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sexta-feira, 8 de maio de 2015

Cobras, cães, cavalos

[do Diário de Joana]

 Rio Grande, segunda-feira, 23/3/2015. 15h22. Dia #9 (again). Cobras, cães, cavalos.

Surpreendentemente, acordei com uma baita disposição. Passei reto pela portaria. Não havia ninguém lá. Corri de manhã, na Praça Saraiva. Tá ficando cada vez mais frio – olha a minha cara de triste :D. Vi uma coisa que me fez ficar o trajeto todo pensando, tentando encontrar uma metáfora subjacente, uma simbologia oculta. É sério, tenho ficado de olho nessas coisas.

Tem um cachorrinho que mora bem aqui na frente. Eu e uma outra vizinha damos comida e água pra ele. Não trago ele pra dentro porque ele, mesmo sendo de porte médio, é muito grande pra apartamento. E acho mesmo que ele tá bem vivendo ali fora, tranquilinho, livre, ao ar livre. Por exemplo: eu não soltaria o Catatau, porque ele foi criado desde bebê dentro do nosso pátio, lá em São Gabriel. Fazer isso com um cachorro que nasceu domesticado é uma puta crueldade. E eu acho que adotar um cachorro adulto que nasceu na rua, tentar domesticar um bicho que nasceu e cresceu em liberdade é tão cruel quanto. Tá, eu sei que nisso tem um pouco do discurso garantista, e talvez a Mônica Freud diria que eu esteja aplicando pros bichos o que o penso da prisão para os homens, ou o que eu sinto em sobre os relacionamentos, blablablá. [Aliás, amanhã é o dia de ir na psi... aiaiai... #medo]. Voltando ao cachorrinho. Ele cavou um buraco perto de uma das palmeiras há vários dias. Vi ele dentro do buraco, algumas vezes, em posição fetal. Acho lindo. A primeira vez que eu vi o Catatau fazendo isso, comentei com a mãe, dizendo que os cachorros também sentem saudades do ventre materno – sim, ela entendeu a queixa. Mas a mãe, daquele jeitinho que só ela tem de ser uma “profissional da desilusão” – outra hora eu falo mais a respeito – disse “Que nada. Ele faz isso porque, quando o dia tá muito quente, a terra fica mais fresquinha”. Preferi continuar achando que era por causa da saudade do útero. Eu gosto de me iludir.

Hoje, quando saí pra correr, me espantou ver uma coisa: no buraco que o cachorrinho cavou havia uma cobra morta. Parei pra espiar. Era uma cobra filhote, eu acho. Medi com a mão; tinha um palmo dos meus – a palma da minha mão não é grande, mas tenho os dedos longos (consigo fazer uma spaccata com os dedos; dá uma escala e meia no teclado, do do até o outro fa). Não sei ver se uma cobra é ou não é venenosa – ou peçonhenta, sei que não é a mesma coisa... –, até que ela me pique, ou me morda, enfim, até que me ataque. Como nunca aconteceu, pra mim, todas são. Não tenho medo delas, especialmente, mais do que qualquer outro bicho. Exceção feita aos – écs! tenho nojo até de digitar... – ratos. E se cobras livram o mundo dos ratos, elas sempre terão em mim alguém com quem contar.

Lembrei de uma vez que fui correr no campus da FURG, nas férias. Tem muitos cachorros na FURG. Eles vivem bem lá. São gordinhos. Eu não participo de nenhum dos grupos que ajuda os cachorros, porque, pfu..., sabe?, eu sempre me incomodo com grupos desse tipo. As pessoas começam a ficar meio surtadas quando se reúnem “em prol de uma causa”. Sou anti-causas. Se acontecesse uma guerra entre os homens e os bichos, eu ficaria do lado dos ursos, já diria o meu pai – ele roubou essa do Thoreau, mas eu nunca disse que sabia disso... Não sei o que seria deles sem a galera que cuida, mas o fato é que os cães são bem alimentados durante o ano letivo, contrariando as mensagenzinhas de “Não alimente os cães” espalhadas pelo campus, especialmente no R.U.. Eu me preocupava com os bichos nas férias. Sabia que o pessoal do coletivo minguava terrivelmente nessa época, e era quando eu mais ajudava. Esse ano comprei dois sacões de ração, e combinei com um dos guris pra ir levar comida pra eles. Ele mora na Vila Maria, e pra ele ficava mais fácil. Meio feio isso da minha parte, tenho que admitir... acho que eu devia ter ido lá mais vezes. Meio que “cumpri minha obrigação cristã”, e não quis me envolver. Já to pronta pra uma associação de senhoras burguesas em prol de uma causa beneficente qualquer. Então, pra compensar, eu ia lá correr duas, três vezes por semana, entre janeiro e março, e aproveitava pra fazer uns carinhos e conversar com os cães que estivessem a fim. Eles não pareciam carentes, na verdade. Aliás, nesse período, eles pareciam até mais numerosos que durante as aulas. E mais selvagens, também. Andavam em grupos grandes, e as matilhas meio que brigando por território. Talvez pela pouca comida. Eu sei lá. Sei que, nas férias, a FURG era o território dos cachorros.

