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sábado, 25 de outubro de 2008

Ninfa


“Sagueava” pelo Universo estrada
Arrastando comigo o lancinar
Da parte minha que faltava,
A buscar nas flores e nas melodias
O bálsamo à vida, o ópio à existência.

De uma brisa impacto, ao sabor dos meus tímpanos,
Se infiltra em mim a Música Monalisa de uma Ninfa Paisagem.

Ao querer do vento, vago a erigir altares à tão escultural voz.
Toco suas notas que nem Rodin poderia ter talhado.
Mas foge-me... Não! Afasta-se apenas...
Fujo-lhe por admiração. Nego-lhe meus sentidos
Por cuidá-los imerecidos de tão “ambroesia” contemplação.

Aqui estou, sitiado por sereias a lançarem-me em cantos,
Sugando à fonte da vida, suas moradas,
Aos pélagos profundos, à morte em seus líquidos.
Enlaço-me ao busto da mais bela (penso ser a Ninfa)
E sua cauda índia leva-nos a uma verdade: um Oceano em copo d’água...
Separamo-nos.

A Música chama-me cada vez mais viva.
Resvalo-me dela, reverente. Parece-me que eu é que
Chamo-me a ela, somente. Então me atrevo:
Minha romaria lhe seguirá a onisciência de sua divindade,
A felicidade em seu rosto e o prazer de seu corpo...

Penso ter Neruda desembarcado em minha alma,... não!
Foste unicamente Tu, querida, razão que faz um Vate fecundar metáforas!





sexta-feira, 24 de outubro de 2008

AS NOIVAS DE PRETO

(Maristela Scheuer Deves)

Aquelas velhas fotografias de noivas vestidas de preto sempre tinham me intrigado, desde que eu as encontrara em um velho baú no sótão da casa de meus avós. Eu tinha uns doze ou treze anos na ocasião. Curiosa como todos são nessa idade, corri perguntar à minha avó quem eram aquelas mulheres e por que tinham se casado assim. Sua reação, no entanto, deixou-me intrigada.
Em vez de responder à minha inocente pergunta, ela ficou olhando demoradamente as fotos, com uma expressão esquisita. Não consegui identificar exatamente o que via no seu rosto, mas parecia ser uma mistura de medo e curiosidade. Depois de alguns minutos em silêncio, quis saber onde eu encontrara aquelas imagens. Contei-lhe do baú, e ela pediu que devolvesse as fotos ao seu lugar e não mais pensasse no assunto.
Insisti, mas sem resultado. Como eu não era de desistir facilmente, procurei o meu avô. Sua reação não foi muito melhor ao olhar o que eu tinha em mãos, mas pelo menos ele deu-me uma explicação: aquelas eram sua avó, ou seja, minha tataravó, e suas irmãs. Haviam se casado de vestidos e véus pretos porque estavam de luto, o pai delas havia morrido pouco tempo antes. Fiquei a matutar comigo mesma por que é que elas não haviam esperado um pouco mais para casar-se, pois então poderiam usar o branco tradicional. Também achei estranho todas elas terem contraído núpcias na mesma época, mas vovô me disse para ir brincar, deixando que ele fizesse suas coisas.
Por alguns dias, ainda enchi meu pai e minha mãe de perguntas, mas como as respostas variavam de um “eu é que sei?” a “vai ver, era moda na época”, acabei desistindo e esquecendo o assunto. Em outra ocasião, fui fuxicar nas coisas guardadas no sótão, mas não encontrei mais as fotografias, até mesmo o baú havia sumido de lá. Achei estranho, mas não dei muita importância ao assunto.
Nas últimas semanas, porém, a lembrança daquelas noivas vestidas de preto vem me atormentando. Sonho com elas todas as noites, e penso nelas em cada minuto do meu dia. Não sou mais uma criança: estou com 24 anos e vou casar-me em poucos dias. Até já comprei meu vestido, lindo, resplandecente, branco como a neve. Minha mãe chorou quando o viu, e a princípio creditei seu choro à emoção de que sua única filha iria se casar. Mas agora sei que não era isso. E sei, também, o porquê daqueles vestidos negros que há tanto tempo despertaram a minha curiosidade...
Descobri por acaso, enquanto procurava velhas fotos minhas para o painel de momentos marcantes de minha vida, que ficará em exposição na entrada do salão de festas. Embaixo das dezenas de álbuns com registros feitos desde a minha infância, encontrei um envelope amarelado pelo tempo. Curiosa, abri-o. Lá, uma única foto, de um casal cujo rosto risonho eu reconheci: meus pais, muito mais jovens do que agora, no dia do seu casamento. Nesse momento, percebi que nunca antes havia visto imagens daquela data, e compreendi também o motivo: o vestido que minha mãe envergava, de seda e com lindos bordados, era negro.
Minha mãe surpreendeu-me com a foto nas mãos e, perante meu olhar indagador, pôs-se novamente a derramar lágrimas. Mesmo sem entender o que estava acontecendo, abracei-a e confortei-a, como se a mãe fosse eu. Não pedi explicações quando ela se acalmou, mas ela as deu mesmo assim. Sabia que era hora, e que não podia adiar mais.
– Quando eu me casei com seu pai – começou ela –, ninguém me disse nada. Sofri muito com o que aconteceu, e sei que você também vai sofrer, minha filha, mas pelo menos você vai estar preparada.
Antes de prosseguir, ela levantou-se e foi até uma gaveta trancada. Tirou uma chavezinha de uma corrente pendurada no pescoço e a abriu. Lá de dentro, pegou uma caixa de madeira, que colocou sobre a mesa, chamando-me para ver o conteúdo. Ali estavam as antigas fotos que eu vira ainda criança, num baú no sótão dos meus avós. E também outras, muitas outras, todas mostrando noivas vestidas de preto. Lá estavam minha avó, todas as minhas tias por parte de pai... Aturdida, fiquei passando uma a uma, sem saber o que dizer.
– Sim, minha pequena. Todas as mulheres da nossa família, pelo lado do seu pai, carregam essa maldição – disse. Vendo que eu abria a boca para perguntar algo, apressou-se em prosseguir – Nós não escolhemos nos casar de preto. Na verdade, nós não nos casamos de preto. Meu vestido e meu véu eram tão alvos quanto os seus. Mas, na hora da cerimônia, quando eu coloquei a aliança no dedo, ele começou a mudar...
Ela trocara de roupa no meio da festa, contou, com a desculpa de usar algo mais confortável. A verdade era que, para seu desespero, ele estava ficando a cada minuto mais escuro. Pensou que as primeiras fotos estariam boas, pelo menos, mas, poucos dias depois de as receber do fotógrafo, nelas também o vestido passara a ficar preto.
– Queimei quase todas elas, junto com o vestido que eu tinha gostado tanto. Guardei apenas essa. Foi só depois de tudo ter acontecido que minha sogra, sua avó, contou-me que isso acontecia há quatro gerações. Desde que uma tia-avó do seu avô fora rejeitada pelo restante da família por se casar grávida, obrigada a casar de véu negro, ela amaldiçoou a todos, dizendo que, dali por diante, nunca mais uma mulher da família se casaria de branco. E, até hoje, isso vem se cumprindo...
Tenho menos de uma semana até o dia do meu casamento. Tento afastar os meus pensamentos mórbidos, dizer a mim mesma que isso é fantasia, que deve haver alguma explicação lógica. Talvez tenha sido mesmo luto, talvez... Mas minha mãe não mentiria para mim. Não faria com que eu me angustiasse sem necessidade.
Não contei a meu noivo, para ele não pensar que estou enlouquecendo. Mas hoje pela manhã, acariciando o esvoaçante tecido de meu lindo vestido de sonho, vi uma pequena mancha mais escura em um canto, sob um babado. Outra apareceu na pontinha do véu. Pensei em cancelar o serviço do fotógrafo, para garantir, mas achei melhor encomendar com urgência um vestido de reserva, cor de champanhe, para usar assim que sair da igreja...





quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Encontro com Joaquim Maria- Giselle Sato


Desci a rua do Ouvidor pensando em minhas maiores paixões, as boas graças femininas e a literatura. Não necessariamente nesta ordem:

- O cavalheiro deixou cair este envelope, por muito pouco não se perde, precisei correr para acompanhar seus passos.

- Meu manuscrito! Não sei como agradecer, nem dei conta, o senhor não imagina a importância do que acabou de salvar.

- Ainda bem que percebi a tempo, há uma procissão e as ruas estão tomadas de devotos.

- Um verdadeiro absurdo, em pleno século XIX! Retornei há bem pouco da Europa, as diferenças são alarmantes.

- Devia ter visto antes. Atualmente temos pavimentação, iluminação a gás, transporte coletivo, tudo seguindo os parâmetros das capitais européias. Tempo de ‘’galas novas’’...

- Não quero parecer arrogante, no entanto, a sociedade carioca carece de bom gosto. Os cafés e teatros nunca chegarão aos pés dos Parisienses. O povo mantém hábitos provincianos, não sabem viver na capital.

- Infelizmente, somos uma nação predominantemente rural e analfabeta.

- Certamente. Porque haveria de ser diferente? Sem querer ofender, sou extremamente bem nascido, afortunado com a melhor educação que um jovem poderia sonhar. Sou versado em cinco idiomas. Inclusive o latim, falo fluentemente, melhor que muito padre.

- Percebi no instante em começamos o agradável colóquio. Inclusive, só de ouvi-lo falar, sinto a influência européia.

- Meu caro, onde aprendeu a expressar tão bem suas idéias? Salvo pequenos deslizes naturais, fala o português quase perfeito.

- Sou autodidata, aprendi com muito sacrifício. Tinha tudo para não dar certo. Graças aos livros, sou capaz de manter um diálogo com um homem como o senhor.

- Compreendo, o senhor trabalha em uma oficina. Maneja o maquinário ou algo equivalente?

- Sim, algo equivalente. Trabalho com livros, livros o tempo inteiro. Sabe que o senhor é uma inspiração? Sempre encontro tipos interessantes, dignos de atenção redobrada.

- Como assim? Que tipo de influência, além de ser um exemplo, um ideal a ser copiado...

- O senhor é muito modesto. ''Haja à vista'', a inspiração preciosa, sou eternamente grato.

- Por sinal, o que posso fazer para demonstrar minha gratidão?

- O senhor já agradeceu, é o suficiente.

