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quinta-feira, 17 de julho de 2008

As Baleias Cinzas

Yolanda Arroyo Pizarro
Trad.: Henry Alfred Bugalho

“Dedicado a meus dois matrimônios literários:

Para Alma Rivera, por me dar seus ombros para secar as lágrimas.
Para Emilio del Carril, por seus beijos na nuca.
Finalmente, à musa que sempre há de ser musa, Mamota, idolatrada perpetuamente por esta seresteira de amor.”



Como se vive depois de algo assim? Depois da opressão atravessando-lhe o peito? O coração volta a bater igual? Pode-se respirar com semelhante perturbação sobre as têmporas?
Caminho sobre o convés com os olhos molhados. Lanço o olhar para as velas içadas. Retorno ao timão e nele dou uma leve volta. Vamos decididos, eu e meu barco, até o novo destino. Não consigo ficar impávido, de braços cruzados. Não tenho culpa. Vou protestar. Vou renegar e negá-lo. Diante daquela acusação, o silêncio me tragou antes de eu o engolir. Ainda assim, não pude abrir a boca naquele momento, mas hoje, agora, vou confrontá-lo.

A água parece uma plataforma de centelhas cinzentas querendo tragar o horizonte. Os vultos, como dum veludo lúgubre, áspero, abrem-se e se fecham, crescem e se apequenam, saltam e submergem. Não têm dentes, mas mostram-me as barbas que surgem da boca, as barbas creme que lhes pendem em cada lábio. Devoram as profundidades. Devoram minhas lembranças? Terão tragado minhas memórias, como fazem com o fundo marinho, absorvendo sedimentos e crustáceos, separando os pedaços do resto com seus filamentos?

A impressão que recebo, ao me aproximar duma baleia adormecida, é, sobretudo, de imensidade. É como se cada olho de baleia aprisionasse um universo. Fita-se o olho, a esfera, e alguém se pergunta se dentro de cada córnea pode haver uma dimensão diferente. Enormidade, solidão de espaços, de carnes, de dura pele cinzenta. Sua presença é inquietante, esmagadora. Inspira-o uma tristeza irremediável que não se extingue, como a própria espécie. Hoje, as baleias choram comigo.

Ω

— Minha filha vem me visitar — vou recolhendo a âncora e me volto para esperar a reação de Ambrosio à notícia. Ele fica feliz. Não a conhece, mas está louco para conhecê-la, pelo menos é o que sempre me diz. Considero Ambrosio como um filho e cada vez que posso falo para ele de minha Viveca. Às vezes, mostro-lhe algumas fotos dela, de quando ela estava na escola, ou quando era pequena e me ajudava no pequeno negócio de pesca que tínhamos. Era linda a menina. Parecia um palito de dentes, fraquíssima, mas sempre linda. Também lhe mostro a única foto que ela me enviou quando se foi para estudar biologia marinha na universidade. Nela, via-a mais cheia, crescida, mesmo assim, linda. Havia se embrenhado por várias ilhas do Caribe. Chegou a viajar à Espanha também e depois voltou ao México para fazer um trabalho com a UNAM. Tudo isto ela me contou na única carta que certa vez me escrevera. Desde há muito que não nos vemos. Nestes dias, acabou de me enviar um telegrama. “Irei visitar-te. Viveca”, dizia. Penso em voltar a vê-la e tenho calafrios na barriga. Gostaria de me lembrar de mais coisas de quando ela era pequena. O salitre me torna isto impossível.

Ω


“Em momentos como este, o ser humano percebe que se aproxima duma criatura que ultrapassa sua compreensão, duma presença misteriosa encarnada num inacreditável cilindro negro.” Terminei de ler a citação. Viveca olhou para cima, recostada à amurada do barco, os olhos saltados, duas tranças de cabelo arruivado em cada lado de sua cabeça, a saia de querubins quadriculados. Minha Viveca era pequenina.

