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quinta-feira, 10 de julho de 2008

Síndrome de Caim

O psiquiatra bávaro Wilhelm Schröder realizou, durante sua carreira, extraordinários avanços na área de psicopatologias. Foi um dos assistentes de Otto Loewi para a sintetização da acetilcolina, viajou por toda a Europa catalogando as patologias psiquiátricas e foi o primeiro a identificar a Síndrome de Caim, ao analisar mais de setecentos casos de fratricídio.

As características mais evidentes da Síndrome, segundo consta na obra que trouxe notoriedade a Schröder, Kompendium der Psychopathologie, são:

a) extrema rivalidade entre irmãos, de ambos os sexos, em busca de aprovação duma terceira parte: pai, mãe, grupo social, comunidade, amigos;
b) o primogênito ou irmão mais velho apresenta distúrbios comportamentais, geralmente de natureza agressiva e/ou destrutiva;
c) por ser uma psicopatologia de difícil identificação, ainda mais tendo-se em conta a natural inclinação da prole em disputar o afeto dos progenitores, só se constata a gravidade dela após animosidade (violência física ou verbal) entre irmãos ou, nos casos mais extremos, fatricídio, sendo o irmão mais novo objeto da agressão;
d) natureza crônica, comumente desenvolvida durante anos ou décadas de convivência conflituosa.

A repercussão das teorias de Wilhelm Schröder foi imediata e elas foram acolhidas pelos mais importantes psiquiatras de sua época. Em seu diário, Schröder relata seu entusiasmo:

Os anos de trabalho árduo compensaram. Finalmente, aqueles senis doutores se curvam diante de mim, até Hermann (Keller) me escreveu congratulando-me. Como deve ter sido difícil para ele engolir seu orgulho!

No entanto, havia três casos específicos que intrigaram Schröder.

O primeiro era de duas irmãs adotivas austríacas: Lotte e Gretchen K.

Gretchen havia sido trazida ao lar da família K. pouco antes de atingir a puberdade e o convívio com o novo núcleo familiar foi harmonioso. Lotte, dois anos mais velha, recebeu-a sem reservas, o que facilitou a ambientação de Gretchen.

Contudo, Gretchen padeceu duma desconhecida enfermidade, obrigando os pais adotivos a dispensar-lhe atenção especial; de irmã, Lotte se transformou em enfermeira.

A doença da filha adotiva se agravava sem razões aparentes, nenhum médico conseguia determinar suas causas. No entanto, a morte não adveio, como se esperava, para Gretchen, e sim para Lotte, esfaqueada na garganta enquanto servia almoço à irmã.

O brutal assassinato perpetrado por uma adolescente foi capa de todos os jornais europeus, e durante algum tempo, os índices de adoção decresceram drasticamente.
Quando interrogaram Gretchen sobe os motivos para ela ter matado aquela considerada como sua melhor amiga, Gretchen foi assertiva:
— Ela estava me envenenando, desde o dia em que cheguei nesta casa.

E realmente, após a morte de Lotte, o estado de saúde de Gretchen melhorou evidentemente. Mesmo assim, ela foi enviada a uma casa de correção, onde ficou confinada até os vinte e um anos, quando então não mais se teve notícias dela.

O segundo caso era ainda mais curioso. Hans F. era o filho do primeiro casamento de Johann F. Quando enviuvou, Johann, com cinqüenta e cinco anos, se casou novamente com uma mulher muito mais nova do que ele, Tatyana, descendente duma linhagem russa, apenas vinte anos de idade.

Tatyana logo engravidou e deu a luz a Louise. Hans F. estava em seus trinta e cinco anos quando do nascimento da irmã. Ele era um homem bem-sucedido, sócio duma exportadora de equipamentos industriais, proprietário de imóveis em Berlim e dum chalé na Basiléia, casado e pai dum menino que ainda não havia completado um ano.

Antes do nascimento de Louise, o filho de Hans era quem ocupava o lugar central nos cuidados do avô, porém, ao nascer a filha temporã, naturalmente Johann passou a se dedicar aos cuidados de Louise.

Naquele Natal, estando todos reunidos à mesa da ceia, Hans subiu ao quarto onde a irmãzinha dormia e a sufocou com um travesseiro.

A morte do bebê foi considerada por causas naturais. Hans revelaria o assassinato apenas alguns anos depois, ao ser diagnosticado portador duma doença terminal.
Sob o peso da verdade, seu pai o deserdou e sua esposa o abandonou.
Hans cometeu suicídio com um tiro na cabeça, uma foto de Louise repousava em seu colo.

