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terça-feira, 3 de setembro de 2013

DOIS NO RIO

DOIS NO RIO


A lancha afasta-se da margem lentamente, levando os dois homens. Um deles, arqueado na popa da embarcação, puxa a corda que aciona o motor. Uma, duas, três vezes... O sol do meio da tarde brilha no espelho de suor do seu rosto. Na quinta tentativa, a combustão joga no ar o cheiro forte de óleo queimado e detona o mecanismo que movimenta a hélice. Um pequeno tranco obriga o outro, sentado no banco do meio, virado para a proa, a crispar as mãos nas bordas laterais. Logo as crianças que nadam em algazarra perto da margem e as mulheres que lavam roupa nas pedras lisas e irregulares, conversando animadamente, vão sumindo no fim do triângulo de ondulações na pele da água.
Agora, somente os dois.
– Há quanto tempo não fazia isto... Ah, este cheiro de natureza é do que mais sinto falta em Sampa. Isto é que é vida!
Ergue a cabeça e, ainda sentado, abre os braços e fecha os olhos; no mesmo movimento, respira fundo, deixando que o ar puro lhe refresque os pulmões.
– Não parece que dá tanta importância. Quase dez anos sem aparecer... Aliás, sem mandar sequer notícias. Os amigos caipiras que se danem! Agora você é importante, gente da cidade grande, “Sampa”...
Jonas quase teve de gritar para que a voz vencesse o vento e o ruído do motor e chegasse ao companheiro. A mão direita controlando a barra de direção do leme. Os olhos, conhecedores do caminho, antecipam a rota predefinida. O barco no meio do rio, deixando para trás pequenas canoas com seus condutores, pescadores locais, a maioria valendo-se de remos. Um ou outro, conhecido ou não, acena, sorri, diz “boa tarde”. William, o da frente, retribui com entusiasmo. Jonas parece não dar importância, concentrado em seu mister.
– Que nada, amigo. A gente nunca esquece as raízes. E se não vim antes foi porque os negócios não permitiram. Você sabe que o boi só engorda sob o olhar do dono...
– Sei, sei... Esqueci que estava falando com um grande empresário...
– Quem me dera! Sou um simples sócio de uma pequena fábrica de papéis reciclados. Mas não tenho do que me queixar. E você, o que tem feito?
Então virou-se, meio desajeitado, posicionando-se na direção da popa. Assim podiam conversar melhor, olhando-se de frente.
– Continuo naquela vidinha de sempre, me defendendo na oficina. Dá pra ir levando... Pensa que esta lancha é minha? Agora sou eu que digo “quem me dera”. Emprestei de um cliente, amigo meu. – De repente, com olhar investigativo, através dos óculos de sol: – Mas, mudando de assunto, você está aí, todo prosa, à vontade na lancha... Por acaso aprendeu a nadar? Você morria de medo de água e sempre ficava na beirinha do rio, só até onde dava pé, enquanto eu e os outros garotos apostávamos pra ver quem atravessava primeiro.
– E você sempre ganhava, campeão! Eu ficava morrendo de inveja. Mas nadar nunca foi meu forte mesmo. Até pensei em fazer um curso de natação, mas nunca dá tempo. Em São Paulo tudo é muito longe, e é uma correria louca... Só não estou tremendo de medo porque esta lancha
me parece segura e sei que você é experiente e cuidadoso. Mas não seria melhor a gente pensar em voltar? Se bem me lembro, a Cachoeira da Fumaça não está muito longe, né?
– Calma. Ainda faltam uns três quilômetros. E quero lhe mostrar uma coisa lá perto.
– Me mostrar uma coisa? Deve estar tudo muito diferente. Nossa cidadezinha acabou se desenvolvendo, hein? Amanhã vou pela estrada, pra conhecer o complexo turístico.
– Sim, mudou muito. Mas a cachoeira continua a maravilha de sempre! Vem gente de toda parte pra ver. Afinal, não é qualquer rio que tem um salto de mais de oitenta metros!
– Isto aqui é incrível mesmo! Quase não me lembrava mais desta sensação de liberdade que é deslizar sobre as águas, o vento batendo na cara... Ainda bem que você me convidou.
– É que eu acho que a gente tem muita coisa pra conversar. Boa parte da infância e toda a adolescência juntos...
– E da mocidade também, é bom lembrar.
– Sim, boa parte da mocidade. Você estava naquela festa de fim de ano, promoção da nossa turma do terceiro colegial, quando conheci a Juliana. Acompanhou nosso namoro, o noivado, foi padrinho de casamento...
– Claro, estava em tudo quanto era festa! – Joga de novo a cabeça para trás e solta uma gargalhada – Enquanto você se amarrava num namoro sério, eu preferia conhecer outras garotas, descobrir os segredos delas...
William ri com gosto, embora o aumento da correnteza comece a preocupá-lo. Mas é Jonas quem fala.
– Tem uma coisa que queria lhe dizer... Sabe, durante esse tempo todo que você ficou fora, eu vinha várias vezes aqui, navegar neste rio. Ficava refletindo, matutando... – Ajeita os óculos, passa a mão pela testa, limpando o suor. – E sempre pensava em você, que não mandava notícias... E você não imagina o quanto desejei estar em sua companhia neste rio, como agora.
