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terça-feira, 22 de julho de 2008

UM DESEJO


- Até a primeira, ou até a última gota? – perguntou Akan, parado no jardim de rosas amarelas. Sua armadura prateada refletia o ouro do sol e das flores, fundindo os tons num alo brilhante.

- Até a última, meu irmão – respondeu-lhe Akin, olhando mais ao longe, onde despontava um botão de rosa vermelha, como lágrima de sangue em meio a um canteiro de trigo a ser colhido.

Afastaram-se um do outro. O vento acariciava as rosas e estas retribuíam o carinho nas pernas dos guerreiros que eram irmãos de sangue duas vezes, de ventre e de voto.

- Com ou sem a Arte? – perguntou Akan enquanto sua espada entoava a primeira nota, chiando ao sair da bainha.

- Não se pode usar a Arte contra um Irmão – sorriu o outro.

- Há muitas coisas que não podemos fazer contra um Irmão e, apesar disto, lutaremos até a morte.

Akin avançou. Sua espada cumprimentou em batalha a arma do germano. Companheiros, amigos, fiéis devotos da Ordem de Sáah, agora empunhado armas como inimigos, a fim de resgatar o Botão Vermelho do Jardim de Nandra.

Atravessaram quase todo o continente, cada um por seu caminho. Akan venceu Morgo, a serpente do pântano e outros incontáveis desafios, mas quase pereceu no embate com as Valkírias. Ele era forte e a Arte ajudou a superar todos os obstáculos.

Akin viajou pelo oeste, o caminho onde apenas um homem de muita coragem poderia ousar. Ali enfrentou gigantes, as duas Jahis - que queriam comer seu coração enquanto pulsava – e a última barreira foi o Demônio chamado de Abadom.

Chegaram juntos à entrada do jardim e contemplaram o campo dourado. Depois de muito caminhar, avistaram a rosa vermelha, o Botão de Nandra.

No presente embate, a espada de Akin resvalou na armadura do oponente. Faíscas chisparam no prata como o sangue espirrando da carne.

Akan atacou uma, duas, três vezes, mas o irmão não arredou o pé; defendeu e contra-atacou. Os minutos da luta se transformaram em horas e o sol estendeu um tapete de rubra luz para que a lua viesse assistir a batalha.

Sob o brilho da Mãe Noturna, os irmãos lutaram. Os golpes ficando mais fortes, arrancando partes das armaduras. Ambos já lutavam sem o peitoral e o elmo.

Nasceram juntos, eram gêmeos; cresceram na mesma casa e foram dedicados ao Sumo Guerreiro no mesmo dia. Mardan foi o mestre dos dois e ambos tinham o mesmo nível na Ordem de Sáah.

Tanto eram iguais que partiram em idêntica jornada e tinham o mesmo motivo.

Um erro. Foi o único que Akan cometeu na luta que travavam. Sentiu o ferrão ardente atravessar-lhe logo acima do coração. A carne e ossos cederam lugar à lâmina do irmão.

Deu dois passos para trás e dois outros golpes riscaram-lhe o ventre. Caiu sobre o berço de flores e Akin prostrou um joelho em seu peito, encostando a ponta da espada no pescoço.

- Mate-me, Irmão – disse o derrotado.

- Não posso.

- Sim, você pode – sorriu Akan, o suor se misturando ao sangue. – A coragem sempre foi maior em você.

Respiravam no mesmo ritmo, mas Akin não conseguia despedir-se do irmão.

- Eu não teria forças para ver vocês dois juntos – argumentou Akan – Ame-a, por nós dois. Ame-a, como se a estivesse amando por mim e por você. Colha o botão.

Os guerreiros fecharam os olhos e a espada de Akin entoou a última nota, rompendo os ligamentos e atravessando o pescoço gorgolejante até mergulhar na terra fértil.

Akin beijou a face morta do irmão e caminhou pelo jardim. Ajoelhou-se ao lado do botão e as mãos fortes seguraram-lhe o talo. O rompimento veio seguido de luzes que cintilaram e um brilho que acompanhou a rosa até ser deitada numa pequena caixa de marfim.

Andou pelo vale e subiu em seu cavalo. Retornou pelo mesmo caminho, onde os maiores obstáculos já haviam sido suplantados.

