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quinta-feira, 13 de julho de 2023

A Pescaria

 

A pescaria

Fernando já estava acordado quando o despertador tocou às 4 horas e 15 minutos. Era sempre assim nas madrugadas em que ia à pesca. O seu relógio biológico antecipava-se à maquineta. Tão cedo despertar só acontecia naquelas circunstâncias, porque quando era para ir trabalhar a mecânica ganhava sempre à biologia. Entre a pescaria e o trabalho não havia que hesitar, uma era puro prazer, outro era dura obrigação.

Como não havia tempo a perder, os apetrechos de pesca eram ajeitados dias antes, para que no dia fosse só pegar e largar. Nada podia faltar. A roupa também era escolhida de véspera, em função tempo que iria fazer. O negócio era por demais importante e interessante para que subsistissem falhas.

Equipado a preceito e com o pequeno-almoço tomado era só agarrar nos sacos e pôr-se a caminho.

De carro seriam cerca de 15 minutos, atendendo a que àquela hora da madrugada não havia trânsito. Chegado ao destino, bastava procurar o melhor lugar para a função, tendo em conta as condições do mar e as correntes dominantes. Nada podia ser deixado ao acaso. A pescaria não é feita à balda, tem por base muito conhecimento científico, não basta pôr o isco no anzol e lançar a linha, é muito mais do isso.

Escolhido o local, os sacos eram poisados e começava a preparação para a faina. Com todo o tempo pela frente, porque o tempo deixava de contar, ia-se tirando calmamente tudo o que era preciso para um bom desempenho da acção.

Fernando já se encontrava tão entretido nos preparativos que nem deu pela saída da escuridão da noite de quatro cães de grande porte que se aproximaram sorrateiramente dele, como se fossem uma matilha esfaimada em busca de possível presa.

Mas afinal o que era suposto acontecer, um afiar de dentes, deu lugar ao abanar de caudas e a lambedelas amistosas ao pescador.  

Ali estavam os seus companheiros de pescaria, sempre presentes, e já lã vão alguns anos. Eram uma companhia que nunca se desfez e, quanto a faltas de comparência, sobram dedos de uma mão.

Ainda se lembra da primeira vez que se cruzaram: não houve abanar de caudas, nem lambedelas por parte deles e não houve qualquer gesto pela sua parte. Ficaram ali a medirem-se e a ver o que aquilo iria dar. Fernando, a parte mais fraca, ainda pensou em abandonar o local, mas decidiu ficar e enfrentar a perigosa situação. Sombreados pela pouca luz que vinha do candeeiro público, aquelas feras mostravam-se assustadoramente perigosas. O seu cérebro tinha-se movido a alta velocidade para encontrar a chave da solução.

Os figos salvam a situação disse-lhe um dia o avô, quando com ele percorria os caminhos da aldeia. Ao avistar algum cão, o avô tirava do bolso uns figos secos e dava-os à visita inesperada.

E a solução encontrada estava certa, porque as sombras moveram-se em direcção aos figos colocados no chão e aceitaram os presentes.

A amizade começou aí.

Com estes sócios por perto não há malandro que se tente aproveitar das fraquezas de um homem, como aconteceu uma vez em que foi assaltado por um grupo de meliantes que sorrateiramente se apoderaram de dois robalos e alguns ruivos.

A madrugada estava calma, o vento praticamente não mexia, o céu estava estrelado e a temperatura aguentava-se bem sem um grande agasalho. O mar ia e vinha bater nas rochas, não fazendo altas ondas, tanto assim era que os salpicos para cima do paredão eram raros.

Ao longo do paredão três ou quatro outros pescadores tentavam a sua sorte e habilidade Ao longe, sob a luz das estrelas e sob o ténue clarear da aurora, pareciam estátuas rochosas desafiando o mar.

O silêncio era cortado pelo bater das ondas nas rochas protectoras do paredão.

Quem nunca pescou não consegue, por mais raciocínios que faça, entender aquela malta que se levanta às três horas da manhã, faça chuva, faça frio ou assobie o vento, para ir à pesca, muitas vezes a dezenas de quilómetros de casa, sem quais quer garantias de trazer algum peixe.

Mas eles não sabem o que é ouvir o silêncio do mar a bater nas pedras do paredão, o que é sentir o sabor da maresia, o que é saltar para além do real e imaginar a rota daquele exemplar que, no meio do imenso mar, se dirige até aquele ponto em que a vida se vai cruzar com a morte, o que é vê-lo a vir no ar ao nosso encontro.

Mas eles não sabem, nem sonham que enquanto se espera se pensa em tudo o que se pode pensar, sem que alguém venha corta a linha de pensamento.

Mas eles não fazem a mais pequena ideia da paz de espírito que a luta com o peixe e com as forças da natureza traz ao pescador.

Mas eles também não sabem o que é passar por entre os outros pescadores e mostrar a mais-valia de uma noite de prazer: quatro robalos, três ruivos, uma dourada e uma corvina de uns bons quilos.

 

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