– Iiih, cara! Sei não... Este papo está tomando um rumo esquisito... Será que você mudou de lado?
Ri, debochado, tentando desvendar a expressão do amigo. Esforça-se para se mostrar tranquilo, mas a conversa agora estranha, a correnteza, a proximidade da cachoeira...
Jonas aperta os olhos atrás das lentes opacas. A mão direita, suada, comprime a haste emborrachada da direção. Então faz uma manobra mais brusca, quase fazendo entrar água no bote.
– Que que é isso, cara?! Tá querendo nos afundar? Só porque tenho medo de água vai tirar onda com minha cara? Azar o seu. Vai me fazer sujar o barco... Não me responsabilizo.
Agora sorri forçado, enquanto o outro permanece impassível.
– E aquele dinheiro? O que você fez com o dinheiro?
O tom da voz de Jonas agora é outro. Metálico, seco. Mais uma mudança brusca na direção da lancha e no rumo do diálogo. A curva fechada deixa a água a dois dedos de entrar no bote. William sente a cabeça girar, agarra-se com mais força nas laterais.
– Dinheiro?! Que dinheiro? Não sei do que você está falando...
Outra curva fechada. A água respinga para dentro da lancha.
– O dinheiro que lhe emprestei, lembra? Você disse que ia resolver uns negócios em São Paulo e voltava em menos de um mês. Esperei quase dez anos...
William empalidece. Como pôde se esquecer? O tempo e as novidades da cidade grande, o início conturbado... Agora se lembra, o dinheiro, claro.
– Ah, Jonas... Poxa, me lembrei... Olha, aconteceu tanta coisa naquele mês que acabei não tendo como voltar nem entrar em contato com você. Quando a gente retornar à cidade eu lhe conto. Faço questão de explicar tudo. E vou lhe pagar com juros, pode ter certeza. Não me lembro mais do valor...
– Esqueça, amigo! Não faço mais conta, não. Precisei muito dele, mas agora não me interessa mais.
– Não, não! Vou lhe pagar, sim. E corrigido. Amanhã mesmo providencio isso, pode deixar.
– Não quero o dinheiro, já disse! Não preciso mais. Era pra levar a Juliana até Riachuelo, onde ela ia passar as últimas semanas da gravidez. Você sabia... Vendi até meu Passat pra levantar a grana.
– Caramba! É mesmo, eu me lembro... Sinto muito. Mas acabei levando um calote e não tive como lhe pagar no prazo prometido. Aí senti vergonha de voltar e fui ficando, ficando... Você entende, né? E seu filho? Deve estar um garotão, hein?! Tem um só?
Nesse momento o motor começa a ratear. Vai engasgando, apagando aos poucos, até parar de vez. A correnteza apodera-se do barco.
William sente a umidade na testa e nas mãos, que escorregam pelo metal. Os olhos, arregalados, já não escondem o desespero.
– Diabos! O que foi agora? A gente está perto da cachoeira e essa joça inventa de enguiçar?!
Jonas parece não se alterar. Levanta os óculos escuros com a mão direita, colocando-o na testa. Seus gestos são precisos, quase serenos.
– Acho que acabou a gasolina. Esqueci de completar...
– E, de cenho franzido, olhando nos olhos de William:
– Meu filho morreu no parto. Não tive condições de levar a Juliana pra um hospital com mais recursos. O Dr. Pedro fez o que pôde, mas a ambulância demorou a chegar e a cesariana só salvou a vida da coitada.
– Poxa, lamento muito. Mas... a cachoeira... A correnteza está muito forte...
– Queria lhe mostrar aquele morro ali na frente. Lembra- se dele? Dali até a cachoeira tem menos de um quilômetro. Uma vez eu vim até aqui numa canoa velha. Quando cheguei na direção do morro, saltei e consegui nadar até a margem. De lá fiquei olhando a canoa sumindo na cortina de fumaça d’água... Ah, a Juliana nunca me perdoou. Logo depois ela foi embora pra casa dos pais, em Minas, e não quis mais saber de mim.
Com a cabeça entre os joelhos, William balbucia:
– Não tive culpa, juro! Eu ia voltar, mas não pude... Me perdoe...
E erguendo o tronco e passando as mãos no rosto encharcado, com a voz se liquefazendo:
– Me ajude, por favor! Não me deixe aqui...
Jonas fica de pé no banco traseiro da lancha, equilibrando- se com as pernas um pouco abertas. Tira um saco plástico de um dos bolsos da bermuda e põe dentro dele os óculos e a carteira. Depois coloca tudo por dentro da sunga, na parte da frente. Volta-se mais uma vez para o
outro e o olha fixamente.
– É claro que perdoo, amigo. Não sou homem de guardar mágoa... Olha, este é o ponto. Vou pular aqui. É sua única chance também. Tem coletes salva-vidas em algum lugar aí embaixo. É só colocar um e ir batendo os braços e as pernas.
E observando os tremores no corpo arqueado à sua frente, agora a cabeça entre as pernas:
– A Juliana foi o único amor da minha vida, sabia? – Balança a cabeça de um lado para o outro e, estalando a língua três, quatro vezes, com ar de desprezo: – Dez anos... Se tivesse feito o curso de natação...
Dá um salto e mergulha na água turva. A cabeça aponta a uns cinco metros da lancha, à direita. Com braçadas vigorosas, debate-se contra a correnteza até alcançar a margem.



