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quinta-feira, 19 de julho de 2012

Leitura em baixa

(Maristela Scheuer Deves)

Dias atrás, o escritor Marcos Fernando Kirst escreveu em sua coluna, no jornal Pioneiro, sobre o problema que muitas pessoas demonstram atualmente em compreender textos que tenham um pouco mais de complexidade que a permitida pelo limite de 140 caracteres do Twitter, por exemplo. Também já observei esse "fenômeno", em que alguns ditos leitores parecem não conceber frases que não se componham unicamente de sujeito + verbo + um único complemento. Textos que conectam ideias, abordam dois conceitos ou fazem intercalações na escrita parecem, para alguns, pecado mortal.

Pois agora surge uma pesquisa que mostra que essas observações têm fundamentação na realidade. Dados da pesquisa pesquisa Indicador de Analfabetismo Funcional (Inaf 2011), realizada pelo Instituto Paulo Montenegro, ligado ao Ibope, e pela ONG Ação Educativa, mostram que, embora oficialmente o analfabetismo atinja menos de 10% da população brasileira, aqueles que realmente têm domínio pleno da capacidade de leitura restringem-se a 26% da população entre 15 e 64 anos.

Segundo o estudo, os analfabetos — considerados como aqueles que não conseguem executar tarefas simples de leitura — são 6% nessa faixa etária. Outros 21% teriam apenas um nível rudimentar de compreensão da escrita, com capacidade de localizar informações explícitas em textos curtos, anúncios ou bilhetes.

A maioria dos brasileiros, 47%, estaria no nível de alfabetização considerado básico: seriam os alfabetizados funcionalmente, que leem e compreendem textos de média extensão, leem números na casa dos milhões e têm noção de proporcionalidade. No entanto, teriam limitações quando a ações que envolvem maior número de elementos, etapas ou relações (como um texto mais complexo).

E só os 26% restantes, já citados, seriam plenamente alfabetizados, capazes de ler textos mais longos, analisar e relacionar as suas partes, comparar e avaliar informações, distinguir fatos de opiniões, realizar inferências e sínteses.

O mais assustador são alguns dados complementares da pesquisa. Entre as pessoas com ensino médio — das quais, como salienta o próprio texto do estudo, se esperaria que já estivessem todas no alfabetismo pleno —, a maioria (57%) permanece no nível básico, e apenas 35% têm a compreensão integral do que leem. Quando o universo é o das pessoas com nível superior, a situação melhora um pouco, e 62% mostram nível pleno de compreensão; mesmo assim, ainda se está distante do que se esperaria de alguém com no mínimo 15 anos de estudo.

(texto originalmente publicado no blog Palavra Escrita - www.pioneiro.com/palavraescrita)

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Maristela Scheuer Deves
Jornalista por formação e escritora por vocação. Atua como editora assistente de Variedades no jornal Pioneiro, de Caxias do Sul/RS, em cujo site também mantém o blog Palavra Escrita, voltado ao mundo dos livros. Escreve desde que consegue se lembrar, e atualmente prepara para publicação seu terceiro livro, o infantil "Os Deliciosos Biscoitos de Oma Guerta", contemplado pelo Financiarte. De sua autoria, já estão nas livrarias o romance policial "A Culpa é dos Teus Pais" e o infanto-juvenil "O Caso do Buraco".
todo dia 19


1 comentários:

dramático, sim, mas tristemente verdadeiro! e será em outros locais que não só o Brasil... e o que custa ver a pobreza da escrita e do que se "troca" nas designadas redes sociais...pergunto-me tantas vezes ao que andamos os que escrevemos: se poucos são os que lêem, se poucos são os que entendem, que mesagem, que papel o da escrita, ainda mais o da escrita de ficção? seremos, cada um dos que teima em trazer ao papel (ao ecrã...) as personagens dos seus escritos, os elos de ligação entre mundos? estou brincando, que eu cerio tão pouco em imaterialidades, mas se não for para dar vida a seres que de outro modo nunca seriam, se não for isso, que será que faz escrever ficção a cada um da gente e nem ganhar um tusto como vai sendo já uma maoria?

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