Bebeu três ou quatro goles de água. Como se quisesse hidratar a coragem. Não tinha o que dizer. Não encontrava o que pudesse dizer ao filho. Tinha ensaiado umas poucas, curtas frases. Mas não lembrava, agora, onde havia guardado as palavras. Quis recompor a memória entre um passo e outro. Passos lentos no corredor comprido. Voltou nos anos. Pegou novamente nos braços o corpinho pequeno do filho. Sentiu o cheiro bom daquela pele macia. E descobriu onde Deus tinha deixado os seus melhores anjos. As mãos de bebê incrivelmente fortes. Agarrando o dedo dele numa confirmação de posse. Noites de sono no sofá da sala. O menino no colo; ele, nas nuvens de um céu a dois. Cantando coisas idiotas que falavam de bois e de cucas. Olhos nos olhos. Pra ver quem piscava primeiro. Pestanas com pestanas, pra fazer cócegas, dar gargalhadas. Futebol com bola colorida. Bichos de pelúcia transmudados em monstros, dragões, cavaleiros. Robôs e carros de metal. Movidos à pilha, bateria e dinheiro. O dele, sempre esticado em milagre. Coisa de pai. Pai de zoológico, de piscina, de corte de cabelo no barbeiro. Coisa de homem. Dever de casa complicado — no tempo dele era mais fácil. Viagens de verão. Uma vez para conhecer o mar. Muitas outras, acampados no quintal, domando feras, caçando quimeras, cruzando o oceano das poças. O primeiro cabelo no pênis. Mostrado com vergonha no chuveiro. As primeiras perguntas difíceis. Feitas a ele, não aos amigos. Orgulho de ser pai e confidente. Um gole de cerveja escondido da mãe, só um. Pra aprender em casa o gosto da rua. Faculdade de Engenharia. Como ele. No primeiro vestibular. Formatura com direito a viagem. Pra Nova Iorque, junto com a turma. Bolso esticado mais uma vez em milagre de pai. Dívida grande. Grandes expectativas. A ligação importante, chamando para o emprego dos sonhos — o primeiro sempre é. A ligação do hospital. Chamando para o pesadelo.
A água do copo acabou. Entrou no quarto sem frase na boca ou na memória. Olhos nos olhos. Nenhum dos dois piscou. Pegou nos braços o corpo semi-imóvel, semivivo do filho. Delicadamente. Sentiu o cheiro podre do acidente. Descobriu o que Deus fazia com seus melhores anjos. A mão incrivelmente fraca encostou no dedo dele. Esticou uma coragem do bolso da alma. E cantou cantigas de bois e de cucas. Até que seu menino foi brincar de infinito.
(Este texto está no meu livro "Sob os escombros", Editora Patuá, 2014)
11 comentários:
Extraindo o lirismo da dor cotidiana, Cinthia nos brinda com mais um lindo texto. Parabens, amiga.
porra Cinthia perdoe mas foi o que saiu depois que li e perdoe que ainda não tinha lido em seu livro
carago que esta mulher tem escrita de sangue e de tripasd mesclada a ternura e lágrimas com sorriso doce lá no fundo
Preparação paciente da estocada brutal e que demasiadas vezes atinge a vida das pessoas.
Já conhecia o texto do livro. E não consigo ler de novo sem chorar, sem me emocionar. Ah, dona Cinthia, como você consegue passar tanto sentimento. Só uma uma pessoa de rara sensibilidade como você. Parabéns, minha referência. Sempre!
Amigos, obrigada pelos comentários!
Arrepiou a alma, choveu dos meus olhos água vinda do coração, emocionante, triste, quantos adeuses em tantos leitos de hospital, misturando vida com morte, sonhos com pesadelos, rimando amor com dor... Parabéns pelo comovente texto!!
Nossa! Um texto forte, lindamente escrito, tocante demais... Fiquei abalada aqui.
[e fui fisgada desde a primeira frase] - parabéns, Cinthia!
Obrigada, Van Alves e Ju Blasina!
Mais um texto completo, repleto de emoções, vivacidade, e, de virilidade num final muito emocional mas bem real. Obrigado... Réjo Marpa
Réjo Marpa, muito obrigada pela leitura e pelo comentário!
Texto forte, encorpado, bem maturado, trazendo algo como uma mordida em um caju bem doce, que no final deixa um travo.
Excelente!
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