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sexta-feira, 10 de março de 2023

Confissão

 


O filho do falecido buzinava insistentemente em frente a pequena casa paroquial. Estava atrasado para a cerimônia de enterro.

Quando chegou, todos estavam impacientes e assustados. O homem, que ocupava o caixão lacrado, fora atacado pela fera. Mais uma vítima, na pequena Vila de Santa Cecília.

– Padre Cristóvão, o que acontece com o morto quando chega no céu e lhe falta alguma parte?

– O que chega ao céu, meu filho é a alma e o espírito não é material.

– Ainda bem, padre. Não sobrou muita coisa inteira do meu pai. O bicho não parece matar por fome, acho que é uma raiva insaciável.

– Como aconteceu?

– Dizem que depois de tomar uns goles ele fez uma aposta. Pegou a pistola e disse que acabaria com a besta. Foi até a encruzilhada e começou a uivar, como provocação. Uivou até cansar. Depois, ninguém ouviu mais nada. Acharam o corpo a uns dois quilômetros mata adentro. Nem sinal de que foi arrastado. Só um pouco de sangue na vegetação.

Na mesma noite da morte, um grupo de homens se formou e foram a caça. Sob a luz da lua cheia e com lanternas e tochas nas mãos percorreram todos os arredores e não encontraram nada. Uma senhora jurava que havia visto a criatura próximo da igreja. Coberta com pelos escuros, só o que se via eram os olhos que pareciam arder como brasa. Andava curvada, como que a tentar se apoiar sob quatro patas.

Depois do enterro, formaram-se várias rodas de conversas.

– Fazia tempo que o assassino não atacava gente – disse o delegado Pereira.

– Isso é coisa de onça – afirmou o prefeito.

– Se fosse onça, alguém já teria visto ela ou suas marcas.

– É lobo, melhor meio lobo, meio homem, afirmou o professor Leovegildo.

– Besteira. Lobisomem é lenda, invencionice. Deve ser mesmo é um assassino em série. Só não sei como é que ele transporta os corpos. Pra enganar a polícia, de vez em quando mata um animal.

– E como é que o senhor explica as marcas de garras e dentes nos ossos, delegado?

– Ainda não sei, mas vou descobrir. Por falar nisso, professor, o que o senhor fazia ontem à noite quando tudo aconteceu?

– Eu estava em casa, corrigindo as provas dos meus alunos. 

– Tem como comprovar?

– Posso apresentar uma pilha de provas.

– Fique tranquilo, foi só uma brincadeira. Ontem, quando tudo acontecia, eu fazia uma batida nas casas de luz vermelha e acabei chegando tarde. Quando soube do ocorrido, fiquei preocupado com minha santinha. Encontrei a pobre Shirley ajoelhada, rezando. Sabe como é a vida de policial, a família não sabe se você vai voltar vivo pra casa.

– Imagino o que ela tenha passado delegado, ainda mais depois do alvoroço na cidade com o sumiço do Pedro Tiriba – disse o professor.

– Acredita em lobisomem, Padre Cristóvão? – perguntou o prefeito.

– O demônio é capaz de tudo. Pode transformar a vida das pessoas. Gente boa pode se transformar num monstro.

– O senhor acha que pode ser alguém da vila, padre? – questionou o delegado.

– Até hoje não apareceu ninguém no meu confessionário dizendo ser o tal licantropo.

– Lica o que? Perguntou o prefeito.

– Licantropo, do grego lycos – lobo e anthropos – homem. Diz a mitologia grega que Zeus transformou o rei de Árcade, que lhe serviu carne humana, numa criatura meio lobo, meio homem – explicou o professor.

– E veio navegando até aqui? Nem mar nós temos. – Interferiu o Bentinho que já estava emendando uma bebedeira na outra e ouvia a conversa.

– Preciso ir. Daqui a pouco temos a Missa.

– O senhor parece cansado padre. Está pálido, com os olhos fundos – observou o delegado.

– Não passei muito bem a noite. Algo que comi deve ter feito mal.

– Difícil a vida de padre, não dá pra rejeitar a comida oferecida pelos fiéis, não é mesmo? Boa é a minha vida, que ninguém quer por perto. Dizem que desconfio de tudo. É a minha sina.

O padre apressou-se. Precisava atender às confissões, antes. Quando chegou ao confessionário, a primeira da fila era a mulher do delegado. Ela abusava do decote e da saia curta.

