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sábado, 8 de abril de 2023

Gótico Enluarado

 


Desde que descobrira o estilo gótico, não o arquitetónico, claro, mas sim o “estilo de vida”, Beatriz mudara completamente. De “menina doce”, de roupas discretas e sem maquilhagem que se visse, passara a vestir-se de negro da cabeça aos pés, olhos cheios de Kohl e sombras escuras, unhas negras e toneladas de correntes, anéis, cruzes e outra quinquilharia a imitar prata, uma vez que esta estava muito para além das suas posses.

E não pensem que era fácil, na pequena vila em que morava estas coisas não eram exatamente populares e, com a recusa formal dos pais em autorizarem compras via Internet, era forçada a improvisar quase tudo.

Mas lá diz o ditado, quem quer sempre alcança e Beatriz, ou antes, Bea, nome que decidira adotar mas que, infelizmente todos os seus conhecidos e família se recusavam a usar, Bea, repito, lá se ia governando o melhor que podia.

Do ponto de vista da mãe, a única vantagem desta mudança radical era a filha ter finalmente aprendido as bases da costura. É que sem dinheiro para roupa nova, muito menos do género que queria, andara a rebuscar em malas e baús tendo tido a sorte de encontrar algumas roupas antigas de luto que fora autorizada a adaptar à sua vontade, desde que isso não custasse mais do que a sua parca mesada permitia.

Quanto à maquilhagem, bom, uma prima mais velha dera-lhe uns conjuntos de sombras antigas, dos que tinham várias cores nada populares juntamente com uma ou duas mais usáveis, digamos. Alguns eram até tão velhos que fora forçada a deitá-los fora por lhe terem causado uma forte inflamação na pele. Mas quem quer ser bela tem de sofrer por isso e Bea estava disposta a tudo para ser a única gótica da zona, mesmo que isso implicasse passar horas a criar acessórios que as felizardas que viviam em cidades grandes ou tinham pais mais compreensivos podiam muito simplesmente comprar.

Mas não se limitara ao visual. Tinha ideias muito vagas sobre o que significava ser gótico, mas criara a convicção de que isso envolvia “artes negras”, o que quer que fossem, uma visão muito pessimista da vida e de tudo e uma certa paixão pela morte e por tudo o que com ela estivesse relacionado.

Mas como os pais tinham sido formais na proibição de velas negras e outras coisitas desse estilo, como traçar um grande pentagrama na parede do quarto, Bea ficara reduzida a andar pelos cantos sempre com um ar macambúzio, a suspirar constantemente e a lançar para o ar frases lapidares como “a vida são dois dias” e “a única certeza é a morte” ou, ainda, a sua grande favorita, “nascer é uma doença fatal”.

O problema é que ninguém lhe ligava nenhuma e tudo o que dizia e fazia caía em saco roto, desde que não afetasse as finanças da família ou fosse deliberadamente mau. Davam-lhe, até, uma certa latitude no seu comportamento desde que em certas alturas se portasse como toda a gente, como uma ida semanal à missa de domingo vestida “como deve ser”.

Um belo dia, tendo visto na televisão um documentário sobre o Dia dos Mortos no México e os verdadeiros festins que se faziam nos cemitérios nessa noite, Bea teve uma ideia brilhante: passar parte da noite de Halloween na parte antiga do cemitério da vila!

Ao contrário do que sabia acontecer noutros locais, em que os cemitérios estavam rodeados de muros altos e com um grande portão fechado ao fim do dia, aquele tinha apenas um murete e uma entrada sempre aberta, o que, diga-se de passagem, fazia bem mais sentido para Bea.

Melhor ainda, ficava já nos limites da povoação, por isso a sua presença ali já de noite não seria notada. Mesmo assim, iria instalar-se na zona de campas tão antigas que já ninguém sabia quem ali estava enterrado. É que um restinho de superstição levava-a a querer evitar os túmulos dos seus familiares e gente sua conhecida, não fosse o diabo tecê-las...

E Bea passou umas semanas a preparar o seu esquema. Sabia que havia uma festa na vila para gente da sua idade para celebrar o Dia das Bruxas, com máscaras e tudo isso. Não fora convidada, claro, uma vez que cortara com todos os amigos e conhecidos quando mudara de vida. Mas os pais não sabiam disso e seria, pois, um bom pretexto para se ausentar uma boa parte da noite.

