vou ter que dividir meu apartamento com outras pessoas e eles vão tomar meu segundo carro.
Lula era temido porque trazia à tiracolo o estigma do comunismo. No entanto, bastou ele mudar a imagem, vestir terno e gravata, reduzir o tom de voz e falar pausamente, que a classe média foi conquistada.
Lula foi eleito, e reeleito.

Vejo um grande paralelo, neste sentido, entre Lula e Obama. Ambos disseminavam uma mensagem de esperança, ambos representavam uma mudança significativa no cenário político - o primeiro, um torneiro mecânico, sem muita educação, tornado presidente; o segundo, um negro, num país extremamente preconceituoso, tornado presidente. Ambos dependiam da classe média para se elegerem.

Apesar do apoio dos latinos e dos negros, Obama jamais venceria as eleições se não fosse a adesão da classe média branca norte-americana. Mas a classe média branca norte-americana jamais aceitaria um presidente negro, se a imagem que Obama nos passasse fosse a mesma que boa parte dos negros americanos possui, as calças largas mostrando a cueca, o jaquetão de couro, o boné de aba reta virado pro lado, o inglês de gueto e os ameaçadores gestos de cantor de rap.
Com uma imagem destas, Obama jamais ascenderia na carreira política, pois esta é uma imagem associada ao ódio racial e ao medo.
Para se eleger, Obama precisou acolher e expressar valores brancos norte-americanos, o terno, a boa educação superior, a fala articulada e, principalmente, o foco na recuperação da economia.

Reúna uma combinação de fatores - a catastrófica administração Bush, a crise imobiliária e financeira, um adversário prenunciando uma continuidade nos erros da gestão anterior, e um clima de esperança e mudança - e é fácil compreendermos como o branco americano lançou para os porões do inconsciente seu preconceito e se recusou a dar importância à cor do candidato. Para os americanos brancos, Obama é um deles.

E não é à toa que Obama se esforçou para se afastar do pastor Jeremiah Wright, cujo culto ele frequentou por vários anos, e dos discursos antipatriotas dele, mesmo que este pastor houvesse dito muitas verdades.
Obama se enbranquiçou para conquistar os americanos, mesmo que para os negros ele continuasse sendo o reflexo duma grande conquista social.

Em 1963, Martin Luther King Jr. projetou para a América o seu sonho de igualdade, de que os filhos dele vivessem "numa nação na qual eles não fossem julgados pela cor de suas peles, mas pelo conteúdo de seu caráter".
Em 2008, Barack Hussein Obama empacotou, promoveu e vendeu este sonho; talvez ele não tenha conseguido evitar que os americanos o julgassem pela cor da pele, mas pelo menos ele teve êxito em fazê-los fingir que não julgam.

(Publicado originalmente em Nova York para Mãos-de-Vaca)





terça-feira, 17 de março de 2009

O Mito de Prometeu ("Teogonia" de Hesíodo)

Hesíodo
trad.: Henry Alfred Bugalho

Filhos de Japeto e Clímene


(507) Japeto à virgem Oceânide de belos tornozelos
Clímene,
desposou, e se deitaram no mesmo leito.
Esta gerou um filho, Atlas de vontade violenta,
Pariu o muito ilustre Menécio, Prometeu,
Artificioso e astuto, e o estúpido Epimeteu,
Que, desde o começo, trouxe males aos homens que se alimentam de pão.
Pois ele foi o primeiro a receber, modelada por Zeus, a mulher
Virgem. Ao orgulhoso Menécio Zeus de vasta visão
Precipitou do Érebo, atirando-lhe raio fumegante,
Por sua presunção e virilidade arrogante.
Atlas sustém o vasto céu sob violenta tortura,
Nos confins da terra, diante das Hespérides de voz harmoniosa,
Apoiando-o em sua cabeça e nos braços incansáveis;
Pois este destino lhe designou o prudente Zeus.
Atou com inquebrantáveis amarras Prometeu pleno de idéias,
Grilhões dolorosos passados em meio a uma coluna,
E sobre ele instigou uma águia de largas asas. Esta o fígado
Imortal comia, regenerando-se nas mesmas proporções,
Durante a noite, o comido de dia pela ave de largas asas.
O forte filho de Alcmena de belos tornozelos,
Heracles, a matou e repeliu o horrível sofrimento
Do Japetônida, libertando-o de seu tormento,
Não sem o consentimento do soberano Zeus Olímpico,
Para que a fama de Heracles Tebano fosse
Maior do que antes sobre a fecunda terra.
Com estes cuidados honrou seu notável filho e,
Ainda que estivesse irritado, mitigou-lhe a cólera que possuía
Contra aquele que desafiou a vontade do muito poderoso Crônida.

