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sexta-feira, 23 de abril de 2021

AJURICABA DO NASCIMENTO

 

 



 

         − Aceita um refrigerante? Água?

         Ao mesmo tempo em que meneia a cabeça negativamente, coloca a mão à frente reforçando recusa para a comissária.

         Ajeitando-se na poltrona, procura afastar o incômodo. Desde a decolagem, o estômago trava uma batalha insólita com os bons costumes. Sem dúvida, se tivesse o corpo mais sadio e aguentasse a longa viagem por estradas, o retorno seria menos sofrido. Nem de longe imaginaria entrar num avião. E agora está ali. Desconfortável, sentado ao lado do passageiro que tem fone atolado nos ouvidos e come amendoim salgado num mastigar desembestado, enquanto vê numa das telas, entre as muitas dependuradas no teto, um filme cheio de explosões, tiro para todos os lados. O cheiro do óleo torrado é nauseante. É. Talvez tenha demorado muito a regressar.

         Fecha os olhos para embaçar a luz intensa. E leva um tremendo susto com o balanço forte do avião. Não tolera altura, não queria estar ali, e essa brincadeira não estava combinada. Segura firme nos braços da poltrona enquanto aperta os olhos. Pensa ser hora de pedir perdão a Deus. Os solavancos persistem, um silêncio doído toma conta do ambiente. Retesado, procura fixar a cabeça no encosto. As mãos latejam. A aeronave estabiliza-se, e então o comandante explica que atravessaram uma tempestade com ventos extremamente fortes, deseja um bom descanso a todos e informa que, em pouco mais de uma hora, estarão sobrevoando a floresta.

        

         Pouco sabia dele mesmo. Padre Leôncio contava que, naqueles tempos, a malária matava muita gente, e então a missionária encontrou uma índia cambaleando na estrada, ardendo em febre, com muita falta de ar, inchada, amarelenta, trazendo enganchado nas ancas um moleque que chorava sem parar. Levados ao abrigo, a mulher pouco falou. Tinha nome de Anaí. Muito mal, disse que o menino, desde que nascera, foi chamado de Ajuricaba pelo pai. Horas depois, ela morreu. E, no documento do cartório, foi anotado Ajuricaba do Nascimento, filho de Anaí dos Anjos.

         Levado ao orfanato, o menino cresceu sob os cuidados dos religiosos. Havia outras crianças, todos meninos. E, devido ao nome de difícil pronúncia, ganhou o apelido de Jura. Não havia do que se queixar. A comida era boa, farta. A cama asseada ofertava abrigo. Poucas lembranças restaram do antes. A morada de janelas largas, piso tijolado, grande, ficava nos fundos da igreja, ao lado da casa paroquial.

Da mesma idade de Jura, havia mais cinco: Zinho, Tomé, Tico, Zé Mudinho e Bié. E cada qual possuía quinhão de tarefa. No geral, além das aulas com Padre Leôncio que ocupavam parte da manhã, sobrava tempo para brincar. A tarde ficava para a feitura dos rosários de contas de capiá, vendidos na igreja da capital. Ocupação que relaxava. Bastava costurar com linha forte de carretel e ter atenção na contagem das bolinhas. Cinco mistérios com dez Ave-Marias, Glória e Pai Nosso em cada um. Fechado o círculo do terço, o acabamento era feito com as rezas: Creio em Deus Pai e Salve Rainha, e, como enfeite final, uma cruz de contas. Tudo separado com nós de três laçadas.

Zé Mudinho não fazia rosário. Não aprendeu a ler nem a escrever e não sabia contar as ave-marias. Nesse trabalho, ficava incumbido de colher as contas. Bastava colocar o velho caldeirão vazio nas mãos dele, partia numa corrida desvairada para as touceiras de capiá, lá na baixada. Era bom no serviço. Voltava com o caldeirão abarrotado de contas, material para muitos dias de trabalho. E, enquanto os outros costuravam, passava o tempo riscando a areia do terreiro com um pau. Fazia traços que só ele entendia, e ficava feliz. Não sofria de leseira, apenas o silêncio é que era muito. Alma boa. Não havia olhar dirigido a ele que não fosse pago com sorriso.