Arranjou também umas tantas velas, bom, brancas, inevitavelmente, mas de noite todos os gatos são pardos, Até porque eram mais para decoração do que outra coisa uma vez que tinha uma boa lanterna e ia ser uma noite de Lua Cheia. E para o festim, umas bolachas e chocolates fariam a sua vez.

Na véspera, Bea mal conseguiu pregar olho, estava entusiasmadíssima e tinha a certeza de que aquela noite a iria mudar para sempre.

Ao fim da tarde, vestiu-se com a sua melhor roupa negra, adornou-se com todas as suas “joias” e pintou-se o melhor que pôde. Era uma pena o cabelo ser tão claro, mas um gorro resolveu a questão.

E ao escurecer saiu de casa, levando na sacola que lhe servia de carteira todo o seu equipamento. Se os pais notaram que não se mascarara nada disseram sobre isso, pelo que lhes dizia respeito, mascarada andava sempre ela.

E lá foi Bea, toda satisfeita, a caminho da “sua” noite especial. Chegou ao cemitério sem qualquer percalço e não teve a menor dificuldade em encontrar uma boa zona para se instalar. Apesar de aquela secção estar abandonada há muito tempo, continuava a receber alguns cuidados, as ervas daninhas eram retiradas regularmente, enfim, fazia-se o possível para que não destoasse demasiado da parte nova e cuidada.

De início tudo correu às mil maravilhas, era uma experiência nova e há muito desejada. Mas Bea teve alguma dificuldade em manter as velas acesas, o murete baixo que lhe permitira a entrada não cortava o vento, bastante forte nessa noite. E, apesar de saber que a Lua estava cheia, de nada lhe adiantava uma vez que o céu estava totalmente coberto de nuvens.

Felizmente tinha a lanterna, apesar de o seu uso diminuir um pouco o ambiente romântico que tinha imaginado. E esquecera-se de trazer uma manta ou algo em que se pudesse sentar e a terra estava bastante fria.

Mesmo assim, não iria desistir à primeira dificuldade. Instalou-se o melhor que pôde sobre uma pedra tumular caída, colocou a lanterna de modo a dar-lhe alguma luz indireta e começou a petiscar enquanto tentava concentrar a mente na curta duração da vida humana, no “pó és e ao pó voltarás” e outras ideias igualmente felizes.

Por volta das 9 da noite estava pronta para dar a “noitada” por concluída, mas isso seria dar parte de fraca. Até porque ninguém contava com o seu regresso antes da meia-noite ou algo assim. Decidiu, pois, estirar-se sobre a dita pedra tumular e tentar imaginar que jazia ali morta, tarefa menos fácil do que imaginara.

Apesar do frio e do incómodo da cama improvisada estava quase a adormecer e nem notou que a lanterna se apagara por ter as pilhas esgotadas. Teria dormido uma boa soneca, se não fosse ter ouvido uma voz rouca e forte a articular uns tantos palavrões.

Sobressaltada, sentou-se à escuta. O som continuava e, pior ainda, aproximava-se de onde estava. E apesar de conhecer praticamente toda a gente da vila, não conseguia identificar aquela voz.

E veio-lhe à mente tudo o que tinha ouvido sobre esta data, coisas muito no género de “a noite em que os fantasmas andam à solta”, fora os muitos contos de terror que fora lendo nos últimos meses graças à biblioteca de uns seus tios que nem faziam ideia do que tinham herdado em termos literários – felizmente, ou ter-lhe-iam proibido o acesso...

Esquecido o gótico, a festa mexicana e tudo o mais, Bea só teve uma ideia, fugir dali o mais rapidamente possível e refugiar-se no abrigo do seu lar. E se os pais estranhassem ter chegado tão cedo da festa onde supostamente fora, azar, tudo era preferível a ver-se frente a frente sabe-se lá com quê.

E assim fez, batendo todos os seus recordes de velocidade apesar da escuridão daquela noite a dar para o tempestuoso.

O Sr. Jorge, coveiro a tempo parcial, nunca veio a saber como o seu hábito de curtir a bebedeira ocasional no cemitério, para não incomodar a mulher, mudou uma vida. É que aquela noite mudara realmente Bea. Ou antes, fizera-a desaparecer, dando lugar, novamente, à Beatriz de outrora, nada gótica, que evita até usar seja o que for negro.

Luísa Lopes

Imagem criada com QuickWrite

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