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sábado, 14 de março de 2009

Entrevista com Marcos Fernando Kirst


Nascido em Ijuí (RS), Marcos Fernando Kirst cursou Jornalismo na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) e trabalhou em vários jornais, entre eles A Razão, em Santa Maria, e Pioneiro, em Caxias do Sul. Atualmente colabora com a revista Acontece e o jornal Informante (Farroupilha). Também desenvolve trabalhos editoriais para a editora Belas-Letras, de Caxias do Sul.
Em outubro de 2008, lançou na Feira do Livro de Caxias do Sul o livro infantil O Gato Que Não Sabia de Nada, que trata de um gato com crise de identidade: não sabe se é gato, se é cachorro ou se faz parte de uma pilha de livros. A aventura, narrada pelo gatinho Bioy, é a estréia de Kirst em livro de ficção. A obra ficou entre as mais vendidas da feira. Na seqüência, o autor integrou a programação de eventos relativos às Feiras de Livros (lançamento, sessões de autógrafos e bate-papos literários) nas cidades gaúchas de Farroupilha, Ijuí e Porto Alegre.
Antes desse livro, Kirst participou de antologias, venceu concursos literários e publicou o livro A História nas Estantes – 60 Anos da Biblioteca Pública Municipal Dr. Demetrio Niederauer.

Samizdat: Qual é o maior desafio ao escrever para crianças?
Marcos Fernando Kirst:
O maior desafio é encontrar o tom certo. É conseguir escrever sem ser professoral – o que te distancia do público-alvo – e sem escorregar para um tom infantilizado – o que te faz parecer tolo aos olhos deste mesmo público-alvo. Escrever para crianças, na verdade, acaba não escondendo segredo nenhum a partir do momento em que você se propõe a fazer isto de uma forma honesta, de espírito aberto, e curtindo narrar da mesma forma como imagina que os jovens leitores vão curtir ao ler o que você escreveu. Acho que a sintonia acaba acontecendo é aí, na curtição.

Samizdat: O nome do narrador do livro O Gato que não sabia de nada é uma homenagem ao escritor argentino Bioy Casares, ou é mera coincidência?
Marcos Fernando Kirst:
É deliberado. Adolfo Bioy Casares é um de meus ícones literários, aprecio muito os contos e romances escritos por ele, assim como também aprecio muito a obra do grande amigo dele, Jorge Luis Borges. Borges possuía um gato chamado Beppo. Quando ganhamos um gato lá em casa, falei para minha esposa que gostaria de chamá-lo de Bioy, pois, uma vez que não escrevo com a genialidade de Borges, pelo menos poderia passar a ter um amigo com o mesmo nome do que o dele. No final das contas, o gato Bioy de verdade inspirou o gato Bioy do livro. Consegui me assemelhar a Borges por vias indiretas: assim como ele, também tenho um amigo chamado Bioy que me inspira na literatura.

Samizdat: Gatos são animais imprevisíveis, destruidores e apaixonantes. Além de seu próprio gato, há algum "gato de ficção" que o inspirou para criar o Bioy?
Marcos Fernando Kirst:
O universo felino é muito rico, criativo e sutil. Gatos têm personalidade própria, não concordo com o conceito de “todos os gatos: o gato”, que induz a pensar que todos são iguais e reagem da mesma maneira aos mesmos estímulos. Já tive muitos gatos na vida, e sei que cada um foi (e é) único. Bioy não foi o primeiro gato de estimação a me inspirar em minhas criações literárias. Quando adolescente e ainda morador na minha Ijuí natal, tinha um gato chamado Fips, que se instalava no parapeito da janela de meu quarto durante as tardes quentes e ficava me observando desenhar e criar histórias em quadrinhos, que eu produzia ajoelhado ao lado da cama, sobre a qual dispunha folhas em branco e desenhava com canetas hidrocor. O Bioy do livro é basicamente inspirado no Bioy que reina lá em casa, amalgamado com características de alguns outros gatos que tive. Mas acho ele uma criação única, e vejo que ele se sente, guardadas as devidas proporções, humilde mas confortável no mundo felino da ficção ao lado de Tom, Garfield, Félix, Manda-Chuva, Ronrom (o gato do Pato Donald, lembram?), Matinhos (o gato das Aristogatas) e tantos outros.