- Se algum dia precisar, freqüento a livraria Garnier,quase diariamente.Fica logo adiante, no final da Rua do Ouvidor.O único lugar decente desta cidade.

- Quase uma pequena Paris. Senhor?

- Que esquecimento! Oliveira Neves, mas pode me chamar por Joaquim Maria. Meu nome de batismo.

- Machado, muito prazer. Que coincidência, homônimos! Quase esqueci, tenho uma reunião daqui a pouco no Jornal do Commercio . Com licença, preciso ir andando. Passar bem,senhor Oliveira.

Que homem estranho, ofereci uma pequena ajuda e partiu furioso . Homônimos, era só o que me faltava! Um quase negro, um pouco mais letrado, pensando que me engana. O que esperava? Que o convidasse para um café? Decerto imaginou que havia algum dinheiro no envelope. Devolveu esperando uma boa recompensa, depois fez ares de ofendido.

Ah! As jovens senhoras, fina flor da sociedade. Que visão! La jeunesse dorée , apreciando as modas , fazendo compras, tomando o ar fresco. Algumas são cortesãs disfarçadas em busca de romance. Se a sorte for benfazeja, ofereço meus préstimos, carrego alguns pacotes e falo um pouco de francês. Voilá! Convido para um chá na confeitaria, acompanho até a residência...

Finalmente a livraria, um lugar com certa exclusividade, longe dos pobretões que embaçam as vitrines. Sinto que estou no meu mundo, escritores, intelectuais, políticos:
- Joaquim, Joaquim Maria. Quanto tempo! Que bons ventos trouxeram meu melhor amigo de volta?

- Pacheco Leitão! Que prazer, cheguei semana passada. Mas já estou querendo voltar.

- Joaquim, não seja tão severo! Faz parte da nata da sociedade, freqüenta festas maravilhosas, cassinos, usufrui do bom e do melhor. E nem mencionei os bordéis! Não é suficiente?!

- Sim, o suficiente para quem se contenta com pouco. Quero muito mais, hoje entrego meu primeiro romance para impressão.

- Um amigo escritor é uma honra e tanto. Está com sorte, hoje chegou o último de Machado: Memórias Póstumas de Brás Cubas. É uma obra-prima, todos estão comentando. Se bem que Machado sempre surpreende.Quando pensamos que já lemos o melhor, eis que surge algo desconcertante.

Senti um pequeno desconforto ao ouvir aquele nome, o segundo Machado em uma tarde. Para não ser grosseiro, folheei o livro, um pouco desatento. No primeiro parágrafo, senti que não conseguiria descansar, até completar toda leitura.
Extraordinário estilo, perfeito em todos os aspectos, tão bom que senti vergonha do meu manuscrito.

Fui para casa terminar a leitura do romance. Não pude controlar a inveja, o rancor, o ódio pelo tal escritor brasileiro. Seis anos jogados no lixo, meus sonhos desfeitos em uma tarde, minha existência reduzida ao limbo. Por um Machado, um machado destruidor de sonhos.

No dia seguinte, mais calmo, soube que o escritor, recém eleito meu favorito, estaria na livraria. O espaço estava apinhado de gente vinda de todos os pontos da cidade. Muitos aplausos anunciaram a chegada. A turba ruidosa, movimentava-se impedindo a visão de seu semblante. Quando consegui espaço suficiente, reconheci o homem que havia salvo meu envelope. Quis morrer naquele instante:
- Pacheco, está abafado demais, preciso sair um pouco e respirar.

- Mas logo agora? Vai perder a leitura, Machado vai nos dar a honra do primeiro capítulo.

- Então fique e aproveite, não precisa me acompanhar. Insisto que fique, é seu autor preferido.

- Imagine, nunca abandonaria o amigo, faço companhia até que melhore e retornamos.

- Pacheco, deixe-me em paz! Preciso respirar, estou angustiado.

- Não precisa ser grosseiro,não quer ser visto com um simples comerciante. Hoje está no meio dos seus, não precisa da companhia do velho amigo Pacheco. Não tenho seus estudos, meus pais não me mandaram para Europa. Minha mãe achou um desperdício, meu pai mal sabe assinar o nome, e agora esta desfeita...

Deixei meu amigo falando sozinho, nunca tive paciência para ouvir sermão, muito menos do Pacheco. Perdi a noção do tempo enquanto caminhava, o peito transpassado de vergonha. Não havia percebido a fina ironia no breve diálogo com o mulato ardiloso.

Enxerguei o romance por um novo ângulo. Agora eu via a desfaçatez mascarada nos diálogos dos personagens,a personalidade complicada dos protagonistas, a estratégia da redação confusa e angustiante.
Senti que naquele instante nascia minha verdadeira vocação. A vida ganhava um novo sentido, tecia planos de publicar uma crítica devastando cada obra. Planejava vasculhar cada linha, sonhava de olhos abertos com o reconhecimento público.

A aversão machadiana crescia como um tumor pestilento. Esquecido da vida, os sentidos embotados pela vingança, não percebi o veículo descontrolado. Por ironia do destino, um importado inglês, mal conduzido por um jovem inexperiente.
Morri.

Joaquim Maria morreu, morreu atropelado em plena Praça da Constituição. Há poucos metros da famosa Tipografia Dois de Dezembro. Na hora do acidente, lotada de escritores e intelectuais.

Meu último pensamento... a existência inútil. Não deixei qualquer legado. Nem filhos, nem obras, nem saudades, nem amigos... Fui um farsante, pedante, esbanjador e mentiroso. Expulso da própria casa após a descoberta das vilanias praticadas na Europa. Agora, uma alma incompetente.

Contudo, carrego o consolo, um sonho questionável e anônimo: Ter sido a inspiração, ainda que fugidia, de Joaquim Maria Machado de Assis.





terça-feira, 21 de outubro de 2008

Náufrago

náufrago
era preciso que se agarrasse
a qualquer pedra, ou planta, ou alga
que alcançasse, com o pé, apoio
um só ponto que fosse
ou que enchesse de ar o peito
até se tornar, ele próprio, bóia...

era preciso que houvesse algo
era imperativo que achasse
a pedra, a planta, o apoio
era ugente que se lembrasse
ao menos, de respirar...

sem saber como ir para cima ou para baixo
sem saber onde o sul, onde o norte
por momentos fechava os olhos, entorpecido,
imaginava-se em doces braços amorosos...

porque quando vinham as enormes vagas
e o escuro do céu sem luar e sem estrelas
se confundia com o escuro da profundeza infinita
- do mar, de si mesmo, de tudo -
era preciso, antes, acreditar...

a água lhe congelava as entranhas
já não sentia dor, nem frio, nem medo
bastava deixar-se ir ao sabor das correntes
a alma presa ao corpo por fio tão tênue...

náufrago
num momento qualquer, se decidiu
num momento sem importância
sem marca, sem sentido
num instante comum
- pudera ser outro -
deixou-se, simplesmente, ir com as águas
deixou-se...

seu corpo-água se desfazendo
os pensamentos-água desintegrando
os sentimentos-água se diluindo
naquele mar de corações
salgados
afogados
retorcidos...

náufrago e mar
um só
para sempre





domingo, 19 de outubro de 2008

Poemas

O quarto escuro


Num quarto escuro você está enclausurada
Porta alguma você vê ou deseja
Satisfeita está, com sua morada.

Um dia, porém, em seu peito flameja
Calor tal, que a impele à retirada
De si mesma, onde sua alma é presa.

Muito tempo passa, mas chave certa encontra
Para abrir tal negríssima porta
Que à sua vista cansada desponta.

Tal tristeza, que em seu coração aporta
Pois dum mundo novo visão a assombra
Que você deseja cair morta.

Súbita coragem em seu coração nasce
Tal a Estrela da Manhã num lindo céu
Que leva a melancolia ao escape.

Por longo corredor você caminha, e véu
Negro, como batina de padre
Ascende de sua visão, a um fogaréu.

Vendo duas portas, uma delas aberta
E a outra, tão duramente cerrada
Escolhe a segunda, ignora o alerta.

Pois a primeira, a todo bem lhe guiava
Escolheu mal, e agora enxerga
O quarto escuro, a porta era a errada.





Pela floresta


Em densa floresta, uma noite me encontrei
Saída nenhuma minha vista alcançava
Sozinho, com medo, caí e chorei.

Dantesca situação na qual me encontrava
Era tal, que nunca me esquecerei
Da solidão que sobre mim pairava.

Porém, no meio desse infernal perigo
Maravilha minha vista alcança
E do medo me torno inimigo.

Pois num vale próximo me chama
Para perto, uma flor em domo de vidro.
Dele, excelsa luz emana.

Encantado, minutos passei encarando
A bela flor, que não vi ao lado
De cabelos longos, homem estranho.

- “Da flor sou guardião” -, disse irritado
“Ela me escolheu, então vá andando”
“De onde veio, para o outro lado”.

Entristecido, segui a trilha lentamente
Imagem da flor, como que marcada
A fogo assombrava minha mente.

Por horas andei, até minha cabeça cansada
Exigir-me descanso, então parei finalmente
E deitei-me sobre a grama esverdeada.

Num sonho me veio profético aviso
O melro me disse: “Refaça o caminho”
“Em tomar a flor não há mais perigo”.

“Ela agora jaz em sua redoma, sozinha,
Livrou-se de seu guardião antigo
Mas procura outro para completar seu destino”

Corri então pela trilha, com notável destreza
Até a luz brilhante que me cega
Só para encontrar horrível surpresa:

Guardião a flor já tinha, de mim se esquecera
Meu coração foi tomado de grande tristeza
E condenado fiquei à eterna espera.





sábado, 18 de outubro de 2008

Novas tendências

Joaquim Bispo


Ultimamente, muitas são as mulheres, das que aparecem nas televisões ou que aspiram a isso, que mandam encher os lábios com silicone ou os envenenam com Botox. Algumas exageraram ou a coisa não correu bem - pensei eu - porque ficaram com uma boca a fazer lembrar o ânus de um macaco. A comparação ouvi-a, há tempos, ao observador e provocador humorista Herman José, e reflecte na perfeição o que está a acontecer.