Além disso, ficava para Jura o afazer de pescar. Sempre na tardinha. Zé Mudinho ajudava a arrancar minhocas, mas não ia com ele. Na mata, não podia ser gago do ouvido. O sinal do perigo exigia todos os sentidos.

Com caniço e isca, rumava para o igarapé. Soltava a canoa até onde a corda, enlaçada na árvore, permitia. Arremessava a linha para perto das folhas de jaçanã, e o anzol iscado bailava na água serena. Dava para ver o peixe abocanhando o chamarisco e tentando se desvencilhar do enrosco, provocando marolas na água e balançando as folhas redondas.

Em menos de hora, duas enormes fieiras de peixes se formavam. Então, chegava a hora do gozo. Trazendo a canoa para a margem, Jura tirava a camisa e mergulhava no rio. Sentia-se rei, dava braçadas enérgicas, piruetas acrobáticas. O corpo parecia feito só de carne, tamanho o desembaraço. Quando emergia, só lhe enxergavam os dentes mostrados em sonoras gargalhadas. Era o ópio. A água cristalina a lavar a alma e o perfume das flores de jaçanã desabrochando na entrada da noite.    

Refrescado, tomava a direção de casa. Nas mãos, as fieiras abarrotadas. Logo, logo, os peixes estariam ticados e marinando nos temperos de dona Zefa. E, naquela quase noite, o olhar para a mata fechada se mostrava cravejado de mirabolantes luzeiros: a dança dos pirilampos.

O tempo mudou tudo. Iranduba ficara pequena para Jura e a maioridade exigia asas. Na cidade, corria a notícia de que a construção da nova capital do país recrutava trabalhadores de todos os cantos. E o transporte era sem custo. Padre Leôncio reforçou o intento, arrumou a velha mala, juntou algumas roupas, e repassou a Jura uma pequena reserva de dinheiro. E, assim, sem abraço e sem choro, no normal da vida, acenou adeus aos que ficaram.

No Planalto Central, chegou meio atordoado. Árvores nanicas, raleadas. Tudo era construção, terra, poeira vermelha. Nada de fartura de água, nada de chuva. Secura.  Trabalhou pesado, mas por pouco tempo, pouco mais de três meses. Ali, nada mostrava graça. Nem o sol podia ser visto, e calor não era melado. Ressecava o couro. Sem rio para se banhar, só a poeira cobria tudo, tirava a beleza do dia. Sequidão.

         Assim, no meio de uma prosa, conseguiu encaixe num transporte que o levaria para São Paulo.

        

         As luzes internas do avião são apagadas. Não há mais filmes nas telas, tudo quieto. Alheado de tudo, Jura nem havia percebido. Assusta-se. Pelo horário e conforme a fala do comandante, a aeronave deve estar sobrevoando a floresta. Na cabeça de Jura, pura aflição. Pavoroso pensar que, se o avião caísse, ficaria perdido no meio da selva. Coça a cabeça enxotando o mau agouro. Do lado, o parceiro da viagem está largado na poltrona, a sono solto. Corre os olhos, todos estão com as poltronas deitadas. Passa a mão pelos lados do assento, apalpa toda a volta. Nada de achar o botão para abaixar o encosto. Contém o ímpeto de cutucar o parceiro para pedir ajuda. Não, não teria cabimento. Tenta mais uma vez descobrir o infeliz do botão, mas desiste. Ajeita-se como pode, na vertical. Afinal, sabe que não vai dormir. Além do medo que esfria as tripas, a ânsia de chegar dá comichão.            

