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sábado, 8 de outubro de 2022

A Chuva

 




Olhando pela janela custava-lhe a acreditar que estava na Europa e muito menos só no início do verão. A paisagem era de uma desolação de cortar a alma. Campos secos, acastanhados, como se há anos não vissem chuva. Nem uma árvore, arbusto ou planta mais alta sobressaía da planura terrosa. Nem casas, nem pessoas, nem animais, nada. Um verdadeiro deserto, uma verdadeira paisagem lunar, menos as crateras, claro.

Embora a casa fosse fresca e sombria, graças às espessas paredes exteriores, sentia-se sufocar só de pensar no calor que fazia no exterior. Em três semanas saíra apenas uma vez, logo no dia seguinte ao da sua chegada. E bastara-lhe. Limitara-se a dar meia dúzia de passos e logo desistira, sentindo-se queimar por dentro. Só a custo alcançara novamente a porta de casa, onde se refugiara, sofregamente.

E ali estava desde então, sem ver ninguém e falando apenas consigo própria. Sentia-se o único ser vivo à face da Terra, a última sobrevivente de uma terrível e misteriosa catástrofe que lhe passara despercebida e de que só agora avaliava as consequências. Era apenas uma questão de tempo até chegar a sua vez. E depois a Terra regressaria às suas origens, uma simples bola de terra e rochas, estéril e morta.

É claro que sabia que as coisas não eram bem assim. Havia certamente mais alguém na casa durante uma boa parte do dia. As suas refeições apareciam prontas na enorme mesa da velha sala de jantar, a cama era feita quando se ausentava do quarto, a roupa aparecia lavada e passada. Mas nunca via ninguém e escolhia ignorar todos os sons que poderiam ser indícios de vida, dando-lhe prazer imaginar que estava nalgum castelo encantado a ser servida por duendes, fadas ou outros seres mágicos. Não que fosse particularmente imaginativa, mas sempre lhe ficara alguma coisinha dos contos que lhe liam na infância. E, sendo assim, preferia ignorar que essa invisibilidade resultava apenas das ordens que enviara antes da sua vinda.

Viera até ali para morrer e não estava disposta a que nada interferisse com a morte do seu mundo. Ou antes, de todo o Mundo, como gostava de pensar num pequeno rasgo de megalomania. O local não fora escolhido por acaso. A velha casa já estava bastante arruinada quando ali estivera pela última vez, há séculos, segundo lhe parecia. E os anos decorridos desde então não lhe tinham sido benévolos, destruindo parte do telhado, partindo janelas, esburacando paredes. Apenas a zona central, mais protegida dos elementos e, possivelmente, de vândalos, estava ainda habitável.

A época também era a melhor para o seu fito. Os verões naquela zona eram habitualmente secos, quentes e dificilmente suportáveis por quem não estivesse habituado a eles. O sol ardente era reflectido pela terra queimada e nua, dando um efeito de fornalha. Só a madrugada e as noites eram suportáveis, amenas, até.

Naquele passado distante da sua adolescência, em que aqui residira durante as férias grandes, costumava dar longos passeios de manhã cedo, assistindo com um enlevo sempre renovado ao nascer do sol. Também as noites eram suas amigas, frescas, belas e com mais estrelas do que jamais sonhara existirem. Bons tempos, em que parecia que tinha uma vida infinita pela frente, vida essa em que tudo seria possível.

Mas agora odiava tudo o que antes a enlevara, recusando-se, até, a olhar pelas janelas enquanto o dia não estivesse adiantado e feroz. Só então a paisagem estava em sintonia perfeita com a sua alma – deserta e estéril.

Só esperava que tudo se resolvesse antes do fim do verão, antes que uma chuvada estragasse tudo dando vida e frescura à paisagem. Infelizmente, não havia garantias de que isso acontecesse, a menos que fosse ela a garanti-lo. Mas por muito erma que sentisse a alma, por muito desolada que fosse a sua vida, nunca lhe ocorrera tomar medidas para lhe pôr fim antes do tempo.

Se ao menos o médico tivesse sido mais exato! “Sem uma operação, poderá ter de três a seis meses. Se optar por fazê-la, talvez dois ou três anos. Ou mais, consoante o que encontrarmos.”

A doença fora o último golpe numa série de pequenos percalços, nenhum deles grave só por si, mas cuja acumulação gerara em si um enorme cansaço espiritual. Por muito positiva que tentasse ser, só conseguia antever uma série de dias tirados a papel químico, um trabalho sempre igual e que podia até fazer meia a dormir, uma série de conhecidos – nem amigos lhes podia chamar – que eram mais fruto das circunstâncias do que de quaisquer afinidades com ela, um apartamento herdado e que nunca se dera ao trabalho de decorar e de tornar bem seu, enfim, um ramerrame que se arrastava há décadas.

Tal como a dorzinha crónica no estômago que a afetara durante anos antes de se tornar suficientemente forte para a levar a uma consulta médica. E que acabara por ser a única coisa excitante, diferente, que lhe acontecera na vida, pelo menos na vida adulta, apesar de ser uma sentença de morte sem uma operação dolorosa e de recuperação difícil.

Ainda pensou fazê-la, chegou até a acertar uma data, mas depois caíra em si. Passar por tudo isso para quê? Para voltar à mesma vidinha que a entediava de morte? Trocar uma morte física antecipada por um tempo indefinido de morte em vida?