A explicação é muito psicanalítica mas credível. Sempre a boca do rosto foi associada à boca do corpo; os homens associam-nas, as mulheres sabem dessa associação. Daí, humedecerem a do rosto e pintarem-na, para mais se assemelhar as uns lábios vaginais receptivos.
Mas, o coito anal tem vindo a ganhar adeptos e aspirantes a praticantes. Quem de tal duvide, que faça uma revisão dos filmes pornográficos dos últimos vinte anos. Neles se percebe que a percentagem de sexo anal, em tempo de filme, tem vindo sempre a crescer.

Et voilà. As novas tendências aconselham a mudar o aspecto da boca, de vagina para ânus.
Algumas mulheres têm-no conseguido de maneira magistral.





Angústias urbanas- Giselle Sato


A violência atingiu um grau absurdo, somos reféns dentro das nossas casas e cidades. O jornal estampa crimes covardes, vidas roubadas em finais infelizes.
Ações policiais mal-sucedidas , tiros que não deveriam ter sido disparados. Falta de preparo, ansiedade, desespero, não é hora de apontar culpados. Precisamos de soluções imediatas.

Vivo reclusa em uma vila no subúrbio, minha casa tem grades imensas, muros que deveriam me proteger. Mas não é isto que ocorre, recebo os jornais, ouço as notícias, vizinhos comentam os crimes diários. Sigo apavorada, cercada de favelas e fantasmas. Refém do medo.

Cruzo avenidas sempre atenta aos estranhos, as calçadas transformaram-se em campo minado. Não é exagero, a guerrilha urbana é fato.
Adorava passear pelas ruas do centro da cidade aos sábados. Percorria as ruelas fervilhando de gente animada, famílias fazendo compras e provando delícias nos quiosques de comida árabe. O burburinho soava como música, felicidade encontrada na simplicidade de caminhar no meio do povo.

A última vez que ousei repetir o passeio, a magia havia sido substituída por seguranças, avisos de cuidado, vendedores desconfiados e muitas lojas fechadas. Sinto que minha cidade não é mais tão bonita, perdeu o viço e a liberdade.


Bairros transformaram-se em uma grande vitrine de marginalidade e descaso público. Turistas não encontram a princesinha do mar, tropeçam nos mendigos e prostitutas. São assaltados e prometem jamais retornar.

A memória é curta ou copia os três macacos. Surda, cega e Muda. Talvez seja hora de levantar o tapete e limpar a sujeira acumulada. Definitivamente, não podemos levar a vida no compasso de um samba.

Pátria amada, mãe gentil, seus filhos estão perdendo a luta. Temem o próprio irmão, clamam por justiça e sonham com a paz.





sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Poemas de Emily Dickinson

tradução: Henry Alfred Bugalho

Coração, nós o esqueceremos!

Coração, nós o esqueceremos!
Eu e ti, hoje à noite.
Deves te esquecer do acalento que ele nos deu,
Que eu me esquecerei do lume.

Quando o houveres feito, diga-me te suplico,
Que aos meus pensamentos toldarei;
Apressa-te! Que enquanto te tardas,
Dele ainda me lembrarei!

***

Porque eu não pude parar para a Morte

Porque eu não pude parar para a Morte –
Ela gentilmente parou para mim –
Na Carruagem, apenas nós –
E a Imortalidade.

Nós viajamos lentamente – Ela não tinha pressa
E eu tive de pôr de lado
Meu trabalho e meu lazer,
Por Delicadeza –

Passamos pela Escola, onde Crianças se exercitavam
No Recreio – no Pátio –
Passamos pelos Campos dos Grãos Maduros –
Passamos pelo Sol Poente –

Ou melhor – Ele passou por nós –
O Orvalho veio tremulante e cálido –
Apenas como Fina Trama, minhas Vestes –
Meu Xale – apenas Tule –

Estacamos diante duma Casa que parecia
Uma Elevação do Solo –
Do Telhado pouco se via –
A Cornija – a tocar o Chão –

Desde então – por Séculos – e ainda
Mais breve que o Dia
Constatei que as Cabeças dos Cavalos
Voltavam-se para a Eternidade –

***

Uma Porta acabou de ser aberta numa rua

Uma porta acabou de ser aberta numa rua –
Eu, perdida, estava passando –
E um átimo de quentura foi liberado,
E de riqueza e companhia.

A porta se fechou repentina, e eu,
Eu, perdida, estava passando –
Perdida em dobro, mais pelo contraste,
Esclarecedora miséria.

***

Deus a cada pássaro deu um pão

Deus a cada pássaro deu um pão,
Mas apenas migalhas para mim;
Não ouso comê-las, mesmo esfaimada, -
Minha aguda luxúria
Possuí-las, tocá-las, constatar o feito
Que fez meu este bocado, -
Feliz demais em minha sorte de pardal
Para almejar mais.

Pode haver fome por aí,
Eu não deixarei de ouvir,
Tantos largos sorrisos à minha mesa,
Meu celeiro parece estar bem cheio.
Imagino como o rico deve se sentir, -
Um indiático – um barão?
Considero que eu, com apenas migalhas,
Sobre todos eles soberana sou.

***

Não posso viver contigo

Não posso viver contigo,
Isto seria vida,
E vida está ali
Atrás da patreleira

O capelão guarda a chave,
Pondo acima
Nossa vida, sua porcelana,
Como uma taça

Descartada pela dona-de-casa,
Démodé ou esfacelada;
Um novo Sevres apraze,
Os velhos se quebram.

Eu não poderia morrer contigo,
Pois um deve esperar
Para cerrar os olhos do outro,
Tu não podes.

E eu, eu permanecerei
E ver-te-ei expirar,
Sem meu direito de expirar,
Privilégio da morte?

Nem eu poderei ressuscitar contigo,
Porque tua face
Poderia tirar de Jesus
A nova graça

Brilho nítido e estrangeiro
Em meus olhos nostálgicos,
Exceto que tu, ao invés d`ele,
Reluziu bem mais perto.
Julgar-nos-ão – como?
Pois tu serviste o Paraíso, tu sabes,
Ou tentaste;
Eu não consegui,

Porque tu concentraste a vista,
E eu não tenho mais olhos
Para uma excelência mórbida
Como o Paraíso.

E se tu decaísses, também,
Mesmo que meu nome
Tenha soado mais alto
Na fama celestial.

E se tu fosses salvo,
E eu condenada a estar
Onde tu não estás,
Isto seria o inferno para mim.

Então devemos nos manter apartados,
Tu aí, eu aqui,
Com a porta entreaberta apenas
Que são oceanos,
E orar,
E aquele pálido sustento,
Desespero!

***

Se eu puder evitar que um coração se parta,
Eu não terei vivido em vão;
Se eu puder evitar a agonia duma vida,
Ou acalentar uma dor,
Ou assistir um desfalecido melro
A voltar a seu ninho,
Eu não terei vivido em vão.



Emily Dickinson (Amherst, Massachusetts; Estados Unidos; 10 de Dezembro de 1830 - 15 de maio de 1886) foi uma poetisa americana.

Biografia
Nasceu numa casa cujo nome era The Homestead, construída pelos avós Samuel Fowler Dickinson e Lucretia Gunn Dickinson, no ano de 1813. Samuel Fowler era advogado e foi um dos principais fundadores do Amherst College. Era a segunda filha de Edward e Emily Norcross Dickinson.
Proveniente de uma família abastada, Emily teve formação escolar irrepreensível, chegando a cursar durante um ano o South Hadley Female Seminary. Abandonou o seminário após se recusar, publicamente, a declarar sua fé.
Quando findou os estudos, Emily retornou à casa dos pais para deles cuidar, juntamente com a irmã Lavínia que, como ela, nunca se casou.
Em torno de Emily, construiu-se o mito acerca de sua personalidade solitária. Tanto que a denominavam de a “Grande Reclusa”. É importante que se diga, que este comportamento de Emily coadunava-se com o modelo de conduta feminina que era apregoado no Massachusetts de Oitocentos. Emily, em raros momentos, deixou sua vida reclusa, tanto que em toda sua vida, apenas fez viagens para a Filadélfia para tratar de problemas de visão, uma para Washington e Boston. Foi numa destas viagens que Emily conheceu dois homens que teriam marcada influência em sua vida e inspiração poética: Charles Wadsworth e Thomas Wentworth Higginson.
Emily conheceu Charles Wadsworth, um clérigo de 41 anos, em sua viagem à Filadélfia. Alguns críticos creditam a Wadsworth, como sendo o alvo de grande parte dos poemas de amor escritos por Emily.
Quase tudo que se sabe sobre a vida de Emily Dickinson tem como fonte as correspondências que ela manteve com algumas pessoas. Entre elas: Susan Dickinson, que era sua cunhada e vizinha, colegas de escola, familiares e alguns intelectuais como Samuel Bowles, o Dr. e a Mrs. J. G. Holland, T. W. Higginson e Helen Hunt Jackson. Nestas cartas, além de tecer comentários sobre o seu cotidiano, havia também alguns poemas.
Foi somente em torno do ano de 1858 que Emily deu início a confecção dos «fascicles» (livros manuscritos com suas composições) , produzidos e encadernados à mão.
É intensa a sua produção de 1860 até 1870, quando compôs centenas de poemas por ano. Em 1862, envia quatro poemas ao crítico Thomas Higginson que, não compreendendo inteiramente sua poesia, a desaconselha de publicá-los.
A partir de 1864, surpreendida por problemas de visão, arrefece um pouco o ritmo de sua escrita. Uma curiosidade na obra de Emily Dickinson é que apesar de ter escrito em torno de 1800 poemas e quase 1000 cartas, ela não chegou a publicar nenhum livro de versos, enquanto viveu. Os registros que se tem, é que apenas anonimamente, publicou alguns poemas.
Toda a sua obra foi editada postumamente, sendo reconhecida e aclamada pelos críticos.
Emily faleceu em 15 de maio de 1886 em Amherst, Massachusetts.
A edição crítica completa, organizada por Thomas H. Johnson, contando com 1775 poemas, ocorreu apenas em 1955, após seu acervo ter sido transferido para a Universidade de Harvard. Posteriormente acrescida de outros poemas, em 1999, surge outra edição, organizada por R. W. Franklin, com 1789 poemas.
Atualmente a casa, onde ela nasceu e viveu, The Homestead é aberta para visitação no período de Março a Dezembro.

Fonte: Wikipédia





A Estrada não Percorrida, de Robert Frost

Tradução: Henry Alfred Bugalho

Estradas se bifurcavam num amarelado bosque,
E me ressenti não poder ambas percorrer
Sendo um só viajante, por muito me detive
E observei uma até quão longe pude
Até onde na vegetação ela se encurvava.