 

São Paulo era um desvario de tamanho. Abraçado à mala, foi deixado na praça do centro. Final do dia, céu encharcado de nuvens pretas. Gente de passo apressado, gritaria de vendedor, buzinas estridentes, confusão medonha. Ali, nem Zé Mudinho teria paz. Sorriu com a lembrança do amigo. Saudade batia forte. Procurou uma ponta de banco, precisava ajeitar as ideias. Sentado, observava. E o movimento de gente, assim como a aflição, foi serenando. Logo, poucas pessoas continuavam na praça.

E apareceu Zuleica. Rapariga bonita que só vendo! Novinha, apesar da roupa estranha e da maquiagem exagerada, não mostrava acesume. Andava devagar, gestos certeiros, sem ruído. Agora, os olhos... Ah! Os olhos eram safados. Matreiros, incisivos, falavam mais que a boca. Então, achegou-se, e o perfume da flor de jaçanã anuviou os sentidos de Jura. Cheirava à flor, tal e qual. Olhando a velha mala junto ao banco, Zuleica percebeu que ali estava um forasteiro. Sentou-se ao lado, bem perto, e falava baixinho. Falava bem perto do cangote, os lábios quase encostados no ouvido, e arrepiava. E as palavras eram bonitas. Não demorou nada e Jura se achou esparramado na cama do hotel onde Zuleica vivia. E ali ficou por dias, semanas. Até que o dinheiro acabou.

Não foi apenas Jura que se enrabichou por Zuleica. Percebia-se afeição entre os dois. Por um bom tempo, ela não atendeu outros clientes. Os dois, alegremente, dividiam pão com mortadela e guaraná. Mesmo quando Zuleica precisou voltar ao trabalho, continuaram dividindo o quarto. O inconveniente era que Jura precisava ficar na porta do hotel enquanto ela dava expediente. Mas, convencido pela lábia de Zuleica, o dono do hotel contratou Jura para o serviço de limpeza e cedeu-lhe o quartinho dos fundos. Jura conheceu outras mulheres que faziam programas ali. E foi um desacerto. Refestelou-se na esbórnia. Talvez tenha sido o tesão do mormaço, tão falado na sua terra. Ficava pensando no esculacho que levaria se Padre Leôncio aparecesse por ali. Certamente levaria petelecos. Nem saberia contar quantas doenças pegou, de quantas tratou. Só tomou jeito quando ficou maninho. Foi o médico que disse, e foi uma tristeza danada.

A amizade com Zuleica era o que lhe animava. E foi ela que o ajudou a arrumar os documentos, todos, e ainda cuidou dele durante as doenças. Tinha paciência de explicar tudo da cidade grande, ensinar as malícias nos tratos e nos destratos. Jura era desprovido de maldade, demorava a perceber a sutileza de insultos.

Certo dia, Zuleica contou que havia conhecido um sujeito estribado. Político lá das Minas Gerais, gentil, amoroso e que recebera proposta de se mudar para um apartamento de dois quartos, perto dali. Seria teúda e manteúda. E estava feliz, teria seu canto, sua privacidade. Mas havia imposto uma condição: o mineiro teria de permitir que Jura ocupasse um quarto do apartamento. E assim aconteceu.

A convivência era pacífica. O mineiro aparecia duas vezes no mês. Nestes dias, Jura dobrava turno no trabalho. Queria ser discreto, dar mais intimidade ao casal. E, ao contrário, nas folgas do trabalho, zanzava pelas redondezas. Caminhava ao léu, até encontrar o prédio em forma de peixe. Amor à primeira vista. A ondulação da fachada era o retrato do movimento da enguia nas águas do igarapé. E essa figura ziguezagueava nos pensamentos dele, dia e noite.

Foram várias visitas, e, a cada vez, os olhos apanhavam detalhes da construção ondulada, desenhada pelo mesmo homem que imaginou os prédios do Planalto Central. As curvas eram alucinantes, mexiam com o corpo. E Jura decidiu que um dia trabalharia lá. Persistiu. Semanalmente, perguntava ao porteiro se havia vaga para pessoal de limpeza. Foram meses, até conseguir colocação. E Zuleica foi junto quando ele levou a carteira de trabalho para ser preenchida. Dali em diante, era feliz feito passarinho. Cuidava da limpeza do térreo e do primeiro andar do bloco A, local movimentado, cheio de vida. 

