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sexta-feira, 1 de março de 2013

Penitência

Ele tinha tudo para ser um erro, para desfocalizar os limites e se aprimorar como a pior das intenções, vestir a vulgar máscara da subversão e ruminar os escombros memoriais em penitência. Um imundo celestial banalizado pelo próprio descuido. Cascatas costumavam brotar das suas resignações despedaçadas, ajoelhamentos cínicos. Tímido prevalecido em meio aos cacos funestos da família que o deixou respirar cinzas. Treze miseráveis anos sucumbidos na ausência, na perversão de quem redemoinha defloramentos, entranhas escondidas para o efeito de agradar civilizações conceituais. Na última manhã acordou como quem procura um abraço para se resvalar no saudosismo e bloquear a veracidade do tombo. Os olhos amendoados destoando à ternura, apagado com o vazio de quem ainda não se principiou algo, vendido pelo medo de transpor os dedos pela fresta dos sonhos. Reclinou o pesar e a cabeça sobre o desconforto e chorou, chorou clamando piedade aos nomes mais conhecidos pela estupidez humana, o desespero de se confinar ao imaturo. O quarto em lodo falava por si só todo o esquecimento que se fez por escolha. Frases sigilosas ajudavam a reconhecer um rosto deixado na poeira de alguma alegria maquiada. Um segredo guardado a sete pedras brutas chacoalhando a precariedade diante do despertar. Salientou-se triste. Permaneceu sentado procurando o que deveria ter lhe abençoado. Levantou arrastando enigmas sobre a decomposição da puberdade. Abriu a porta e estremeceu ao nevoeiro de aberrações fantasmagóricas que ecoavam no corredor. Tempo atrás a figura materna passava-lhe trazendo um bom dia, doçura e afeição. Debruçou na queda matutina toda a inconstância de não poder ser amado, limitado ao desencadear tormentos. Estreitou-se todo manhoso, fragmentou a sinergia dos órgãos vitais na temporalidade das doenças, praga calada que o amordaçava terror. Arrastou-se até a cozinha. Não havia mais o cheiro do café e nem o cheiro de alguém. Não havia mais nada além do que a decadência de saber que não se pode estar no presente momento adequado ao viver. Cadavérica alma faminta pelo toque de quem a ostentou por caridade. Tão só quanto um egoísta alucinado quando ordenou o massacre de mil homens que caíram à sua esquerda e dez mil à sua direita, ignorando o perdão para qualquer ressentimento. Perplexo pelo acúmulo de ácido clorídrico transbordando do peito. O sol nascia desencadeando transmutações e cores, afora ali dentro, onde tudo ressaltava a ambiguação. Apressou-se para não se perder. Colocou o mesmo par de meias do dia anterior, a mesma calça suja e batida, a mesma inexpressão que o destino tinha lhe presenteado. Não comer pela fome não passava de uma subjetividade, não queria mesmo sentir alívio em matá-la, no íntimo deseja ser morto, não um suicídio por acovardar-se, mas uma lentidão prazerosa ao trincar os olhos. Abriu a porta dos fundos, nunca encarou o lado de fora contemplando o dia, completamente megafônico na quietude. O externo visto pela incredulidade é a materialização do belo, pássaros nus, incandescências por todas as moléculas do ar, mas ele não se importou, nunca tinha parado para ver bobagens imaginativas. Seguiu o rumo dos hábitos corriqueiros. Até então não se tem mais notícias sobre o seu paradeiro, ninguém sabe se ele parou no acostamento ou buscou-se pelas vias. A mais recente língua víbora disse que ele passou quase invisível se multiplicando em pegadas sutis, ignorando a altivez, mas deve ter tomado a sábia escolha do oportuno, não voltar ao quarto das extremas sensações desbotadas onde a tipologia do mundo aferroava sua lânguida natureza. Creio que ele tenha se tornado a intensificação dos desprezares, camuflou-se entre as epidermes e vez ou outra volta ao delírio das lembranças carregando a individuação apática, sindrômico eremita, desapropriando o corpo e se enlaçando nos gemidos, cultivando abomináveis sequelas etéreas. Coloco mais fé ainda em pensar que ele achou a poética nos escombros corporais e em forma de agradecimento unificou a repugnância amorosa aos espectrais ilogismos. 

[Jason Shawn Alexander]

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Bruno Bossolan
Nasci em 25 de junho de 1988 e resido em Capivari, interior de SP. Sou Cronista e Redator do Jornal O Semanário. [www.osemanario.com.br] Autor dos Livros: N(ó)stálgico (Poesias, 2011 - Paco Editorial) - Barbáriderna (Poesias, 2012 - Editora Penalux), com participação também em mais de 10 antologias poéticas. Autor da Peça Teatral “Destroços do Martírio” (apresentada no Mapa Cultural de SP na cidade de Porto Feliz – 2008/2009).
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