Edelson Nagues

Do livro Humanos (Editora Scortecci).

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Edelson Nagues
(nome literário de EDELSON RODRIGUES NASCIMENTO) é natural de Rondonópolis/MT e radicado em Brasília/DF. Estudou Direito e Filosofia, com pós-graduação em Língua Portuguesa. É poeta, escritor, revisor de textos e servidor público. Na década de 1980 e início da década seguinte, em seu estado de origem, atuou na área musical, como vocalista e principal letrista do Grupo Reciclagem, tendo participado de vários festivais universitários e de festivais regionais e nacionais da Caixa Econômica Federal, obtendo diversas premiações, inclusive como intérprete e letrista. Na época, funcionário da CEF, atuava como representante do então recém-criado Conjunto Cultural (hoje denominado Caixa Cultural) em Mato Grosso. Premiado e/ou selecionado para coletâneas em vários concursos literários, entre os quais se destacam: Concurso Nacional de Poesia “Adilson Reis dos Santos” (2012, Ponta Grossa/PR), XXXIII Concurso “Fellipe d’Oliveira” (2011, Santa Maria/RS), Prêmio Prefeitura de Niterói (2011), XXI Concurso Nacional de Contos “José Cândido de Carvalho” e XII FestiCampos de Poesia Falada (ambos em 2011, Campos dos Goytacazes/RJ), Concurso Novo Milênio de Literatura (Vila Velha/ES, 2010), IV Concurso Nacional de Contos do SESC-Amazonas (2010, Manaus/AM), VI Desafio dos Escritores (Brasília/DF, 2010), XL Concurso Literário “Escriba” (Piracicaba/SP, 2009). É autor dos livros Humanos (coletânea de contos premiados) e Águas de Clausura (de poesia, vencedor do X Prêmio Livraria Asabeça), ambos publicados pela Scortecci Editora. É membro correspondente da Academia Cachoeirense de Letras (de Cachoeiro de Itapemirim/ES) e mantém (ou tenta manter) o blog pessoal www.senaoescrevodoi.blogspot.com.
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