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quinta-feira, 16 de março de 2017

Cobrança - Conto de Marco Severo



Cobrança






Ao longe, Marieta conseguia enxergar a silhueta do que parecia ser uma mulher, se o que ela estivesse vendo fosse mesmo um vestido. Devia ser a prima. Já não era sem tempo, pensou.

Eleonora vinha caminhando devagar, trocando a mala de mão de vez em quando para descansar a coluna e um dos lados do corpo. Às vezes, parava um pouco. O sol estava mais baixo, mas quando a caminhada começou, depois de uma longa viagem de ônibus que havia durado mais de seis horas, ainda salpicava o ar e a terra com seu bafo escaldante, transformando cansaço em exaustão. Eleonora foi se aproximando da calçada onde Marieta a esperava. Fazia mais de vinte anos que não via ninguém daquelas bandas, e não tinha certeza se era ela mesmo. Havia seguido a orientação: No ponto final do ônibus, tem uma estrada batida de terra, caminhe por ela que vai dar em casa. Assim que a estrada acabar, virando não mais que um fiapo de chão, à direita vai estar nossa casa, não tem erro. E eu vou lhe esperar na calçada, havia dito a prima.

E assim ela fez, e parece mesmo que ia dando certo. Não sabia ainda como daria a notícia que tinha ido ali para dar. Quando ligara para o único resto de família que ainda tinha, não dera detalhes. Falara como quem manda um telegrama. Papai morreu. Preciso ir até vocês. Me digam o endereço. Eles o deram, sem entender. Mais tarde, um pouco mais refeita, ela finalmente falou com todos de maneira mais sóbria e se fez entender. Tinha havido um acidente, do qual a única vítima fora o pai. Ela queria muito ter ido até ali de carro, mas ele havia se acabado no desastre, de modo que precisara saber como chegar até lá de ônibus.

Embora não se vissem há tanto tempo, todos sabiam o motivo da visita de Eleonora: precisavam falar da casa em que ela morava com o pai.

Há sete anos, sua mãe havia saído de casa para ir morar em outra cidade com um homem muito mais jovem que seu pai, que ela conhecera durante uma visita que fizera a um centro cultural, onde haveria uma exposição, que ele estava ajudando a montar, levando os itens de um lado pro outro com a ajuda de outros homens. Nem ela nem seu pai jamais entenderam a atitude da mãe, mas um dia seu pai lhe falara do espírito indomável da mulher desde a época em que namoravam. Ela era dada a sumiços, e depois reaparecia como se sempre tivesse estado ali. Apaixonado, tudo perdoava, sem antever o que estava por vir e que, enfim, veio. Era da natureza dela, ele lhe disse, e as forças da natureza devem ser respeitadas. Ele falava essas coisas como se tivesse aceitado, mas quem o ouvisse compreenderia que suas palavras estavam mais próximas da resignação. A disposição para refazer a vida com alguém nunca veio. Um ano e pouco depois disso, ele admitiu que estava deprimido; e os irmãos, que eram quatro além dele, se reuniram a pedido dele mesmo, que fora até a cidade onde eles moravam para pedir que não continuassem o processo de venda da casa. Ele planejava comprar um outro apartamento, dali a um tempo, assim que pudesse, na verdade, mas não agora. Alguns acharam que era tolice: a casa era enorme, tinham tido propostas de duas construtoras, que queriam demoli-la para construir um prédio, E se o país atravessasse uma crise?, um dos irmãos questionou, as ofertas iriam sumir, disse, exasperado, e era uma grana que daria pra cada um comprar um apartamento, se quisessem, Inclusive o Leandro, disse uma das irmãs, sem a menor necessidade, mas no fim, com medo de uma disputa judicial que poderia protelar a venda do imóvel ainda mais, combinaram com ele um prazo de seis anos, que fora antecipado em dois anos, por conta de sua morte.