A mulher pregou os peitos na grade do confessionário e despejou:

– Padre, meu coração não me deixa em paz. É uma paixão atrás da outra. Eu me arrependo, venho até aqui, pago as minhas penitências, mas sou fraca e tudo volta a acontecer. Ontem, enquanto todos corriam atrás da besta, eu fazia a minha lição de casa com o professor Leovegildo. Ele é tão jovem, tão bonito. Não que eu não goste do meu marido, mas não consigo resistir.

– Tenha fé em Deus, minha filha. Ele é capaz de perdoar mesmo os imperdoáveis.

– Eu juro que pensei nas últimas penitências que me recomendou e antecipadamente eu orei. Pode perguntar ao meu marido, quando ele chegou ontem, cheirando a cachaça e perfume barato, eu rezava!

– Vou lhe passar as penitências de hoje.

– Padre, me dê dobrado, pois ontem pequei por pensamentos também. Quando tudo acontecia, para que fosse mais gostoso, eu imaginei que o professor fosse o senhor, com o seu ar selvagem.

– Vamos triplicar as suas penitências.

– Puxa! O senhor não peca?

– Todos pecamos, todos temos nossos segredos.

– Não vai me dizer que o senhor sai com alguma mulher aqui da comunidade, sai?

– Como se este fosse o maior dos pecados...

– Como disse padre?

– Eu quis dizer que fofocar e colocar palavras na boca dos outros é um dos maiores pecados.

– Eu não sou fofoqueira, padre. Não conto pra ninguém que quando eu espreito pela janela, para me certificar de que o Pereira não está por perto, vejo o senhor sair quase toda noite.

– A senhora devia cuidar da sua vida, Dona Carlota. Aconselhar e ouvir o pecado de toda uma comunidade afeta o pastor, compreende?

– Para alguns pode ser pastor, eu vejo o senhor como lobo.

– Como?

– Nas minhas fantasias eu sou a ovelhinha.

– Que Deus lhe acompanhe, minha filha.

Como acontecia das outras vezes, tudo se acalmava. Na lua cheia seguinte alguns animais desapareceram.

O inverno chegou e com ele uma temporada de chuvas. Com o céu encoberto, muita gente esqueceu da fase da lua. Sentiam-se seguros em suas casas e para suas aventuras.

Certa noite, o professor Leovegildo esperou o movimento da rua se acalmar e foi em direção da casa do delegado. Dona Shirley disse ter comprado uma lingerie nova.

Quando chegou, estranhamente, a porta já estava aberta. Não se ouvia nada. Quando o delegado não estava em casa, ela colocava a música combinada para tocar. Leovegildo resolveu espiar por uma das janelas da casa. No momento em que aproximava o ouvido, algo saltou pela janela, levando consigo uma das folhas da veneziana que atingiu em cheio sua cabeça.

Atordoado, visão turva, ele viu a monstruosidade do ser que se afastava rapidamente. Leovegildo pareceu ter visto um crucifixo no pescoço da fera.

O professor hesitou, mas entrou. Sentiu o cheiro de enxofre. No quarto, sobre a cama, os restos de Dona Shirley tingiam de vermelho os lençóis. O coração, arrancado do peito, ainda parecia pulsar.

Leovegildo vomitou até quase virar do avesso. Tocou o rosto desfigurado da mulher, fechando seus olhos. Apavorado, saiu correndo debaixo da forte chuva, algumas vezes iluminado pelos relâmpagos da tempestade. Não percebeu quando cruzou com Bentinho, deitado sob a marquise do armazém de secos e molhados.

Quando o delegado chegou em casa, ficou transtornado. Pegou todas as armas que tinha e acordou todos os homens da vila. Com armas de fogo, facas e foices, saíram em busca da fera.

O professor, não queria se expor, mas não aguentou ficar sem fazer nada. Precisava dividir aquilo com alguém. Lembrou que algo dito em confissão não poderia ser revelado pelo confessor, então resolveu procurar o Padre.

A porta principal da capela estava apenas encostada. Entrou e se deparou com outra cena estranha. Padre Cristóvão, apenas de cueca, ajoelhado em frente ao altar, usava as disciplinas se autoflagelando. Suas costas sangravam. No interior da capela, o mesmo cheiro de ovo podre do enxofre.

Cristóvão, quando percebeu a presença, saltou rapidamente, deixando à mostra um crucifixo de prata sobre o peito. Segurou-o e apontou em direção à sombra que se aproximava.

– Sou eu, padre. Professor Leovegildo. Preciso me confessar.

– A esta hora, meu filho. Deixe para amanhã.

– Depois será tarde!

