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quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Boneca


São passos cronometrados e medidos, desatento por andar compassivo. O caráter arranhando as incongruências da calçada numa despreocupação invejável, quase perene se houvesse a crença destroçada entre os dentes. Vagarosamente me deparo com a mitologia encarnada, venustidade aprisionada num insaciável fôlego. Poderia fazer um escândalo ou me sentir amuado, diligentemente apático, mas me anestesiei com o sorriso emborrachado, contemporaneidade contemplativa, magnetismo por gozar apenas com os olhos. No reflexo das correntezas uma forma indecente ao puritano, fóssil das expiações embrulhada em desesperação. O charme imperecível exalou da boneca vertiginosa que se deparava esclerótica no próprio redemoinho. Todas as maquinações vertiam daquela forma ilusória, protética, inexplicavelmente entranhável a ponto de sê-la, feito o ser-em-si aturdindo ficções antes de se esparramar, mas sem a verdade cravejada no semblante. Curvas carregadas de nada, brancura sobreposta em uma estéril plasticidade, mas na pele os cosméticos acendiam a perfeição, pantera urbana aninhada nas unhas da manipulação. “Tão insensata!”, esmurrei-me o espírito pensando que jamais a faria feliz, que em uma única ocasião correria a eternidade sobre o seu rosto em busca do sincero declínio. “Preciso arrumar uma dessas antes que eu me acabe. Uma dessas numa noite e apenas, sem prolongar o contentamento depois da euforia, sem prometer que serei o seu escravo pela contenção dos abraços. Ela se veste como ninguém, aliás, com quase roupa alguma... mas minha punhetagem mental gosta disso. Ela quer mesmo é mostrar a escravidão que lhe acorrenta no corpo, quer ressaltar o sofrimento das dietas e exercícios, demonstrar a insegurança perante o julgamento dos cordeiros”. Os fatídicos deslumbravam-na na concretude das passadas, tropeçavam no abstrato e, mesmo assim, não caiam em si, perdidos em cada distração. Monumento dos silêncios, ardência assombrada, gélida vazies proclamada no estereótipo do infortúnio. “A sua opinião nem deve valer porra nenhuma. Acho que nem teve tempo de trabalhar sobre o próprio sangue”. Criatura forjada no modismo dos músculos, cirurgicamente preenchida com as impalpáveis cores, via-se tão de longe como quem se acomete ao pretérito tentando se raiar. A imprecisão de para onde voltar é notável, braços que dançam irritados, língua ferina delineada na retórica dos confins. “Essa garota deve repetir a mesma impassibilidade dos signos terrenos sempre que o medo lhe invade”. Lágrimas, subterfúgio à surdina sempre que os errados lhe açoitam. “Do tipo que bebe ácido querendo o néctar, mas ela sabe que no íntimo as escolhas são fugazes. Ela sabe muito bem que o orgulho vai afundar a modéstia”. Tão apegada à infância que apenas substitui os costumes conforme a necessidade, os brinquedos vivos, as bonecas por vilões, pois é sempre a vítima da cegueira induzida pelo próprio descontentamento. Coleciona tanta evasão que se empaca enquanto chora, quase morre em cada prelúdio, e nem assim se controla, quebra os olhos derramando a imaturidade. Relacionamentos frustrados em fugas afetivas, inconsequente sentimental quando se esbarra na incontrolável epopeia. “Bobagem! É tão fútil que não se arqueja com carinhos... ela não deve gozar como quem reza”. Metade do salário é para a subversão do peito, morfina deificada em chocolates, vinho e desatenção. A outra metade é para a incessante troca de esporros, saliva, angústias, arranhões, conclusões em cada página não lida, rasurada, coberta por traças, comparação das vivências no amarelamento dos pontos finais. Anseia ficar apenas nisso, acabar-se só, mesmo não sabendo que a carruagem segue a esmo com o desembestar da roda da fortuna. A rotina lhe atordoa e amordaça. É uma profissional dedicada nos entraves da submissão. No que quer que apregoe em honra ao indefinido se julga os caninos da fome. O combustível do motor cardíaco é o trabalho, nada mais lhe escapa dos pulmões além da toxicidade costumeira, garimpar os dias tentando chumbar a alma. Afogar-se nas noites improdutivas é a memorização de todos os fantasmas, quase nenhum silogismo lhe apetece para a renovação hemática. Contradiz o sonho de ser mãe na impulsividade em se atarracar na natureza insolúvel. Tão forte quando a imagem para agradar se estabelece nos padrões sociáveis, tão frágil quando a doçura inebria o âmago e lhe desnuda a caixa torácica. É uma morsa a remoer tentações. “Ela não se perdoa. Afinal, ela nunca esteve errada”. Não precisa da luminescência, a profundeza do ser enegrece os gemidos. Não quer saber se algo brilha alcançando-a em salvação, desbravar-se labiríntica é trespassar os cílios antevendo o corpo rogado em anomalias. “É por isso que eu não paro pra ficar me iludindo na frente da vitrine, eu não sei como me conquistar, eu não sei como tocá-la”. Aperto o passo, tenho receio de que ela se embruteça enquanto velo suas despretensões. Incrédula, pensará que estou almejando a rasa erudição do comum. “Claro que eu quero fodê-la! Mas será que ela vai expirar se eu tateá-la?”. Cruzei com seus olhos no desbravamento de uma incógnita, torpor anímico. Ela não se ensandeceu com os meus destroços atravessando-a a sombra. Cumprimentei-a na minúcia calejada das tentativas frustradas, e o desprezo veio logo em seguida. Desconheceu-me no figurativo calar, não se infligiu com a minha iminência. Ressoei a desforme inadaptabilidade na aceitação de todas as investidas, minha demente realidade. “Ela não tem vocabulário, apenas isso me excita, somente o fardo me interessa”.

[Imagem: Stas Kudrolev | Ao som de: System of a down - ATWA]

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Bruno Bossolan
Nasci em 25 de junho de 1988 e resido em Capivari, interior de SP. Sou Cronista e Redator do Jornal O Semanário. [www.osemanario.com.br] Autor dos Livros: N(ó)stálgico (Poesias, 2011 - Paco Editorial) - Barbáriderna (Poesias, 2012 - Editora Penalux), com participação também em mais de 10 antologias poéticas. Autor da Peça Teatral “Destroços do Martírio” (apresentada no Mapa Cultural de SP na cidade de Porto Feliz – 2008/2009).
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