— Jacques Yves Cousteau, o oceanógrafo — ela disse. Sorri orgulhoso e fechei o livro, aquiescendo. Minha filha memorizava cada vez melhor. Inclusive, melhor do que eu. Esta manhã, assim que acreditei estar pronto para a travessia, havia me esquecido dos trajes de mergulho em algum lugar da cabana. Não me lembro exatamente onde. No entanto, ela, aos sete anos de idade, conseguia gravar na memória citações como aquela e até mais extensas. Havia trazido nos ombros, sem que eu a fizesse se lembrar, sua mochila com a toalha, o biquíni, o snorkel e os óculos de mergulho. Esta tarde, pela primeira vez, havíamos avistado o cetáceo.

Depois deste, periodicamente, continuamos vendo-os em nossas travessias. As águas reluzentes da baía Magdalena nos presentavam com muitos e belos vislumbres do impressionante animal. Tornei-me guia. Comecei a trazer grupos de pessoas, cada vez maiores, para que vissem aquele fenômeno marino com o mesmo tamanho dum ônibus. Aquelas massas colossais não se assustavam; pelo contrário. Pareciam desfrutar da companhia. Observavam-nos curiosas na medida em que saíam à superfície para respirarem, a cada três ou cinco minutos. A princípio, cabíamos todos a bordo dum pequeno barco, que fui consertando aos poucos com minhas próprias mãos. Logo, com a cobrança do espetáculo natural que as baleias nos obsequiavam e que eu coletava com prazer, pude adquirir uma embarcação um pouco maior.

Converti-me em guia porque muita gente ansiava por observar estas maravilhosas criaturas. Todos os anos, emigravam para as lagunas da Baixa Califórnia para se acasalarem e parirem. Poucos marinheiros e pescadores se atreviam a enfrentá-las. As razões eram diversas. Muitos dependiam da pescar para subsistirem e não desejavam investir num novo projeto, que talvez nem desse resultado. O que os pescadores sabem sobre ser guias turísticos? O que sabem os marinheiros sobre se dirigir às pessoas, falar para elas, explicar-lhes sobre a vida marinha de certas espécies? Dedicar-se a lançar suas redes e levar comida à boca de suas famílias os afastavam de alguns desafios como aquele. Eu mesmo pensei como eles por um tempo. Trabalhar duro para sustentar os seus era o lema. Mas as bocas para alimentar foram diminuindo em meu círculo consangüíneo. Uma febre estranha cobrou as vidas de minha mulher e meus filhos homens. Ficamos apenas eu e a menina. Em um arroubo de intensa tristeza, quis mudar minha rotina, para não me recordar de meus finados. As perdas são demasiadamente cinzas, muito mais cinzas que as baleias adormecidas. Acredito, e agora que reflito acredito com maior veemência, que foi aí quando minha mente começar a ofuscar as memórias.

Ω

Viveca chegou e trouxe consigo um aroma de corais e algas salgadas. Acredito estar quase certo de que Ambrosio havia ficado impressionado com a beleza dela. Está alta e arredondada. Está com uns quilinhos a mais que não lhe caem mal e que em nada contribuiu para que Ambrósio deixe de olhá-la todas as horas. Ficará com a gente dez dias, que é o tempo que leva a transportadora da cidade para voltar com seu caminhãozinho cheio de turistas. Havia se hospedado numa casa dos arredores e promete me visitar em casa todas as vezes que puder. Entre passear e visitar seu velho pai, ela deseja tirar fotos das baleias e redigir ou escrever algo como um ensaio de biologia marinha, deste assunto que havia estudado na universidade.

Desligo o motor e nos aproximamos remando sileciosamente. Estamos hoje no barco pequeno. As baleias parecem alheias por completo a nossos movimentos. Já estão acostumadas. Podemos observar a cerimônia de corte. Chapinham, giram sobre si mesmas, esguicham, mergulham. Ostentam a nadadeira caudal. Viveca nos conta que estas submersões tão sincronizadas se chamam “saídas de reconhecimento”. Põem a cabeça para fora d'água e avistam os arredores.

