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segunda-feira, 7 de julho de 2008

Luandino


Luandino apalpava-lhe as mamas com dedos lassos. Dedos que lhe escorregavam nas axilas, frouxos. O côncavo da mão recusava-lhe os bicos. Afagava-a em medrosos receios. Parecia-lhe a ela que ele afagava a testa suada de um velho.
E era sexo o que ela queria. Sem denguices e nem rodeios.
Encostou-se nele. Sentiu-o intenso sobre o vestido fino. Segurou-lhe as nádegas. Redondas, tensas. Roçou-se. Cabrita-montesa, pendurou-se-lhe no pescoço. Ganhou-lhe vantagem. Quebrou-lhe a anca magra com as pernas, nuas de saia. Desceu-se lenta. Desfez-lhe o cinto. O botão. O fecho: de cima para baixo, que é o jeito.
Mirou-o: quedo, surpreso decerto.
Virgem arrependida, ela beijou-lhe cada mamilo descoberto dos botões que abriu um a um, em pressas. Nem precisou mover-se: ele era alto e ela nem se cresceu mais que o metro e cinquenta e quatro. Nem mais um centímetro que o andar de salto alto, até muitos anos passados sobre essa noite.
Ele depressa se desentendeu com os receios. Arrematou-os. Limpou-se de surpresas. Juntou-se a ela na luta contra eles. Beijou-lhe a boca, sôfrego. Atabalhoado, a língua que lhe rebuscaria interiores, nem eles ainda o sabiam, dançou-lha por cada mamilo em redondos molhados. Ainda não cuspidos, isso a noite o ditaria, mais o desassossego da lua e da partida.
Ele debruçado nela. Os receios perdidos, pensava ela, muito branca e ruiva mesmo sem a luz da lua que ainda nasceria.
A dois passos, a sala de jantar. A luz de um candeeiro recortou em negro o cachimbo e o fumo. E a voz que afagou o escuro, nem era um chamar, era um pedido.
- Júlia.
Era o pai Antunes chamando para jantar.
Ela nem respondia. Apenas aparecia sentada na mesa comprida da sala. Era assim há anos.
Não mais amanhã. E nem depois. Quem sabe, nunca mais.
Desprendeu-se do corpo dele que levara susto. Ela riu-se.
Luandino enterrando as mãos nos bolsos do casaco verde, roto nas mangas sobre as pulseiras e o relógio de pulso. Tudo em doirados como o anel que trazia no dedo mindinho de cada mão.
Júlia apegou-se a ele. Adengou-se ainda um pedacinho. Quente animal em cio, passou-lhe a mão entre as virilhas a sentir-lhe o membro. Apertou de leve num misto de raiva e em afago. Num desespero, pensaria, se fosse, ao momento, o caso. Se fosse mais tarde. Um dia.
Na mesa coberta de linho bordado, os copos gorgolejavam ao cair dos sumos, dos vinhos, da água. Júlia comia o peito de galinha com quiabos. Calados, ela e o pai. Silêncio só quebrado ao café. Era o hábito desde que lhe morrera a mulher fazia dezoito anos. Tantos quantos a distância do dia em que a pariu a ela, Júlia. Silêncio durante as refeições.
Só a voz de Joaquina.
- Quer que sirva a sobremesa, sinhá Maria?
Sempre se dirigindo a ela. Desde pequenina, ela era a mulher da casa. Sempre a chamava de sinhá Maria. Julinha, apenas quando se sentava na bordinha da cama contando estórias velhas: “do tempo em que a mãezinha era viva, antes da menina nascer”. Ou as coisas, que Joaquina dizia serem “para o paizinho não sofrer”.
- Não anda com Luandino, Júlinha. Ele não presta. Seu pai não gosta. Vê, ele nem é homem de lhe merecer.
Júlia comia a talhada de manga, silenciosa. O sabor do corpo de Luandino misturava-se ao sabor da fruta. Sorriu-se. O tecido da blusa roçava-lhe, desusado, cada mama.