Fora então que decidira isolar-se para passar os seus últimos dias sem ter de aturar cenas, choros, conselhos e, o mais irritante de tudo, o ar de compaixão, falsa ou não, com que quem sabia do caso lhe falava, a começar pelo médico e enfermeira. Lembrou-se, então, da casa de campo que herdara dos pais e que nunca visitara desde que acabara o liceu. Sabia que a propriedade passara por vários arrendatários temporários para tentativas agrícolas, todas elas fracassadas, diga-se de passagem, mas a casa em si não era habitada há anos, uma vez que, estando num dos extremos, nunca era incluída nesses contratos.

O agente que lhe tratava desses assuntos ainda tentara dissuadi-la, evocando o péssimo estado em que tudo estava, mas nada a demovera. Pusera como única condição nada ter a ver com o governo da casa e não ter de ver nem falar com ninguém. Espantosamente, tudo se resolvera a seu contento e não vira qualquer ser vivo desde que entrara na estrada secundária que dava acesso à propriedade, nem sequer um animal, fosse de que tipo fosse.

E os dias do verão cada vez mais ardente foram-se sucedendo, sem que soubesse muito bem quantos já teriam passado. Deixara o telemóvel descarregar-se e nem se dera ao trabalho de trazer o portátil antigo que usava muito esporadicamente, já lhe bastavam as longas horas passadas ao computador durante o horário de trabalho. Só tinha uma noção bastante exata das horas porque havia na casa vários relógios antigos, dos de dar corda, que decidira deixar que funcionassem, uma vez que o seu toque, um tanto lúgubre ao ecoar na casa vazia, parecia ser a banda sonora adequada ao filme chatérrimo que era a história da sua morte.

Incrivelmente, sentia-se bem melhor a cada dia que passava, não fisicamente, claro, a dor piorara imenso e só a mantinha em respeito aumentando cada vez mais a dose de comprimidos de que trouxera uma boa quantidade, mas espiritualmente, talvez por estar finalmente em sintonia com o mundo que a rodeava: árido, em ruínas e sem vivalma. Dormia, finalmente, bem, sem sonhos que a despertassem alvoroçada, e acordando sem se sentir esmagada pelo peso da sua vidinha.

Se ao menos o fim chegasse antes que algo acontecesse e estragasse tudo!

Uma noite, porém, houve algo que a acordou. Um ruído surdo e monótono, mas quase musical. Ensonada, levou algum tempo a perceber do que se tratava. Era a chuva, a maldita chuva que decidira aparecer apesar do dia ter estado, como sempre, um forno de céu sem nuvens. Mas podia ser apenas uma pequena chuvada que não fizesse grande diferença no solo tão seco. Só a manhã o diria.

O som ritmado acabou por fazê-la adormecer e quando finalmente acordou e abriu as portadas o sol já ia alto. Infelizmente, a primeira coisa que viu foi o solo enlameado do que fora outrora um pequeno jardim lateral e era agora apenas um espaço de terra batida. Mesmo assim, ainda havia a esperança de a chuva não se repetir e voltar tudo ao normal.

Esperança vã! Começou a chover todas as noites, apesar de nem uma nuvem se ver no céu quando se deitava. E em breve o solo ocre e desértico estava coberto de um verde ainda ralo, mas que se alastrava a cada dia que passava, como se as muitas ervas daninhas só esperassem por um pequeno encorajamento para voltarem à vida antes que o frio gélido do inverno as voltasse a matar.

E com esta mudança veio-lhe um sentimento de inquietação, de insatisfação, que a fazia percorrer a casa de ponta a ponta, até as zonas instáveis e perigosas, numa tentativa vã de esgotar toda essa energia nervosa e recuperar a calma interior em que vivera durante as últimas semanas. Também a saúde não dava sinais de piorar e a morte fazia-se esperar – uma breve carga do telemóvel confirmara que estava ali há três meses. E os sonhos que nunca conseguia recordar quando acordava voltaram, dando-lhe um sono inquieto que a deixava mais cansada do que quando se deitara.

Ao fim de alguns dias teve de se render à evidência. O breve período de sintonia com o mundo que a rodeava tinha acabado. Esta paisagem verde, cheia de vida e de novidades diárias era-lhe ainda mais estranha do que o mundo citadino de que fugira. Ali, pelo menos, sabia com que contar, podia simplesmente deixar passar os dias meia acordada, quase como um autómato.

E com o azar que sempre tivera, era bem capaz de morrer sem voltar a ver o “seu” mundo, no próximo ano.

Sim, vistas bem as coisas, mais valia voltar à cidade, ao emprego, de que estava de licença sem vencimento, aos seus vários conhecidos. Felizmente, poucos sabiam da sua doença e poderia sempre evitá-los caso se tornassem demasiado incómodos. Ou, melhor ainda, poderia despedir-se e ficar simplesmente em casa, abastecendo-se totalmente via Internet. Assim, só veria o pessoal das entregas e o médico, claro, para renovar as receitas.

Era isso mesmo, aguardaria o fim na sua suposta casa e não aqui, como desejara mal soubera da sua sentença de morte.

Maldita chuva!

Luísa Lopes

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