Receba Samizdat em seu e-mail

Delivered by FeedBurner

quarta-feira, 22 de março de 2023

As Duas Bestas

 


De entre escombros e ruínas, de vidros estilhaçados e metais retorcidos, de corrimentos e manchas e afluxos, de entre o selo das intempéries assomava a mansão negra e seus andares. Assentada num jardim onde o mato estabelecera seus domínios e propósitos, onde uma fonte de mármore glorificava três anjos ou gárgulas infantis cujos olhos lacrimosos, e cujo desespero, advinha das chuvas, a casa destoava do antigo bairro industrial ao erigir-se em detalhes: vidraças incólumes, não obstante a mantilha de poeira; cortinas e fechaduras; sinal nenhum de violação.

A desbravar a rua, sujeito ao itinerário das entregas, o Carteiro exercia sua liberdade com os olhos, e as ruínas ele escrutou até acreditar na inocência das sombras ou no descaso dos sons. Atarracado e forte, sua existência era circunscrita ao uniforme, e de parar em frente à mansão, de admirá-la em silêncio e através do silêncio, da bolsa retirou um envelope retangular, branco, e leu as faces do papel. Então contemplou a porta, o número acima dela, e contemplou a grade e seus vãos e, por fim, a maçaneta do portão. Colocou o invólucro embaixo do braço, bateu palmas.

Um segundo, soou o grito oriundo das basculantes frontais.

No rosto do Carteiro o sol firmava sua carranca, e a camisa embebia-se em suor. Pelas cercanias o chirriar de duas corujas manifestava-se como o bater de um coração oco e malfadado. A porta escancarou-se e do breu distinguiu-se um homem alto e magro, calvo, o terno negro a contrastar com o alvor da cútis. Ao passar pelo umbral ele abriu a sombrinha de hastes enferrujadas, aprumou-se, ateve-se à escuridão por si concebida e caminhou até estacar diante da grade que delimitava o terreno. O Carteiro encarou-o, dir-se-ia assombrado com extravagância da figura ou com a ausência de cabelos, sobrancelhas, cílios ou rugas.

Pois bem, disse o Estranho, e sorriu.

O Carteiro estendeu e enfiou a mão por entre duas barras, o envelope em evidência. Do pulso avançar o Estranho cingiu-o e segurou-o e, com um movimento vertiginoso, além das apreensões, mordeu-lhe o antebraço.

Demônio, gritou o Carteiro e lutou para soltar-se, atuou em oposição. Malgrado o sol não o atingisse, não violasse o manto das trevas ou a castidade dos tecidos, o Estranho recuou. Em seu rosto o sangue emoldurava-lhe a boca, e os olhos, continuamente abertos, também se sujeitavam às sortes do vermelho.

Maluco dos infernos, gritou o Carteiro assim do Estranho evadir-se para dentro de casa, não antes de renunciar à sombrinha e ao ato de trancar a porta. Como se em busca de socorro ou de testemunhas o Carteiro voltou-se às ruas, às bocas de lobo e ao meio-fio, e abandonado por Deus e por seus irmãos ele encetou uma fuga incerta e desesperada. Ao cansar ou julgar-se seguro, distante da mansão, sentou num murinho de tijolos e examinou o ferimento. Não era profundo, e o sangue cessara de manar. Da bolsa ele retirou um frasco, sacudiu-o e borrifou a lesão, e, entretanto, não acusou o açoite do álcool. Tremia o pulso injuriado, tremiam as mãos. Enfaixou o antebraço com as ataduras do kit de primeiros socorros e retomou sua caminhada.

