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terça-feira, 28 de julho de 2015

SOFRÊNCIA

A porta da sala continua entreaberta. Diariamente passam por ela fantasmas, fragmentos de um passado tão recente e doce, como se a despedida se encontrasse em rascunho. Tua toalha úmida permanece irremediavelmente sobre a cama. Ainda sinto teu olhar severo repreendendo-me a cada novo cigarro aceso. Continuo...





segunda-feira, 27 de julho de 2015

Colcha de Retalhos #11

Seguem alguns breves textos da coluna Colcha de Retalhos, homônima do livro que está disponível gratuitamente AQUI: FINAL DO VERÃO Ao final do verão, as cigarras invadem a cidade. Chegam queimadas pelo sol, trocando de pele. As formigas, trabalhadoras, da cidade nunca saem. Para elas, o inverno é...





domingo, 26 de julho de 2015

Epístola

Era um dia tranquilo na repartição. A chefa se ausentara mais cedo e os colegas haviam saído para um treinamento externo. O trabalho de Roberta estava bem adiantado, sobrando-lhe vagar para um gostoso fazer nada naquele resto de tarde. Ela podia se divertir nas malhas sociais, ligar para a prima gêmea de Goianésia, folhear sua revista masculina preferida, avaliar a correção das provas bimestrais dos filhos, ler novas crônicas de Martha Medeiros. No entanto,...





sábado, 25 de julho de 2015

O rapto de Hélade

Na pátria dos Aqueus, em tempos de ninfas e faunos, a vida decorria airosa e prazenteira. Vivia-se ao sabor das estações, aproveitando as benesses que a Natureza generosa estendia aos habitantes daquela ampla península sulcada por múltiplas enseadas abertas ao Mar Egeu. Hélade, jovem e bela...





sexta-feira, 24 de julho de 2015

ENCONTRANDO IVAN LINS

― Sr. Ivan Lins... ― Sim? Voce que é o...? ― Loureiro... ― Loureiro...? ― Do ensaio da Mangueira, o senhor lembra? ― Ah, claro... aquele Loureiro! ― ... ― E aí, meu jovem, o que eu posso fazer por você? ― Gostaria de tirar uma foto com o senhor... Acabei de assistir ao show,...





quarta-feira, 22 de julho de 2015

De solas e asas

Eu acreditava na sola gasta dos meus sapatos. Podia jurar que nelas moravam um pedaço de coragem e um tanto de memória. Eras passando e passando, tenho me dado conta de que a base inferior dos calçados, a que toca o chão, a que faz corpo a corpo com as estradas, não são nada além de matéria plástica ou emborrachada ou lascas de madeira, fingidoras, enfim. Solas de sapato simulam, fazem de conta que vivem, que sentem, que querem o contato. De fato fazem contato,...





terça-feira, 21 de julho de 2015

Narrativa Literário-futebolística em Quinhentas Palavras

“Zagueiro bonzinho acaba como babá do filho do atacante”. Pensava assim o beque Roberval até o dia em que vitimara Zeca com avassalador carrinho. O artilheiro flamenguista e ídolo da seleção brasileira ficou quase um ano no estaleiro com tíbia e perônio fraturados. Em conseqüência, Zeca, perdeu a Copa do Mundo e Roberval a paz de espírito corroída pelo remorso. Viveu assim tempos difíceis o Roberval, beque conhecido pelo estilo viril aliado a certa malvadeza...





segunda-feira, 20 de julho de 2015

O fêmur de Odete

Jamilson e Nildete se tratavam de Jajá e Nininha. Estavam em vias de fazer 60 anos de casados e reuniram a família para um aviso prévio. Estariam dispensadas solenemente de comemorações filhos, netos, bisnetos, amigos e parentada em geral, frustrando todos que desejavam rodear uma mesa no quintal, farta de leitão assado, maionese, farofa, arroz de forno, macarronada, pastel, barris de chope e um bolo pré encomendado com dois velhinhos arqueados no topo, noivo...





sábado, 18 de julho de 2015

ORDINARIAMENTE

ORDINARIAMENTE Movida por uma lógica irrefutável, você, a mais pura expressão de uma rebelde sem causa, sentindo carregar nos ombros o peso do mundo, foi fazer o quê? Se dar a sofrer de uma paixão fulminante, em pleno final do século XX, quando ninguém mais achava bonito uma coisa dessas e nem...





sexta-feira, 17 de julho de 2015

Café sem açúcar

           Desde que me conheço por gente, nunca vi minha mãe tomar café com açúcar. Seu café sempre foi puro. Dias atrás comecei a tomar café sem açúcar. Ainda não me habituei com esse gosto amargo; sei que logo o farei. Sua doçura está comigo e não preciso acrescentar nada, absolutamente nada. ...





quinta-feira, 16 de julho de 2015

Para impedir os corvos

No equipamento de som antigo, a valsa continua. Acompanha grotescamente o mergulho do corpo no ar. Os gritos histéricos das pessoas misturam-se à música que sai das caixas, criando um caos em tons agudos. A queda se acelera e, por um instante, ela sente medo. Mas volta depressa a confiar na rede...





terça-feira, 14 de julho de 2015

dois crimes

  Maria dos Anjos foi encontrada morta na azinhaga de Santa Luzia, uma vereda que serpenteava pelos terrenos entre as actuais avenidas Gago Coutinho e Rio de Janeiro. Foi o cabouqueiro António da Silva quem encontrou o corpo. *** António da Silva terá estremecido a ver o cadáver....