Zuleica resolveu seguir para Minas, o político a assumiria como companheira. Antes disso, escriturou tudo certinho no Cartório e surpreendeu Jura quando lhe doou o apartamento e uma boa quantia em dinheiro, depositada no banco. Foi uma choradeira sem fim, talvez a única e última de que se lembrava. E, quando ela partiu, não sabia que seria o último abraço. Mas foi.  Meses depois, o casal foi para o estrangeiro, definitivamente.

A vida seguiu o rumo. Jura continuou só. Não havia do que se queixar. E chegou um momento de desvalorização assustadora dos apartamentos do condomínio em que trabalhava. Aproveitou a chance, vendeu o apartamento que Zuleica lhe dera e comprou outro ali, no primeiro andar do prédio em forma de peixe. Bênção. Incrédulo, nem conseguiu dormir na noite em que se mudou.   

Guardava apenas um desejo além do de retornar para a sua terra, onde descansaria. Queria ver o prédio lá de cima. Mas o pavor por altura nunca lhe permitiu tal façanha. Jamais falou sobre isso. Fazia algum tempo que relutava com o medo. Estava envelhecendo e precisava acelerar a proeza. Foi num domingo. Entrou no elevador, subiu até o trigésimo segundo andar. Nem raciocinava, não queria pensar em que altura estava, não queria que as pernas tremessem. Chegando lá, abriu a porta da escada de incêndio. Ficou um tempo parado. Fez o Em Nome do Pai, beijou o crucifixo do cordão, e foi alteando os pés na escada. Quando botou a cabeça acima do topo, o vento desenfreado lhe levou o boné. Agachou-se, instintivamente. Estava apavorado, mas não iria retroceder. Deu mais um tempo, esperou o coração desacelerar, foi erguendo o corpo aos pouquinhos. Havia mais dois degraus. Se subisse os dois, veria tudo com clareza. Segurando firme no corrimão, subiu. E o que viu jamais esqueceria. O serpenteado de concreto era ainda mais belo visto dali. Enguia gigante. Para não quebrar o encanto, ficou estático, sem olhar para os lados ou para baixo. Sentia vontade de gritar tanta beleza, mas nem a voz saía. A luta contra o medo e o êxtase do momento deixaram-no como Zé Mudinho. Feliz e sem fala. Esta foi a primeira e última vez que viu tudo aquilo. Ficou registrado.

E chegou o dia de voltar. Aposentado, sem nada mais que o prendesse ali, desfez-se de tudo. De sobra, apenas a mala de roupas. Já não mais a velha mala. Nova, de rodinhas, cheia de modernidade. Nem combinava com ele. E partiu sem olhar para trás, sem tristeza, sem remorso. Havia realizado um propósito. Feito.

 

As luzes são acesas, a comissária avisa que logo o avião pousará. Jura sente as pernas dormentes, a posição incômoda da poltrona desandou a coluna. Dá sapateadas no chão, massageia as coxas, os joelhos doem. Que sofrimento! E ainda vem esse pouso! A batalha do estômago reinicia. A voz do comandante enche o ar e avisa sobre o procedimento de pouso. Jura aperta os olhos, pensa nas contas do rosário. Ave-Maria, Glória, Pai Nosso, Salve Rainha, mas não reza. O avião baixa de pouquinho, parece descer escada. Cada degrau traz o estômago na goela. De olhos fechados, tem a sensação de estar de cara empinada para frente, feito passarinho em queda livre. Cerra os dentes com tanta força que sente a dentadura cortar a gengiva. Isso mesmo. A vida também lhe tirou os dentes.

Quando o avião toca a pista, abre os olhos e vê que está no nível da terra. E freia. Aperta os pés no estribo de descanso com tamanha força que os tornozelos estalam.

