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sexta-feira, 8 de abril de 2016

... ao cano da meia





Ela sentiu o sêmen do rapaz escorrendo pela lateral de sua coxa. Teve vontade de tudo: de chorar, de gritar para mandar parar o ônibus, de descer do ônibus e se jogar na frente do primeiro carro que viesse em seguida, de ligar para a polícia, de ligar para mãe, pro namorado. Não foi o que ela fez. Não teve coragem para passar a mão ou procurar qualquer coisa para limpar aquilo, uma única e gorda gota que descia lentamente, viscosa, deixando um rastro em sua pele como uma pequena lesma. Pensou em olhar para o sujeito, em encará-lo, mas também não fez isso. Só conseguiu olhar para baixo, para o assoalho cheio de areia do ônibus. Viu o all-star do rapaz, limpo, talvez novo, ou recém-comprado. A calça jeans dele estava limpíssima. Viu, de relance, fora do foco da visão, o pau. Foi tudo muito rápido. Ficou com vergonha da mulher gorda, que estava diante dela. O rapaz valeu-se do tamanho da outra mulher para encurralar a moça naquele espaço do ônibus onde vão os cadeirantes, que sempre é ocupado por passageiros em pé quando o carro está lotado. Estava lotado, e ela ficou entre a estrutura de metal, a janela, a mulher gorda e o rapaz que acabara de esporrar em sua coxa. Outra gota estava na alça da sacola com as compras que ela fizera na feira. Fora até o centro comprar uma abóbora-moranga e mais algumas coisas, queria cozinhar para seu pai, que viria no sábado passar o dia com ela. Ficou com receio que aquilo tivesse caído em seus legumes, nas suas frutas. Ela, sem olhar, acompanhou o movimento do rapaz guardando o pau dentro das calças. Prestou atenção à sua respiração. Não conseguiu se mover, segurando as alças sacola com as duas mãos, diante de si, inconscientemente protegendo o que ainda era possível proteger. Sentiu o ar expirado pelas narinas dele na altura do seu pescoço, dos seus ombros. Era um guri, talvez não tivesse vinte anos. Talvez não tivesse namorada, ou tivesse problemas mentais. Talvez tivesse um canivete, ou um revólver. Talvez tivesse problemas com a mãe. Talvez não tivesse mãe, pensou. Talvez tivesse AIDS. Talvez estivesse terrivelmente endividado. Talvez fosse uma pessoa normal. Talvez pegar o ônibus lotado, bolinar mulheres e gozar nelas fosse um hábito. O ônibus estava chegando no final da avenida entrando na rótula da rua do shopping. O rapaz deu sinal que ia parar. Ela não se mexeu até que o cara estivesse de costas. Tinha um celular gigantesco, smartphone, saltando para fora do bolso de trás da calça do sujeito. Ele esquivou, virando para passar pela mulher gorda. Imaginou-se tirando o celular do bolso dele e jogando-o na sacola de compras. Ele não notaria. Descobriria quem ele era; acabaria com a vida dele. Mas também não fez nada disso. Ele seguiu, invisível, o árduo caminho entre as pessoas no corredor, para desembarcar em frente ao Shopping. A gota de esperma desapareceu quando chegou ao cano da meia dela. 



[conto de Joana de O.]
[imagem: http://www.panoramio.com/photo/79768905]

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