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quinta-feira, 3 de março de 2022

A NATURALIDADE DO AMOR EM DRUMMOND

 

Não posso crer que se conceba

do amor senão o gozo físico!”

(Manuel Bandeira)

 

            A literatura é atemporal e mesmo depois de muitos anos, o autor de Claro Enigma ainda nos propõe novos e instigantes enigmas. Como decifrá-los à sombra grandiosa do autor e de sua obra? Sento-me à máquina como quem senta ao pé de um mistério. E desta feita temos pela frente, com o livro O Amor Natural, uma esfinge erótica para decifrar ou então, na pior (?) das hipóteses sermos devorados por essa estátua de puro sexo construída pelos versos incendiados de Drummond.

            Para quem não conhece da obra do autor senão alguns poemas famosos que caíram no domínio público e se tornaram ditos populares, e aprendeu a gostar e associar estes versos à figura simpática de um velhinho tido como o melhor de todos, e que agora lê O Amor Natural, levará um susto e certamente ficará chocado com a temática e os termos usados pelo poeta.

            Mas para quem conhece e acompanha o autor em toda a sua obra, livro a livro, poema a poema, saberá que, afinal, a surpresa não é tão grande assim (embora a “voltagem” esteja realmente bem mais elevada). O fato é que a temática erótica sempre esteve presente na obra de Drummond e desde 1984 quando foi publicado o livro Corpo, ela vem crescendo em intensidade. Já no livro seguinte Amar se Aprende Amando, este erotismo se apresenta de forma bem mais dominante até culminar com esse O Amor Natural. Note-se que os próprios títulos dos livros são sintomáticos e dizem bem dessa nova postura do autor.

            E aqui cabe a pergunta mais enigmática e inquietante: por que o erotismo na obra de Drummond se manifesta principalmente nos seus últimos livros publicados, quando o autor já estava velho? Não há aí uma inversão? Geralmente se dá o contrário, ou seja, a voluptuosidade coincidindo com a impetuosidade própria da idade jovem.

            A resposta a esta pergunta tem a ver com o eterno conflito Eros x Tanatos, apesar do próprio Drummond ter dito numa entrevista ao Jornal Leia em 1985, que sua temática amorosa só agora se tornava mais visível porque “antes eu tinha uma espécie de medo, era encabulado, provinciano, coisa de pessoa muita tímida que eu sou até hoje”. Acontece que o amor enquanto experiência física (e Drummond nessa entrevista deixa claro a sua intenção de n’O Amor Natural enaltecer o lado físico do amor, desvinculando-o do lado espiritual) é sempre maior e mais forte em situações-limite.

           Assim, uma baita ressaca física e/ou moral, uma situação de forte pressão emocional, a velhice (que sempre vem acompanhada da possibilidade da morte próxima), a própria ideia de que o nosso fim se aproxima (independente da idade que temos), tudo isso desencadeia um processo de busca de autotranscedência que, por sua vez, se manifesta de diferentes formas. Uma delas, de âmbito puramente físico, é o erotismo levado a extremos de tesão sexual ou de uma paixão absolutamente extremada, chegando em alguns casos ao paroxismo.

            No caso específico do Drummond me parece que há uma tentativa de elucidação do amor transcendente, destilando-o através de um fino erotismo físico sem meias-palavras e sem medo das palavras. E o autor consegue com essa sua tentativa dar a exata medida do prazer em todas as suas variantes e variações possíveis entre dois corpos humanos que, buscando o êxtase físico, tentam na verdade romper o bloqueio do eu insulado, do eu aprisionado que só tem a si mesmo ou nem isso, destituído de qualquer espiritualidade transcendente.

            A transcendência do amor é uma consequência do ato físico e não uma coisa à parte, separada espiritualmente e que requer, para se completar, uma fusão com o amor físico. Não. Através do gozo físico é que se chega (ou se pode chegar) a alguma forma de transcendência. Exceção feita, talvez, somente para os góticos em determinadas situações apaixonadas e apaixonantes.

            A metafísica do amor (e do livro) consiste em se tentar, com o prazer físico, atingir alguma espécie de êxtase espiritual que nos daria, por instantes que seja, a sensação de deter a proximidade do fim ou suspender, temporariamente, a ideia da morte, a própria morte em si. Se se pode conseguir isso, somente a experiência pessoal de cada um é que pode revelar. De qualquer forma esse tipo de experiência deve ser tentada, mesmo porque ela é, em tese, acessível a todos os corpos. Mas até que se consiga esse êxtase espiritual via orgasmo, vale a sentença do Bandeira segundo a qual o amor só pode nos dar o gozo físico, o que já não é pouco!

 

 (publicado no Jornal Arte & Palavra, Aracaju/SE em Maio de 1993 e no livro “Textos e Ensaios”, Multifoco, 2012)

           

                   

 

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