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quarta-feira, 3 de maio de 2023

FLORES DE CEMITÉRIO


 

Entre a vontade ferrenha do sonho

e o bloqueio efetivo do medo,

havia toda a extensão de uma noite

em que eu devia permanecer à porta

de sua casa velando o teu sono e

vendo a morte subterrânea do desejo.

 

Eu não estava sozinho nas ruas

de uma cidade quieta, havia sob os

meus pés toda uma horda de cadáveres

que se arrastavam feito minhocas e

viam com vivo interesse o desfecho

de minhas peripécias góticas.

 

Entre a fachada fechada de sua casa

e os portões de acesso ao cemitério,

havia todo um roteiro desesperado

que eu devia percorrer ao encalço de

minha lucidez no encosto das sacadas

ou seguir bêbado à procura de flores.

 

Eu não estava sorrindo nos bares

próximos a uma praça deserta, havia

solidão e pânico em meus propósitos

quando eu me dirigia ao cemitério e

com as mãos trêmulas sobre o canteiro

eu enchia de flores a bolsa de plástico.

 

Entre a calma indiferença do teu sono

e a obsessão doente da paixão, havia

todo um ritual de poesia que visava

alterar o descompasso entre o amor

caótico que eu sentia e o abismo

de silêncio e luz que te envolvia.

 

E daqui a alguns anos

(findo o mistério),

quando a vida estiver

muito longe e grande

for a fileira de sonhos,

tu então terá a certeza

de ter sido a primeira

a receber flores do cemitério.


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