– Espere alguns minutos, preciso colocar minhas vestes.

Leovegildo ajoelhou-se num dos bancos e pedia que Deus cuidasse da alma de Dona Shirley. Apesar dos defeitos, ela era uma boa pessoa. Aplacou a solidão dele em muitas noites. Imaginar aquele corpo, antes cheio de vida, inerte, destroçado, lhe fazia muito mal.

O padre retornou. Pareceu ter passado rapidamente pelo chuveiro. Sentou-se ao lado de Leovegildo.

– A confissão vai ser aqui mesmo?

– Sim, aqui os únicos ouvidos são os de Deus.

Leovegildo voltou seus olhos para o altar, buscando forças para contar o que tinha visto.

Quando baixou os olhos, no degrau que dava acesso ao púlpito, mesmo sob a tênue luz que tremulava no ambiente, percebeu um pequeno pedaço de tecido. A mesma estampa da calcinha que vestira Dona Shirley.

– Vamos lá, meu filho, me conte o que houve?

Ele permaneceu em silêncio, enquanto organizava os pensamentos.

– Talvez eu não precise lhe falar, padre. Acho que o senhor sabe mais do que eu sei. Me diga padre, o senhor protege a criatura?

– O que insinua?

– Minha cabeça está confusa. Acabei de sair da casa do delegado. Dona Shirley foi destroçada com violência. Vi uma criatura peluda, forte, cheirando a enxofre saltar pela janela. O licantropo carregava um crucifixo no pescoço, parecido com o seu. Sua igreja cheira a enxofre também e aqui, o mesmo tecido da roupa da vítima. O senhor sabe quem é a fera?

– Você está enganado – disse olhando nos olhos de Leovegildo.

– Seus olhos, estão avermelhados. Não, você não protege a criatura, você é a criatura.

O professor saltou, pegando um dos pesados candelabros da igreja.

– Não grite! Ambos temos nossos segredos.

– Mas eu não matei ninguém.

– Em qual palavra as pessoas vão acreditar, na de um padre ou na de um professor, amante da mulher do delegado e de outra meia dúzia de senhoras?

– Sabe, padre, nunca vi o senhor como uma pessoa má, por que faz isso?

– Não é uma questão de escolha. É uma maldição.

– Mesmo que seja uma maldição, por que se esconde atrás de uma batina?

– Sendo padre, posso amenizar um pouco da dor daqueles que faço sofrer.

– Não poderei esconder isso.

O aparente silêncio do interior da capela foi rompido com a entrada da turba armada.

– Lá está o lobisomem! – Gritou o delegado.

As pernas do padre Cristóvão fraquejaram. Não reagiria. Melhor, a maldição acabaria.

Leovegildo se sentiu aliviado, mas foi surpreendido quando levou um soco no rosto e foi arrastado por dois sujeitos muito fortes.

– Delegado, o que está acontecendo? Está prendendo o homem errado!

– Bentinho, diz para o professor o que foi que você viu.

– Eu não vi nada não, delegado – respondeu, temendo que o professor se transformasse diante de todos.

– Seu bêbado frouxo. Ele viu o senhor saindo da minha casa. Como explica esse sangue escorrido em sua camisa, professor?

– Não fui eu. Padre diga a eles o que aconteceu!

– Sinto muito, mas como confessor, não posso expor o que me foi dito.

Leovegildo não viu mais nada, depois que levou um golpe na cabeça. Quando acordou, já estava seminu, amarrado a um poste, sobre a lenha de uma fogueira posta a seus pés. A multidão estava furiosa.

– Faça um último pedido a Deus, meu filho – disse-lhe o padre.

– Que o senhor queime no inferno, padre.

– O delegado portava uma lança improvisada, feita de um cabo de enxada. Na ponta, o crucifixo de prata, antes usado pelo padre.

Pereira, aproximou-se e disse em seu ouvido:

“Lobisomem ou não, esta noite não foi a única em que o senhor entrou na minha casa. Bentinho me contou tudo”.

Num único golpe, a ponta maior do crucifixo penetrou o coração de Leovegildo. Dizem que ele uivou como um lobo. Mas quem acredita nas histórias populares.

Dois dias depois, o padre Cristóvão partiu, dizendo-se abalado por tudo o que aconteceu.

O lobisomem nunca mais apareceu na vila. Ressurgiu numa outra cidade, distante. A mesma cidade onde agora morava o professor Cristóvão, o homem amaldiçoado por ser o último filho de sete irmãos, o descendente do grego castigado pelos deuses.

 

 

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