Mito de Prometeu. Criação da mulher

(535) Enquanto os deuses e homens mortais litigavam
Em Mecona, com ânimo resoluto, um enorme boi ele
Ofertou dividindo, tentando enganar a inteligência de Zeus.
Pois à carne e às gordas vísceras com banha
Sob a pele guardou, ocultas no ventre do boi,
E, aos brancos ossos do boi, com astúcia enganadora,
Ordenou, cobrindo-os, ocultos, com brilhante gordura.
Então se dirigiu a ele o pai dos homens e deuses:
“Japetônida, notável entre todos os soberanos,
Ó amável, com que parcimônia dividiste as partes de cada um!”
Assim falou, zombando, Zeus conhecedor dos desígnios imortais.
E respondeu-lhe Prometeu de curvo pensar,
Sorrindo de leve, não se esquecendo de sua astúcia enganadora:
“Zeus, o mais ilustre e poderoso dos deuses sempiternos,
Pega dentre os dois aquele que, em seu âmago, dita a vontade.”
Falou, pois, com pensamentos enganadores. Zeus, conhecedor dos desígnios imortais,
Soube e não ignorava o engano; mas antevia em seu espírito males
Aos homens mortais, aos quais deveriam se realizar.
Com ambas as mãos apanhou a branca gordura.
Irritou-se em seu íntimo, a cólera alcançou-lhe o espírito,
Quando viu os alvos ossos do boi sob astúcia enganadora.
Desde então, a estirpe dos homens sobre a terra aos imortais
Queima brancos ossos nos olorosos altares.
E àquele disse Zeus cumulador de nuvens, grandemente indignado:
“Japetônida, de tudo conhecedor dos desígnios,
Ó amável, não esqueceste de tua astúcia enganadora!”
Assim encolerizado disse Zeus, conhecedor dos desígnios imortais.
Desde então, lembrou-se sempre deste engano
E não deu o ardor infatigável do fogo nos freixos
Para os homens mortais que habitam sobre a terra.
Mas o enganou o bom filho de Japeto,
Escondendo o brilho que se vê de longe do fogo infatigável
Em um bastão oco. Então, feriu profundamente o espírito
De Zeus tonitruante e irritou-se em seu coração
Quando avistou entre os homens o brilho que se vê de longe do fogo.
E, em troca do fogo, preparou um mal para os homens:
Modelou a terra o ilustre Coxo
Semelhante a pudica donzela, por vontade do Crônida.
A deusa Atena de olhos glaucos cingiu-a e a adornou
Com um vestido de resplandecente brancura; cobriu-a desde a cabeça
Com um véu bordado por suas próprias mãos, maravilha de se ver;
E com coroas de erva fresca trançada com flores,
Atraentes, rodeou Palas Atena suas têmporas.
Em sua cabeça colocou uma coroa de ouro
Que o próprio ilustre Coxo cinzelou,
Trabalhando manualmente, agradando ao pai Zeus.
Nela gravou muitos ornamentos, maravilhas de se ver,
Monstros terríveis que o continente e o mar nutrem;
Muitos deles pôs — em todos se manifestava a beleza —,
Maravilhosos, quais seres vivos dotados de voz.
Após preparar com beleza o mal, em troca de um bem,
Conduziu-a onde estavam os demais deuses e os homens,
Enfeitada com adorno pela deusa de olhos glaucos de pai poderoso.
E um estupor se apoderou dos deuses imortais e dos homens mortais
Quando viram o escarpado engano, irresistível para os homens.
Dela descende a estirpe de mulheres femininas;
Dela descende a funesta estirpe e gênero das mulheres;
Grande desgraça que habita entre os homens mortais,
Não afeitas à funesta pobreza, mas à saciedade.
Assim como quando nas colméias abobadadas, as abelhas
Alimentam os zangões, agregados a más obras;
Aquelas, durante todo o dia, até o sol se pôr,
Diurnas, trabalham e produzem os brancos favos de mel,
Enquanto aqueles aguardam dentro, sob abrigo da colméia,
E recolhem em seu ventre o esforço alheio;
Assim, como mal para os homens mortais, as mulheres
Fez Zeus tonitruante, agregadas a obras
Terríveis. Outro mal lhes concebeu em troca de um bem:
Aquele que, fugindo do matrimônio e das inquietantes obras das mulheres,
Não desejar se casar, alcança a funesta velhice
Carente de auxílio, este com alimento insuficiente não
Viverá, mas, ao morrer, repartirão suas posses
Parentes afastados. Àquele que o fado do matrimônio alcança
E consegue ter uma esposa sensata e adornada de sabedoria,
Este, durante toda a vida, o mal se equivale ao bem
Constantemente. A quem sobrevier uma de funesta raça,
Vive incessante aflição no peito,
No espírito e no coração; e seu mal é incurável.
Assim, não é possível enganar nem evitar a vontade de Zeus;
Pois nem o Japetônida, o benevolente Prometeu,
Livrou-se de sua poderosa cólera, mas, sob tortura,
Apesar de astuto, enorme grilhão o detém.


Extraído de "Teogonia"

Texto Original

Θεογονία

Ἡσίοδος

(507) Κούρην δ᾽ Ἰαπετὸς καλλίσφυρον Ὠκεανίνην
ἠγάγετο Κλυμένην καὶ ὁμὸν λέχος εἰσανέβαινεν.
Ἥ δέ οἱ Ἄτλαντα κρατερόφρονα γείνατο παῖδα·
τίκτε δ᾽ ὑπερκύδαντα Μενοίτιον ἠδὲ Προμηθέα,
ποικίλον αἰολόμητιν, ἁμαρτίνοόν τ᾽ Ἐπιμηθέα,
ὃς κακὸν ἐξ ἀρχῆς γένετ᾽ ἀνδράσιν ἀλφηστῇσιν·
πρῶτος γάρ ῥα Διὸς πλαστὴν ὑπέδεκτο γυναῖκα
παρθένον. Ὑβριστὴν δὲ Μενοίτιον εὐρύοπα Ζεὺς
εἰς Ἔρεβος κατέπεμψε βαλὼν ψολόεντι κεραυνῷ
εἵνεκ᾽ ἀτασθαλίης τε καὶ ἠνορέης ὑπερόπλου.
Ἄτλας δ᾽ οὐρανὸν εὐρὺν ἔχει κρατερῆς ὑπ᾽ ἀνάγκης
πείρασιν ἐν γαίης, πρόπαρ Ἑσπερίδων λιγυφώνων,
ἑστηὼς κεφαλῇ τε καὶ ἀκαμάτῃσι χέρεσσιν·
ταύτην γάρ οἱ μοῖραν ἐδάσσατο μητίετα Ζεύς.
Δῆσε δ᾽ ἀλυκτοπέδῃσι Προμηθέα ποικιλόβουλον
δεσμοῖς ἀργαλέοισι μέσον διὰ κίον᾽ ἐλάσσας·
καί οἱ ἐπ᾽ αἰετὸν ὦρσε τανύπτερον· αὐτὰρ ὅ γ᾽ ἧπαρ
ἤσθιεν ἀθάνατον, τὸ δ᾽ ἀέξετο ἶσον ἁπάντη
νυκτός, ὅσον πρόπαν ἦμαρ ἔδοι τανυσίπτερος ὄρνις.
Τὸν μὲν ἄρ᾽ Ἀλκμήνης καλλισφύρου ἄλκιμος υἱὸς
Ἡρακλέης ἔκτεινε, κακὴν δ᾽ ἀπὸ νοῦσον ἄλαλκεν
Ἰαπετιονίδῃ καὶ ἐλύσατο δυσφροσυνάων
οὐκ ἀέκητι Ζηνὸς Ὀλυμπίου ὑψιμέδοντος,
ὄφρ᾽ Ἡρακλῆος Θηβαγενέος κλέος εἴη
πλεῖον ἔτ᾽ ἢ τὸ πάροιθεν ἐπὶ χθόνα πουλυβότειραν.
Ταῦτά γ᾽ ἄρ᾽ ἁζόμενος τίμα ἀριδείκετον υἱόν·
καί περ χωόμενος παύθη χόλου, ὃν πρὶν ἔχεσκεν,
οὕνεκ᾽ ἐρίζετο βουλὰς ὑπερμενέει Κρονίωνι.