Então segui pela outra, tão boa quanto,
E talvez por ter melhor reclame,
Por ser gramada e ansiar uso;
Mesmo que os que por ela passaram
Desgastaram-na do mesmo modo.

E, naquela manhã, em ambas igualmente jaziam
Folhas que passo algum pisara.
Ó, deixei a primeira para outro dia!
Mesmo sabendo que caminho leva a caminho,
Duvidei se um dia conseguiria voltar.

Com um suspiro isto direi
Em algum ponto, há muito tempo distante
Duas estradas num bosque se bifurcavam, e eu
A menos percorrida trilhei,
E isto fez toda a diferença.



Robert Lee Frost (San Francisco, Califórnia, 26 de março de 1874 - 29 de janeiro de 1963) foi um dos mais importantes poetas dos Estados Unidos do século XX. Frost recebeu quatro prêmios Pulitzer.

Biografia
O pai bebia, jogava e era excêntrico e irascível. A mãe era o oposto: religiosa e culta, foi quem apresentou ao filho o mundo da literatura. Com a morte do pai em 1885, a família muda-se para a Nova Inglaterra, região à qual Frost e sua poesia seriam permanentemente associados no futuro (embora o poeta também tenha passado longas temporadas em Michigan e na Flórida).
Em 1890, publica seu primeiro poema, começa a dar aulas e realiza pequenos serviços em fazendas e moinhos. A vida que levava nesse período moldou sua personalidade poética: Frost foi um dos poetas norte-americanos que melhor combinou em seus versos o popular e o moderno, o local e o universal.
Em 1895, inicia-se uma nova fase em sua vida: casa-se com Elinor White em 19 de dezembro; o primeiro filho nasce no ano seguinte (teria seis ao todo), e passa a envolver-se cada vez mais com a vida no campo: em 1901 já administra sua própria fazenda. Adquire o hábito de escrever seus poemas à noite, na mesa da cozinha. A partir de 1906, quando começa a lecionar em tempo integral na Pinkerton Academy, a vida profissional de Frost não se dissociaria mais do ramo das letras. Começa a proferir palestras e conferências, atividade que não abandonaria até a morte.
Entre 1912 e 1915 viveu na Inglaterra, país onde publicou seus dois primeiros livros de poemas, A Boy’s Will (1913) e North of Boston (1914). Os livros foram bem recebidos pela crítica européia, e Frost é apresentado a poetas famosos, como Ezra Pound, Ford Madox Ford e W. B. Yeats.
Em 1915 volta aos Estados Unidos, e no mesmo ano publica em seu país natal seus dois primeiros livros. Com a carreira literária cada vez mais sólida, recebe o Pulitzer em duas ocasiões (1924, por New Hampshire, e 1931, por Collected Poems).
A morte da esposa em 1938 e o suicídio da filha Carol em 1940 causaram um impacto tremendo em sua estabilidade emocional. Em 1941, muda-se para Cambridge, onde viveria pelo resto da vida, o tempo todo assessorado por sua secretária Kathleen Morrison (logo em seguida à morte da esposa, Frost a pedira em casamento, mas Kathleen recusou).
As viagens como conferencista incluíram uma visita ao Brasil (Rio de Janeiro e São Paulo) em agosto de 1954. Em 1957 volta a visitar a Europa, ocasião em que conhece grandes nomes da literatura da época: W. H. Auden, E. M. Forster, Cecil Day Lewis, Graham Greene. Plenamente reconhecido como um dos maiores poetas norte-americanos do século, Robert Frost morre em 29 de janeiro de 1963.

Obras
A produção literária de Frost é variada e abundante. Sua poesia inclui sonetos, poemas em forma de diálogo, poemas curtos, poemas longos. Escreveu três peças teatrais (A Way Out, In an Art Factory e The Guardeen). São numerosíssimos os registros de suas conferências. A correspondência, os ensaios e as histórias merecem o mesmo comentário. Frost tem a capacidade de dar um tratamento simples e ao mesmo tempo profundo a temas elementares (fogo, gelo, natureza), tirando verdadeiras "lições de moral" de suas observações do mundo natural (lições nem sempre otimistas, como se pode notar em Nothing Gold Can Stay). Tal traço, aliado à modernidade de sua linguagem (Frost era um defensor do uso da linguagem vernácula nas obras literárias), fez com que Frost jamais deixasse de figurar entre os escritores prediletos dos norte-americanos, ao lado de nomes como Whitman, Emerson e Thoreau. Seu poema The Road Not Taken é peça obrigatória em qualquer antologia poética de língua inglesa. Prova adicional de sua popularidade são as várias referências em filmes como Sociedade dos Poetas Mortos e Daunbailó.

Fonte: Wikipédia





quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Pastel de Vento

Os fenômenos emergentes da fronteira imaginária que dividem emoção e razão nos levam a considerar todas as alternativas e subalternativas referentes a este paradigma. Segundo Paul Freeman, tais acontecimentos derivam de fatores extra sensoriais e não corroborariam de um método altamente qualificado e posterior a todos os estudos intrisicamente desapegados ao sistema de múltiplas variantes e constâncias.

Pesquisas comprovam que todo este maniqueísmo ultra-reflexivo referente aos auspícios osculados ao simulacro em nada pavimentarão os caminhos que levam a discernir a similaridade do que é verdadeiramente falacioso. A dialética enfronhada em casos semânticos nos levam ainda a crer que, passadas várias gerações, a postura emblemática de nossos delatores permanece inadvertidamente alterada.

Para finalizar, desejo ressaltar que o cruzamento de dados horizontalmente canalizados pelo método bifurcativo desenvolvido pelo Dr. Willian Lark em nada afetarão as pesquisas já publicadas, pois Lark desconsiderou o fator extra-primordial da causa preludiana ao fenômeno associativo em questão.

Difícil compreender não? Provavelmente pelo fato dos parágrafos acima não passarem de um amontoado de frases sem sentido, travestidas em um discurso inteligente. Trata-se apenas de um exercício na arte de ser verborrágico, de enfeitar o pavão literário, com palavras bonitas e difíceis e, em contrapartida, muito pouco ou nada dizer. Portanto cuidado com os discursos empolados. Seu conteúdo em geral é tão encorpado quanto um pastel de vento, daqueles com muita massa e quase nenhum recheio.

Em tempo: Paul Freeman e Dr. Willian Lark são figuras fictícias.





quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Entrevista: Rui Zink

Rui Zink (Lisboa, 1961) é um escritor português com extensa e variada obra publicada de que salienta os romances Hotel Lusitano (1987), Apocalipse Nau (1996), O Suplente (1999) e Os Surfistas (2001), e os livros de contos A Realidade Agora a Cores (1988) e Homens-Aranhas (1994). Lança o seu último romance, O Destino Turístico, em finais deste Outubro. Recebeu o Prémio do P.E.N. Clube Português pelo romance Dávida Divina (2004), e tem representado o país em eventos como a Bienal de São Paulo, a Feira do Livro de Tóquio ou o Edimburgh Book Festival. Professor universitário, é dado como o introdutor dos cursos de escrita criativa em Portugal.

Mais informações no seu site: http://ruizink.com/


Assisti a um vídeo seu num programa (creio que seja de televisão), chamado Sempre em Pé, no qual você compara a atuação do professor com o fazer stand up comedy. No Brasil há muito disso, de o professor "atuar" em escolas particulares e nos chamados "cursinhos pré-vestibular". A minha pergunta é a seguinte: o professor, o bom professor, é o que dá mais prioridade ao "o que" ensina, ou o que prioriza o "como" ensina? Há um meio-termo para isso?

Rui Zink: Há uma infinidade de meios-termos. O bom professor começa por compreender quem é e adaptar a panóplia de métodos disponíveis – muitos deles contraditórios – à sua personalidade. A regra é parecida com a escrita: eu faço o que posso, não o que quero ou gostava de fazer. Sem comunicação eficaz não há aprendizagem, sem nada para dizer também não. Mas uma antecede a outra. Preciso de saber se os interlocutores entendem o que digo antes de começar a dizer, né?

Você é professor, escritor e leitor em Língua Portuguesa. Qual é a sua opinião sobre a nova reforma ortográfica?

R. Z.: Sou inteiramente a favor. Só peca por tímida. Quero que os meus filhos possam viajar pelo mundo em português e ganhem dinheiro falando português. Isso só é possível graças ao Brasil, desde há mais de um século o nosso maior embaixador.

Um aluno ou um escritor em início de carreira devem ser penalizados por escrever com pontuação incorrecta, mas a mesma que é usada por escritores aclamados como Lobo Antunes?

R. Z.: Sim, um aluno deve ser penalizado. Primeiro dominar as regras, depois quebrá-las. Lobo Antunes, tal como antes dele Joyce, Faulkner, Guimarães Rosa, Raymond Queneau, etc., domina-as com mestria. O caso dum escritor é diferente do de um aluno, mas qual o interesse de escrever “tal e qual” outro escritor? Escritor, para mim, é aquele que cumpre o ditado: “Quem conta um conto acrescenta um ponto.” Tudo o mais é redundante. E, sim, a maioria dos nossos tele-escritores são nesse sentido redundantes. Porque se limitam a pisar caminho trilhado, a pôr os pés nas marcas alheias, tanto no que dizem como no modo como dizem.

O que o fez iniciar os cursos de escrita criativa?

R. Z.: A poetisa Ana Hatherly, minha mentora, sabia que eu tinha estado nos EUA e me interessava pelo assunto. E desafiou-me a fazer isso com alunos da [Universidade] Nova, em 1991. Acredito que o jogo com as palavras e as ideias pode ajudar as pessoas a tornarem-se melhores escritores do que eram e, sobretudo, melhores leitores.

É possível aprender a ser escritor, ou seja, é possível estudar para sê-lo? Há "técnicas" para isso?

R. Z.: É possível aprender e apreender técnicas, tal como é possível aprender a tocar piano ou a pintar ou a dançar. Naturalmente que dar o passo extra depende de algo que não se pode ensinar e que a pessoa tem ou não em bruto dentro dela. Mas o treino, a técnica e a teimosia ajudam, e não há artista digno desse nome sem nenhuma destas três coisas.

Qual é o seu primeiro conselho a um aspirante a escritor?

