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segunda-feira, 30 de setembro de 2019

A Confissão de Teresa Brito

Nova Friburgo, 1º de fevereiro de 2016. Querido Júlio, Cartas saíram de moda, meu grande amigo. Há quantos anos você não recebe uma? Foram substituídas por e-mails e redes sociais, mas eu precisava escrever esta para agradecer o grande, ousado e honesto gesto que teve para comigo. De um tão...





domingo, 29 de setembro de 2019

Na Margem do Lago

Tabor avançou até ao tabuado do cais, pela terra amarela e poeirenta, que tudo invadia. Os pés, descalços e sujos, estavam calejados e nem se desviavam das pequenas e aguçadas pedras, que infestavam o chão. Debaixo do inclemente sol laranja, que dominava o céu sem nuvens, sentou-se no toco de madeira,...





sexta-feira, 27 de setembro de 2019

Estalactites

No princípio era apenas o verbo gotejando com o tempo calcificou–se em palavras e conceitos pontiagudos instáveis – e temerári...





quinta-feira, 26 de setembro de 2019

Manual do Ponto Final

Adoro ler, ouvir, espreitar términos de relacionamentos. Caço intés. Apuro tiaus. Sou pesquisadora de adeuses. Não é que eu seja má sádica perversa. Não é que eu torça para as pessoas quebrarem laços ou que me alegre em vê-las se despedindo. Simplesmente preciso dar vazão à curiosidade e catalogar...





quarta-feira, 25 de setembro de 2019

O condutor de rebanhos

Um certo pastor de ovelhas foi imortalizado por Esopo, que contou como ele se divertia a enganar os vizinhos, gritando “Lobo!” sem justificação. Aborrecido por já não conseguir enganar ninguém, vendeu terras e rebanho e foi viver para uma vila distante. Instalou-se num casarão da rua principal...





segunda-feira, 23 de setembro de 2019

O ESTRANGEIRO

         Escada de madeira, avariada. Puída feito tudo o que a vista alcança dali. Cassiano, acomodado num degrau, tronco dobrado sobre os joelhos, esfrega o dedo do pé na saliência de um prego pronto a se soltar.         ...





sexta-feira, 20 de setembro de 2019

A DECOLAGEM

A comissária ajeitou minha mochila no compartimento da fila 16. Muito bem, poltrona F, janela. Ao meu lado, lugar vazio. Tomara que não venha ninguém, minhas pernas ficam mais à vontade, posso espalhar o jornal, alternar leituras sossegado. Livro, artigos, livro, crônicas, livro, notinhas maledicentes. Mas eis que ela chega. Esbaforida, cabelos atrapalhados, bolsas, uma para computador outra para coisas difíceis de se achar. Sorriso contido, olhos de Capitu....





terça-feira, 17 de setembro de 2019

Quando eu for cachorro - poema de Maria Amélia Dalvi

Quando eu for cachorro Quando eu for cachorro vou dormir com meu corpo entre suas pernas. Cabeça, tronco, orelhas encaixados nas suas curvas — cada breve respiração muda como se fosse eterna. Porei todo o meu medo à prova quando você trancar a porta saindo de casa, o olhar incerto. Eu me entreterei com brinquedos: comida, cochilos, bocejos, coceira — farei com que acredite: maior desejo é que você regresse (mesmo se for mentira). Entenderei sem ficar...





segunda-feira, 16 de setembro de 2019

Arremate

Escuto o uivo do cão e por um momento quero voltar e abraçá-lo e lhe dizer que eu também preciso gritar. Mas se eu me virar sei que nossos olhares se encontrarão em solidão e ele vai me pedir que o leve comigo. Não posso. Não quero enganar o cão. Ele sabe. Lambeu tantas vezes meu rosto aguado...