Bebeu, em goles lentos, a bebida gostosa de pura cafeína. Ouviu o pai falar da fazenda. Lembra-se bem: nessa noite, falou-lhe nas vacas que aleitavam.
-Seca-lhes o leite ou este enfraquece. Já morreu um bezerro.
E ela, pensando em mamas, sorriu para dentro da chávena onde aparecia, ténue, a cara de uma chinesa: porcelanas que a mãe levara de enxoval.
Beijou-o de jeito calmo e terno que nisso nem precisava fazer esforço: ela gostava dele. Muito ela gostava daquele pai viúvo.
E foi dançando pelo corredor. Abriu de par em par a porta da cozinha e saiu para a lua que alumiava, branca e amarela. A lua que fazia, quase em oiro, a terra vermelha das traseiras. Levou pela mão a bicicleta até chegar à estrada: uma língua de terra, batida a maço, mal coberta de uma fita que já fora preta. Pedalou depressa. Cruzou-se com o jipe do tenente Matias. Ía para a sanzala. Era o seu costume. Ela sabia. Acenou-lhe e riu sem muito bem perceber ao que achou piada. Sincopou, no para cima e para baixo, em redondo, o pisar do pedal.
Lembra-se que ia serena, no lusco-fusco, que a lua se fizera alta e as árvores adensavam copas sobre a estrada.
Passou a casa do Chefe de Posto e contornou à esquerda. Abriu o portão de ferro: uma cancela ferrugenta. Encostou a bicicleta no muro baixo. Chamou sob a janela entreaberta.
- Luandino…
A lua iluminava o quarto sem mais móveis do que a esteira desdobrada no chão de cimento. Isso, e um pano de cores a servir de nada aos corpos deles, nus, ferventes, e ao quente da noite com lua.
Vagueavam chamares, ao longe, que ela não ouviu:
- Júlia.
Era o pai Antunes. Como ela adorava aquele pai viúvo.
Na vinda, trazia-se renovada. Doíam-lhe, ardendo, os bicos dos seios sob a blusa que trouxe desfraldada. A bicicleta enternecia-se aos seus pedalares. Era o finzinho da madrugada.
Na cozinha, havia pão com doce de goiaba e um copo de leite muito branco e ainda morno. Joaquina quem deixara. Sorriu-se um sorriso que lhe enviou a ela que logo, logo ia acordar.
Dançou-se seminua na cozinha. Partia dentro em pouco. Nesse dia. Ía no jipe do tenente até ao aeroporto.

Nunca mais viu Luandino.
Num Maio, tão longínquo que nessa noite nenhum deles sabe que existia, deparou-o.
Era Lisboa. Rossio. Ao fim da tarde.
Tanto ano passado sobre a noite de lua. Tanto estropiado e tanto morrido. Tanto passado e tanto presente se fizera nela desde aquela noite.
Ele encostado ao ferro da boca do metro. O Luandino. Preto retinto. A carapinha encanecida nas fontes. O Luandino dependurando doirados sob as mangas coçadas de um casaco.
Sob o vestido justo que trazia, os bicos dos seios adensaram-lhe recordados. Ela estranhou-se.
O homem reagiu ao seu estar ali parada, olhando-o: pediu-lhe dinheiro para o almoço. Estendeu-lhe a mão de dedos longos.
Os dedos dele: iguais, palpando, remexendo, explorando, na noite de lua, naquela noite grande.
E ela com a nota esquecida, perscrutava-lhe um vislumbre sob as lentes negras, de contrabando.
Ele agradeceu:
- Deus a guarde, senhora. Deus é grande. E dizem que Alá, também.
E riu um rir de um lugar sem onde.

Júlia seguiu pelo passeio. Desejou perder-se nas gentes.
Perder-se do seu eu chorado.

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