É madrugada, início. As portas são abertas e os passageiros saem por um túnel, diretamente para a sala do aeroporto. Depois de pegar a mala e chegar do lado externo do prédio, Jura sente a mormaceira, aquele calor melado que oleia a pele. De volta. Abraçado.

Desperta do enlevo com a chamada do taxista. Entra no carro e pede informação ao motorista. Quer saber como chegar a Iranduba. Qual barco deveria tomar? O taxista cai na risada.

− Homem de Deus! De que planeta você veio? Daqui até Iranduba vai pela ponte, e faz muito tempo!

Sem jeito, Jura dá uma risadinha e combina que é esse o trajeto a fazer. Menos de hora, lá está ele, diante do hotel em Iranduba. De frente para a igreja, que não é a mesma. Nem acredita. Sente vontade de andar, ver tudo, mas não convém. É madrugada e o corpo precisa de descanso. Clama por repouso.  

Dorme profundamente. Acorda com sol alto. Nem bem toma café, bota os pés na rua. Entra na igreja. Modificada, moderna, mas os santos são os mesmos. Junto ao altar, uma lápide com placa de mármore trazendo escrito o nome de Padre Leôncio. Ajoelha-se. Agora consegue proferir todas as rezas. Em silêncio, fala com ele. Agradece a oportunidade da vida que lhe proporcionou. Emociona-se. Depois, fica tempo sentado no banco da frente. Sem pensar, sentindo.

Dá uma volta no quarteirão. A casa paroquial imponente, nada parecida com a antiga, de muro alto e grades vazadas, mostram o belo jardim. Não há mais o orfanato. No lugar, um salão de festa imenso. Nada de ruas de terra. Na baixada que segue até o rio, lá longe, tudo é asfalto. Não há moitas de capim capiá, nem terra para arrancar minhocas. É outra cidade, estranha. Vagarosamente segue pelas ruas. Tenta associar algumas construções às lembranças que guarda. Algumas vezes, perde a noção de onde está. Muitos jardins, creches, escolas, ônibus circulando por todos os lados. Crianças brincam nos parques cobertos por arvoredos. Gente, gente... Estranhos. Tão estranhos como a gente que via nos parques de São Paulo. Afinal, carregamos em nós as estranhezas.

Hora do almoço, volta para o hotel. Na recepção, procura informações sobre casa à venda, sobre os amigos do passado. Recebe cartão de uma imobiliária. A cozinheira, passando por ali, ouve a pergunta sobre Zé Mudinho e fala que nada sabe sobre os outros nomes, mas que conheceu Mudinho. Morreu logo depois de Padre Leôncio, e está enterrado perto da capelinha do cemitério.

Banzeado, Jura perde o apetite e só trisca a salada. Descansa pouco no sofá. Sai, pega a direção do rio. As chuvas intensas continuam e a cheia é das maiores já vistas por ali. O tempo continua carregado. Por fim, ele chega ao igarapé da saudade. As águas quase cobrem todo o tronco da árvore onde amarrava a canoa. Está longe da margem, rodeada pelas jaçanãs. Jura acocora-se no barranco. As pernas doem, a caminhada foi grande.

O olhar de saudade busca as jaçanãs. Quer sentir o perfume, perfume de Zuleica. A doce Zuleica, bonita que só. Quer pescar e comer os jaraquis ticados de dona Zefa, quer mergulhar nas águas do seu igarapé. Queria tanto ter voltado antes...

Das nuvens carregadas, começam os gotejos. Chove de mansinho. De repente, um aguaceiro descomunal escurece tudo, e a cortina de água turva os olhos. Jura olha para o rio. As jaçanãs se desprendem da raiz, a cheia arrebentou-lhes os cordões. E elas seguem se distanciando da árvore, adentrando o rio. É a morte. Sem flores, sem perfume. Jura mergulha nas águas, dá braçadas enérgicas, faz piruetas, sai em busca da flor de jaçanã. Quanto mais se debate, mais a flor se distancia.

No hotel, apenas a mala o espera.

 

                                                                                     

Regina Ruth Rincon Caires

Campinas/SP

 

 

 

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