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terça-feira, 2 de julho de 2013

DESENCANTO


 
 
Essa história de Príncipe Encantado vem me cansando ultimamente. Não que eu não goste de ser viril, corajoso, íntegro e belo. Nada disso. Mas perdi as contas das princesas igualmente encantadas que conheci, e que me decepcionaram logo após a promessa do viveram felizes para sempre. A separação, nem sempre amigável, ocorria após um brevíssimo período de convivência. Antes que me chamem de exigente, vamos aos fatos.

A primeira que me encantou foi Aurora, a chamada Bela Adormecida. Achei magnífica a ideia de ela adormecer, na flor da juventude, e me aguardar até o momento em que eu decidisse me aventurar à sua procura. Nunca imaginei, entretanto, que ela quisesse continuar a dormir. Quando eu a tentava despertar para celebrar nosso casamento de conto de fadas, o seu mau humor era insuportável! E o mau-hálito, então? Acordava toda amassada, estava sempre morrendo de sono e tinha sempre uma desculpa para não ir aos bailes do reino comigo. Desisti.

Em busca de uma mulher mais ativa e dinâmica, encontrei Cinderela! Acostumada ao serviço pesado, julguei que daria conta de toda a limpeza do meu palácio. Depois de jogar na minha cara tudo o que enfrentou para ir ao baile, ainda vivia cercada de ratos, seus únicos amigos, segundo ela. Resquícios da pobreza, talvez. O que mais eu podia fazer? O golpe fatal, entretanto, veio quando ela, numa briga, atirou o sapatinho de cristal no meu rosto. Até hoje tenho a cicatriz. Voltou para o borralho!

Um dia, passeando no bosque, avistei Branca de Neve. Uma das mais belas, tenho de reconhecer. Beleza, contudo, mantida graças a uma rigorosa dieta. A anoréxica queria saber de comer maçã!... E aqueles anõezinhos, sempre por perto, enchendo o saco com aquelas musiquinhas irritantes. Até peguei uma gripe de um que espirrava o tempo todo.

Tomei uma decisão: me casaria novamente se encontrasse uma princesa bela, prendada e... Sem amigos ou família. Foi assim que Rapunzel entrou na minha vida. Morava sozinha numa torre. Casa própria. Independente. Perfeita. O único senão era ter de subir por aqueles cabelos. Em outros momentos, porém, eles eram extremamente convenientes. Em nossas tórridas noites de amor, fizemos verdadeiros malabarismos com aquela cabeleira. Quando a trouxe para o castelo, tudo mudou. Uma vez, reclamei do tempo que ela perdia lavando, secando e trançando aquelas madeixas. Sabem o que ela fez? Cortou tudo. Quase não a reconheci, ao voltar de uma caçada. Descobri que amava os cabelos, não ela.

Desde então, sou um celibatário convicto, totalmente cético em relação ao amor e à vida de conto de fadas. Nunca mais quero olhar... Espera... Quem é aquela deusa linda passando ali? Ei, princesa! Posso falar com você?

 

 

 

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Tatiana Alves
Tatiana Alves é poeta, contista e ensaísta. Participou de diversos concursos literários, tendo obtido vários prêmios. É colaboradora da Revista Samizdat, já tendo escrito para os sites Anjos de Prata, Cronópios, Germina Literatura e Escritoras Suicidas. É filiada à APPERJ, à Academia Cachoeirense de Letras e à AEILIJ. Possui nove livros publicados. É Doutora em Letras e leciona Língua Portuguesa e Literatura no CEFET / RJ.

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