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quinta-feira, 10 de março de 2016

Tem me faltado palavras...


Tem me faltado palavras, mas nem é porque me falta o que dizer.
Pelo contrário, são tantas revoltas, tantas reflexões, tanto de tudo que é quase impossível saber por onde começar a organizar as ideias.
Vejo e leio notícias sobre o que acontece neste exato momento pelo mundo. O absurdo e o inconcebível. Crianças tornadas escravas sexuais. Babá que decapita uma menina. Refugiados cruzando o Mediterrâneo. Manifestações xenófobas. A iminência da uma nova crise econômica global. Inflação. Deflação. Protestos. Repressão. Assaltos. Latrocínios. Estupros. Opressão e morte. Morte para todo o lado. E medo. E fome. E nem sei por onde começar a falar sobre tudo isto. Nem sei se o que tenho para falar, sentando em minha poltrona no conforto da minha sala de estar, fará a mínima diferença para esta terrível ordem do mundo.

Onde foi que erramos? Parece-me ser a pergunta mais natural e espontânea; entretanto, é uma questão equivocada, pois nunca estivemos no caminho certo. Todos os acertos redundaram, em algum momento, em fracasso e horror. Tudo de bom que a nossa espécie um dia concebeu recebeu o nosso toque de destruição e se deturpou. As nossas invenções, a nossa Arte, o nosso gênio se converteram também em armas do mal.
Assisto à polarização, às discordâncias, às dicotomias, ao "eu" contra "você", o branco contra o negro, o pobre contra o rico, o erudito contra o popular, o cristão contra o muçulmano, o homem contra a mulher, este contra aquele, nós contra a natureza, nós contra tudo aquilo que é diferente, que nos é alheio, que nos ameaça, que nos assusta, que nos expõe como a fraude que somos, e sinto pena e asco.
E as palavras me faltam, simplesmente porque argumentos não vencem a intolerância e a ignorância. Na linguagem da violência, o que é razoável e sensato sempre perderá terreno para a cegueira do fanatismo, do preconceito e da agressividade.

Nada tenho a dizer sobre os assuntos às quais muitos devotam sua atenção. Não sei o que está passando na televisão, quais são os atores da moda, quem traiu quem com quem, quais são as canções que todos estão cantando, nem quais são as tendências.
As palavras me faltam para falar sobre o nosso presente, e eu jamais ousaria tentar prever o nosso futuro. Tudo que vejo são as lições não aprendidas do nosso passado banhado de sangue e percebo quão pouco aprendemos enquanto coletividade. Os mesmos erros sendo cometidos de outras maneiras, os mesmos discursos revestidos com outras embalagens, as mesmas palavras de ódio na boca de outras pessoas, e é como um filme ruim que já vimos uma centena de vezes e que ainda será reprisado outras incontáveis vezes mais.

Faltam-me palavras, mas só tenho as palavras para poder expressar o que há dentro de mim.
As palavras me faltam, mas o silêncio nunca é totalmente mudo.

A chuva salpica a janela nesta noite fria e os meus dedos dos pés estão tão gelados que doem. Estou na minha poltrona e as palavras me faltam.
Faltam-me as respostas.
Falta-me o mundo. Ou seria por excesso dele?

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