(535) Καὶ γὰρ ὅτ᾽ ἐκρίνοντο θεοὶ θνητοί τ᾽ ἄνθρωποι
Μηκώνῃ, τότ᾽ ἔπειτα μέγαν βοῦν πρόφρονι θυμῷ
δασσάμενος προέθηκε, Διὸς νόον ἐξαπαφίσκων.
Τοῖς μὲν γὰρ σάρκας τε καὶ ἔγκατα πίονα δημῷ
ἐν ῥινῷ κατέθηκε καλύψας γαστρὶ βοείῃ,
τῷ δ᾽ αὖτ᾽ ὀστέα λευκὰ βοὸς δολίῃ ἐπὶ τέχνῃ
εὐθετίσας κατέθηκε καλύψας ἀργέτι δημῷ.
Δὴ τότε μιν προσέειπε πατὴρ ἀνδρῶν τε θεῶν τε·
Ἰαπετιονίδη, πάντων ἀριδείκετ᾽ ἀνάκτων,
ὦ πέπον, ὡς ἑτεροζήλως διεδάσσαο μοίρας.
Ὥς φάτο κερτομέων Ζεὺς ἄφθιτα μήδεα εἰδώς.
Τὸν δ᾽ αὖτε προσέειπε Προμηθεὺς ἀγκυλομήτης
ἦκ᾽ ἐπιμειδήσας, δολίης δ᾽ οὐ λήθετο τέχνης·
Ζεῦ κύδιστε μέγιστε θεῶν αἰειγενετάων,
τῶν δ᾽ ἕλε᾽, ὁπποτέρην σε ἐνὶ φρεσὶ θυμὸς ἀνώγει.
Φῆ ῥα δολοφρονέων· Ζεὺς δ᾽ ἄφθιτα μήδεα εἰδὼς
γνῶ ῥ᾽ οὐδ᾽ ἠγνοίησε δόλον· κακὰ δ᾽ ὄσσετο θυμῷ
θνητοῖς ἀνθρώποισι, τὰ καὶ τελέεσθαι ἔμελλεν.
Χερσὶ δ᾽ ὅ γ᾽ ἀμφοτέρῃσιν ἀνείλετο λευκὸν ἄλειφαρ.
Χώσατο δὲ φρένας ἀμφί, χόλος δέ μιν ἵκετο θυμόν,
ὡς ἴδεν ὀστέα λευκὰ βοὸς δολίῃ ἐπὶ τέχνῃ.
Ἐκ τοῦ δ᾽ ἀθανάτοισιν ἐπὶ χθονὶ φῦλ᾽ ἀνθρώπων
καίουσ᾽ ὀστέα λευκὰ θυηέντων ἐπὶ βωμῶν.
Τὸν δὲ μέγ᾽ ὀχθήσας προσέφη νεφεληγερέτα Ζεύς·
Ἰαπετιονίδη, πάντων πέρι μήδεα εἰδώς,
ὦ πέπον, οὐκ ἄρα πω δολίης ἐπιλήθεο τέχνης.
Ὥς φάτο χωόμενος Ζεὺς ἄφθιτα μήδεα εἰδώς·
ἐκ τούτου δὴ ἔπειτα δόλου μεμνημένος αἰεὶ
οὐκ ἐδίδου μελίῃσι πυρὸς μένος ἀκαμάτοιο
θνητοῖς ἀνθρώποις, οἳ ἐπὶ χθονὶ ναιετάουσιν.
Ἀλλά μιν ἐξαπάτησεν ἐὺς πάις Ἰαπετοῖο
κλέψας ἀκαμάτοιο πυρὸς τηλέσκοπον αὐγὴν
ἐν κοΐλῳ νάρθηκι· δάκεν δέ ἑ νειόθι θυμόν,
Ζῆν᾽ ὑψιβρεμέτην, ἐχόλωσε δέ μιν φίλον ἦτορ,
ὡς ἴδ᾽ ἐν ἀνθρώποισι πυρὸς τηλέσκοπον αὐγήν.
Αὐτίκα δ᾽ ἀντὶ πυρὸς τεῦξεν κακὸν ἀνθρώποισιν·
γαίης γὰρ σύμπλασσε περικλυτὸς Ἀμφιγυήεις
παρθένῳ αἰδοίῃ ἴκελον Κρονίδεω διὰ βουλάς.
Ζῶσε δὲ καὶ κόσμησε θεὰ γλαυκῶπις Ἀθήνη
ἀργυφέη ἐσθῆτι· κατὰ κρῆθεν δὲ καλύπτρην
δαιδαλέην χείρεσσι κατέσχεθε, θαῦμα ἰδέσθαι·
[ἀμφὶ δέ οἱ στεφάνους, νεοθηλέος ἄνθεα ποίης,
ἱμερτοὺς περίθηκε καρήατι Παλλὰς Ἀθήνη. ]
ἀμφὶ δέ οἱ στεφάνην χρυσέην κεφαλῆφιν ἔθηκε,
τὴν αὐτὸς ποίησε περικλυτὸς Ἀμφιγυήεις
ἀσκήσας παλάμῃσι, χαριζόμενος Διὶ πατρί.
Τῇ δ᾽ ἐνὶ δαίδαλα πολλὰ τετεύχατο, θαῦμα ἰδέσθαι,
κνώδαλ᾽, ὅσ᾽ ἤπειρος πολλὰ τρέφει ἠδὲ θάλασσα·
τῶν ὅ γε πόλλ᾽ ἐνέθηκε,—χάρις δ᾽ ἀπελάμπετο πολλή,—
θαυμάσια, ζῴοισιν ἐοικότα φωνήεσσιν.
Αὐτὰρ ἐπεὶ δὴ τεῦξε καλὸν κακὸν ἀντ᾽ ἀγαθοῖο,
ἐξάγαγ᾽, ἔνθα περ ἄλλοι ἔσαν θεοὶ ἠδ᾽ ἄνθρωποι,
κόσμῳ ἀγαλλομένην γλαυκώπιδος ὀβριμοπάτρης.
θαῦμα δ᾽ ἔχ᾽ ἀθανάτους τε θεοὺς θνητούς τ᾽ ἀνθρώπους,
ὡς ἔιδον δόλον αἰπύν, ἀμήχανον ἀνθρώποισιν.
[ἐκ τῆς γὰρ γένος ἐστὶ γυναικῶν θηλυτεράων,]
τῆς γὰρ ὀλώιόν ἐστι γένος καὶ φῦλα γυναικῶν,
πῆμα μέγ᾽ αἳ θνητοῖσι μετ᾽ ἀνδράσι ναιετάουσιν
οὐλομένης πενίης οὐ σύμφοροι, ἀλλὰ κόροιο.
Ὡς δ᾽ ὁπότ᾽ ἐν σμήνεσσι κατηρεφέεσσι μέλισσαι
κηφῆνας βόσκωσι, κακῶν ξυνήονας ἔργων·
αἳ μέν τε πρόπαν ἦμαρ ἐς ἠέλιον καταδύντα
ἠμάτιαι σπεύδουσι τιθεῖσί τε κηρία λευκά,
οἳ δ᾽ ἔντοσθε μένοντες ἐπηρεφέας κατὰ σίμβλους
ἀλλότριον κάματον σφετέρην ἐς γαστέρ᾽ ἀμῶνται·
ὣς δ᾽ αὔτως ἄνδρεσσι κακὸν θνητοῖσι γυναῖκας
Ζεὺς ὑψιβρεμέτης θῆκεν, ξυνήονας ἔργων
ἀργαλέων· ἕτερον δὲ πόρεν κακὸν ἀντ᾽ ἀγαθοῖο·
ὅς κε γάμον φεύγων καὶ μέρμερα ἔργα γυναικῶν
μὴ γῆμαι ἐθέλῃ, ὀλοὸν δ᾽ ἐπὶ γῆρας ἵκοιτο
χήτεϊ γηροκόμοιο· ὅ γ᾽ οὐ βιότου ἐπιδευὴς
ζώει, ἀποφθιμένου δὲ διὰ κτῆσιν δατέονται
χηρωσταί· ᾧ δ᾽ αὖτε γάμου μετὰ μοῖρα γένηται,
κεδνὴν δ᾽ ἔσχεν ἄκοιτιν ἀρηρυῖαν πραπίδεσσι,
τῷ δέ τ᾽ ἀπ᾽ αἰῶνος κακὸν ἐσθλῷ ἀντιφερίζει
ἐμμενές· ὃς δέ κε τέτμῃ ἀταρτηροῖο γενέθλης,
ζώει ἐνὶ στήθεσσιν ἔχων ἀλίαστον ἀνίην
θυμῷ καὶ κραδίῃ, καὶ ἀνήκεστον κακόν ἐστιν.
Ὥς οὐκ ἔστι Διὸς κλέψαι νόον οὐδὲ παρελθεῖν.
Οὐδὲ γὰρ Ἰαπετιονίδης ἀκάκητα Προμηθεὺς
τοῖό γ᾽ ὑπεξήλυξε βαρὺν χόλον, ἀλλ᾽ ὑπ᾽ ἀνάγκης
καὶ πολύιδριν ἐόντα μέγας κατὰ δεσμὸς ἐρύκει.