O terceiro e mais surpreendente dos casos, que influenciaria diretamente a carreira do Dr. Schröder (o que ele só descobriria posteriormente), dizia respeito a um rumor, à boca pequena, de que Gustav Schröder era o favorito para receber o Prêmio Nobel de Fisiologia, graças a suas pesquisas na área cardiovascular.

Wilhelm Schröder era mais velho e razoavelmente conhecido por seus pares, mas a notícia de que um rapazola, recém-saído da Universidade, estivesse sendo cogitado para o mais importante prêmio na área médica, foi demais para o primogênito.

Na medida em que o dia do anúncio do prêmio se aproximava, os boatos se tornavam mais freqüentes e consistentes — o nome de Gustav Schröder se fortalecia. Organizaram uma festa para comemorar a indicação.
No diário de Wilhelm, na entrada escrita poucas horas antes da festa, ele escreveu:


É inacreditável! Há uma década que dou meu sangue por meu trabalho e, com muito custo, consegui um pouco de renome. Mas meu irmão, sabe-se lá por que cargas d’água, por um simples trabalho acadêmico, está sendo considerado como um gênio da medicina.
Todos se achegam e me dão tapinhas no ombro, congratulando-me por ser irmão dum futuro ganhador do Nobel. Tenho nojo deste povo ignorante.

Naquela noite, brindaram à saúde de Gustav parentes e amigos, a premiação era tomada como certa, todos estavam inebriados.
No fim do jantar, após todos terem se recolhido, Wilhelm e Gustav sentaram-se no quintal para fumar.

“Eu perguntei a Gustav o que ele pensava de mim”, conta-nos Willhelm Schröder em seu diário, “e ele me respondeu que eu era seu irmão mais velho”.
— Digo profissionalmente, Gustav. O que você pensa de mim como médico?
— Você é ótimo, Wilhelm... — Gustav refletiu — Tem um potencial que poderia ser melhor explorado, talvez precise de um pouco mais de ousadia, mas tem tudo para ser reconhecido no futuro.

Numa única sentença, Gustav disse três palavras proibidas no vocabulário de Wilhelm — potencial, ousadia e futuro. O irmão mais novo dizia ao mais velho que, em menos tempo, havia obtido mais do que o outro jamais conseguiria.
Wilhelm retirou do casaco o revólver, gesto que ele havia ensaiado uma vintena de vezes durante o jantar e o apontou para Gustav:
— Quem você acha que é para falar deste jeito comigo?
— Você me perguntou o que eu pensava sobre você, meu irmão, apenas respondi com sinceridade.
— Mas você é um rapazinho muito do arrogante mesmo! Quando minhas pesquisas já estavam circulando pelas mãos dos mais importantes médicos da Europa, você era ainda um meninote de calças curtas, tomado por acnes, se masturbando após ver Greta Garbo no cinema. E vem me falar de potencial!

Wilhelm Schröder confessou que não tinha intenção de apertar o gatilho, no entanto, a poderosa rivalidade inconsciente foi fator determinante (esta uma das características da Síndrome de Caim).
Wilhelm disparou três vezes contra o irmão.

Jacques Dubois preparou uma edição revisada e atualizada do Kompendium der Psychopathologie. Ele havia sido aluno do Dr. Schröder; posteriormente, discípulo e assistente. Mesmo após a prisão do mestre, Dubois continuou investigando as psicopatologias, especialmente aquelas referentes à Síndrome de Caim.

Assim que foi publicada, Jacques Dubois enviou um exemplar da nova edição para Dr. Schröder no sanatório.

A princípio, Wilhelm Schröder se orgulhou pelo trabalho do discípulo, uma revisão que tornou a obra mais completa e precisa, refinou alguns conceitos e desenvolveu estudos apenas esboçados por Schröder, no entanto, no capítulo destinado à Síndrome de Caim, Schröder se deparou com a descrição do próprio caso.

Ele já havia refletido sobre o ocorrido, sem nunca compreender como um psiquiatra renomado poderia ser vitimado pela patologia que descobriu e cujos sintomas estudou.

Encontraram Wilhelm Schröder morto em sua cela, após receber uma dose letal de morfina ministrada por Isolde, uma enfermeira com quem ele manteve um sigiloso relacionamento amoroso naqueles anos de cárcere.
A última inscrição no diário de Dr. Schröder dizia o seguinte:

Sempre me questionei sobre como a posteridade se recordaria da minha passagem pelo mundo dos vivos.
Lutei para conquistar meu espaço, realizei grandes obras e equívocos maiores ainda.
Mas de médico brilhante a caso psiquiátrico, isto jamais!

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