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terça-feira, 16 de julho de 2013

Último clarão


Cerro os olhos para enxergar melhor a memória. Talvez por isso este aroma de saudade que minhas narinas engolem e expelem, libertando a cada vez uma brisa diferente de lembranças. Meus ouvidos estão escancarados como portas e neles rodopiam melodias que eu não sabia que ainda estavam lá. As mãos ávidas do pensamento emaranhado encontram, por fim, todas as pontas soltas, e reconstroem o bordado das emoções escondidas pelos anos.
O sol de fim de tarde esbarra no meu rosto... Ou vem de dentro este mormaço carinhoso? Não vou abrir os olhos. Ainda não. Não quero. Preciso antes fazer amor com os acordes que me arrepiam os sentidos.
— Maria?
Então, é isso! A imaginação me faz trapaças. Ninguém, em meu mundo de olhos abertos, me chama por esse nome. Não vou abrir os olhos. Não quero.
— Maria?
Não, não, por favor, fiquem fechados olhos desobedientes! Tão logo vocês se abram, tudo irá embora. Vamos, diga o meu nome só mais uma vez, uma vez apenas!
— Maria Beatriz, onde ponho essas flores? — interrompe-me a empregada.
Minhas lindas flores chegaram e a possibilidade do encontro dos meus olhos com a beleza faz-me, finalmente, entreabri-los. Frescos, todos brancos, lírios, copos de leite, pequenas rosas de perfume acanhado e cútis de marfim. Perfeição.
— Enfeite todo o salão com elas. Abra as janelas, deixe que caiam dos parapeitos como tranças. — peço-lhe, me arrependendo logo em seguida — Não, não! Deixe que eu mesma enfeito.
Retiro-me em paz das memórias. A saudade de Augusto sempre me faz tomá-lo por empréstimo ao céu. Não creio que isso seja bom. Não, não é bom. Que fique em paz e aproveite o descanso eterno. Vou parar de incomodá-lo com essa saudade que não passa.
— Bolinhas de gude, bolinhas de gude! A mamãe fez bolinhas de gude! — distrai-me a euforia de minha filha.
O dedinho de Melissa aponta para o meu rosto e ela se diverte com as lágrimas pingando. Quando me viu chorar pela primeira vez, eu lhe disse que eram bolas de gude nascendo, e sua pequena crença inocente acreditou em mim. Belisco levemente a bochecha rosada da pequena e saio correndo com as pontas dos dedos unidas, gritando para ela, enquanto me afasto:
— Não devolvo a maçãzinha da Mel, não devolvo!
Escuto os passinhos dela atrás de mim e finjo cansar, para deixar que me alcance. Às gargalhadas, ela toma dos meus dedos o pedaço imaginário de sua bochecha e grita, eufórica:
— Peguei de volta, peguei de volta!
Depois, se afasta correndo, procurando uma nova distração.
Já começa a escurecer e paro à porta do salão onde a festa começará às nove da noite em ponto. É mesmo um desafio de encantamento. As janelas grandes e antigas foram escancaradas, abrindo-se a um espelho d’água que refletirá, logo mais, a lua cheia. Os cinco lustres de cristal estão sendo testados, neste momento, para que não se acanhem na frente dos convidados. Entrelaço e penduro nas janelas os terços de flores brancas, deixando que repousem para aguentar a festa.
Tem sido assim desde que eu mesma tinha a idade de Mel. Uma vez por ano, fazemos esta recepção grandiosa para agradecer aos médicos e colaboradores do hospital. É sempre uma noite de sonhos.  E hoje estou mais animada que das últimas vezes, porque será um baile de máscaras. Não sei por que não tive antes esta ideia tão comum e sedutora. A fantasia que escolhi, de cortesã, foi um impulso picante. Encantei-me pelo formato que deu aos meus seios. Fecho os olhos e tento novamente fazer com que voltem as memórias que estavam por aqui faz pouco, mas não consigo. E nem tenho tempo. No quarto de vestir, a enigmática mulher pendurada no cabide espera que eu a penetre com as minhas formas.
Só por hoje, permito que sirvam a minha refeição e a de Melissa em meu quarto, para que ela possa ver-me colocando o vestido e a peruca, já que na hora do baile estará dormindo.
— Mamãe, mamãe, deixa eu ver, deixa!
— Ainda não. Primeiro vamos comer bobagens!
Desfazendo o beicinho que sempre faz quando ouve um não, ela se anima:
— Bobagens? É mesmo? Posso comer bobagens hoje? — repete, agitando as mãozinhas no ar.
— Sanduíche, bolo de chocolate com calda, suco de laranja, sorvete com cobertura. Hum, que delícia! E é tudo meu! — provoco, retirando de perto dela o carrinho com as comidas.
— Não é! Não é não! — protesta, inocente.
— Então... está bem! Acho que vou dividir com você.
Gargarejando um riso, ela se joga em minha cama e espera que eu a sirva. Um sanduíche gigante aparece em seu prato sobre a bandeja de cama, seguido, logo depois, por uma taça de sorvete com cobertura.
— Hum... Está faltando alguma coisa por aqui. Uma cobertura especial.
Ponho nas mãos um pouco de chantilly e o esfrego no nariz e nas bochechas da pequena, antes que ela possa reagir.
— Mamãe, para! Assim não vale, você é mais maior que eu!
— Maior. Maior que você, meu amor! — corrijo, com vontade de rir.
Sem entender, Mel procura no carrinho de comidas alguma coisa para me dar o troco. Finjo que não percebo e me sento bem ao lado das coberturas de sorvete. E aceito o carinho de uma calda de morango que ela esparrama em meu rosto, deixando que pense que me pegou de surpresa. Por fim, exausta da farra e das guloseimas, me faz prometer que eu a acordo para que ela me veja fantasiada. E, sem aviso, dorme.
Aproveito a deixa e corro para o banho. Como não tenho tempo para a banheira, abro o chuveiro e estremeço com o jato revigorante e frio que me estimula os sentidos. Por uns instantes, grudo meu corpo na parede úmida de ladrilhos desenhados, braços abertos, rosto comprimido contra a água que escorre . Um hábito tolo, mas relaxante. Em seguida, toco minha pele, primeiramente com a esponja macia e depois com os dedos, dando-lhe o carinho que há muito tempo não recebe. Enxugo devagar o corpo relaxado, esquecendo-me da pressa, e logo entrego-me à cortesã que me espera pendurada, pacientemente. Onde é que eu estava com a cabeça quando escolhi isto? — penso, lutando para fechar a fantasia apertada. Mas olhando para a imagem no espelho, as recriminações dão lugar à excitação. Para falar a verdade, sinto-me sensual, e isso mexe com os meus pensamentos. Mel acorda pela metade no momento em que acabo de ajeitar a peruca de época. De início, leva um pequeno susto, mas logo sorri, meio debochada, e dorme novamente, vencida pelo dia agitado. Desço para conferir pela última vez a casa e saboreio uma taça de kirr royal antes que o movimento dos convidados me impeça de cuidar de mim mesma.
Os primeiros carros chegam, trazendo a família. Logo após, alguns amigos, o pessoal do hospital, outros amigos e, finalmente, pessoas que não sei quem são. Pronto. Este é o momento em que finalmente posso me afastar da porta principal. Não há mais rostos conhecidos e o cansaço começa a tomar conta das minhas panturrilhas retesadas sobre os saltos altos e finos.
No entanto, no instante em que me viro para me recolher ao salão, uma voz profunda e cheia me alcança.
— Boa noite, Maria.
O ar me falta enquanto me volto lentamente. Caminho, incrédula, até o homem parado na calçada de pedras. Sob a lua cheia, Augusto sorri para mim. Augusto que não podia estar aqui. Porque Augusto é do céu.
                                                     *****
Os braços de Mel estão em volta do meu corpo agitado e eu a escuto pedir ao enfermeiro que me aplique mais uma injeção. Não! Ainda não, filha! Ainda não! Você não entende? Mas minha boca já não fala e o grito dos meus olhos não consegue dizer a ela o quanto eu precisava deste último clarão. Agora, tudo será novamente esquecimento.