Hesíodo e a vida do homem comum

Henry Alfred Bugalho

O poeta grego Homero dispensa apresentações — autor de obras clássicas como “Ilíada” e “Odisséia” —, é considerado um dos pais da poesia épica e deu a forma definitiva de histórias mitológicas como a da Guerra de Tróia, da rivalidade entre o rei Agamenon e Aquiles, ou da viagem cheia de peripécias do herói Odisseu. Teóricos debatem a existência de tal personagem, defendendo que, na verdade, os poemas atribuídos a Homero nada mais passam do que uma compilação de tradições orais do povo grego primitivo, utilizadas para fins pedagógicos.

Werner Jaeger, no livro “Paidéia”, apresenta esta função educacional de Homero de modo muito explícito: a nobreza (areté) dos heróis homéricos deveria servir de referencial de nobreza para a aristocracia grega.

A cosmovisão de Homero representaria, portanto, a perspectiva dos altos estratos da sociedade helênica, um ideal de governo e comportamento nobres.

É neste ponto que Hesíodo surge como a contraparte.
Hesíodo é considerado, por muitos, como o segundo mais importante poeta da Antiguidade Clássica, às vezes, até equiparado a Homero em grandeza. No entanto, o mundo de Hesíodo é bastante diferente do de Homero.

Enquanto que em Homero nós assistimos às lutas e anseios de reis, rainhas e heróis, em Hesíodo nós acompanhamos o labor do homem comum, do agricultor, do artesão, do escravo e da mulher.
As duas grandes obras de Hesíodo são a “Teogonia” e “Os Trabalhos e os Dias”. Na primeira delas, é narrado o nascimento dos deuses e a criação do mundo, de acordo com a crença popular e com a religião corrente à época, na segunda, Hesíodo prescreve normas de condutas e preceitos para o bom viver, quais as melhores épocas para se plantar, para se viajar, e como sobreviver à dura vida campesina. Ambas as obras estão intimamente relacionadas, pois, enquanto que o homem de Homero se põe, às vezes, em pé de igualdade com as divindades — são filhos e filhas de deuses, semideuses, e desafiam os deuses olímpicos, como o caso de Diomedes que ataca Afrodite durante a batalha — o homem de Hesíodo se encolhe diante da vontade dos deuses, e é forçado a obedecê-los, temê-los e reverenciá-los.

Muitas das fábulas de Hesíodo, como a da criação da mulher, representam as opiniões e crenças daquele tempo, retratando uma sociedade patriarcal, agrária, profundamente religiosa (duma religiosidade cotidiana, na qual os deuses estão presentes o tempo todo na vida das pessoas, inclusive favorecendo-as ou prejudicando-as de acordo com seus caprichos) e pragmática.
Hesíodo traz uma outra perspectiva sobre a sociedade grega primitiva, mostrando-nos o homem comum, sem o resplendor dos grandes feitos, mas com a dignidade do trabalho cotidiano.

Ler um trecho da Teogonia





segunda-feira, 16 de março de 2009

Palavras inúteis

Mariana Valle

Estou rouca
de tanto gritar.
A luz é pouca,
me falta o ar.

Minha cabeça
explode em dor.
Muita conversa,
pouco amor.

Se ando na linha,
me vem as palmas,
mas sou sozinha
com a minha alma.

Então por que
perco meu tempo
jogando palavras
tão ao relento?





sábado, 14 de março de 2009

Entrevista com Marcos Fernando Kirst


Nascido em Ijuí (RS), Marcos Fernando Kirst cursou Jornalismo na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) e trabalhou em vários jornais, entre eles A Razão, em Santa Maria, e Pioneiro, em Caxias do Sul. Atualmente colabora com a revista Acontece e o jornal Informante (Farroupilha). Também desenvolve trabalhos editoriais para a editora Belas-Letras, de Caxias do Sul.
Em outubro de 2008, lançou na Feira do Livro de Caxias do Sul o livro infantil O Gato Que Não Sabia de Nada, que trata de um gato com crise de identidade: não sabe se é gato, se é cachorro ou se faz parte de uma pilha de livros. A aventura, narrada pelo gatinho Bioy, é a estréia de Kirst em livro de ficção. A obra ficou entre as mais vendidas da feira. Na seqüência, o autor integrou a programação de eventos relativos às Feiras de Livros (lançamento, sessões de autógrafos e bate-papos literários) nas cidades gaúchas de Farroupilha, Ijuí e Porto Alegre.
Antes desse livro, Kirst participou de antologias, venceu concursos literários e publicou o livro A História nas Estantes – 60 Anos da Biblioteca Pública Municipal Dr. Demetrio Niederauer.

Samizdat: Qual é o maior desafio ao escrever para crianças?
Marcos Fernando Kirst:
O maior desafio é encontrar o tom certo. É conseguir escrever sem ser professoral – o que te distancia do público-alvo – e sem escorregar para um tom infantilizado – o que te faz parecer tolo aos olhos deste mesmo público-alvo. Escrever para crianças, na verdade, acaba não escondendo segredo nenhum a partir do momento em que você se propõe a fazer isto de uma forma honesta, de espírito aberto, e curtindo narrar da mesma forma como imagina que os jovens leitores vão curtir ao ler o que você escreveu. Acho que a sintonia acaba acontecendo é aí, na curtição.

Samizdat: O nome do narrador do livro O Gato que não sabia de nada é uma homenagem ao escritor argentino Bioy Casares, ou é mera coincidência?
Marcos Fernando Kirst:
É deliberado. Adolfo Bioy Casares é um de meus ícones literários, aprecio muito os contos e romances escritos por ele, assim como também aprecio muito a obra do grande amigo dele, Jorge Luis Borges. Borges possuía um gato chamado Beppo. Quando ganhamos um gato lá em casa, falei para minha esposa que gostaria de chamá-lo de Bioy, pois, uma vez que não escrevo com a genialidade de Borges, pelo menos poderia passar a ter um amigo com o mesmo nome do que o dele. No final das contas, o gato Bioy de verdade inspirou o gato Bioy do livro. Consegui me assemelhar a Borges por vias indiretas: assim como ele, também tenho um amigo chamado Bioy que me inspira na literatura.