Samizdat: Ainda sobre inspiração: como você escreve ficção? Há uma programação?
Marcos Fernando Kirst:
O ato de produzir ficção está casado com meu hábito de consumir leitura desde que me conheço por gente. Desde criança, lia histórias em quadrinhos e depois criava minhas próprias histórias, com meus próprios personagens, meus próprios enredos. Fui crescendo, vieram os livros e comecei a produzir narrativas ficcionais. Entre os 14 e os 16 anos, escrevi três livros infanto-juvenis, um a cada ano. Todos devidamente engavetados, pois eram treinamentos para o que estava por vir. Chegou a juventude e comecei a escrever contos, com os quais, ao longo dos anos, fui ganhando vários prêmios literários, em Santa Maria e em Caxias do Sul. Escrever ficção, portanto, faz parte de minha essência pessoal. Escrevo muito e engaveto muito. Acredito que agora, com a maturidade, começa a chegar o momento de trazer à luz algumas destas coisas, algumas delas após submetidas ao óbvio e necessário processo de reescrita. Tenho dois romances inéditos escritos há poucos anos esperando a hora de nascerem oficialmente. Estou desenvolvendo dois livros de crônicas temáticas, ambos quase finalizados, e outro juvenil de aventuras também quase pronto. E muitos projetos literários já delineados para irem sendo trabalhados ao longo dos anos. Produzo ficção sempre que acontece o que chamo de “conjunção astral literária favorável”, que se concretiza no momento em que estou com vontade de escrever, tenho o tempo necessário e surge um tema instigante. São conjunções raras e, quando acontecem, procuro aproveitá-las ao máximo.

Samizdat: Com a honrosa exceção do Menino Maluquinho, a maioria dos livros para crianças ainda segue a ideologia das fábulas, com uma "moral da história" e tal... Será que dá pra escrever para crianças sem cair nessa panfletagem moral? Será que criança curte literatura pela literatura?
Marcos Fernando Kirst:
Tenho certeza absoluta de que criança – talvez até mais do que adultos – curte literatura pela literatura. Na verdade, crianças curtem histórias, e não fazem nenhuma exigência de “moral no final”. Quem exige isto são os adultos (alguns), e acabam impondo esta condição para as artes voltadas às crianças. É a mesma coisa que, no universo adulto, exigir posicionamento e reflexão política nas obras de arte. Arte é arte, e não “tem que” nada. Arte precisa, sim, causar prazer estético, e ponto final. Música, escultura, teatro, cinema, dança, literatura e todas as artes têm uma só obrigação: tocar a alma, encantar. Se um autor desejar usar alguma espécie de arte para passar determinada mensagem específica, ótimo, vá em frente, é um formato válido. Mas não é uma exigência intrínseca ao ato de fazer arte. As artes não têm a obrigação de serem engajadas a nada. Independentemente da faixa etária a que se destinam. Da mesma forma, a literatura dita infantil tem uma só obrigação: encantar seus leitores. Se conseguir fazer isto, estará já fazendo muito, pois estará tocando almas, abrindo olhos, revelando universos.