R. Z.: Ler e copiar, copiar muito. E, já agora, viver.

Concorda com o apelo à concisão de Saul Bellow? Onde termina uma narrativa literária concisa e começa uma listagem de frases ligadas por um mesmo tema?

R. Z.: Boa questão. Obviamente o apelo de Bellow tem uma batota: ele fê-lo depois de ter escrito prolixos calhamaços. Mas a busca da palavra exacta parece-me tão aconselhável como a busca da nota certa. Senão somos como aquele aluno a quem o professor pediu quanto eram 2+2 e que responde 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, e fica espantado por chumbar, já que deu a resposta certa.

Um escritor principiante deve ousar experimentar novas estruturas narrativas ou deve ater-se às consagradas pela literatura?

R. Z.: E porque não ambas? Com peso e medida umas vezes, sem peso nem medida outras.

Ter um "estilo próprio" é coisa a acalentar como virtude ou é um vício de escrita a combater?

R. Z.: É um objectivo a acarinhar. Mas não serve de nada pensar muito nisso. Ou se chega ou não se chega. Só é escritor, para mim, quem alcança uma voz própria.

Existe má literatura? Que critério tem para dizer que um texto é boa ou má literatura?

R. Z.: Sim, existe. Aquela que maltrata a linguagem ou se limita a reproduzir ideias e frases gastas de tanto uso. Margarida Rebelo Pinto, José Rodrigues dos Santos e Miguel Sousa Tavares não são (até à data) bons escritores, o que não significa que os seus livros não entretenham nem desmereçam de ser lidos ou comprados. Mas não são bons e quem achar o contrário (a começar pelos próprios) está lamentavelmente equivocado. Mas eu próprio gosto de ler maus livros, tal como há bons autores que não me convenço a ler.

Uma história construída com o objectivo de transmitir uma ideia política, filosófica ou científica pode ser boa literatura? Como?

R. Z.: Pode. É o caso de Gonçalo M. Tavares, Musil, Brecht, Soeiro Pereira Gomes. Mas é raro.

Quando acha que alguém escreve muito bem, aconselha-o a continuar a escrever, ou a publicar? Ou seja, para si, é a escrita que deve ser incentivada ou a publicação?

R. Z.: A escrita é íntima, a publicação não. Se acho que uma pessoa tem talento para cantar, aconselho-a tentar gravar um disco, pois é simpático partilhar. Além de que, publicando e tendo eco (aplausos, bombons, dinheiro), a pessoa tem incentivo para trabalhar mais e crescer.

Prosperar na carreira de escritor é uma questão de talento, sorte ou persistência?

R. Z.: Depende do que se entende por “prosperar”. De qualquer modo, uma conjugação das três ajuda sempre. Não há receitas.

Ao escrever, o que o decide a optar por um conto ou por um romance: o tamanho da história a contar; a intensidade pretendida; ou o quê?

R. Z.: O tempo que eu acho que a história pede. O Bicho da Escrita não aguentava mais de oito páginas, embora pudesse ser esticado por duzentas. O Destino Turístico exige uma leitura prolongada – sobretudo um longo primeiro capítulo (que vai até metade do livro e dura tanto como os doze seguintes).

Na sinopse que você mesmo dá (foi você mesmo?) ao livro Homens-Aranha, você menciona o fato de que "as melhores histórias" são as que ao autor não é necessário inventar nada. Há quem diga, embora não recorde quem o diga, que a literatura não deve ser autobiográfica. Até onde a "vida real" deve ser a massa da ficção?

R. Z.: Tal como eu não posso pintar a cor verde com tinta vermelha, também não posso imaginar sem ser a partir da pessoa que sou e fui. O que somos é a matéria-prima a utilizar, mas obviamente que é apenas o trampolim, não o salto. E todos nós já lemos livros em que tivemos a percepção de que o escritor não fazia ideia do que estava a falar e nos soaram a falso, não é?

Após o sucesso de O Código Da Vinci, multiplicaram-se as obras sobre "mistérios" ligados a seitas, escondidos pela Igreja ou por antigas irmandades. Esse filão não acaba por tornar-se repetitivo? Os escritores estão escrevendo sobre isso apenas porque viram que tem leitura ou porque os temas atuais estão esgotados?

R. Z.: Quem não quer ser papagaio não lhe vista a pele.

Existe mesmo uma indústria cultural que controla os destinos do mundo capitalista, ou isso é intriga da oposição? Independente de existir ou não, em um cenário de poucos leitores (como o Brasil), é válido que se leia porcarias desde que se esteja lendo? Ou é isso que "eles" querem que pensemos?

R. Z.: Comer um hambúrguer é melhor que não comer, ou mesmo que comer caviar podre. Mas obviamente que a leitura que me ajuda a crescer como leitor pode, um dia, já só servir para me impedir de crescer. Isto tanto funciona para os livros de entretenimento como para a papa Nestlé. É triste se um adulto pleno, que já não vive com a mãe e tem a dentição completa, só comê papinha c’a mamã dá.

Ultimamente têm proliferado nas livrarias, pelo menos do Brasil, os romances ambientados em culturas bem distintas da nossa, com destaque para as histórias que se passam em países de maioria muçulmana. Isso se deve à natural curiosidade para com o que é diferente do que conhecemos? É um modismo? Ou faltam bons livros ambientados no Brasil/Portugal?

R. Z.: Nihil obstat, desde que o autor tenha dado o seu melhor. Um autor é livre de escrever sobre o que quiser com o seu tempo livre. E uma pessoa não escreve sobre o que quer, escreve sobre o que pode. Há assuntos sobre os quais eu gostava de versejar, mas sinto/sei que não consigo. Felizmente, com sorte, aparece sempre alguém que o faz melhor.

Em mais de 100 anos de Prêmio Nobel, apenas um único autor de língua portuguesa foi laureado. A que você atribui esta indiferença global em relação aos autores lusófonos? É uma questão qualitativa, lingüística, política ou o quê?

R. Z.: Os suecos são um povo maravilhoso, mas não encontrei nenhuma passagem da Bíblia onde diga: “E a Academia Sueca dirá qual é o melhor escritor do mundo.” Obviamente a limitação é deles, que lêem poucas línguas, e a vergonha é para eles, não para Guimarães Rosa, Clarisse Lispector, Jorge Amado, Lígia Fagundes Telles, João Cabral de Melo Neto, Drummond de Andrade, Moacyr Scliar, Rubem Fonseca…

O que falta e o que sobra na ficção contemporânea, em geral, e na ficção contemporânea em língua portuguesa, em particular?

R. Z.: Sobra truque barato para agarrar o leitor, sobretudo a leitora, falta algum trabalho crítico sobre a linguagem. Os escritores não podem cair na armadilha de dizer o que acham que o leitor quer ouvir – isso é tarefa de político.

O que reserva o futuro ao mercado editorial? O livro impresso está "condenado" a desaparecer? Desmembrando a pergunta: qual é a sua visão sobre o fenômeno da publicação on-line?

R. Z.: Nada contra o online, excepto o facto de não receber a minha percentagem, à qual eu tenho direito, pois não roubei ninguém e filhos tenho só dois. Há espaço para ambos, mas as gerações futuras não vão ter o “amor ao papel” que quem nasceu no meio do século passado tem. Nada de grave.

Que pensa de adaptações para outras mídias – coisa que parece ter ficado tão comum ultimamente: literatura para o cinema, quadrinhos (aqui) ou banda desenhada (aí) para o cinema, true stories para o cinema?

R. Z.: Prefiro sinergias a adaptações. Mas tenho o maior respeito por todas essas formas, de que sou consumidor – e, de muitos autores, admirador.

Qual a resposta à pergunta que uma comunidade de escritores principiantes ou/e pouco conhecidos devia ter feito, mas não fez?

R. Z.: A resposta à pergunta só pode, obviamente, ser uma pergunta: “Qual o sentido do dito ‘ler é escrever, escrever é ler’?” A leitura é um prolongamento, por letras, de um acto que fazemos desde o nascimento até à morte: ler o mundo, ler os sinais, unir os pontos no desenho, não para atingir o desenho que o autor imaginou, mas um outro, sempre um outro.


Coordenador da entrevista:
Joaquim Bispo

Perguntas feitas por:
Henry Alfred Bugalho
Joaquim Bispo
Maria de Fátima Santos
Maristela Scheuer Deves
Volmar Camargo Junior





Colóquio entre roedores, ou não.

Volmar Camargo Junior

 


Coelho — E aí, rato! Como andam os processos contra as empresas?

Rato — Contra a dos computadores eu ganhei ano passado. Mas difícil mesmo está contra a dos desenhos animados. Os advogados deles são umas cobras. E tu, coelhinho, conseguiu alguma coisa da revista?

Coelho — Nada. Quer dizer, consegui o telefone de umas gatas...

 

***

 

Rato — Mas e então, coelhinho... como é a experiência de pôr ovos de páscoa?

Coelho — EU NÃO PONHO OVOS!!!

 

***

 

Coelho — Vem cá. Eu rôo as coisas muito mais que você, e não sou roedor. Como é que pode?

Rato — A mídia pode acabar com a reputação das pessoas. Não vê o caso dos morcegos? Viveram séculos alegando que eram ratos com asas.

 

***

 

Rato — Tá vendo aquele pombo? Odeio pombos.

Coelho — Por quê? São tão bonitinhos.

Rato — São uns porcos, isso sim! Imagina que transmitem muito mais doenças que nós, e as pessoas jogam milho pra eles na praça.

 

***

 

Coelho — To me sentindo tão estranho... Tipo um vazio, sabe?

Rato — Coitado. Se alimentou direito?

Coelho — Sim.

Rato — Tá com problemas no trabalho?

Coelho — Não.

Rato — Doença na família?

Coelho — Nada.

Rato — Grana?

Coelho — Nem.

Rato — O que é então? Coelho? Coelho? Por que tá me olhando assim?

Coelho — É que você tem umas orelhinhas tão sexy...

 

***

 

Rato — Er... O que que há, velhinho?

Coelho — Odeio essa piada.

 

***

 

Rato — Sabia que o melhor amigo do Bambi era um coelho?

Coelho — E você, sabia que os ratos são os animais geneticamente mais parecidos com os seres humanos?

Rato — Tá. Já chega. Você não sabe brincar.





terça-feira, 14 de outubro de 2008

Microcontos

Presente de Natal

O menino desembrulhou o presente.
— E aí, filhão, gostou?
— Eu queria o azul! — e foi brincar com as bolas coloridas da árvore.

