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segunda-feira, 2 de julho de 2012

A face de Thanatos


Um dia, ele descobriu que era capaz de enxergar a Morte. Que, assim como o Diabo, também não era tão feia quanto pintavam. Lembrava-se, então, criança, de ouvir crendices segundo as quais os cadáveres de olhos arregalados e expressão apavorada indicavam terem eles visto a dita cuja. Que, como dissemos, não era feia nem tampouco assustadora. Era mulher, sim, e nada mais natural do que uma forma feminina para conduzir alguém ao outro lado.
Que uma coisa fique bem clara: ele não via mortos, vulgo fantasmas, mas a própria entidade encarregada da passagem. A indesejada das gentes.
De posse desta informação, sigamos, pois. Ele podia ver a Morte se aproximando, de olhos gulosos, de alguém. Passava-se um dia, e pronto: a pessoa morria. No caso da tia doente, ela rondara por vários dias, até finalmente levá-la. Já nos casos de morte súbita – presumia ele, já que nunca tinha presenciado nenhuma –, ela simplesmente aparecia do nada.
Com o tempo, passou a visitar centros de terapia intensiva, lugares em que, sabia, ela fatalmente surgiria. Fizera amizade com enfermeiras, que lhe facilitavam a entrada, achando tratar-se de um voluntário de algum grupo de apoio. Quando ele queria reencontrá-la, era para lá que se dirigia.
E aí entra o insólito da história: ele decide proteger os indivíduos que ela ronda. Não por pena ou qualquer outro sentimento nobre, mas por ciúme. Apaixonara-se por ela. Amava a mulher que trazia o Fim.
– Leve-me com você, por favor. Isso que eu tenho hoje já nem é vida... – implorava.
– Não posso. – respondia, divertida. – Não basta querer. É preciso estar pronto.
– E o que é preciso fazer para estar pronto? – retrucava, indignado.
– Quando você estiver pronto, saberá. – e nada mais dizia.
Os anos se passavam, pessoas nasciam e outras morriam. Todos envelheciam. Menos ela. Que às vezes aparecia sorridente, levando aqueles que sofriam como quem busca um amigo para um passeio. Em outras, tinha de ser um pouco mais persuasiva. Mas era irredutível. Jamais aceitara barganha de espécie alguma.
– Vai levar esse aí também? – a essa altura, já estavam íntimos, amigos de longa data, que se criticavam sem deixar mágoas.
– Sempre venho com um propósito, você sabe. – ela não se rendia. – Já você, devia aproveitar a vida, em vez de me procurar.
– Este homem tem mulher, filhos. Vai deixar um monte de gente saudosa. Eu não tenho ninguém. Leve-me e deixe-o viver um pouco mais. – argumentou.
– Em tanto tempo, você ainda não aprendeu, não é? – seu tom era quase complacente. – Eu não escolho quem levar. Há critérios.
De fato, de tanto observar a ingrata atividade da mulher, ele aprendeu que sua atuação independia de idade, raça, credo ou lugar. Dia após dia, ela carregava consigo pessoas das mais diversas origens. Sua atitude variava segundo a reação da pessoa, mas todos, sem exceção, acabavam por segui-la. Uns sorriam, felizes por se libertarem das dores de uma doença terminal; outros se emocionavam diante da perspectiva do reencontro com pessoas queridas. Alguns até conseguiam retornar, mas julgavam ter sido algum delírio a imagem da bela mulher em meio à bruma.
...
Um dia, ele acordou diferente. Percebeu que o estranho fascínio despertado por ela parecia se ter esvaído. Não passava de uma mulher comum, sem nada de especial, a não ser a nada usual função que desempenhava no mundo. No meio de uma imponente floresta ou na beleza de uma tarde chuvosa, ela chegava quase a ser insossa. Uma flor coberta de orvalho ou a cor do céu ao crepúsculo eram definitivamente mais belas, assim como os gritinhos excitados das crianças na pracinha, no sobressalto dos balanços e gangorras. O mar em seus dias mais revoltos, ou na doce calma que convida ao mergulho, tudo era mais belo do que o negrume dos olhos da funesta criatura. Deixara de venerá-la. E isso era maravilhoso.
– Parou de me seguir. Ótimo. – seu tom denunciava um leve despeito. – Que olhar é esse? – perguntou, um tanto contrariada pela frieza com que ele a mirava.
– Você tinha razão. Tenho coisas mais importantes do que esperar a sua vinda.
– Que bom que você chegou a essa conclusão. – ela parecia confusa.
– Descobri que a vida é maravilhosa. Você só é bela aos olhos de quem não quer viver. Hoje sonho com o futuro, e com aqueles em quem continuarei a viver, mesmo depois de você me levar. Hoje quero viver.
Nesse momento, a Morte sorriu. Um sorriso amargo, de quem descobre que o jogo está irremediavelmente perdido.
– Agora já posso levá-lo.
– Como assim?! O que você quer dizer com isso?
– Que só está pronto para morrer quem aprendeu a amar a vida. Não faz sentido privar alguém daquilo que ele não deseja.
– Então é isso o que você é? Privação? Enquanto a desejei, você me via com indiferença. E hoje...
– ... Venho roubar aquilo que você mais aprecia. Sua vida tornou-se preciosa a partir do momento em que você deu sentido a ela.
– E aí você me leva e termina? Só isso?
– Geralmente, sim. – respondeu ela friamente, olhando as longas unhas.
– Acabemos logo com isso. Leve-me. Mal posso esperar. – o sarcasmo em sua voz era evidente.
Então, algo estranho aconteceu: a Morte emitiu uma espécie de gemido, como se sentisse alguma dor.
Não estou autorizada a levá-lo. Não entendo. – ela parecia desconcertada. Ela, a senhora dos ritmos e do fim, estava inacreditavelmente surpresa.
Bem. Fica para outra oportunidade, então. – disse ele, triunfante.  – Até a próxima... – quando ele se tinha tornado tão cínico, afinal?
Vou-me embora. Algum dia nos veremos, você sabe. – seu constrangimento diante da própria impotência era evidente.
E assim a Morte partiu, pela primeira vez desejosa de alguém que não poderia levar consigo. Perdera o amor daquele homem, a quem – agora percebia – começara a amar. Era uma perda irreversível, ela sabia, pois agora tinha como rival a mais sublime das coisas criadas: a Vida.


TATIANA ALVES

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Tatiana Alves
Tatiana Alves é poeta, contista e ensaísta. Participou de diversos concursos literários, tendo obtido vários prêmios. É colaboradora da Revista Samizdat, já tendo escrito para os sites Anjos de Prata, Cronópios, Germina Literatura e Escritoras Suicidas. É filiada à APPERJ, à Academia Cachoeirense de Letras e à AEILIJ. Possui nove livros publicados. É Doutora em Letras e leciona Língua Portuguesa e Literatura no CEFET / RJ.

todo dia 02


5 comentários:

Parabéns pela estreia, Tatiana! Conto interessantíssimo e mto bem escrito. Só não me surpreendi porque conheço seu talento. Abração!

Malabarista das palavras: esta e Tatiana Alves. Parabens, querida amiga, por esta bela estreia.

Eu não conhecia o seu texto em prosa. E foi muito agradável ver que a contista Tatiana é romântica, sagaz e íntima do leitor. Parabéns! Marcou bem a estreia!

Obrigada, Edweine, pelas palavras de incentivo e pela companhia.
Cinthia: obrigada pela análise atenta e por me ler nas entrelinhas. O primeiro comentário seu que tive foi sobre um texto sobre Machado que publiquei aqui há alguns meses.
É um prazer estar por aqui...

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