Samizdat: Gatos são animais imprevisíveis, destruidores e apaixonantes. Além de seu próprio gato, há algum "gato de ficção" que o inspirou para criar o Bioy?
Marcos Fernando Kirst:
O universo felino é muito rico, criativo e sutil. Gatos têm personalidade própria, não concordo com o conceito de “todos os gatos: o gato”, que induz a pensar que todos são iguais e reagem da mesma maneira aos mesmos estímulos. Já tive muitos gatos na vida, e sei que cada um foi (e é) único. Bioy não foi o primeiro gato de estimação a me inspirar em minhas criações literárias. Quando adolescente e ainda morador na minha Ijuí natal, tinha um gato chamado Fips, que se instalava no parapeito da janela de meu quarto durante as tardes quentes e ficava me observando desenhar e criar histórias em quadrinhos, que eu produzia ajoelhado ao lado da cama, sobre a qual dispunha folhas em branco e desenhava com canetas hidrocor. O Bioy do livro é basicamente inspirado no Bioy que reina lá em casa, amalgamado com características de alguns outros gatos que tive. Mas acho ele uma criação única, e vejo que ele se sente, guardadas as devidas proporções, humilde mas confortável no mundo felino da ficção ao lado de Tom, Garfield, Félix, Manda-Chuva, Ronrom (o gato do Pato Donald, lembram?), Matinhos (o gato das Aristogatas) e tantos outros.

Samizdat: Ainda sobre inspiração: como você escreve ficção? Há uma programação?
Marcos Fernando Kirst:
O ato de produzir ficção está casado com meu hábito de consumir leitura desde que me conheço por gente. Desde criança, lia histórias em quadrinhos e depois criava minhas próprias histórias, com meus próprios personagens, meus próprios enredos. Fui crescendo, vieram os livros e comecei a produzir narrativas ficcionais. Entre os 14 e os 16 anos, escrevi três livros infanto-juvenis, um a cada ano. Todos devidamente engavetados, pois eram treinamentos para o que estava por vir. Chegou a juventude e comecei a escrever contos, com os quais, ao longo dos anos, fui ganhando vários prêmios literários, em Santa Maria e em Caxias do Sul. Escrever ficção, portanto, faz parte de minha essência pessoal. Escrevo muito e engaveto muito. Acredito que agora, com a maturidade, começa a chegar o momento de trazer à luz algumas destas coisas, algumas delas após submetidas ao óbvio e necessário processo de reescrita. Tenho dois romances inéditos escritos há poucos anos esperando a hora de nascerem oficialmente. Estou desenvolvendo dois livros de crônicas temáticas, ambos quase finalizados, e outro juvenil de aventuras também quase pronto. E muitos projetos literários já delineados para irem sendo trabalhados ao longo dos anos. Produzo ficção sempre que acontece o que chamo de “conjunção astral literária favorável”, que se concretiza no momento em que estou com vontade de escrever, tenho o tempo necessário e surge um tema instigante. São conjunções raras e, quando acontecem, procuro aproveitá-las ao máximo.

Samizdat: Com a honrosa exceção do Menino Maluquinho, a maioria dos livros para crianças ainda segue a ideologia das fábulas, com uma "moral da história" e tal... Será que dá pra escrever para crianças sem cair nessa panfletagem moral? Será que criança curte literatura pela literatura?
Marcos Fernando Kirst:
Tenho certeza absoluta de que criança – talvez até mais do que adultos – curte literatura pela literatura. Na verdade, crianças curtem histórias, e não fazem nenhuma exigência de “moral no final”. Quem exige isto são os adultos (alguns), e acabam impondo esta condição para as artes voltadas às crianças. É a mesma coisa que, no universo adulto, exigir posicionamento e reflexão política nas obras de arte. Arte é arte, e não “tem que” nada. Arte precisa, sim, causar prazer estético, e ponto final. Música, escultura, teatro, cinema, dança, literatura e todas as artes têm uma só obrigação: tocar a alma, encantar. Se um autor desejar usar alguma espécie de arte para passar determinada mensagem específica, ótimo, vá em frente, é um formato válido. Mas não é uma exigência intrínseca ao ato de fazer arte. As artes não têm a obrigação de serem engajadas a nada. Independentemente da faixa etária a que se destinam. Da mesma forma, a literatura dita infantil tem uma só obrigação: encantar seus leitores. Se conseguir fazer isto, estará já fazendo muito, pois estará tocando almas, abrindo olhos, revelando universos.

Samizdat: Pensando num público mais juvenil, o sucesso das séries Harry Potter e Desventuras em Série parece colar no bom e velho bem contra o mal e no desafio de ler sempre o próximo volume. Você leu essas obras? O que acha delas?
Marcos Fernando Kirst:
Conheço as obras e assisti aos filmes derivados delas, sei do que tratam e de como seus autores escrevem. O velho clichê maniqueísta do bem contra o mal permeia a literatura (o cinema e a televisão também) desde sempre, e não vai mudar, pois é uma fórmula de sucesso fácil. Nós, seres humanos, somos maniqueístas, basta ver que julgamos o mundo a partir de nossa própria visão pessoal dele, na qual, invariavelmente, nós estamos certos (somos o bem) e os outros e o mundo estão sempre errados (representam o mal). Por isto, histórias em que o Bem (os mocinhos) e o Mal (os vilões) são claramente identificáveis fazem, sempre fizeram e sempre farão muito sucesso (talvez resida neste aspecto uma das explicações para o sucesso de programas televisivos como o Big Brother: as pessoas assistem para tentar classificar os bons e os maus da casa). De qualquer forma, estas obras acabam repassando valores éticos, o que, no final das contas, é louvável. O fato de serem escritas de forma a induzir à continuidade da leitura nos próximos volumes tem o lado positivo de ajudar a formar o hábito da leitura, o que é muito bom, quando atingido o propósito. Não vejo problemas.

Samizdat: Dizem que o público infantil é bastante honesto em relação aos seus gostos: ou uma criança gosta ou não gosta. Como você percebe a receptividade das crianças, seu público-alvo, ao seu livro?
Marcos Fernando Kirst:
São honestíssimas quanto a isto. Tenho tido a enriquecedora experiência de realizar bate-papos com crianças em salas de aula em função do livro, e elas são incrivelmente críticas, questionadoras. Na maioria das vezes, leram o livro e têm reflexões a compartilhar a respeito da obra, perguntas a fazer que muitas vezes me deixam divertidamente “acuado”. Mas a receptividade tem sido ótima. As crianças lêem o livro de um fôlego só, sabem a história de cor, conhecem os personagens, e, o mais interessante, querem que as aventuras do gatinho prossigam em mais livros.

