Encontros

Josane Mary B. Amorim

Tão logo entrou em casa, Sofia ouviu a sua preta do coração resmungar que se aproximava o dia de a menina ir embora, mas que elas ainda não tinham almoçado juntas.
Do outro lado da praia, Jane já tinha retornado da feira; queria receber a amiga servindo o que ela mais gostava. A manhã estava agradável, ainda fresca. Naquele instante, ouviu uma buzina. Ao sair, deparou com Hellen debruçada no portão: - Bom-dia, flor do dia! Você não mudou nada! Você está ficando de molho no formol ou o quê?
– Minha querida Hellen, que saudades! Você e esse seu maravilhoso bom humor! Você está ótima! Adorei o novo corte! Vamos entrando, por favor.
– Ah! O seu jardim! Queria ter a sua disposição e jeito para cuidar de plantas!”
– Mas, em compensação, você sabe ornamentar como ninguém! Sem falar na sua estupenda habilidade para os negócios!
– Ah! Estou ficando velha e preguiçosa. Só faço levantamento de copo das minhas pretinhas!
Abraçadas, caminharam em direção à cozinha, brindaram o reencontro e começaram a conversar. Hellen, com o seu jeito divertido de ser, abriu a geladeira, pegou outra cerveja e perguntou: - O que tem naquela fôrma?
- São as ostras. Só preciso preparar o creme que as acompanhará: roquefort e nozes. Mas é facílimo! Se o dia estivesse quente, iria prepará-las de uma outra forma, mas hoje está fresco, sei que assim serão perfeitas! Dentro de alguns minutos, estaremos nos deliciando. Está com fome?
– Agora estou começando a ficar! É, Jane, você e seus talentos!
– Você também tem os seus, minha querida! Como estão os negócios?
– De vento em popa, graças a Deus! Mas também já está chegando a hora de parar. Já trabalhei muito. Quem vai assumir os negócios agora vai ser o Heitor.
Seguiram conversando. Depois, gozaram não só da sombra garantida pelo velho coqueiro, mas do almoço. Hellen lambeu os dedos, abriu a caixa de isopor, e: - Saborosas demais! Você disse que uma moça estaria aqui. Cadê ela?
– A Sofia! Você se encantará com ela!
Em seguida, contou um pouco sobre a jovem. Hellen concluiu que se tratava de alguém muito especial, pois sabia o quanto Jane gostava de fazer amigos, mas há tempos não a ouvia falar de alguém com tanto carinho. Por isso, disse: – Se ela é importante para você, já é para mim também! E que bom que é risonha! Joga no meu time! Agora, voltando a falar do Eric, disse que tem ligado todos os dias!? Aquele dali não muda! Eterno apaixonado! Mas, mesmo assim, jamais serviria para ser meu marido.
– Eric foi feito de encomenda para mim!
– Não tenho dúvidas! Lembra que você falava assim: “Ele é o pão que o diabo amassou e o vinho da melhor qualidade!”? Nunca neguei uma boa gargalhada a essa frase! Mamãe também não.
– Ah! D. Lúcia! Ela foi uma segunda mãe para mim! – ela sorriu.
Hellen continuou: – Logo que a mamãe começou a ficar bem doentinha, ela reiterava o quanto gostava de você, Jane. Ficava muito preocupada com aqueles problemas todos. Em várias ocasiões, ela me pediu que lesse para ela algumas das suas cartas.
– D. Lúcia! Nem sei se lhe agradeci o suficiente. Mas agora, no plano espiritual, ela recebe as minhas preces, e nelas se pode constatar o quanto sou eternamente grata.
– Flor, a mamãe morreu sabendo muito bem o quanto você a amava. Ela me disse inúmeras vezes que se sentia culpada por nunca se lembrar do seu aniversário, e que você nunca esquecia um dela! Por vários anos, ela não somente recebeu os seus bonitos cartões de aniversário, mas muitos outros que você enviou, somente para desejar um bom-dia! Isso sem falar nos muitos cartões postais. Mamãe descrevia você como uma verdadeira guerreira e vencedora.