Samizdat: Pensando num público mais juvenil, o sucesso das séries Harry Potter e Desventuras em Série parece colar no bom e velho bem contra o mal e no desafio de ler sempre o próximo volume. Você leu essas obras? O que acha delas?
Marcos Fernando Kirst:
Conheço as obras e assisti aos filmes derivados delas, sei do que tratam e de como seus autores escrevem. O velho clichê maniqueísta do bem contra o mal permeia a literatura (o cinema e a televisão também) desde sempre, e não vai mudar, pois é uma fórmula de sucesso fácil. Nós, seres humanos, somos maniqueístas, basta ver que julgamos o mundo a partir de nossa própria visão pessoal dele, na qual, invariavelmente, nós estamos certos (somos o bem) e os outros e o mundo estão sempre errados (representam o mal). Por isto, histórias em que o Bem (os mocinhos) e o Mal (os vilões) são claramente identificáveis fazem, sempre fizeram e sempre farão muito sucesso (talvez resida neste aspecto uma das explicações para o sucesso de programas televisivos como o Big Brother: as pessoas assistem para tentar classificar os bons e os maus da casa). De qualquer forma, estas obras acabam repassando valores éticos, o que, no final das contas, é louvável. O fato de serem escritas de forma a induzir à continuidade da leitura nos próximos volumes tem o lado positivo de ajudar a formar o hábito da leitura, o que é muito bom, quando atingido o propósito. Não vejo problemas.

Samizdat: Dizem que o público infantil é bastante honesto em relação aos seus gostos: ou uma criança gosta ou não gosta. Como você percebe a receptividade das crianças, seu público-alvo, ao seu livro?
Marcos Fernando Kirst:
São honestíssimas quanto a isto. Tenho tido a enriquecedora experiência de realizar bate-papos com crianças em salas de aula em função do livro, e elas são incrivelmente críticas, questionadoras. Na maioria das vezes, leram o livro e têm reflexões a compartilhar a respeito da obra, perguntas a fazer que muitas vezes me deixam divertidamente “acuado”. Mas a receptividade tem sido ótima. As crianças lêem o livro de um fôlego só, sabem a história de cor, conhecem os personagens, e, o mais interessante, querem que as aventuras do gatinho prossigam em mais livros.

Samizdat: Faço a mesma pergunta que você fez ao professor Donaldo Schüller: "Como o senhor caracteriza o atual momento do mercado editorial brasileiro?"
Marcos Fernando Kirst:
Tenho de fazer esta análise sob dois aspectos. Primeiro, na condição de leitor, o mercado editorial brasileiro jamais viveu período tão fértil. Temos à disposição, nas livrarias, livros de todos os tipos, para todos os gostos, traduzidos de todas as partes do mundo. Temos à disposição o que há de novo e moderno sendo feito lá fora, assim como os clássicos, muitas vezes com novas traduções e edições revistas e ampliadas. Não dá para se queixar. Já enquanto autor, a dificuldade é a de sempre: conseguir colocar um livro inédito de sua autoria no mercado é uma dificuldade hercúlea. As editoras não apostam em desconhecidos, apesar do discurso feito “pró-mídia” de que estão constantemente à procura de novos talentos. Balela. Salvo, é claro, as exceções de praxe. No meu caso, tive a sorte de ter tido o original do meu livro infanto-juvenil avaliado pela editora caxiense Belas-Letras e obtido um parecer favorável, que motivou a editora a apostar em mim e na obra. Mas é um fato raro dentro do amplo espectro do mercado editorial brasileiro.

Samizdat: Procurando por seu nome no Google, um dos primeiros links é uma crônica/conto intitulado Uma rapidinha no Caminho de Santiago, para a zine O Caixote (http://www.ocaixote.com.br/caixote09/cx09_cronicas_kirst.html). Esse Marcos Kirst é você ou é outro?
Marcos Fernando Kirst:
É outro, é um homônimo. Mora em São Paulo, é mais velho do que eu e, inclusive, é parente (primo de meu pai). O nome dele, aliás, é Erlon Marcos Kirst, mas ele está usando só o segundo nome e o sobrenome. Por isso mesmo é que faço questão de usar sempre meu nome completo: Marcos Fernando Kirst, para diferenciar.