Samizdat: Faço a mesma pergunta que você fez ao professor Donaldo Schüller: "Como o senhor caracteriza o atual momento do mercado editorial brasileiro?"
Marcos Fernando Kirst:
Tenho de fazer esta análise sob dois aspectos. Primeiro, na condição de leitor, o mercado editorial brasileiro jamais viveu período tão fértil. Temos à disposição, nas livrarias, livros de todos os tipos, para todos os gostos, traduzidos de todas as partes do mundo. Temos à disposição o que há de novo e moderno sendo feito lá fora, assim como os clássicos, muitas vezes com novas traduções e edições revistas e ampliadas. Não dá para se queixar. Já enquanto autor, a dificuldade é a de sempre: conseguir colocar um livro inédito de sua autoria no mercado é uma dificuldade hercúlea. As editoras não apostam em desconhecidos, apesar do discurso feito “pró-mídia” de que estão constantemente à procura de novos talentos. Balela. Salvo, é claro, as exceções de praxe. No meu caso, tive a sorte de ter tido o original do meu livro infanto-juvenil avaliado pela editora caxiense Belas-Letras e obtido um parecer favorável, que motivou a editora a apostar em mim e na obra. Mas é um fato raro dentro do amplo espectro do mercado editorial brasileiro.

Samizdat: Procurando por seu nome no Google, um dos primeiros links é uma crônica/conto intitulado Uma rapidinha no Caminho de Santiago, para a zine O Caixote (http://www.ocaixote.com.br/caixote09/cx09_cronicas_kirst.html). Esse Marcos Kirst é você ou é outro?
Marcos Fernando Kirst:
É outro, é um homônimo. Mora em São Paulo, é mais velho do que eu e, inclusive, é parente (primo de meu pai). O nome dele, aliás, é Erlon Marcos Kirst, mas ele está usando só o segundo nome e o sobrenome. Por isso mesmo é que faço questão de usar sempre meu nome completo: Marcos Fernando Kirst, para diferenciar.

Samizdat: Que importância têm os concursos na carreira de um novel escritor? Dão-lhe visibilidade, traquejo de escrita, domínio do stress, hábitos de rigor, ou o quê?
Marcos Fernando Kirst:
Os concursos servem principalmente para dar um norte mais oficial para a pretensa carreira de um pretenso escritor. Ao ser premiado, teu texto passa, incógnito, pelo crivo de um júri (a princípio) gabaritado, que o analisou e o classificou tanto por seus méritos literários em si quanto em relação aos demais concorrentes. É a prova de que, afinal, aquilo que você escreve tem algum valor capaz de atingir a leitores que não te conhecem. Mostra que você, mal ou bem, iniciante ou não, tem uma voz literária, que fala e consegue ser ouvida por outros. Confere segurança, incentiva uma pretensão. Mas infelizmente, os concursos, atualmente, muitas vezes, morrem neles mesmos. A imprensa, via de regra, ignora o trabalho dos vencedores e raramente as obras premiadas chegam ao público de forma mais ampla. Noticia-se os vencedores anuais dos concursos com notinhas de rodapé e pronto, cumpre-se com a obrigação. A estrada do pretenso futuro escritor, mesmo com os concursos, continuará sendo pedregosa. E talvez até seja positivo que seja assim, afinal, nada cai do céu.

Samizdat: Fazendo uma comparação entre seus livros A História nas Estantes – 60 Anos da Biblioteca Pública Municipal Dr. Demetrio Niederauer e O gato que não sabia de nada, como você avalia a repercussão de obras de ficção e não-ficção no público leitor?
Marcos Fernando Kirst:
Falo a partir de minha (ainda singela) experiência em termos de publicação de obras (duas, exatamente as que citaste) nestas duas áreas. O primeiro livro, lançado em 2007, dirigia-se a um público específico, interessado em conhecer a história da Biblioteca Pública Municipal de Caxias do Sul. Apesar de que, ao redigir o texto, procurei não produzir uma obra enfadonha e cronológica, pelo contrário: escrevi de forma a transformar a própria biblioteca em personagem, na qual convivem e coabitam outros personagens interessantes, ou seja, os livros, os leitores e os funcionários. Apesar de partir das características específicas da biblioteca caxiense, fiz um livro com o qual pode se identificar qualquer frequentador de qualquer biblioteca do país e do mundo. Até por causa do título, a obra ficou mais limitada e, mesmo assim, cumpriu seu papel, o de marcar um momento histórico, alcançando a repercussão que tinha possibilidades de obter dentro da limitação de tema e momento a que se submetia. Já o livro ficcional sobre o gato, lançado em 2008, tem alcançado uma repercussão muito maior, imprevisível, imensurável e indomável, justamente por ser absolutamente universal. Identificam-se com o livro pessoas de todas as idades, não apenas crianças, além de dialogar também com qualquer pessoa que goste de animais de estimação. O segredo, no entanto, para ambas as obras, tanto as de ficção quanto para as de não-ficção, é, além de encontrar um tema absorvente, conseguir desenvolver uma narrativa que prenda a atenção do leitor. Acho que consegui alcançar o objetivo nas duas obras.


Coordenação da entrevista: Maristela S. Deves
Perguntas feitas por:
Henry Alfred Bugalho
Marcia Szajnbok
Volmar Camargo Junior
Joaquim Bispo
Carlos Barros





Alvorada

Joaquim Bispo

O mundo era ermo e inóspito. Os pedregulhos erguiam-se crispados, sobranceiros à aridez dum mar de dunas. As areias estendiam-se, cálidas e mortíferas até ao horizonte. O céu, ofuscante de branco, não concedia qualquer matiz, em toda a abóbada exposta. Só o Sol ardente, a pique, presidia sobre as coisas inanimadas.

Então, nos interstícios da rocha calcinada, numa brecha ínfima, por uma singularidade improvável, formou-se uma nesga de sombra. O espírito da árvore acordou, reconheceu a sua essência e formou um pensamento.
E um manto verde cobriu a terra inteira.





Crepúsculo

Joaquim Bispo

– As informações que recolhi, Grande Kha, indicam que o clima sofreu variações dramáticas nos últimos ciclos. As grandes quantidades de poeiras, fumos, e óxidos de carbono e de enxofre lançadas para a atmosfera, foram imperceptivelmente criando uma capa que, deixando penetrar muita radiação, constituía um obstáculo à sua libertação para o espaço. Isso provocou um aquecimento progressivo que fez derreter as calotes polares, aumentou exponencialmente a evaporação dos oceanos, e favoreceu vagas de incêndios que devastaram as florestas das zonas equatoriais e adjacentes. Tanto vapor de água na atmosfera começou a impedir a luz solar visual de chegar ao solo, mas que continuava a deixar penetrar a radiação infra-vermelha. Sem luz solar, a fotossíntese deixou de se fazer. As plantas morreram e os que delas se alimentavam. O calor tornou a vida impossível à maior parte das espécies, até às latitudes polares. Os organismos ficaram literalmente estufados. Neste mundo escuro e escaldante, medram fungos de todas as espécies, que dispõem de muita matéria orgânica em decomposição. Os indivíduos da espécie dominante – os 50 milhões que restam – retiraram-se para junto dos pólos. Chamam Novo Mundo ao continente situado no pólo sul. Creio que estão criadas, enfim, as condições para a nossa instalação.