– É, Hellen! O que eu faria sem você? Você é a melhor amiga irmã do mundo!
– Jane, todas as vezes que olho para você, vejo a pessoa especial que é! Minha mãe tinha toda razão: você tem um coração valente! Não tenho vergonha de confessar que gostaria de possuir um assim. Somente um coração valente poderia ter passado por tudo o que passou, e ainda continuar oferecendo amor, alegrias e gentilezas!
– O seu é tão valente quanto o meu! E você bem sabe que, sem o apoio dos meus amigos, eu teria falhado. Seguiu explicando-se, e concluiu dizendo: - Foi assim que voltei, aos poucos, a olhar o meu reflexo no espelho, e a dizer para mim mesma: “Bom-dia, flor do dia!”. Foi assim que voltei a redescobrir a alegria de ser dona da ímpar originalidade de minhas cores. Foi assim que voltei a entender que eu não precisava ser somente as minhas circunstâncias. Podia também ser a minha essência. Que, mesmo com os meus espinhos, ainda assim eu era uma flor! Foi maravilhoso ter reaprendido isso com meus amigos, com você, com minha raiz verde-amarela!
Hellen e Sofia sorriam de encantamento. Quando a presença da jovem foi percebida, ela, que estava sentada na grama do jardim, levantou-se, apanhou do chão um prato com um bolo e uma sacola. Ao se aproximar da mesa, foi recebida por Jane: – Mas onde você estava escondida, minha querida? Não a ouvimos entrar. Que maravilha que pôde vir mais cedo!
Sofia retirou um champanhe e um buquê de dentro da sacola e beijou Jane: – Quando cheguei, senti vontade de sentar e ouvir as suas maravilhosas palavras. ‘Mevrouw’, minha linda flor! Estas flores são pra você! E você é a querida amiga Hellen! Muito prazer! Espero que não se incomode de dividir a Jane comigo. Espero não atrapalhar este reencontro de vocês.
– Depois dessa entrada triunfante, tenha certeza de que o prazer é todo meu! Estávamos esperando mesmo por sua presença! Isso aqui já estava parecendo um asilo! Precisávamos mesmo do frescor da sua juventude! Estou plagiando você, Jane!
– Como foi o almoço com a Lindalva?
– Uma beleza! A Lindalvinha é uma ótima companhia. Foi mesmo muito bom ela ter puxado a minha orelha. Teria me arrependido, se não tivesse me dado essa oportunidade. Ela se virou para Hellen, e completou: – Lindalva cuida da casa dos meus pais aqui em Maruchos. Ela é muito querida por todos lá em casa.
– Jane, estou vendo o porquê de ter se encantado tanto com ela. E é danada de linda! Você tem olhos enfeitiçadores, menina! Que coisa ridícula que são esses seus olhos! Ela riu novamente e acrescentou: – E tem senso de humor! Maravilhosa qualidade! Parabéns, Sofia!
Jane se levantou, pois desejou filmar as amigas. Hellen perguntou: – Sofia, você nos acompanharia na cervejinha preta?
– Adoraria, obrigada.
– Quero saber tudo sobre você, sua enfeitiçadora! O que faz? Onde mora? Este bolo cheiroso é de quê? Vamos beber champanhe?
Sofia começou a rir, e acabou se engasgando. Hellen, entre risos, gritou: – Levante os braços! Braços para cima!
– Vocês são mesmo duas adoráveis palhaças! Esta fita ficará ótima, mas agora colocarei a máquina aqui na mesa, neste cantinho, filmando tudo, e tomarei mais um pouquinho de cerveja com vocês. Brindemos então aos amigos! Principalmente aos mais risonhos! – ela sorria.
Hellen continuou: – Vamos lá, bela Sofia! Responda!