Na Central da Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos, aos curiosos, fingiu a verdade. Um cachorro avançou, disse, à guisa de esclarecimento. Nada de mais, mas vou ao médico, asseverou, não obstante na garganta o sobrelevar de veias e vasos sanguíneos reclamasse maiores e melhores motivos. De volta às ruas ao fim do expediente, entre o anoitecer e os tantos outros sóis da metrópole, e desmentindo as próprias palavras, seguiu para sua casa, onde, convalescente, delirou de febre e esvaiu-se em suores de coloração amarelada. Refeito à manhã, o rosto corado e macio como se rejuvenescido, com o seu automóvel dirigiu-se à mansão maldita. Era sábado. Estacionou em frente às grades e, de dentro do veículo, escrutou os arredores, a casa em si, e nem o céu salvou-se de julgamentos e sentenças. Porém não acusou a visão do estranho ou de arbitrariedades incomuns. A porta encontrava-se fechada, e assim as janelas e basculantes. Atrás dos vidros, cortinas assomavam feito tapumes. Regressou ao lar.

Segunda-Feira, e do ferimento restara um hematoma. O Carteiro não comera e mal dormira, e anunciava-se em olheiras e alvores faciais. Mordia os lábios, então ressecados e violetas, e, todavia, cantarolava e sorria, murmurava a sós. De ingressar na Central, renunciou a curiosos e curiosas e pôs-se a trabalhar. Separou a cota diária de cartas, definiu seu itinerário, emudeceu ao examinar o último dos envelopes. A missiva, subscrita por um tal de Dr. Nigel, e procedente da Transilvânia, era endereçada à mansão negra. O destinatário chamava-se Almon Sarif. Após verificar os carimbos, se abas e dobras estavam seladas, jogou os demais invólucros na bolsa e, apressado, troteou até o covil do sanguessuga. Era um dia de sol como para ele sempre haveria de ser. Ruas desoladas, silêncios acintosos. Defronte à casa, amarrotado e suado, bateu palmas. Em dois, três minutos, a porta abriu-se, e do vestíbulo destacou-se o homem de preto, a sombrinha aberta, o rosto inexpressivo e branco. Aproximou-se ele do portão e, ao parar, nada falou, somente estendeu a mão livre, coberta por uma luva de couro. O carteiro não entregou a carta, não se moveu, mas, levantando-a, disse,

Vem pegar.

Antes de terminar a frase o Estranho segurava-lhe o pulso por entre as grades, e ao ser forçado contra as barras o Carteiro reagiu e socou e esmurrou a sombrinha, livrou-se das garras alheias e evitou de ser abocanhado. O Estranho posicionou o guarda-chuva sobre si e, sob gritos e insultos, em desesperos debandou rumo ao interior da casa. Tomado de fúria, com a íris dos olhos esfumaçadas, à pedradas o Carteiro arrebentou dois ou três vidros, gritou. A pele da face e dos braços avermelhara-se como se há muito exposta ao sol. Ele afagou-se, passou a mão testa e grunhiu, aos saltos distanciou-se. A carta, além da cerca, restou por sobre a grama.

Na Central, tirou sua garrafa de água da bolsa e sentou-se. Petrificado contra o encosto de uma cadeira, o olhar perdido nos mais evidentes vazios da parede, desatarraxou a tampa e sorveu um gole. De pronto convulsionaram-se os músculos e nervos do pescoço, enegreceram-se as gengivas. Ele cuspiu o líquido no pavimento, com força ou ódio jogou a garrafa longe, massageou a garganta. Balbuciava profanidades quando uma das estagiárias aproximou-se, indagou acerca de seu estado.

Tudo bem por aí?

Era alta, corpulenta, e o sorriso bondoso lhe maculava o semblante.

Tudo, retrucou o Carteiro, a face voltada para o chão. É o calor, a minha pressão, acrescentou, e fios de saliva rosada pendiam dos lábios.

Vou chamar o supervisor, disse ela e, ao virar-se, alinharam-se o traseiro e o rosto do Carteiro. Este levantou a cabeça. O bumbum, formado por duas circunferências exatas, distorcia as estéreis linhas do corredor. Ele abriu a boca. Pontiagudos e longos, os caninos assomaram da escuridão. Antes de a menina andar, o Carteiro agarrou-lhe as pernas e mordeu-lhe uma das nádegas.

E essa é a sua história.

Ou, ao menos, a estória que, prestes a ser condenado, narrou ao juiz da vara criminal.


Blog do Autor

Twitter


Share


Erik K. Weber
Gaúcho.






0 comentários:

Postar um comentário