***

Neurótica

Matou o marido com uma escova-de-dentes.

***

Autoconhecimento

Partiu para a Índia em busca de si mesmo, mas só encontrou uma intoxicação alimentar.





Microcontos

Por Denis Cruz


Vontade de Mandar


Rui não conseguia que a esposa obedecesse suas ordens.

Então, teve dois filhos, pois assim poderia mandar neles.

Hoje, sua prole tem 14 e 16 anos e nunca foram obedientes.



Quero Dizer que te amo


Minha querida esposa, eu queria dizer que... ah? Acabou o gás? Claro, claro, vou pedir outro. Eu queria... O quê? A pia tá entupida? Certo, eu já arrumo, mas antes queria dizer que... Meus sapatos? Eu não podia entrar no quarto com os sapatos? Ah sim, perdão, mas saiba que... Hoje cedo? Uma toalha molhada sobre a cama? Sim, era minha, perdão... Mas, por favor, deixe eu dizer que eu te... Eu esqueci de novo de abaixar a tampa da privada? Que coisa importante, né? Sempre me esqueço dessas coisas importantes, nao é? ... Ah, claro, igual quando deixo camisa pendurada pela casa, cueca tirada toda do avesso, esqueço de tirar o chinelo de andar dentro de casa para andar fora e de o de andar fora para entrar dentro de casa. Perdão... Mas eu queria dizer... queria dizer... Bem... Querida esposa, VÁ À MERDA...








segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Três poesias

Bichinho de conta

De feitos defeitos nicho bem apertado e fechado
De leite deleite por tantos portantos por conta
És diz que diz não diz, léxico, disléxico controlado
O mais são ignorados direitos, vida de outra ponta

Cor, de cor, acção, decoração de coração!

És entrada e saída de lixo e não te interessas
Desaire, de Zaire, transmitido, exclusivo directo
Falta demorada de tecto, de morada, detecto
Sempre de ti partes e a ti enroscado regressas

Cor, de cor, acção, decoração de coração!

Bichinho de conta, em mundo "faz de conta" falcão
Nessa com posição decomposição de composição
Jogando tudo e o todo e os outros todos pro vento
Quando mais conta na conta teu gordo provento


Hoje sou...

Tronco oco pouco do nada,
flutuar ao abandono para lugar nenhum,
muitos diversos tantos e tanto não tanto um...

Sou início efémero de tarefa que acabei
e substâncias variadas de ser que já não sei,
um rasto gasto e vão em olhar do devir ausente

Sou vida ocupada procurando de mim,
forçar danado em rotina estática, retina de fim,
uma percepção terrena, plena perfeita ilusão de gente

Sou o Hoje, o eu e o tu, sou assim
Luz pálida de diferente dizer de adeus, 
Restos que voam de restos de mim...

Sentir

Como leve tocar nas barbas do riso do vento
Como um ter de corpo em escarnecer do tempo,
és vitória doce e ser outro ser como se de nós fosse

Como observar nítido com o olhar fechado,
em mundo infinito, em dor e amor e grito calado,
és um ser de não mais ter, és tanto tão querer

Como nós, assim és tu: sentir de sentir imperfeito
solta argamassa, pedaço de raça, escura que é a taça...

de que sou feito!





domingo, 12 de outubro de 2008

Lua – Sol – eu

Guilherme Augusto Rodrigues

A Lua solitária
Que ama o Sol
Sempre tão bela no céu
Queria vestir véu
E se casar.

Sol, sozinho, ardente!

Lua e Sol se amam.
Se vêem em eclipses
Mas nunca ficam juntos.

A Lua sempre tão bela
Passa noites em claro
Pelo seu amor.

Sozinha, sempre alegre, espalha amor.

Olhando.
Eu, solitário,
Me convenço
Que assim devo ficar.





Reencontro

Guilherme Augusto Rodrigues

Aquele rapaz sentado à mesa do bar tinha me chamado à atenção. Principalmente por tomar um refrigerante de uva! Poderia tomar qualquer coisa, mas refrigerante de uva era o mais barato do mercado! Isso já seria suficiente para muitas mulheres desistirem logo de cara. Prova de que é um pobretão falido.
Tinha o olhar sereno de um sábio. Era calmo e transparecia ter lido vários livros, conhecedor de muitas coisas. Achei que poderia tomar o refrigerante por gosto. Uma mente revolucionária, talvez. Ir na contramão de todos ou fazer algo que todos querem fazer, mas ninguém faz.
Usava óculos com lentes redondinhas, projetando sua visão mais à frente. Vestia roupas simples, nada de marca, como pude perceber. E assim mesmo não perdeu a elegância. Também nada de moda. Personalidade. As roupas simples deram-lhe um toque a mais.
Seus braços fortes, suas mãos bonitas segurando o copo com a firmeza que se deve pegar uma mulher.
Discretamente, fiquei olhando e tomando meu suco, lançando olhares sexy e quando olhasse faria um velado (mas não tanto) sinal.
Ele olhou algumas vez, mas, admito, tive vergonha e desviei o olhar. Situações assim me deixa toda sem jeito. Agora tomo coragem para o segundo plano.
Dei mais um tempo e pude refletir: ele me atraiu porque prestei atenção nos detalhes, fui além do refrigerante de uva. Uma mulher se fizesse o que fiz logo se interessaria. Ainda mais com um topete jogado ao vento. Bem poderia ser um aviador. Olhando tudo de cima.
Tive a idéia de pedir um cigarro:
– Com licença, você teria um cigarro?
– Não fumo, moça.
– Ah... Queria tanto fumar...
Dito isto, o rapaz saiu da mesa. Em seguida voltou com um maço de cigarros.
– Que gentileza! Que fofura! Muito obrigado!
“Droga! Agora tenho que fumar.”
Eu não gostei. Gostaria... Se eu fumasse, mas foi realmente muito gentil. Outras poderiam tê-lo chamado de trouxa.
Para retribuir, tinha que fumar. Abri o maço com dificuldade e até quebrei minha unha. Ele olhou, prestava atenção nas minhas mãos desajeitadas para abrir o maço. Talvez percebera que eu não levava a menor afinidade com o cigarro.
– Até hoje não inventaram um maço fácil de abrir – eu disse com uma risada forçada tentando disfarçar.
– É... Você pode se sentar, se quiser.
– Obrigada... Você... trabalha por aqui? É aviador?
– Hahaha... Que criatividade!
– Seu topete não deixa enganar – disse e sendo espremida por um muro.
– Eu não sou aviador, não. Deve ser muito bom. Na verdade, trabalho na livraria na outra quadra.
Um palpite certo!
– Hum... Vende livros. Eu adoro ler.
– Recomendarei bons livros quando for. O que você faz?
– Trabalho na loja de roupas “Vestir-se”, uma quadra pra lá.
– Do lado oposto de mim. Qual seu nome?
– Mariana. E o seu?
– Fernando...
– Quando precisar de roupas, você sabe, lá tem de diversos tipos.
Ele já estava impaciente de me olhar gesticular com o cigarro para lá e para cá, falar e não acendê-lo, tanto que nem agradeceu pelo convite. Pedi um isqueiro à garçonete.
– Coff... Coff... Coff...
E com a cara vermelha, cuspi a fumaça.
– Engasguei – disse muito sem graça.
Ele queria que eu fumasse para ter a prova.
– Por que você faz isso?
– Isso o quê? – tentei me esquivar.
– Você não fuma.
– Sim, eu fumo.
Ele olhou sério e desaprovador.
– Eu só queria... Me aproximar de você... E conversar, te conhecer... ¬– disse entristecida.
Então, pegou na minha mão e afagou-a.



(NOTA: Este texto é o primeiro de uma longa história que terá uma continuidade, se possível, a cada mês. Aguardem!!!)