– ‘Okidoki’. Moro em Nova Iorque. Estou prestes a me tornar assistente de direção de uma peça teatral. Este bolo é de laranja. Sim! Vamos beber champanhe! Adoro! Principalmente, porque faz cosquinhas no meu nariz!
– Direção teatral? Hum! Importante! Jane me disse que vai ao México, que vai se encontrar com o seu namorado. Como é o nome do felizardo? Ele é tão bonito quanto você?
– Vou ao México por causa do trabalho que espero conseguir. Ethan é o nome do felizardo, e claro que não!
– O infeliz é um Adônis, confessa! A mulherada dá sossego? Confessa!
– Não dá! – respondeu Sofia entre risos.
– E o infeliz é bom de cama?!
– O infeliz é nota 10! – respondeu Sofia, gargalhando.
– Ah! Missão difícil espera por você no México, bela Sofia! Tome cerveja preta! Ela é muito boa para manter o sangue bem quente... E a mãe dele?
Hellen perguntou de forma tão engraçada, que Sofia se engasgou novamente, mas respondeu em seguida: – Deve ser boa de cama também!
As três mulheres foram tomadas por um intenso surto de risos. Depois, Sofia bebeu mais um pouco de cerveja e completou: – Ainda não conheci minha sogra, nem meu sogro.
– Mas, com certeza, você sabe o que fazem. Ou não? – perguntou Hellen.
Sofia, que, naquele instante, ria das expressões no rosto de Hellen: – Meu sogro é arquiteto; e minha sogra, psicoterapeuta.
– Jane, a próxima vez que a bela Sofia vier a Maruchos, você vai prometer que vai me ligar. Vou ficar acampada aqui na sua casa! Vou trazer uns coelhos, e faremos um bom assado dos lindinhos. Você vai adorar, bela Sofia! E você não se atreva a vir sozinha! Traga o seu Adônis!
Longo tempo depois, capturadas pela beleza do espetáculo que acontecia na praia, caminharam para o jardim e ficaram admirando o pôr do sol. A linha do horizonte era, literalmente, uma explosão vibrante de cores: matizes de vermelho e laranja. Jane estava de braços dados com Hellen; Sofia tinha pegado a câmera e estava filmando o entardecer, aquele inesquecível momento.
Não demorou muito para que o Sol começasse a desaparecer no horizonte. Jane as convidou para retornarem ao pomar. Era chegado o momento de saborear o bolo preparado pela Lindalva. Sofia não foi de imediato. Quis filmar o crepúsculo, que considerou um dos mais belos a que já tinha assistido. Ficou em silêncio capturando o exato instante em que o céu, próximo ao horizonte, tomou uma cor indistinta entre o azul do dia e o escuro da noite.

Josane Mary B. Amorim, nasceu em 30/10/1963 em Cachoeiro de Itapemirim-ES. É advogada por formação, mas longe dessa profissão desde quando saiu do Brasil em 2000. Estudou Inglês na Harvard University-US, onde ganhou por 3 vezes consecutivas o primeiro prêmio no concurso literário "The Emanuel and Lilly Shinagel Essay Prize.” Desde 2003, mora na Holanda. Estreou como romancista em 2011, em “Mevrouw Jane” onde deu a impressão de ser uma autora experiente pelas qualidades que sua obra apresenta.

Comentários

  1. Obrigada pela oportunidade Revista SAMIZDAT.

    O conto acima é baseado em um capítulo de meu romance "Mevrouw Jane". Para saber mais sobre tal obra convido-os para visitarem:
    http://josanemary.wordpress.com/mevrouw-jane/

    Grande abraço aqui da Holanda!

    ResponderExcluir
  2. deus dos céus que inveja de saber fazer assim diálogos! deus do céu que leitura boa!

    ResponderExcluir
  3. Muito bem retratada uma certa maneira de viver, entre a futilidade e a "beautiful people", que, se calhar, são sinónimos.

    ResponderExcluir

Postar um comentário