— Você deve saber, Francisco — ela me disse, e ainda me pergunto por que Viveca havia decidido por não me chamar de “papai” — As baleias adormecidas têm boa memória.

Eu as invejo. Gostaria de conseguir me lembrar de mais coisas sobre a mãe de Viveca e sobre meus dois filhos que se foram. Ambrosio concorda, pensativo. Sorri para mim e logo olha para Viveca. Dá-me pena admitir, mas ela o havia ignorado completamente desde que chegou.

— No século dezenove, submeteu-se estes animais a uma caça tão encarniçada que quase foram exterminados no Pacífico oriental.

— Como eles chegaram até aqui de tão longe? — pergunta Ambrosio, mais para deixar de se sentir invisível diante de Viveca do que por qualquer outra coisa. Ela dá de ombros, olha para mim e me pede que, por favor, empreste-lhe uma blusa porque está com frio. Desço à cabine e trago-lhe uma.

— Obrigada, Franciso — ela me diz, e volto a me sentir estranho, incômodo, até receoso. Mas não o digo. Não o digo.

— Pelo calorzinho. E pela comida. Chegam até aqui de tão longe por comida. Dão-se um banquete de pequenos crustáceos no Pacífico, e logo seguem buscando alimento até chegar a estas lagunas. Levam de dois a três meses para chegarem. Neste trajeto, elas perdem boa parte de seu peso. Neste período, dependem quase exclusivamente de sua reserva de gordura. Em quarenta e sete, outorgou-se proteção total a elas pela Comissão Baleeira Internacional e, em anos recentes, o governo mexicano estabeleceu para elas santuários e reservas. Atualmente, a baleia cinza já não é considerada como espécie ameaçada.

— Sabemos que as fêmeas prenhas são as primeiras a chegar nas lagunas e aqui parem os baleatos — Ambrosio aproveita o repentino ataque de atenção — nascem das costas, nós vimos. Ajudam em cada parto outras duas fêmeas; as tias, nós dizemos.

— Sim, atuam de parteiras, Viveca. Este assunto é dos mais agradáveis — eu lhe digo.

— Francisco, como se chama aquele baleato que nasceu no dia do seu aniversário? Você se lembra? Demos-lhe um nome... — Ambrosio me pergunta, logo a dar uma gargalhada.
Tentei me lembrar, mas não consegui. Tornou-se impossível para mim.

Ω

Conto a meu grupo de turistas que, ainda que seja proibido ficar a menos de trinta metros destes cetáceos, às vezes a baleias-mães, dominadas pela curiosidade, dirigem-se com suas crias até os barcos e até deixam ser tocadas. Eles gritam emocionados quando se dão conta de que meu comentário é mais uma advertência do que qualquer outra coisa, porque uma das baleias já havia se acercado, saca seu olho por sobre a água e nos borrifa com sua pequena ducha salgada. Exibe umas manchas brancas na pele, causadas por cracas e outros parasitas. Escutamo-la respirar e, com prazer, voltamos a nos deixar molhar por seu esguicho. Ambrosio mostra um cartaz bastante atraente, em cores vivas, que anuncia um preço bastante módico para aqueles valentes que desejassem acariciar a pele da baleia.

— Os cetáceos permanecem nas lagunas por dois ou três meses, de janeiro a meados de março. Aproveitem agora para tocá-los — Ambrosio tenta convencer — Já está quase se acabando a temporada.

Os turistas correm e fazer uma grande fila no convés. Todos vão pagar por aquela recordação tão única. Como Viveca viaja conosco hoje, eu a olho. Ela está do outro lado, parada perto do timão. Estudo seu perfil. Uma das velas possui a mesma cor que seus olhos. Está triste. Aproximo-me um tanto indeciso.