sexta-feira, 10 de outubro de 2008

O Paradoxo da Morte

— Lisa quer sair para fazer cocô, querido — era verdade, a cachorrinha estava cheirando a coleira, dependurada perto do interfone.
Antônio coçou a barriga roliça e peluda, botou o controle remoto de lado e, sôfrego, se levantou. Maria fazia as unhas na cozinha, pé apoiado na cadeira, algodão entre os dedos.
— Estou indo — ele vestiu uma camiseta e calçou as Havaianas. Engatou a guia na vira-lata e saiu,
— Vou deixar a porta aberta, ‘tá? Já voltamos.
— Só não deixe Lisa mijar em frente à pizzaria. O dono me deu uma bronca ontem.
— Lisa vai mijar onde quiser — Antônio riu, fechando a porta.
Estava quente, um pouco nublado, mas um mormaço de matar. Por isso, Antônio resolveu dar uma voltinha expressa, só ao redor do quarteirão. Lisa fez xixi na frente da pizzaria, cocô num canteiro perto da esquina. Iniciaram o caminho de volta.
Lisa tentou brigar com um buldogue no elevador, a vizinha gostosa ria, achando graça na peleja, o buldogue babava, sem achar graça alguma. Ao sair do elevador, Antônio reparou que a porta estava entreaberta. Lisa latia, em desespero. Encontrou Maria no chão da cozinha, mergulhada em sangue.
Antônio se ajoelhou na poça, segurando a cabeça da esposa, murmurando frases sem sentido como:
— Tudo vai ficar bem, amor.
— A polícia já está chegando.
— Amanhã é aniversário da Juliana, você não pode nos deixar.
Mas a mulher já estava morta, a polícia ainda não havia sido chamada e a festa de aniversário da filha teria de ser adiada indefinidamente. Lisa uivava, pranteando a dona falecida.
Antônio consultou o relógio, em meia hora, Juliana chegaria da aula de balé. Ligou para a emergência, chorando, repetia que mulher não estava respirando, deu endereço, telefone, sem muita clareza, sem muita certeza se estava passando os dados corretamente. Em seguida, ligou para a polícia, relatou o assassinato, e conjeturou que o criminoso talvez ainda estivesse nas redondezas. Por fim, ligou para o celular da filha.
— O que aconteceu, pai?
— Ju, um acidente. Sua mãe não está nada bem. Vá para a casa da Rafaela e fique lá até eu te ligar, mais tarde, OK?
— É algo sério?
— Bem sério, mas tudo vai ficar bem. Confie em mim.
Os paramédicos chegaram e logo constataram que não podiam fazer nada. A polícia também apareceu, isolou o local e fez perguntas a Antônio. O rabecão do IML levou o corpo.
Por ser uma cena de crime, Antônio foi autorizado a juntar apenas uma muda de roupas e a cachorra. Passou pela casa de Rafaela, para conversar com Juliana.
— Como a mãe está?
— Amanhã você vai vê-la, Ju. Temos de ser fortes... — ele abraçou a filha, beijou-lhe a fronte — Durma aqui hoje à noite. Estarei na casa da tia Paula. Se precisar de alguma coisa, ligue.
De fato, na casa da irmã, Antônio só deixou a traumatizada cadelinha e voltou para a cena do crime. Subiu até seu andar e refez todos seus passos, do momento em que saiu da casa, deu a volta no quarteirão, e retornou ao apartamento. Tentou rememorar qualquer imagem inusitada, ou pessoa estranha entrando ou saindo do prédio. Mas nada.
O ideal seria aguardar a perícia policial.
Mas a polícia também não tinha nenhuma conclusão satisfatória, sem digitais, sem quaisquer indícios de arrombamento (é óbvio, a porta estava aberta), sem testemunhas, sem suspeitos, ou seja, de antemão, um crime insolúvel.
Este tipo de resposta jamais satisfaria Antônio. Sua mulher foi assassinada, porra! O mínimo que ele queria era pôr as mãos no culpado, e que ele apodrecesse na cadeia!
Naquela manhã, Juliana viu o cadáver da mãe, chorou muito. Implorou ao pai que descobrisse quem era o assassino, ele jurou que o faria, abraçaram-se.
Maria foi velada, vieram parentes de longe, primos, tios, pai, mãe; pãozinho francês com margarina sendo mastigado na copa da casa funerária, piadas sussurradas pelos cantos, rezas sobre a morta. Maria foi sepultada, os parentes voltaram para suas cidades, Juliana pra casa da tia Paula, e Antônio para seu apartamento, tentar cumprir com o que prometera à filha.
Perto da mesa de jantar, aquela mancha negra, sangue coagulado; Antônio se deitou sobre ela, na mesma posição em que encontrou a esposa; cerrou as pálpebras, respirou fundo. Há vinte anos não fazia isto, desde quando era um adolescente, crente em tudo que era esotérico ou místico. Havia praticado meditação, ioga e aspirado ao nirvana. Teve experiências estranhas, mas após se encontrar, possivelmente no plano astral, com um demônio, abandonou todas as crenças na imortalidade da alma, em reencarnação, e todas estas bobajadas que não passavam de devaneios da mente.
Mas que não eram devaneios porcaria nenhuma.
Ouvindo sua respiração, livrando-se dos pensamentos, aquietando a angústia de seu coração, Antônio começou a voltar, mentalmente, no tempo.
Uma hora atrás, a poça no chão.
Duas horas atrás, a poça no chão.
Um dia atrás, a poça no chão.
Dois dias atrás, ele, ao lado da esposa morta.
Minutos antes, Maria, esvaindo-se em sangue, agonizando.
Antes, um homem, mascarado, luvas, faca na mão, degolando Maria.
Antes, ele, pondo a guia em Lisa e saindo.
Antes, ele, coçando o saco diante da TV.
Antes, o casal almoçando.
Antes, Juliana saindo de casa para ir ao balé.
Antes, Maria e Antônio se espreguiçando na cama.
Antes, Antônio roncando, Maria se masturbando em silêncio.
Antônio abriu os olhos, donde lágrimas escorriam. O sol nascia pela persiana da janela da sala; olhou ao seu redor, e a cozinha estava diferente de quando ele havia chegado; a mancha no chão havia desaparecido. Ele se levantou, caminhou até o quarto e gentilmente abriu a porta, ele e Maria dormiam.
Não era sua mente que havia voltado no tempo apenas, era ele, em pessoa, que havia voltado. O coração de Antônio saltou no peito. Estava aí uma oportunidade não somente para descobrir o assassino, como para também evitar o crime.
Ele tinha de descobrir um lugar para se esconder naquele apartamento minúsculo.
Lembrou-se que Juliana sairia de casa antes que ele e Maria deixassem o quarto. Por isto, sentou-se em silêncio na sala, pegou um livro com capa reluzente (nunca sequer havia sido folheado antes) e fingiu ler.
A porta do quarto de Juliana se abriu e a menina saiu, pijamas e remelas:
— Nossa, pai, você está lendo? E nestas horas da manhã!
— Sempre há hora para se começar a criar o hábito. Talvez você também devesse tentar.
— Sai fora, pai! — Juliana riu, e desapareceu no banheiro, xixizinho e escovar de dentes.
A menina se trocou e saiu, bolsa com vestido e sapatilhas a tiracolo.
— Tchau, pai, te amo!
— Eu também, Ju, se cuida.
Aproveitou e se atocaiou no quarto da filha, ele e a esposa nunca entravam lá, então, seria um bom esconderijo para aguardar até o momento do crime. Conferiu o relógio, faltava bastante tempo ainda.
Olhou pela janela, o mundo corria normalmente lá fora, o tempo em seu ritmo normal, realmente não era devaneio, Antônio havia voltado. Ele sorriu.
Ouviu ruídos na cozinha, Maria preparava o almoço. A televisão foi ligada, era ele assistindo TV. Ruído de talheres, almoçavam. Arroto na sala, era Antônio coçando o saco. Lisa acordou, raspava na porta do quarto de Juliana.
— Amor, o que a Lisa quer ali? — Antônio perguntou.
— Não sei. Dá um biscoito que ela esquece — dito e feito, Lisa não mais arranhou a porta.
Alguns minutos depois, Antônio ouviu a voz de Maria falando para Antônio:
— Lisa quer sair para fazer cocô, querido.
Antônio na sala de levantou, preguiçoso; Antônio, escondido no quarto, encostou o ouvido na porta; Antônio pôs a guia na cadela, saía.
— Vou deixar a porta aberta, ‘tá? Já voltamos — disse Antônio.
Maria pediu que Antônio não deixasse Lisa mijar em frente à pizzaria, Antônio respondeu que ela mijaria onde quisesse. Saiu.
Antônio, no quarto da filha, abriu uma fresta na porta. Agora, vinha a questão, o assassino estava armado, ele, mãos nuas. Percorreu o quarto de Juliana à procura duma arma: o porquinho de moedas? Não! Os patins roller? Não! A raquete de tênis? Aí estávamos começando a conversar.
Antônio se pôs à espreita, raquete na mão, aguardando o momento certo.
Alguém entrou no apartamento.
— Amor, já voltou? — Maria perguntou da cozinha.
O bandido botou a faca no pescoço de Maria:
— Não grita não, moça! É só abrir as pernas, é rapidinho.
Enfurecido, Antônio correu para fora do quarto, raquete pronta para atingir a cabeça do bandido.
O criminoso deslizou a faca no pescoço de Maria, sangue escorreu. Num malfadado golpe, Antônio atingiu o ombro do assassino, este respondeu metendo a faca no bucho de Antônio. Ele caiu; o assassino fugiu.
Antônio, agonizando, abraçou Maria, agonizando. Morreram, juntos.

Antônio volta do rápido passeio com Lisa, abre a porta e encontra dois corpos, um da sua esposa, o outro, dele mesmo.
Desaba a chorar, mas não sabe se pela esposa morta, ou se por ver-se morto estando vivo.





A Atualidade do Conto

O conto é provavelmente a primeira forma narrativa da Humanidade. Sua origem se confunde com a necessidade intrínseca do ser humano de contar uma história a seus pares.
Tudo começa com uma história, o que há para ser contado, o enredo. O conto é curto o suficiente para entreter e não entediar quem o ouve ou lê, mas longo o suficiente para ocupar o tempo dos ouvintes/leitores.

Esta unidade temporal é a base do conto: uma história, um evento, com brevidade.
Mas os gêneros longos, como a epopéia e, posteriormente, o romance, precipitaram o conto a um poço de desprezo. A brevidade da forma se tornou sinônimo de frivolidade; a unidade serve para acusação de ser uma forma simplória.

Quase todo escritor canônico, por mais que tenha se aventurado a escrever contos, necessitou duma obra longa para legitimar seu talento. São raros os exemplos de autores meramente contistas, e podemos incluir Maupassant, Pushkin, Borges e Dalton Trevisan nesta lista, mas mesmo estes também tiveram de ceder às obrigações de gêneros mais longos.

E é a ilusão de facilidade que motiva vários escritores iniciantes a escreverem contos; na verdade, basta produzir um texto de duas ou três páginas para poder batizá-lo de conto. As reflexões teóricas de grandes autores também não contribuem para uma definição consensual, por isto, chegou-se à conclusão de que conto é qualquer coisa de indefinível, que apenas o autor é quem possui o privilégio de afirmar se um texto é conto ou não.

Os norte-americanos são bastante pragmáticos, estipulam o limite máximo do conto em vinte mil palavras; os latino-americanos são bem mais românticos, apresentando rebuscadas teorias sobre o conto, sempre lançando a questão e a solução para o nível subjetivo.

Mas todos parecem concordar em um ponto: o conto é uma unidade, fala dum único assunto. Para termos uma idéia do que isto significa, basta vislumbrarmos a vida duma pessoa — nascemos, crescemos, freqüentamos uma escola, muitos se casam, têm filhos, vão ao trabalho, envelhecem, morrem... —; se apanharmos a totalidade desta vida, ou boa parte dela, podemos escrever um romance, no entanto se apanharmos apenas um destes aspectos, casar-se por exemplo, ou parte deste aspecto, então poderemos escrever um conto.

O romance abrange uma totalidade, que pode ser a soma das partes da vida dum personagem, ou a soma de trechos das vidas de vários personagens; o conto, por sua vez, procura a singularidade, o ponto crítico, o momento único. O romance é um filme, precisa do tempo para contar sua história; o conto é uma fotografia, apresenta toda sua mensagem quase que instantaneamente, agarra o leitor na primeira linha e o liberta na última, não tolera arestas, não pode ser cansativo.

Durante milênios, o conto possuiu um papel acessório. Tratava-se dum exercício literário, no qual os autores podiam testar suas habilidades narrativas. Contudo, da metade do século XX em diante, o conto começou gradativamente a assumir um novo papel.

