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sábado, 13 de agosto de 2022

Sinais dos não tempos, nnestes tempos de agora

 

Uma luz tão intensa, que conseguiu cegar por completo o sol, brilhou nos céus instantes antes de se ouvir deflagrar uma gigantesca explosão, que devastou em poucos minutos praticamente tudo. Não restou pedra em cima de pedra, de pé só ficou a destruição.

Um vento quente e pegajoso que se formou na altura da explosão continuou a lançar faúlhas ainda incandescentes que alimentaram a voracidade dos incêndios. As cinzas que caíram amortalharam pessoas, animais e coisas.

O número de mortos era incontável e viam-se espalhados por todos os lados. Os feridos agonizavam sob os escombros sem socorros disponíveis para os ajudarem. Os vivos sãos arrastavam-se durante horas pelas ruas, como se fossem sonâmbulos em busca do nada.

Não sabiam o que tinha acontecido, só sabiam que à sua frente tinham o apocalipse.

A., caminhou longas horas arrastando os passos errantes por entre os destroços. Quando sentiu que as forças começavam a fraquejar sentou-se no chão e fechou os olhos à tragédia. Não queria ver mais nada, somente esquecer aquele inferno de ferro e fogo. Já era tarde quando conseguiu reconciliar-se com o sono.

Esse sono que em vez de lhe trazer um pouco de alívio ainda o mortificou mais. Poucos foram os momentos dormidos em que não foi assaltado por negras e tenebrosas imagens saídas do fim dos tempos: pessoas a desintegrarem-se, edifícios a ruir estrondosamente, crateras que se abriam e engoliam pedaços da cidade, negras aves de rapina que voavam rasante com pedaços de carne nas garras, animais famintos que estripavam os ventres dos moribundos.

Toda essa surreal imagética, assim como aparecia assim desaparecia, sucedendo-lhe alguns momentos de silêncios aterradores, quebrados a espaços por assustadoras explosões.

O cheiro a queimado e a morte eram agora ainda mais intensos. A tragédia revelava-se em toda a sua crueldade. Não sabia que horas eram. O negro nevoeiro que envolvia toda a cidade não deixava perceber se ainda era de madrugada ou se o sol nesse dia tinha nascido. Naquela situação, qualquer hora era tão boa como outra qualquer, porque a medição do tempo iria passar a ser feita não pelo passar das horas, mas pelo passar dos metros, quanto mais longe daquele inferno melhor.

Com os olhos semicerrados ficou a olhar para os movimentos dos que se apressavam a partir. Faziam tudo calados e em silêncio partiam. Levavam o que as forças lhes permitiam e lançavam olhares de desconfiança para todos os lados enquanto caminhavam. Não sabiam para onde iam, não sabiam o que existia para além, mas iam.

Aqueles que ficavam, já nem olhavam ao redor, nem perscrutavam o horizonte, esperavam com a resignação estampada no rosto, com o olhar vago, não esboçando sequer um gesto que fosse. Mais pareciam vivos mortos, de tudo alheados, e que se deixavam estar pelos cantos perdidos na solidão dos seus medos.

Alguns dos que partiram, nem avançaram, nem conseguiram regressar, ficaram pelos caminhos, mortos ou feridos, porque as emboscadas e os ataques selvagens eram frequentes. Bandos de malfeitores tinham-se constituído e começaram a construir poderes organizado no meio daquele caos. A luta pela conquista do poder que dava acesso à sobrevivência justificava tudo, cada um escrevia a sua própria lei.

A desconfiança alastrava e o medo ia começando a assentar arraiais. A todos os momentos viam-se partir grupos formados e engrossados ao acaso, porque ninguém se arriscava a aventurar-se sozinho.

Os fracos, feridos e todos os que não estivessem em condições de aguentar a viagem eram considerados um peso morto e mais susceptíveis de aguçar uma atracção apetitosa de salteadores. Facilmente poderiam a vir a ser pasto de bichos esfomeados. Em vez de serem integrados em qualquer um dos grupos que continuamente se iam formando eram deixados à sua sorte. Daquele não mundo, já só esperavam o inferno de uma não vida. Antes a paz duma morte do que uma sobrevivência indigna.

A., decidiu enfim partir, quando o último grupo de sobreviventes se formou. Nada mais ali o retinha.

Teve de parar várias vezes, para perscrutar ansiosamente o horizonte e, por isso, os seus ocasionais companheiros, não esperaram, coisas da sobrevivência, mais uma boca a comer. Viu-os mais tarde ao longe e no fundo dum vale, relativamente perto a corta mato e sem qualquer desvio, mas a cerca de algumas horas de distância se encontrar caminhos inacessíveis. Nunca os conseguiria alcançar, a não ser que lhes gritasse, mas tinha receio que o grito e o eco que naturalmente se lhe seguiria alertassem alguém indesejado. Também não tinha garantias de quem o apunhalou pelas costas uma vez, não o viesse a fazer outra vez. Deixou-se ficar escondido a vê-los a afastarem-se.

Com aquele nevoeiro de cinza e com o calor húmido que se fazia sentir o simples caminhar tornava-se insuportável. Os nauseabundos cheiros trazidos pelos ventos quentes colavam-se às andrajosas roupas e agarravam-se à nua pele. O cansaço e a insuportável dor do abandono dilaceravam-lhe as entranhas da alma. Apesar desse sofrimento estava disposto a ir buscar forças onde fosse possível, para continuar a caminhar para dentro destes tempos, em prol de outros tempos futuros. Não queria ser vencido, sem luta, pela barbárie dos não tempos dos tempos de agora. Continuar o caminho nem que pés se recusassem a andar. Não queria sequer pensar que nessa estrada, sem fim, o fim já se aproxima.

 

 

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