— Amanhã é o décimo dia, filha. Você vai com a transportadora? Voltará?

— Não. Vou ficar outros dez dias mais.

Fico feliz.

— Que bom! Assim podemos passar mais tempo juntos.

Ela me encara. Sem rodeios, desafiante. Seu olhar é gélido. A comissura de seus lábios se aperta de modo de estranho.

— Temos de conversar, Francisco. Por isto vou ficar.

Ω


É possível. Pode ser? Não reajo. Minha intenção é tentar entendê-la, mas não consigo. Ela me conta, fala para mim, confessa-me uma mar de palavras sem fundo. Exige de mim.

— Como não pude perceber? Passei o resto de minha vida odiando-o, esquecendo-o, brincando de crise nervosa em crise nervosa. Veja minhas unhas, roídas, mastigadas até a metade do dedo. Quase não tenho unhas, quase não durmo. Nunca sonhei depois do que me você me fez. Sempre tenho pesadelos. Sonho que você retorna e volta a fazer-me o mesmo. Como pode dizer-me agora que não se lembra? Tenho estado internada em sanatórios, postergando meus estudos, afetando minhas notas, para que hoje você me diga que não se lembra do que me fez? Tenho tentado até agora superar meus fantasmas. Vim vê-lo a pedido de meu psiquiatra. E isto é tudo que você consegue me dizer? Que não se lembra?

Como explicar-lhe? Como se vive depois desta opressão atravessando-lhe o peito? O coração volta a bater igual, após do que lhe foi dito, após do que lhe foi informado? Estou me dando conta? Pode-se voltar a respirar com semelhante perturbação sobre as têmporas?

Caminho sobre o convés com os olhos cheios de lágrimas. Ergo o olhar para as velas içadas. Retorno ao timão e lhe dou uma leve volta. Vamos decididos, meu barco e eu. Vou apontar com o dedo para Viveca. Vou gritar. Não posso ficar impávido. Não sou culpado do que me acusa. Vou protestar. Vou renegar e negá-lo.


Esqueço-me que a acusação não foi feita hoje. Foi anos atrás. Esqueço-me que Viveca não está para que eu a confronte, que não sei de Ambrosio há séculos, que já não sou guia de nada. Esqueço-me que minha filha não pôde agüentar a dor de viver com algo tão forte. Esqueço-me seu rosto sem vida, suas veias abertas, a poça escarlate sobre o convés, as velas manchadas e as baleias farejando fluídos raros. Esqueço-me de seus gritos noturnos, suas pernas de batalhadora, suas bofetadas enquanto empurra. As perdas são demasiadas cinzas, muito mais cinzas que as baleias adormecidas. Esqueço-me porque, no fundo, dói e lembro-me demais.

fonte: Boreales


Yolanda Arroyo Pizarro
Romancista, contista e ensaísta porto-riquenha. Foi eleita como uma das escritoras latino-americanas mais importante com menos de 39 anos do Bogotá39, convocado pela UNESCO, o Hay Festival e a Secretaria de Cultura de Bogotá para celebrar Bogotá como a Capital Mundial do Livro 2007.
Agraciada com vários prêmios literários nacionais e internacionais; seis na Argentina, um no Chile, sete em Porto Rico. Escreveu para os jornais El Nuevo Día, El Vocero de Puerto Rico, Claridad e La Expresión, e seus ensaios e colunas se encontram no site de literatura cuidadseva.com, nas revistas virtuais Cataliticos.com, Derivas.net, Letras Salvajes, Letralia.com e Narrativa Puertorriqueña. Alguns de seus contos integram as revistas culturais Identidad de la UPR Aguadilla, Revista Púrpura, Preámbulos e Tonguas de la UPR Río Piedras. É autora dos livros de contos, Ojos de Luna (2007) e Origami de letras (2004), além dum romance, ganhador do Prêmio Club 2006, Los Documentados (2005).

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