O romance, enquanto divertimento burguês, exige tempo e contemplação. O leitor se recolhe a seu quarto, ou senta-se numa poltrona e por horas mergulha naquele mundo.

Mas o conto está de acordo com o ritmo do mundo industrial, frenético, em constante mudança. O leitor encontra um conto que o agrade, lê-o por alguns poucos minutos e parte para o próximo texto. O leitor contemporâneo anseia por mais informações, pela maior quantidade de dados que possa adquirir no menor tempo. O conto supre esta necessidade; é dinâmico, rápido e facilmente assimilado. Pode até causar grande transformação num leitor, mas a sua pequena extensão promete uma acessibilidade.

Geralmente, os melhores contos são justamente aqueles que não são fáceis, que mesmo consumindo alguns poucos minutos, acabam por reverberar por dias ou anos na mente do leitor.
Poucas formas são tão atuais quanto o conto, e poucas possuem tanto potencial de exploração criativa e tamanhas exigências para o autor.

O desafio do contista é falar muito em poucas linhas, o do leitor, compreender o verdadeiro valor da narrativa curta.





quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Você conhece o Indriso?




 

Volmar Camargo Junior

 

 

Por mais que pareça, Indriso não é nome de gente. Quer dizer... pode até ser, se você é daquelas pessoas que coleciona nomes curiosos para dar aos filhos. Nesse caso, inclua aí em sua lista os nomes Ode, Soneto, Rondó, Quadrinha, Haicai ou, quem sabe, Poetrix. Indriso é, na verdade, uma forma poética.

 

Isidro Iturat, o criador desse inusitado tipo de poema, nasceu na Espanha em 73, é escritor, professor de língua e literatura espanholas. Desde 2005 vive aqui no Brasil, na capital paulista. Segundo o autor, o indriso nasceu quando ele refletia sobre a forma tradicional do soneto e, experimentando, num “processo de condensação estrófica”, escreveu este poema:

 

Luna Menguante

 

El centauro se asoma por la ventana
y la mujer dormida está hablando en sueños.
Llora y ríe, porque un centauro la rapta.

Cabalga en su sueño la mujer dormida,
cabalga en su sueño y es cabalgada.
En la selva, nadie la oye cuando chilla.

Llora y ríe como nunca en su vigilia.

 

El centauro la mira... por la ventana.

 

Pois, na definição teórica de seu criador, o indriso

 

“...es un poema que consta de dos tercetos y dos estrofas de verso único (3-3-1-1). Tolera cualquier tipo de medida en el cómputo silábico, lo que hace de él una forma a la vez fija y dinámica: en el eje vertical, la disposición no variable de la estrofa; en el eje horizontal, las variaciones en la cantidad. Admite además todos los grados y géneros de rima.”

 

            Em bom tupiniquês:

 


O indriso é um poema composto de dois tercetos e duas estrofes de verso único (3-3-1-1), que permite um uso livre da rima e o número de sílabas nos seus versos.

(http://www.indrisos.com/ensayosyarticulos/definition.htm#7)

 

 

Assim como o poetrix, o indriso é uma criatura moderna, a releitura de uma forma tradicional, que, a despeito do grande valor que estas últimas sempre tiveram e continuam tendo, desenvolvem-se sozinhas, percorrem outros caminhos e atraem adeptos. Outra semelhança entre estes dois “entes” é que são precisamente delimitados no espaço-tempo: podemos, inclusive, encontrar com seus criadores – ambos vivem em território tupiniquim. Para o poeta amador medieval, discutir sobre o sonetto com seus criadores devia ser o máximo. Entretanto, a História e a Literatura, e, é claro, estes mesmos poetas, a este século legaram somente as criaturas. Quem sabe, no futuro, dirão de Isidro Iturat algo como na Wikipédia atual dizem de um certo Jacopo da Lentini, a quem alguns atribuem a criação do soneto.

 

            Em tempo, uma coisa que eu adorei foi a origem da nomenclatura: uma menininha de três anos, tentando dizer o nome do Isidro, insistia em chamá-lo “Indriso”. Mais um acaso curioso de um poema que nasceu, ao que parece, por geração espontânea.

 

           

Como eu não resisto a essas novidades (a última rendeu a primeira coletânea poética do pessoal da Oficina e da SAMIZDAT...), durante esse mês vou arriscar alguns indrisos. Na próxima edição do “Laboratório Poético” já sei qual será o cardápio.

 

 

_____________

- Sobre os Indrisos e seu criador, Isidro Iturat, acesse: http://www.indrisos.com. Aqui é possível encontrar a obra El Manantial, a primeira coletânea do autor, inteiramente disponível on-line (http://www.indrisos.com/manantialarchivos/portadamanantial.htm). Além disso, na seção colaborators (http://www.indrisos.com/colaboradores/indicecolaboradoresother.htm), há exemplares em outros idiomas além do espanhol. Inclusive tupiniquês.

- O símbolo no topo do artigo está na página inicial do indrisos.com. Achei tri bonito. 





quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Laboratório Poético

Volmar Camargo Junior


Distância

 

   entre         nós

      um         dois

espaço




 

O Sonho

 

Sonho que o sonho é o fim.

Cego, estranho, falho,

Esqueço o que sonho de mim.

 

 

O verso e o nada

 

Haveria canção no Universo

Se inverso fosse este nada,

E nada estivesse em verso.

 

 

O tempo, o verbo e o verso

 

Um ilude,

E o outro finge;

O terceiro acontece.



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Esquecimento

 

 

Não tenho paciência

Para a contemplação.

Cada quadro dessa galeria

Revela a justeza por que caminho,

As asperezas, as doloridas

Coisas, as jamais calejadas mãos,

Os impossíveis desapegos,

As tantas outras impropriedades

Que esqueço.

 

Não tenho paciência

Para o sono.

A perfídia do leito

Absorve cada hora perdida,

Cada fio de cabelo,

Os princípios e os fins,

As cãibras e

Os tantos sonhos vãos

Que esqueço.

 

Não tenho paciência

Para a poesia.

A tortura, a morte, a dor,

O rancor e a solidão

Não se enamoram de mim,

E nem eu pretendo dizer

“ouço estrelas”, ora,

Fujo desse destino tolo e dessa cruz

Que esqueço.

 

Não tenho paz.

Andam ao meu redor e imploram que eu as queira bem.

Eu ando, eu fujo, eu juro, eu tento

Mas tropeço e caio sempre no mesmo lugar.

Então, vencido

Pelas coisas mortas,

Pelas horas mortas,

Pelas letras mortas,

Esqueço.

 

Vencido, sou o nunca.

Sou o nada.

Sou o pó de uma rua velha,

Numa casa velha,

Num mundo invisível e velho.

Querer é um eco, que ecoa, e ecoa

Nesse templo vazio e oco

Que as coisas, as pálpebras e as palavras sabem

Que esqueço.

 

Não, eu não tenho mais paciência.

Urge a fome que há em mim

E tudo será engolido

E não terá gosto algum o que me nutre

Como sensaborões são o pó, o nada, o nunca,

A poesia, o sono e a vida.

Sim, eu sonho com esse óbolo,

Todas as noites, por horas, e ao levantar

Esqueço.

 






Companhia Limitada

Volmar Camargo Junior

 

 

 

 

            João Barros, engenheiro civil, levou seu currículo a uma empreiteira.

 

            No primeiro dia de trabalho, o chefe mandou-o descarregar uma caçamba de areia, carregar cinqüenta sacos de cimento, empilhar dez milheiros de tijolos furados e, antes do fim da tarde, devia lavar as ferramentas. Indignado, João Barros pediu demissão.

 

            — Não estudei quinze anos para trabalhar de servente de pedreiro.

            — Entendo... mas os meus pedreiros trabalham aqui há mais tempo que isso.

            — O azar é deles. Se puder fazer o favor de devolver meu currículo...

            — Assinou um contrato, rapaz. É meu funcionário, e não quero demiti-lo. Agora volte para a obra e só retorne aqui quando tiver calos nas mãos.

 

            Então ignorou a presença de João Barros voltando para a planilha sobre a mesa. O engenheiro vociferou.

 

            — Vou botar você na justiça, filho-da-puta.

 

            O chefe levantou-se devagar. Serenamente, andou até João com o currículo na destra, e, com a canhota, desferiu-lhe um murro na cara. Jogou o papel aos pés do rapaz.

 

            João Barros com o nariz arrebentado e a camisa ensopada de sangue deixou do escritório batendo a porta. Ao pisar na rua, ligou para o advogado da família.

 

“Quero tirar até as meias desse corno!”

 

Em todas as instâncias, após todos os recursos, cumpriu-se a justiça. Venceu João Barros.

                                                                  

O ex-chefe precisou vender a empreiteira para pagar a indenização. Voltou a ser pedreiro. Rodou a cidade procurando trabalho. Em todos os edifícios em andamento havia a placa de uma nova construtora, “João-de-Barro Engenharia & Cia. Ltda”. E o ex-chefe foi recusado em todas as obras.

 

João Barros fez a empresa triplicar seu capital. Em pouco tempo, estava muito rico. A cidade virou um canteiro de obras. Prefeito, Governador, até Ministro contratou a “João-de-Barro Engenharia & Cia. Ltda” para obras públicas. Pastores, padres e pais-de-santo mandaram erguer novos templos. Veio para o local uma emissora de televisão, um jornal de grande circulação, e um estúdio de cinema. A cidade cresceu. E João virou Dr. Barros.

 

Mesmo bem sucedido, Dr. Barros não era feliz. Sofria com um vazio inexplicável. Como compensação, gratificava a si mesmo com qualquer coisa que proporcionasse prazer. Certa noite, guiando seu esportivo, embrenhou-se na zona de tolerância. Distraído, pensando se queria uma companheira ou duas, atropelou alguém.

 

            Desceu.

 

— Você está bem? – perguntou sem obter resposta.

 

Ligou para a emergência, e no mesmo instante ouviu-se a sirene à distância. Abaixou-se para sentir a pulsação do indivíduo. Pondo-lhe os dedos no pescoço, olhou pela primeira vez para o rosto da vítima. Não teve dúvidas. Era o ex-chefe.

 

 

A ambulância chegou em poucos minutos. Os para-médicos encontraram, estendido no asfalto, um homem morto, vítima de atropelamento. Estava completamente nu.

           

            A sensação de vazio nunca mais incomodou Dr. Barros.