Outros que andam soltos por lá, pastando e dormindo nos gramados entre os prédios, são os cavalos. Frequentemente, eles se desentendem com os cachorros, e estes com aqueles. Uma alcateia numerosa se forma de repente para disparar as ameaças, arremetendo o mais das vezes contra um único animal, e não medem esforços para mostrar que ele não é bem vindo. Ladram, rosnam, tentam mordê-lo, algo entre furiosos e temerosos. Um cavalo é monstruosamente maior que qualquer um dos cães. Uma patada bem dada bastaria pra dirimir qualquer malquerença por parte do canídeo (hehehehehe... o advoguês voltou com tudo, depois da cartinha...). Acontece que eu nunca vi nenhum cavalo reagir de outro modo além de se afastar, silenciosamente. Os cachorros fazem um estardalhaço até que se cansam. Passado o desentendimento, os cavalos seguem vivendo suas vidas, sem demonstrar o menor desconforto com a balburdia dos insatisfeitos, permanecendo dormindo, ora deitados, ora em pé, na relva verdinha.

É engraçado porque, durante as aulas, também há um monte de cavalos, coisa que os estudantes de outros estados devem achar muito bizarro. Eu acho normal, bonito até. Fiz uma cadeira de inglês no prédio 3 como disciplina complementar, e toda segunda, no mesmo horário, aparecia um cavalo e ficava a aula toda na janela perto do quadro. A professora disse que teria que dar um certificado pra ele também. Todo mundo riu – eu ri porque acho que o cavalinho deve ter aprendido mais inglês do que alguns dos meus colegas. Vi poucos cavalos na FURG, entretanto, durante as férias.

Foi num desses dias de verão, passando pela entrada do estacionamento do Centro de Convivência, que eu vi uma cobra indo na mesma direção que eu ia. Tomei um baita susto. Pouco tempo antes, uma guria foi picada por uma jararaca-cruzeira filhote, perto do laguinho. Eu via ela (a guria, não a cobra...) bem seguido no prédio 6, era bixo (!) da Biologia. Dizem que foi preciso amputar o dedo do pé da guria, onde a cobra picou. O médico disse à família dela que aquela espécie de cobra tem um veneno muito potente, e que, quando são filhotes, não sabem dosar a quantidade do veneno na mordida: elas injetam na vítima todo o veneno que têm nas presas, o que faz dos bebês da jararaca um dos bichos mais perigosos que existem. Achei exagerado, mas, sabe como são os boatos. Em todo o caso, a guria foi picada de raspão e por isso perdeu um dedo. Se tivesse sido picada em cheio, teria morrido. Quando vi a cobra aquele dia que tava correndo, nem quis parar pra ver se se tratava de uma jararaca, muito menos se era um filhote. Dei um pulo – acho até que gritei (Shame on you, Joana...) – e continuei o meu trajeto na calçada do outro lado da rua.

Nesse mesmo dia, perto do ILA, ou seja, perto de onde a guria foi picada uns meses antes, vi um cachorro mancando, com uma das patas dianteiras inchada, que ele tentava não encostar no chão. Fiquei pensando em como ele teria se machucado, ou como o machucaram, enfim. Podia ter sido numa briga, o que é normal – ele tava sozinho; os indivíduos solitários das espécies gregárias sempre se dão meio mal. Mas também poderia ter sido uma cobra. Fiquei cuidando pra ver onde ele ia. Tranquilamente – mancando, mas parecia estar lidando bem com aquilo – o cachorro caminhou aos saltinhos até um grande monte de bosta de cavalo. Pela cor e pela textura, parecia que tinha acabado de ser depositado ali. Me deu uma puta ânsia de vômito – ainda me dá, agora, só de recordar. Eu lembro de ter ficado pensando no motivo, em por que, meu Deus, por que o cachorro se dispõe a comer cocô de cavalo? Daí se pode tirar mil conclusões.

Ouvi dizer que o soro antiofídico é extraído do sangue dos cavalos. Ou do sangue daqueles cavalos em que se injeta o veneno do tipo de cobra que atacou a vítima. Não sei mesmo. Não me consta que os cavalos sejam imunes ao veneno das cobras, mas eles estão lá, a serviço do Butantan. Li num continho do Quiroga que os quatis, sim, são imunes, mas também nunca me interessei de investigar. O que eu sei, porque eu vi, era que o cachorro manco da FURG tava comendo o cocô do cavalo. Na hora, eu pensei “Tem que estar numa merda muito grande, pra fazer isso, no último estágio antes de morrer”. Se o cavalo tem algum poder mutante de imunidade a venenos, isso deve deixar rastros no seu cocô. Talvez aquele cachorro soubesse disso. Talvez, instintivamente, todos os cães saibam. Ou, porra, talvez aquele cachorro, ou todos os cachorros, simplesmente gostem de comer cocô de cavalo. Talvez seja nutritivo, ou (blargh! peraí...) talvez seja até gostoso. Deixei ele continuar a sua refeição, e respeitei a liberdade que ele tinha. Mas foi difícil tirar a cena da memória.

Quando voltei pra casa hoje de manhã, depois da corrida e de ter repassado mentalmente a experiência da fauna universitária durante as férias, passei de novo perto do buraco que o cachorrinho cavocou aqui em frente ao condomínio. A carcaça da cobra ainda estava lá. O autor da obra veio, me abanou o rabo, daquele jeito meio displicente, de quem cumprimenta um vizinho com cortesia, mas que é mais por educação. Eu me abaixei pra olhar melhor para a cobra, e ele ficou pertinho de mim, de olho no que eu poderia fazer com seu tesouro. Sei lá o que pode ter passado na cabecinha dele. Me afastei, porque ele podia não entender que eu estava só olhando, pelo que, acho, ele ficou satisfeito. Fiz um cafuné em sua cabeça e segui o meu rumo. Ele deve ter tido os motivos dele pra guardar a cobra (como o outro também devia ter, para comer cocô). No fim das contas, pode ter sido só pela estética: a pele da cobra caiu muito bem na decoração do seu quartinho. Muito melhor do que eu, ele devia saber o que estava fazendo.

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