Samizdat: Que importância têm os concursos na carreira de um novel escritor? Dão-lhe visibilidade, traquejo de escrita, domínio do stress, hábitos de rigor, ou o quê?
Marcos Fernando Kirst:
Os concursos servem principalmente para dar um norte mais oficial para a pretensa carreira de um pretenso escritor. Ao ser premiado, teu texto passa, incógnito, pelo crivo de um júri (a princípio) gabaritado, que o analisou e o classificou tanto por seus méritos literários em si quanto em relação aos demais concorrentes. É a prova de que, afinal, aquilo que você escreve tem algum valor capaz de atingir a leitores que não te conhecem. Mostra que você, mal ou bem, iniciante ou não, tem uma voz literária, que fala e consegue ser ouvida por outros. Confere segurança, incentiva uma pretensão. Mas infelizmente, os concursos, atualmente, muitas vezes, morrem neles mesmos. A imprensa, via de regra, ignora o trabalho dos vencedores e raramente as obras premiadas chegam ao público de forma mais ampla. Noticia-se os vencedores anuais dos concursos com notinhas de rodapé e pronto, cumpre-se com a obrigação. A estrada do pretenso futuro escritor, mesmo com os concursos, continuará sendo pedregosa. E talvez até seja positivo que seja assim, afinal, nada cai do céu.

Samizdat: Fazendo uma comparação entre seus livros A História nas Estantes – 60 Anos da Biblioteca Pública Municipal Dr. Demetrio Niederauer e O gato que não sabia de nada, como você avalia a repercussão de obras de ficção e não-ficção no público leitor?
Marcos Fernando Kirst:
Falo a partir de minha (ainda singela) experiência em termos de publicação de obras (duas, exatamente as que citaste) nestas duas áreas. O primeiro livro, lançado em 2007, dirigia-se a um público específico, interessado em conhecer a história da Biblioteca Pública Municipal de Caxias do Sul. Apesar de que, ao redigir o texto, procurei não produzir uma obra enfadonha e cronológica, pelo contrário: escrevi de forma a transformar a própria biblioteca em personagem, na qual convivem e coabitam outros personagens interessantes, ou seja, os livros, os leitores e os funcionários. Apesar de partir das características específicas da biblioteca caxiense, fiz um livro com o qual pode se identificar qualquer frequentador de qualquer biblioteca do país e do mundo. Até por causa do título, a obra ficou mais limitada e, mesmo assim, cumpriu seu papel, o de marcar um momento histórico, alcançando a repercussão que tinha possibilidades de obter dentro da limitação de tema e momento a que se submetia. Já o livro ficcional sobre o gato, lançado em 2008, tem alcançado uma repercussão muito maior, imprevisível, imensurável e indomável, justamente por ser absolutamente universal. Identificam-se com o livro pessoas de todas as idades, não apenas crianças, além de dialogar também com qualquer pessoa que goste de animais de estimação. O segredo, no entanto, para ambas as obras, tanto as de ficção quanto para as de não-ficção, é, além de encontrar um tema absorvente, conseguir desenvolver uma narrativa que prenda a atenção do leitor. Acho que consegui alcançar o objetivo nas duas obras.


Coordenação da entrevista: Maristela S. Deves
Perguntas feitas por:
Henry Alfred Bugalho
Marcia Szajnbok
Volmar Camargo Junior
Joaquim Bispo
Carlos Barros

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Maristela Scheuer Deves
Jornalista por formação e escritora por vocação. Atua como editora assistente de Variedades no jornal Pioneiro, de Caxias do Sul/RS, em cujo site também mantém o blog Palavra Escrita, voltado ao mundo dos livros. Escreve desde que consegue se lembrar, e atualmente prepara para publicação seu terceiro livro, o infantil "Os Deliciosos Biscoitos de Oma Guerta", contemplado pelo Financiarte. De sua autoria, já estão nas livrarias o romance policial "A Culpa é dos Teus Pais" e o infanto-juvenil "O Caso do Buraco".
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