Reprise

Cresceu apanhando. Todo santo dia o pai chegava bêbado, fedendo a cigarro e a perfume barato de puta, tirava a cinta e lascava todo mundo, começando pela mãe e terminando sempre nele, o caçula. Nas poucas vezes que tentou se defender, veio logo o tapa na cara e o grito:- Cala a boca! Você é o último que fala e o primeiro que apanha!Anos a fio o ódio fermentando no cadinho do coração, crescendo, crescendo...Um dia arrumou uma moça, resolveu casar. Na festa de casamento, encheu a cara. Quando foi se deitar com ela, a noiva fez cara de nojo diante do cheiro de cerveja e cigarro. Não teve dúvida: tirou a cinta, e começou a bater ali mesmo, em plena lua de mel.





Assunto encerrado.




- Mãe, quem é esse homem que acabou de sair pela janela?
- É o mesmo estava que no seu quarto ontem à noite.
- M-mãe... n-não tinha ninguém no meu quarto ontem à noite.
- Exatamente, filhinha. Assunto encerrado.









Mais famosos e seus filhos

Hannibal Lecter e seu filho

- Papai, quando crescer, serei como o senhor!
- E eu como você, meu filho...

 



Michael Jackson e seu filho

- Papai, quando crescer, serei como o senhor!
- E eu como você, meu filho...





Filho de peixe, peixinho é

Um gênio da música

Ele queria ter sido músico.
Aulas de piano quando criança, tocava guitarra com uma bandinha de garagem na adolescência, mas ele cresceu e o sonho cedeu espaço à realidade: ele nem era tão bom assim...

Mas o filho tinha talento, ao seis anos já ganhava um concurso de música. Um pouco já maiorzinho, trouxe para o pai os cadernos repletos de composições, coisas de gênio.
Cheio de inveja, o pai disse:

— Ih, filho, tudo porcaria. Se eu fosse você, largava isto de querer ser músico.

O filho obedeceu. Chateado, mas acreditou no sábio parecer.

Hoje, é mecânico na oficina do pai. Suas composições abarrotam gavetas e baús, porcarias escondidas dum gênio.

***

Negócio de família

Pai e filho sentados à mesa de jantar.
— Você vai ser médico, assim como eu, seu avô, seu bisavô, assim como seus tios e irmãos.

Dia seguinte, na construção abandonada no final da rua, o filho diz para as três colegas da escola:
— Vão tirando a roupa!
— Por quê? — elas retrucam.
Risinho safado do garoto.
— Primeira aula de Anatomia.

***

Uma carreira de sucesso

O filho era uma bicha. Ator e bicha. Destino pior não existia.
Tinha vergonha dele na rua: o que seus amigos iriam dizer do filho bichola afetada quebrando o pulso e rebolando?
Expulsou-o de casa aos dezesseis anos e não teve mais notícias.

Então, surgiram os rumores e, por fim, a confirmação: o filho seria o protagonista da próxima novela das oito.

Toda família se reuniu para assistir ao primeiro capítulo.

Assim que o filho apareceu na tela da TV, o pai, enxugando as lágrimas:

— Que orgulho do meu filhão!

***

Beleza genética

A mãe, Miss Universo em 1988.
A filha, campeã de boquete universitário em 2009.





Benjamim Button e seu filho


- Papai, quando crescer, serei como o senhor!

- E eu, como você, meu filho...





sexta-feira, 13 de março de 2009

Pac-man

Com forte empenho, perícia e muita arte
Corro, recuo, avanço fazendo meu trajecto
E fujo outras vezes e me escondo redondo
Em meu circunscrito discreto concreto

Sou hábil, muito hábil, quase inatingível
Em toda essa minha perícia e cheganço
Sou o corredor de meio fundo do mundo
Todos ficam bem para trás de meu avanço

E esse velho jogo jogado eu já conheço
Comer e mais comer e ganhar pontos
Fintar logo se possível todos esses tontos
No contínuo de esforço onde enriqueço

Pela etapa seguinte e novo subir de nível
Concretizar de outro projecto possível
Que isso é sempre o que mais importa
O abrir a porta, da porta, da porta.

Bichinho de conta

De feitos defeitos nicho bem apertado e fechado
De leite deleite por tantos portantos por conta
És diz que diz não diz, léxico, disléxico controlado
O mais são ignorados direitos, vida de outra ponta

Cor, de cor, acção, decoração de coração!

És entrada e saída de lixo e não te interessas
Desaire, de Zaire, transmitido, exclusivo directo
Falta demorada de tecto, de morada, detecto
Sempre de ti partes e a ti enroscado regressas

Cor, de cor, acção, decoração de coração!

Bichinho de conta, em mundo "faz de conta" falcão
Nessa com posição decomposição de composição
Jogando tudo e o todo e os outros todos pro vento
Quando mais conta na conta teu gordo provento.

Infinito menos um

Um para o infinito... é o grito

Da refeita e desfeita palavra,
em dor e amor de ser comum.

Caminho e ir, círculo fechado,
cuidar guardando de guardado.

Um para o infinito... é o grito

Da pressa que nos regressa,
ser tantos e tão mais nenhum

Pele em fio de caneta, pincel,
pirueta, flor de vida inacabada

Um para o infinito, menos um
ou talvez zero, já não quero

Entre tantos, nenhum, aflito
Um para o infinito... é o grito





Piso 23

A DESCOBERTA

 

O dia estava chuvoso quando Américo Nunes imobilizou o pequeno Prius um pouco à frente do rectângulo traçado no asfalto. Antes de sair, ligou o dispositivo móvel de forma a consultar a agenda diária e, acto involuntário, fez uma careta – para além das tarefas de rotina e do relatório do projecto, tinha uma daquelas reuniões difíceis com o Silva. “Bem, não serve de muito ficar a matutar nisso. Depois logo se vê o que é que ele quer desta vez” pensou, ao sair porta fora para a rua fria.


Do outro lado, esperava-o um edifício “Foz” imponente nos seus oitenta metros de altura, os vários pisos apoiando-se como pilha de paralelipípedos rodando ao longo de estrutura helicoidal invisível. De mala na mão esquerda, segurou o guarda-chuva e percorreu rapidamente os metros que o separavam da passadeira. Esperou pelo verde e atravessou.


“Bom dia António” disse quase sem olhar, enquanto cruzava o espaço que o separava do “hall”.


O porteiro sorriu e esboçou um aceno. “Sempre gentil, o engenheiro. Não é como essa geração mais nova, uns abotoadinhos emproados que entram com pressa, sempre a olhar a direito não se dignando a dar um cumprimento”.


Após subir os vinte e dois pisos, chegou finalmente ao escritório e abriu a porta. O seu espaço de quinze metros quadrados tinha uma decoração moderna, a secretária vazia e impecavelmente arrumada, o ecrã de LCD apagado, o “laptop” morto a um canto, por debaixo. Sentou-se e correu as cortinas; parou um pouco, observando a paisagem. Podia ver o manto azul do enorme estuário, os bandos de gaivotas em voo rasante, a superfície sendo sulcada por cacilheiros e pelos “hovercraft” que fazem ligação com o Barreiro. Á direita, filas de automóveis preenchiam o tabuleiro da ponte outrora chamada de “Salazar” e que o pós-revolução renomeou para “25 de Abril”. A mesma ponte que o povo sempre conheceu simplesmente como a “Ponte sobre o Tejo”.


