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terça-feira, 28 de outubro de 2014

Viagem a minha terra


Antes de falar da viagem, quero falar da terra. E para falar da minha terra, transcrevo antes a pequena jóia de concisão e beleza que o Rosa esculpiu para o seu burgo do coração. Disse o Rosa: “Cordisburgo era pequenina terra sertaneja, trás montanhas, no meio de Minas Gerais. Só quase lugar, mas tão de repente bonito”. Eu digo da minha Buriti Alegre: “Buriti é pequenino lugarejo encantado, beira planalto, nos confins de Goiás. Só quase vereda, mas tão de repente mítico!”. Gosto muito do nome Buriti e mais ainda do adjetivo que lhe acrescentaram, ainda que atribuir alegria a uma palmeira pareça sem sentido. Para mim, o Alegre de Buriti faz todo sentido. O Buriti, nas palavras do Rosa, é senhor dos horizontes. Ali ele se alteia, altivo. Gosto dessa altivez que não é soberba, mas destinação. E a mesma alegria sem muito sentido que Buriti carrega no nome, eu carrego em mim – com todo sentido.

Já são mais de trinta anos longe daquele lugarejo encantado e a cada volta sinto que estou todo lá – a geografia da memória pouco se altera com o tempo. E a cidade mesma pouco mudou. O que mudou foi a paisagem humana. A cada volta sou guiado pela geografia do afeto. Desde que bati asas do meu chão, os pousos lá são raros e rápidos. O pretexto é quase sempre um casamento, um aniversário ou a despedida de um parente que voou para outra geografia.   

A viagem da vez não foi por nenhum desses motivos. Minha mãe entrou com um processo de aposentadoria e lá fomos eu e ela para uma entrevista com o advogado que cuida do caso. Viagem mais rápida do que todas: chegamos à noitinha de um dia, voltamos à noitinha do outro dia. Viagem de um dia para outro, a rigor, mereceria o nome de pernoite. Mas, para mim, foi mesmo uma viagem. E não sendo viagem de passeio, e sendo viagem em dia útil, revivi o cotidiano típico de uma cidade do interior. Gosto demais de ser do interior. E pensando agora em termos metafísicos, o mais importante de nossas vidas se passa no interior – essa geografia de dentro tão misteriosa e fascinante.

O compasso de uma cidade do interior é o da lentidão. E lá ficamos eu, minha mãe, a tia que nos hospedou, entregues às horas escorrendo lentas. Todas as horas sorvidas na sua inteireza. Na varanda da casa da tia, e enquanto corria a tarde, conversávamos, ríamos, trazíamos à tona o que escavávamos no chão da memória, todo ele bem sortido de idos e vividos. Enquanto conversávamos e ríamos, observávamos quem passasse pela rua e a tia, sentadinha no seu mirante doméstico, dava notícias de todos. Foi nesse compasso que tivemos notícias de um primo. É primo de segundo grau e de pouco contato. Mesmo com o pai, que é primo em primeiro grau, o convívio já foi pouco. O filho desse primo, quase trinta anos, se extraviou de si, leva uma vida errante, sofreu algumas prisões e tem um jeito de maior abandonado que corta o coração. Quando o vimos, ele vinha de um dia de trabalho – trabalho incerto, sazonal – e trazia o corpo todo sujo. Ele vive sem rumo, sem pouso certo. É filho do primeiro do casamento do pai – pai que já está no terceiro casamento. Doeu ver esse primo tão entregue à sua falta de rumo.

Enquanto conversávamos, um carro de som anunciava o falecimento de alguém. Numa regressão proustiana, para dizer como o Nelson Rodrigues, reconheço a mesmíssima música fúnebre, o mesmíssimo texto. O carro circula pela cidade inteira. Na minha cidade, todos os velórios são públicos. Em criança, eu me impressionava com esta frase: “O féretro sairá da rua tal, a tal hora”.O que me impressionava, em verdade, era a pompa da palavra “féretro” que, pomposa embora, me entregava seu significado com a clareza que um dicionário talvez não o conseguisse.

A tarde no fim, a conversa baldia indo daqui pr’ali, minha mãe nota um adejo de tristeza no rosto da tia. Indagada, a tia pensa um pouco e responde de um modo profundo, compungido: “Não é tristeza. É medo”. Como eu entendi a extensão daquela frase tão curta! A tia, viúva há seis anos, é alegre, conversadeira e está muito bem para os seus oitenta e dois anos. Mas ela sabe, ela sente que, por melhor que esteja, uma indesejada visita não tardará a chegar. Daí a frase que calou fundo em mim.

Escurece. E a noite sempre traz consigo alguma tristeza, algum medo. Na noite escura, eu e minha mãe fazemos o caminho de volta em direção a mais um dia. 

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