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Cinthia Kriemler
Formada em Comunicação Social/Relações Públicas pela Universidade de Brasília. Especialista em Estratégias de Comunicação, Mobilização e Marketing Social. Começou a escrever em 2007 (para o público), na oficina Desafio dos Escritores, de Marco Antunes. Autora do livro de contos “Para enfim me deitar na minha alma”, projeto aprovado pelo Fundo de Apoio à Cultura do Distrito Federal — FAC, e do livro de crônicas “Do todo que me cerca”. Participa de duas coletâneas de poesia e de uma de contos. Membro do Sindicato dos Escritores do Distrito Federal e da Rede de Escritoras Brasileiras — REBRA. Carioca. Mora em Brasília há mais de 40 anos. Uma filha e dois cachorros. Todos muito amados.
todo dia 16


9 comentários:

esta mulher escreve cada vez mais divinalmente e cada vez mais os seus temas me dão murros no estomago
beijos, Cinthia

Só quem teve um caso de alzheimer na família consegue avaliar a emoção que este texto provoca. Fico sem fala para expressar o que senti com esse "Último clarão"... Lágrimas servem? Putz, Cinthia, que magnífico esse texto!

Vc seduz o leitor, faz com que imagine mil enredos, e o soca impiedosamente ao final. Nocaute. Belíssimo!

Fátima, Cecília, Tatiana, obrigada! Tenho carinho especial por esse texto. Escrevi tem um ano e guardei, porque deixa muita gente triste. Mas hoje resolvi publicar. Obrigada mesmo!

Cinthia,
Por indicação vim até o seu texto e, depois de lê-lo, tenho a certeza que indicarei para mais pessoas.
É muito boa a forma com que os cenários aparecem, é impressionante como o tema faz pensar.
Parabéns.

Obrigada pela visita, pela leitura e pelo comentário, Marília!

O texto está magnificamente escrito, como é sua característica. Não sei se percebi todas as implicações, mas quero acreditar que sim: Todo o enredo foi o clarão. E, para mim, penso: Holy shit!, exorcizando o receio e repudiando o fado de mais este drama humano.

Trama,Drama,Suspense,lance de emoção,e, por fim meditação!Mais um Texto brilhante em choque rasante à vida actual,mostrando afinal o arrepio no fio do estar... Mais uma vez, fico à espera do próximo.Parabens,obrigado... Réjo Marpa

Joaquim, sua percepção está correta, sim: o clarão. Essa doença nos assusta a todos! Obrigada! Abraço.

Réjo Marpa, muito obrigada pela leitura e sensibilidade! Abraço.

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