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segunda-feira, 9 de outubro de 2023

Sabes que não me meto

 


Sabes que nunca me meto onde não sou chamada, mas francamente! Tu e o António?!

É quase tão mau como a tua irmã e aquele desgraçado. Um arzinho sonso de menino bem-comportado e vê lá no que deu, não vejo os meus netos há meses. E não lhes dei motivos para isso, sabes bem que nunca me meto na vida dos outros, limitei-me apenas a dizer o que pensava de um homem que se despede de um bom emprego para ficar a viver à custa da mulher a fim de seguir a veia literária. Veia literária! Já viste o nojo que ele escreve? Não que eu tenha lido tudo, nunca consegui passar das primeiras linhas, mas pela amostra...

Como disse à Arminda, sabes, a minha vizinha de baixo que sofre de inchaço das pernas por estar horas sentada, se aquilo é escrita, qualquer um o pode fazer, não vale a pena largar tudo por isso. Vê lá que amuou! Que culpa tenho eu que o filho seja outro sonsinho que vive à custa dos pais enquanto espera pelo estrelato musical? Estrelato! Com aquela voz de cana-rachada! Sim, bem o ouço quando “ensaia” com os amigos, outros molengas como ele.

Mas aquilo é uma família desgraçada, o pai, um manga-de-alpaca que mais parece um agente funerário, sempre com aquele ar lúgubre e pastinha na mão para parecer ocupado e não conversar com ninguém, não me lembro de termos trocado mais de meia dúzia de palavras, parece até que me evita, chega a usar as escadas “para bem da saúde” quando me vê à espera do elevador. E a filha, então, se visses como cria o bebé! Bem tentei dar-lhe umas orientações, mas pôs logo uns ares ofendidos e agora finge que não me conhece. Francamente, uma pessoa a tentar fazer o bem e anda por aí a chamar-me intrometida! Intrometida, eu, que nunca interfiro!

Mas tu e o António... perdeste a cabeça? Sabias que o pai foi suspeito de desviar dinheiro da empresa onde trabalhava? Bem sei que não deu em nada, acabaram por dizer que fora apenas um engano, mas onde há fumo... E a mãe? Uma língua-de-trapos, sempre armada em vítima e a queixar-se de que se farta de trabalhar, mas passa horas na coscuvilhice com  quem calha. Vais mesmo ligar-te a gentinha dessa?

E vão viver de quê? Sim, os tempos são outros, como estás sempre a repetir, e sei que ganhas bem, muito bem, mesmo, mas no meu modo de ver é ao homem que compete sustentar a família, mesmo se a mulher trabalha. E o teu António, sem estudos de jeito, sim, filosofia não é curso que se veja, só se fosse para o ensino, mas ele é “fino” demais para isso, nunca o poderá fazer, pelo menos ao nível a que foste criada. Vais ser tu a pagar as contas enquanto ele medita no “significado do universo”, como tentou impingir-me?

Mas a vida é tua, faz o que quiseres, não me quero meter, sabes bem que nunca o faço.

Luísa Lopes

Imagem feita com QuickWrite

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