Entrou em seu país e alcançou o Castelo de Nór. Uma miríade de guerreiros completava todo átrio do palácio e sacerdotes lhe deram passagem pela imensa escadaria.

O peregrino entrou no salão real, enquanto oitenta guerreiros se curvaram. Ajoelhou-se diante do Imperador e ergueu a caixa sobre a cabeça; entreaberta, ela mostrava a flor cintilante.

- Eis o Botão de Nandra, meu Senhor – levantou a fronte. – Dê-me a prometida mão da minha princesa.

Há muitas coisas que podem superar o amor entre irmãos, mas nenhuma delas é mais forte que corações fraternos desejando a mesma dama.

Akin e Akan se apaixonaram por Mirah, a única filha do rei, prometida ao guerreiro que trouxesse o Botão de Nandra.

Muitos peregrinaram às distantes terras do norte. Nunca se ouviu falar de alguém que houvesse retornado.

Mas os irmãos, mesmo sabendo do intento um do outro, partiram em busca da rosa.

Durante a jornada, desejavam intimamente ou morrer, ou que o outro perecesse no caminho. Mas nada disto ocorreu. A morte só os envolveria através do braço irmão, dando o último golpe.

- Claro – disse o imperador levantando seu protuberante corpo do trono. – A mão da princesa Mirah será sua – desceu os sete degraus – tão logo eu confira o que há em suas mãos.

Pegou a caixa de marfim e voltou para seu trono. Primeiramente sorriu e depois o som de sua gargalhada reverberou pelas paredes do salão.

- Matem-no! – sentenciou.

Os oitenta guerreiros avançaram de seus postos, enquanto Akin levantou-se aturdido. O corpo do peregrino respondia aos ataques como um olho que fecha ao rufar de uma nuvem de poeira. Reflexo. Flechas, espadas e lanças eram desviadas ou aparadas.

Para cada defesa que fazia, retornava dois contra-ataques; dois corpos inimigos dilacerados. Akin atacava com a espada, com o punho e com a Arte – rajadas de energia azul, que ora saiam da palma de sua mão esquerda, ora riscavam junto ao fio de sua arma, rasgando corpos dos oponentes à frente.

Combatendo, Akin subiu os sete degraus do trono. Guerreiros protegiam o rei, que apertava no peito gordo a caixa de marfim.

Quando matou o último inimigo, a porta do salão se escancarou e uma infinidade de soldados, vestidos em seus trajes azulados, invadiu o local.

Akin virou-se num átimo e apoiou o pé esquerdo no trono, entre as pernas do imperador. A espada, ébria do sangue de oitenta vidas, tingiu de vermelho o pescoço do rei, se afundando na banha, sem cortar-lhe a carne.

- Fale! – gritou Akin ouvindo o som dos arcos retesarem no outro extremo da sala. – Matei meu irmão por amor. Não hesitaria em tirar sua vida por vingança.

O rei ofegava, seus dedos roliços correndo em cima da caixa, titubeando se tocava ou não a brilhante rosa. Antes de decidir, Akin bateu-lhe no punho, derrubando o botão. A Rosa de Nandra caiu ao sopé do trono, se misturando ao sangue dos corpos na escadaria.

- Fale! – gritou.

- Um Desejo – disse o imperador tartamudeando. – O botão de Nandra contém Um Desejo. E só um coração que desejasse o Amor poderia colhê-lo.

É impossível descrever o que sentiu Akin. Amou a princesa e por ela se embrenhou naquela viagem. Lutou contra a fúria do tempo, contra criaturas terríveis e travou a maior de suas batalhas, entregando à Morte o seu amado irmão.

Akan não foi o único a morrer em vão. Outros guerreiros pereceram diante da artimanha do imperador, na busca de seu Um Desejo, a maior das magias existentes.

Ao degolar o imperador, passou a ter um sentimento de fácil descrição: justiça.

Virou-se para o salão infestado de soldados com armas em punho ou arcos preparados. Um a um, foram se ajoelhando, se curvando até as cabeças tocarem o chão. Havia um novo imperador em Nór, que acabara de conquistar o trono na forma das Leis Ancestrais: pela espada.

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