Ligou o computador e ficou por ali mergulhado em trabalho a manhã toda. Tão absorto que nem deu pelo passar do tempo e só desviou os olhos da tela quando um nocturno de Chopin irrompeu do Nokia, interrompendo repentinamente o silêncio. Atendeu.


“Sim? Ah, és tu, Rodrigues. Então já vão a descer? Bem, hoje não vos faço companhia. É o meu dia de vegetariano, desintoxicação…”


Após mais uns minutos, olhou para o relógio digital que marcava “quarto para a uma”, vestiu de novo a gabardine, armou-se do guarda-chuva e saiu. Chegado ao hall, chamou o elevador para levá-lo até ao piso térreo. Após uns segundos, a luz acendeu marcando a chegada da cabine. Porta “D”. Depois de entrar, olhos postos no painel de comandos, preparava-se para carregar no zero quando o espírito analítico e “olho clínico” se aperceberam que algo estava errado.


“Hei... isto não estava ali. Vinte e três? Como é possível?”A atenção fixava-se agora no círculo com os algarismos embutidos.


“Como vinte e três se o prédio só tem vinte e dois andares?” Ele sabia. Após cinco anos de trabalho diário naquele local, conhecia o edifício razoavelmente bem.


Chegou ao átrio ainda intrigado, murmurando para si mesmo: “ Vinte e três? Piso vinte e três?”  


O “Ponto V” era um espaço acolhedor com uma estátua gorda de Buda à entrada e as quatro paredes decoradas de cores vivas. Sempre vestido de grupos de pessoas jovens e bonitas a misturar conversas em voz baixa, educada, partilhando o espaço sonoro com a música de fundo instrumental, raramente asiática e quase sempre Jazz. Desfrutou o sabor do bife de seitan chamando mentalmente parvos a todos aqueles que confundem vegetariano com coisa descolorida e fraco sabor. Depois, terminou a refeição com a sobremesa deliciosa: uma bavaroise de amoras recheada com molho de iogurte.


De volta à cabine do elevador, estava já para sair e retornar ao escritório quando decidiu - ia esclarecer a coisa de uma vez por todas. Premiu o botão sentindo imediatamente um leve trepidar, sinal de que o dispositivo se tinha colocado em movimento. Após uns breves segundos, o transporte imobilizou-se e as portas abriram.


Em frente, o “hall”. Similar, demasiado igual ao que tinha no seu piso. O mesmo candeeiro, os mesmos quadros com “marketing” de empresa, o mesmo tapete turco e, ao balcão, uma alma gémea de Sara, a secretária de cabelo loiro curto, cortado “à escovinha”, a teclar rapidamente. Consultava algo e o telefone fora do bocal era indício de que, algures, um cliente esperava por resposta.


Estranho. Como podia estar ela ali se a tinha acabado de avistar no piso de baixo? Sem saber bem o que fazer, atirou um “Olá Sara.” que ela não ouviu. Indiferente à sua presença, desviou os olhos da tela e a mão direita voltou a pegar no bocal.


Aproximou-se mais e foi então que reparou na data: Quinze de Janeiro de 2009. Amanhã.

 

O PLANO É ELABORADO

 

O insólito só o é quando ainda não totalmente absorvido pelas malhas da rotina. Embora não obtivesse qualquer explicação racional, habituou-se a ter por certa aquela viagem ao futuro. As possibilidades eram limitadas – não era visto nem podia interagir, era mero espectador. Além disso, o tempo de que dispunha em cada visita era igualmente escasso. Após cerca de trinta minutos, desvaneciam-se os detalhes, todas as imagens. Ficava a sós com as várias divisões de paredes brancas e nuas e a porta do elevador que haveria de o trazer de volta. Mas nada disso o impediu de passar a fazer as visitas rotineiramente. Tornara-se um vício.


As coisas na empresa pioraram. Primeiro foi o relatório de projecto que o Silva “chumbou” e que o mesmo “Silva” mandou que fosse alterado. Que enviaram então ao cliente e que o cliente não aceitou. Seguiram-se outros desastres. Sempre que o chefe metia a colher, a coisa descambava. As reuniões tornaram-se insuportáveis. Estava já para enviar o currículo para outras empresas quando lhe surgiu a ideia. Porque não tinha pensado nisso antes? Se tinha aquela viagem para o “amanhã”, apesar de ser um mero observador, poderia fazer hoje que o amanhã incluísse algo digno de ser visto. O plano que nasceu nesse preciso momento era muito simples: Sabendo que o sorteio do Euromilhões é efectuado ao fim da tarde de sexta-feira, Sábado bem cedo voltaria ao escritório e obteria os números certos. Depois, bastava deixar sobre a secretária o pequeno “Post It” com a chave mágica. Se fizesse isso, sabia que teria então o tempo necessário para fazer a viagem na sexta e descobrir os números certos antes de jogar.

 

 

 

O PLANO É COLOCADO EM PRÁTICA

 

No dia do sorteio, efectuou alguns preparativos, o mais ousado dos quais foi materializado pela apresentação de “Powerpoint” com montagens do Silva actuando com outros espécimes do mesmo sexo e experimentando as posições menos decorosas. Alojou-a no servidor e providenciou para que fosse enviada para os postos de trabalho da empresa no fim do processamento “batch” de Domingo.


Passou o resto da manhã a fingir que estava trabalhando. Um pouco antes da hora de almoço, sentiu que estava chegado o momento e dirigiu-se então para o elevador. Tudo estava certo, o botão vinte e três, aquele que apenas ele via, esperava-o e, mal tocado, fez o mecanismo obedecer às suas ordens. No entanto, ao chegar ao seu escritório, esperava-o uma secretária vazia – nem sinal de “Post It”. Desanimado e sem entender o que se tinha passado, decidiu-se pelo almoço.


Atravessou a estrada ainda intrigado “Que raio, o que se terá passado? Bem, mas ainda estou a tempo, ainda há tempo. É só entrar de novo no servidor para retirar a coisa. Ninguém descobrirá e para a semana volto a tentar…”


Mais intrigado ficou o condutor de TAXI com a visão: o maluco atravessava no vermelho, alheio a tudo, mesmo em frente à grelha do seu automóvel. A colisão foi inevitável.


Três horas e quatro costelas partidas depois, ei-lo que acorda e pergunta aos seres de bata branca e máscara:


“Onde estou? Que me aconteceu? Que dia e hoje?”


A resposta veio, calma e segura.


“Sabe… Teve muita sorte. Muitos foram desta para melhor por muito menos. Que raio lhe deu para atravessar no vermelho e nem reparar no trânsito? Teve realmente muita sorte. Se tudo correr bem, terá alta já na terça-feira. Da parte da tarde.”