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segunda-feira, 30 de março de 2020

Cláudia


Paula aproximou-se do caixão da amiga e não a reconheceu. Sim, é costume vestir os cadáveres com a melhor roupa, dá-se uma formalidade à morte. Nem mesmo um jogador de futebol, a quem todos veem com os joelhos de fora em campo, seria velado com as roupas com que conquistou um campeonato para o seu time. Mas não era aquilo que Cláudia chamaria de elegância: ela, que sempre chegava com um belo vestido longo e um colar com uma pedra que se destacava do conjunto – era cliente habitual dos jovens hippies que vendem seu artesanato na praça diante da agência da Caixa Econômica – jamais aceitaria aqueles trajes. Aliás, foi justamente para se ver livre disso que se tornou funcionária da Caixa. Naquele banco estatal, sentia-se respeitada pela postura oficial da instituição. Por isso mesmo chorou de felicidade quando recebeu seu crachá com seu nome: Cláudia. E a família, o que fazia agora? Vestia nela terno e gravata, certamente amarrando os seios cheios de silicone para que não fossem percebidos – mas todos os seus colegas de trabalho sabiam que eles estavam lá –, retirava o esmalte de suas unhas. Certamente retirar-lhe-iam também o nome: escreveriam na lápide o nome que ela recebeu no batismo e renegou quando saiu de casa: Cláudio.
               Doía não poder impedir isso. Doía não ser legalmente responsável por aquele corpo e não poder dar a Cláudia a despedida que ela merecia e gostaria de ter tido, sendo reconhecida na morte como quis ser reconhecida em vida. Não teve escolha senão entregar o corpo à família, que construiu no velório o homem que Cláudia se recusara a ser. Paula mesma a encontrara morta: era costume das duas irem ao cinema nas sextas, após o expediente. Mas Cláudia, deprimida desde a morte do irmão – e mal acolhida no velório dele – faltara dois dias seguidos ao emprego e não respondia aos telefonemas de Paula. Paula correu à casa dela, tocou inutilmente a campainha, buscou um advogado, foram à delegacia, invadiram o apartamento e a encontraram morta. Envenenara-se. Paula encontrou na agenda o telefone do pai de Cláudia. À família que a destratara no velório do irmão cabia fazer os funerais dela. Se ao menos Cláudia tivesse um marido, seu corpo não teria ido parar nas mãos daquela família. Talvez o marido a amparasse e ela não tivesse chegado ao gesto extremo.
               Paula então lembrou-se: é melhor ter um marido para quando minha hora chegar.

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