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quarta-feira, 3 de março de 2021

HORÓSCOPO - Trilogia II

 


Outro dia, numa conversa sobre velhos e asilos, descobri que Rita de C. também é formada em psicologia e parte do seu encanto vem daí, do volume de conceitos e fundamentos que possui, como adiposidades sexuais. Um dia ainda pretendo me meter entre suas nádegas e aprofundar meu conhecimento sobre tatuagens, quando ela estiver viúva. Antes, em seu consultório, ela me dirá se devo dar um tratamento literário às minhas patologias ou se devo considerar minha literatura como patológica.

            Francisco foi um tolo quando se enveredou pelo misticismo como forma de justificar os seus atos. Quis ver em tudo a mão suave do destino e deu de querer ler e acompanhar seu horóscopo. Ninguém comete um equívoco sem um motivo transcendental para si mesmo. Chegou até a colecionar previsões que endossassem suas atitudes, conforme ele me contou depois. Um dia o encontrei, bêbado e estropiado, com um pedaço de papel na mão. Uma folha arrancada de um caderno espiral cheia de anotações extraídas de jornais sobre o seu signo. Cobrem um curto período, não datado, em que ele diariamente acompanhava e anotava, montando um pequeno texto com vários e diferentes enxertos dessas previsões que, segundo ele, justificavam plenamente a decisão a ser tomada. Com isto julgou estar no caminho certo e quebrou a cara e agora me exibia o papel de sua ruína. Não vejo muita unidade nesse amontoado de frases e nem posso compreender como alguém possa ter embasado nelas uma decisão que mudaria o curso da sua vida. Ao invés da mão suave do destino ele encontrou o braço forte da desgraça. Coisas da vida e azar o dele que não leu A Cartomante. Transcrevo a seguir, a título de curiosidade, as anotações astrológicas e zodiacais do meu desafortunado amigo.

            “Na vida amorosa ou na profissional, podem surgir situações de prova ou desafio. Aproveite para treinar sua capacidade de funcionar sob estresse. Cabeça fria e objetivos definidos serão o seu escudo. A vitória acompanha quem tem melhor controle sobre si mesmo. Chega um momento na vida em que não dá mais para preservar as coisas como estão e que, correndo-se o risco de magoar pessoas ou destruir instituições, é melhor fazê-lo do que continuar mantendo tudo como está. Tudo está melhor do que parece, não tenha dúvidas a esse respeito. Todo esse tumulto, que muitas vezes tem você no epicentro da situação, expressa, na verdade, a mão compassiva do destino acertando o passo de tudo. Pronto para voar, virar o mundo de pernas para o ar, se jogar nos braços do seu amor. Impulsos de se libertar, romper antigos grilhões, tudo aquilo que vem se arrastando há eras. Você está se abrindo, de lento caracol vira veloz borboleta. Tudo pode ser e acontecer: link-se com sua alma. Uma decisão arriscada pode ser tomada hoje. Num tema amoroso, vai funcionar melhor se você der o primeiro passo, agindo de maneira segura. A surpresa e a segurança do que deseja é que irão garantir que você não fique falando sozinho. E não seja impulsivo, para não provocar acidentes. Toda a energia que você precisa para ser feliz está disponível e é absolutamente gratuita. A vida não exige nada, oferece tudo. Exercite-se na arte de viver sem depender de objetos ou dinheiro para garantir felicidade. Quando a mente fica cheia de preocupações é mais difícil perceber os detalhes belos da vida. As preocupações podem até ser reais, mas nada obriga você a se prolongar nelas. Passe por elas o mais rapidamente possível. Dúvidas e incertezas do futuro, como será o amanhã? É, pode ser difícil mover-se em chão desconhecido, trilhar a imprevisibilidade, mas se você der uma boa olhada em sua história até aqui, verá que não é a primeira vez que coisas muito boas aconteceram e que você se descobriu mais forte quando a vida o surpreendeu. É imperioso que você renasça das cinzas daquilo que se acostumou a chamar de ‘sua vida’. De fato, ela não mais existe, é apenas uma reminiscência. A morte não é tragédia, é oportunidade de transformar tudo em algo melhor”.

            Tendo passado muitos dias deitado debaixo da cama a contemplar os estrados de madeira sob os colchões, penso que a essa altura eu já não passo de um rato emotivo. Preciso me dispor a levantar para trabalhar ou morrer ou morrer de trabalhar, o que para mim pouco importa, uma vez que sinto a obrigação de sair daqui com urgência. Quando me refugiei era um paraíso, mas um paraíso momentâneo como logo percebi. Com o passar do tempo comecei a descobrir estragos na madeira do estrado. Nódulos, cerne podre, pregos amassados e entortados de qualquer maneira. Também o colchão apresenta bolor aqui e ali e isso já me irrita assim como as teias de aranha e a sujeira que se acumula debaixo dos móveis. Me sinto só e vazio, mas se passo para a parte de cima da cama, sobre os colchões, aí então a minha solidão parece que se escancara, fico desprotegido do mundo, com o vento a zunir em minhas orelhas. Um rato emotivo coberto de fuligem, cheio de medos e vertigens, eis o que sou. Num paroxismo de pavor, salto de debaixo da cama e já me vejo numa velha estrada de terra vermelha que afinal desemboca no quintal da minha infância.

            Acho que fui, sem o saber, uma das vítimas de Fausto. Aquele vampiro de almas, acho que me sugou, pois me sinto vazio como um morto-vivo, um fantasma cujo reflexo é apenas uma sombra no espelho das águas turvas de um tanque que se romper um dia poderá destruir toda uma cidade inteira. Percebo que o meu caso é grave na medida em que não compartilho o convívio dos mortos nem tampouco sou notado pelos vivos e, com certeza, esse é o fim das vítimas de Fausto.

            Agora sou um peixe sem alma. Olho-me no espelho e vejo uma cara de peixe coberta de escamas. Um peixe feio, mais redondo que comprido, que outrora habitava o fundo do lago Baikal e que hoje chapinha nas poças de água barrenta formada pelos cascos dos animais que chegam às margens do tanque para saciar sua sede e deixam pegadas que logo são invadidas pelas águas adjacentes, como uma extensão desse tanque cujo formato é de um mapa invertido.

            Não me lembro de ter conhecido esse tal de Fausto, mas certamente nos encontramos em algum desses bares que eu freqüentava antes de transformar-me neste misto de rato e peixe que ora se esconde debaixo da cama, ora se chafurda na lama formada pelos cascos dos bois da antiga fazenda onde se pescava.

            O Fausto “comprou” a minha história de vida. Uma história banal é verdade, mas era minha e era a única que eu tinha. Hoje me encontro vazio e já faz muitos anos que não escrevo um poema. É, deve ter sido isso. E o canalha não me pagou nada.

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