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sexta-feira, 28 de março de 2014

Alucinadamente veloz

 “O pior é a velocidade vertiginosa. Nessa vertigem, nada frutifica nem floresce”                                                                                                          (Ernesto...





quinta-feira, 27 de março de 2014

Ímpeto

Aquela paixão - todos diziam era atraso de vida o que ninguém sabia é que não tenho pressa Tela de Roseval Roch...





quarta-feira, 26 de março de 2014

A TV

A jovem repórter explicava aos telespectadores que “a pobreza, o risco de pobreza, é terrível, já há imensas famílias que não podem comer carne todos os dias e as crianças não podem brincar porque os pais não têm dinheiro para pagar ATL”. Estava genuinamente chocada, a jovem repórter. Deu uma gargalhada. “Excelente exemplo de relativismo”, pensou. Certamente que aquela moça era boa pessoa, estava tão triste com o problema das crianças que não podiam...





MANJEDOURA

Amélia se emociona quando assiste, na TV, a qualquer reportagem de recém-nascido resgatado de lata de lixo. A criaturinha roxa de hipotermia, choro já estancado, enrolada em pano ralo, num canto putrefato, abandonada ao léu, sob os perigos da noite; e, de repente, algum ser caridoso que intercede por ela, trazendo-a de volta à tona da vida. “Deixe de bobagem” — reclama o marido de Amélia. “Pare com essa aflição, que o fato não lhe diz respeito”. E a mulher...





terça-feira, 25 de março de 2014

Uma noiva para o João do Campo

Joaquim Bispo Era uma vez um rapaz que vivia sozinho no campo e raras vezes ia à cidade. Falava apenas com as cabras, os pássaros e as árvores, a não ser na festa dos rebanhos. Chegado à idade de casar, não conhecia ninguém que quisesse viver com ele, e pensava que todas as raparigas preferiam...





segunda-feira, 24 de março de 2014

ALDRAVIAS

Amigos, nos últimos meses venho exercitando bastante um novo estilo de Poesia Minimalista, que me foi apresentado pelos autores de Minas Gerais – é a ALDRAVIA, que, entre outras características, consiste em: seis versos (uma palavra em cada verso); ausência de título; e valorização do uso da metonímia e da sinédoque, além do uso moderado da metáfora. Para conhecer mais sobre o estilo e seus poetas, convido-os a visitarem a página do Jornal Aldrava Cultural...





sábado, 22 de março de 2014

Porto Solidão

Eu tenho essa dor funda e molhada, espalhada, ardida, gelada. Que a gente quando fica muito tempo no mar se destempera. Encaranga, mesmo. E eu não sei viver noutro lugar nem doutro jeito. Até sou homem de chão, de areia batida, mas bem antes de raiar sol já arremanguei as calça e empurrei o caíco...





sexta-feira, 21 de março de 2014

Bodas de Outono

Consultou o relógio cogitando a hipótese de Janete haver desistido. Ele sabia que o atraso das noivas fazia parte de um ritual cumprindo a risca por dez entre dez mulheres, mas aquela demora o consumia em incertezas.  Motivos para temer o abandono em pleno altar não ele não poderia deixar de tê-los, afinal, houve muita oposição da parte dos parentes da noiva em relação aquelas bodas. “Onde já se viu? Unir-se a um homem que mal conhecia?” tornou-se um...





quinta-feira, 20 de março de 2014

A paixão de Horácio

Ártemis Plaka, a suprema soprano, no Municipal. Assim anunciou-se. Assim tremeu o coração de Horácio, fã apaixonado pela diva grega. Brava paixão. De sonhar com sua beleza pura. De imitar seus gestos embriagantes. De colar retratos no espelho do armário. De postergar amores menores em nome de uma fantasia lírica. Com antecedência de séculos, Horácio comprou duas poltronas na primeira fila. Uma para ele, outra para a amiga Leda. Caso desmaiasse. Chegou o...





quarta-feira, 19 de março de 2014

Alice através de si

Era manhã de domingo, rodovia calma. Lá do alto de um viaduto, Alice olhava para os pés descalços, cambaleantes, brincando de equilibrar-se.  Num minuto Alice vivia, no outro, Alice no chão. Era estranho olhar-se daquela forma. Imaginava que as pessoas, quando caem de altas distâncias, teriam apenas um crânio rachado e muito sangue em volta de si.  Enfim, esperou um tempo até que encontrassem seu corpo, estranhamente todo retorcido. as pernas...





segunda-feira, 17 de março de 2014

Dez perguntas para Maria Giulia Pinheiro

1 – Para começar, quem é Maria Giulia Pinheiro? Começamos difíceis! Risos. Acho que estou perto demais de mim e que me movimento o suficiente para não conseguir fechar os contornos e ver as formas... o mal da juventude. Se for doença do tipo que o tempo cura, um dia eu respondo! Risos. 2 – Por onde sua poesia anda? Venho do teatro. Talvez, por isso, pra mim, a poesia é também materialidade. Mas, no caso específico da poesia, materialização abstrata...





domingo, 16 de março de 2014

Santinha

Terminou as orações da manhã e levantou-se devagar, com a ajuda da bengala ao lado da cama. Voltou-se por uns instantes para olhar o homem que dormia ao seu lado havia 65 anos e deu uma risadinha abafada por causa do barulho engraçado que os lábios murchos do marido faziam: papapa papapa. Todas...





sábado, 15 de março de 2014

tanto tempo, minha mãe

    Oiçamos primeiro a Palavra:     Tudo neste mundo tem seu tempo; cada coisa tem sua ocasião. Há um tempo de nascer e tempo de morrer; tempo de plantar e tempo de arrancar; tempo de matar e tempo de curar; tempo de derrubar e tempo de construir; Há tempo de ficar triste e tempo de se alegrar: tempo de chorar e tempo de dançar; tempo de espalhar pedras e tempo de ajuntá-las; tempo de abraçar e tempo de afastar;...