Marieta foi logo pedindo desculpas por não ter ido até ela e ajudado com a mala, e Eleonora disse que não tinha problema, afinal, ela nem tinha como ter certeza de que ela era mesmo a pessoa que aguardavam. Estavam tanto tempo sem se ver, justificou. Além do mais, disse Marieta, eu tenho medo de sair e os meninos escapulirem de casa. Mas vá entrando, vá entrando, disse a prima.

A porta da casa estava aberta, e assim que ela se viu na sala, notou que todos os seus parentes estavam espalhados ao redor do espaço. Uns sentados à mesa, outros no sofá, e um ou outro em pé, mas todos pareciam reunidos como para esperá-la. Eleonora não se fez de rogada e colocou a mala no chão. Quando levantou a cabeça, todas as feições que enxergava lhe eram completamente estranhas. As pessoas que não mais que dois segundos ela conseguia mais ou menos posicionar em algum momento da sua infância, quando vinha passar férias na casa de um dos tios, agora eram todos gente que ela nunca havia visto na vida. Deve ser o calor, pensou, e disse para os que ali estavam que precisava de uma cadeira e de um copo d’água, não estava muito bem, ao que alguém correu para a cozinha dizendo, Claro, claro, como pudemos ser tão insensíveis?!

Eleonora bebeu a água lentamente, de olhos fechados, na expectativa de que quando os abrisse tudo voltaria ao normal. Não voltou. Todas as pessoas que se encontravam ali, os dois tios, as duas tias, dois filhos de um de seus tios e o advogado que representava a família, continuavam sendo pessoas que nunca havia visto. Nervosa, Eleonora nem chegou a abrir a mala onde estavam apenas os documentos da casa e do processo da venda. Levantou-se, pediu licença e disse que voltaria em outra ocasião. Um dos supostos tios se interpôs em seu caminho, O que está acontecendo, Eleonora? Nós temos interesse em que isso se resolva o quanto antes! Sem conseguir olhar o estranho no rosto, ela disse, Eu também, mas não estou me sentindo nada bem. Uma mulher, que deveria ser sua tia, falou então, Deite um pouquinho, você deve estar cansada da viagem. Eu também achava que era isso, mas não é. Preciso ir embora, prometo a vocês que volto outro dia. Ainda ouviu um Se essa menina estiver aprontando alguma coisa pra cima da gente, e Ela pensa que estamos exigindo o quê além dos nossos direitos? antes de conseguir se desvencilhar do irmão de seu pai que barrava a porta e chegar novamente a calçada. Os tios ficaram falando alguma coisa dentro da casa, mas ela não distinguia mais as palavras. Não fazia ideia do que eles lhe fariam caso descobrissem que o pai havia morrido afundado em dívidas e que a casa seria tomada para pagá-las. Estaria seu cérebro inventando coisas como forma de defendê-la de algo pior?

Marieta levantou-se de onde estava na calçada assim que a viu, Já resolveram? Eleonora não conseguiu responder. Com a mala debaixo do braço e a lua já anunciada no céu, correu para longe dali o mais que pôde. A prima estacou, sem entender, e quando percebeu que Eleonora já ia lon- ge, jogou-se no chão, voltando-se para a porta da casa. A transformação levou menos de um minuto. Entrou na casa rastejando e sibilando, onde juntou-se a todos os outros parentes, que agora também deslizavam pela casa subindo nas maçanetas, deslizando pela porta da geladeira, entrando em gavetas, enfiando-se debaixo de algum móvel. Estavam atarantados, irados, chacoalhavam seus rabos com força, enlinhavam-se uns nos outros, doidos por algum ratinho ou pássaro que passasse por ali desavisado, porque se tem coisa que aplaca a raiva é comer.


Do livro Todo naufrágio é também um lugar de chegada. Editora Moinhos. 2016.

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Rafael F. Carvalho
Autor do livro A Estante Deslocada, é paulistano, nascido em 27 de Fevereiro de 1978. Foi publicado em antologias de novos escritores e em jornais universitários, e é formado em Letras pela Universidade de São Paulo.


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