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terça-feira, 25 de fevereiro de 2020

O riso escarninho



Na altura, a incriminação não era opção. O meu desejo mais profundo era mesmo matar Estêvão Arunhos, um antigo mestre de obras e meu vizinho do rés-do-chão. A antipatia vinha de há muito, logo desde os primeiros encontros, quando me mudara para aquele condomínio. O seu ar boçal e desdenhoso manifestava-se em comentários mordazes ao meu modo de vestir, nos olhares irónicos, nos risos alarves, quando me via acompanhado. Não havia razões de reparo, a não ser a sua mentalidade retrógrada e fascista.
Durante mais de dois anos, revesti-me de compreensão e paciência, acreditando que o tempo acabaria por levá-lo a perceber que o meu modo de estar e de viver em nada perturbaria o sossego do prédio e o bem estar dos seus moradores. Cheguei mesmo a falar com ele de maneira cordata, apelando para a sua humanidade e para a paz no prédio. Em vão. Até me pareceu que tinha redobrado as provocações e os insultos, quase sempre de maneira indireta, de tal modo que eu não poderia, legalmente, afirmar que me insultara.
Então, um dia, depois de mais uma gargalhada escarninha que muito incomodou o meu novo companheiro, eu, Emanuel Crispim, resolvi abatê-lo. Uma pessoa daquela índole não tinha correção possível, não tinha um suficiente verniz civilizacional que lhe permitisse conviver com os seus semelhantes.
Depois da decisão tomada, comecei por obrigar-me a tomar consciência profunda de que nada podia revelar a ninguém desta minha decisão e das ações que me exigiria. Sabia bem que um segredo mal guardado já levou à prisão e ao cadafalso mais justiceiros pelas próprias mãos do que as investigações policiais. Em seguida, passei a matutar no modo e na arma para o abater. Tinha de ser longe do prédio para, tanto quanto possível, me manter ilibado. Convinha até que eu arranjasse um álibi, por exemplo, que fosse visto longe do local da execução, na data e hora calculadas.
Ocorreu-me, naturalmente, o óbvio: uma pistola, um tiro na nuca, um local isolado. Tudo isto constituía obstáculos. Teria de comprar a pistola, mas a quem e onde? E o local deserto... Como, se o homem estava reformado e não se afastava de casa mais do que ir ao café e às outras lojas do bairro?
Ao vê-lo entrar na loja de obras e ferragens tive a revelação de qual seria a arma — uma pistola de rebites industrial que comprara uma ano antes numa feira de velharias, na rua, só porque engraçara com o potencial concetual da maquineta. Estava guardada na arrecadação, desde então, e ninguém sabia que eu a tinha.
Desde esse momento, tudo começou a encadear-se. A arma, como ferramenta de operários e industriais da construção civil, era a ideal, se eu quisesse simular um suicídio ou uma vingança antiga de algum trabalhador enganado pelo contratador. Então, ouvi uma conversa no café, que me fez perceber que um vizinho de outro prédio fora operário da construção e que também não engraçava com o malfadado Estêvão das obras. Dizia que este lhe ficara a dever umas horas extraordinárias.
Esta nova informação caiu como sopa no mel. A desavença entre eles era conhecida e, melhor que tudo, o antigo operário amanhava uma horta clandestina numa zona próxima, mas bastante escondida pela vegetação local. Uma aproximação furtiva seria fácil para mim. Foi esta diferente exposição a olhares que me determinou a trocar de alvo. Matar este hortelão não me trazia qualquer alívio da vingança, mas permitia-me incriminar o Estêvão, tanto pelo conflito conhecido como, sobretudo, pela tão específica arma do crime. A pistola de rebites era a cara do antigo mestre de obras… E nada me ligava à vítima, nem um prédio comum. Não mataria quem me atormentava, mas ele haveria de bater com os costados na prisão por muitos anos!
A partir daí, a preparação tornou-se bem mais rápida. Escolhi uma hora que o Estêvão não pudesse provar que estivera com alguém, e o antigo operário ainda labutasse na horta — as horas do fim do dia, que, além disso, proporcionavam um lusco-fusco cúmplice.
A execução não foi bonita, nem digna de maior descrição. No dia marcado, meti-me pelo arvoredo, bem longe da horta do sacrificado, aproximei-me pelas costas tão silenciosamente quanto possível e, quando já estava a poucos metros, saltei para junto dele e disparei-lhe o rebite na parte de trás da nuca. O homem caiu desamparado sem um ai e eu afastei-me rapidamente, indo sair do arvoredo outra vez lá longe.
A morte foi descoberta no dia seguinte. A Polícia andou por aí a perguntar informações aos vizinhos, mas não vieram a minha casa. O Estêvão foi interrogado, mas, inexplicavelmente, não foi preso. Os vizinhos foram perentórios a afirmar a profunda inimizade dele com o morto, o que configurava um indício mais do que suficiente para o funesto desfecho, mas a Polícia não pareceu ter ficado convencida.
Durante semanas, nada mais se soube da investigação. Aparentemente, a Polícia tinha dado o caso como “sem pistas” e, provavelmente, arquivaria o processo, mais tarde. O Estêvão continuou a passear-se pelo bairro, para alguma irritação dos vizinhos, e, talvez por isso, deixou de ser provocatório para comigo.
Já andava a ponderar avançar dessa vez mesmo contra ele, embora sem grandes ideias, quando, certa madrugada, a Polícia me entrou porta adentro, revirou a casa, encontrou a pistola de rebites e me levou preso.
Eu não cabia em mim de perplexidade e acabei por confessar tudo. Mais do que a surpresa da situação, havia perguntas que martelavam na minha cabeça: por que não tinham prendido o Estêvão, mas tinham vindo a minha casa com tal certeza? Tentei que o inspetor que tratara do caso esclarecesse as minhas perguntas, sem sucesso.
Foi por alturas do julgamento que percebi o que tinha acontecido, através dos jornais sensacionalistas: o Estêvão apresentara um álibi — tinha obtido testemunhos pessoais e provas informáticas, com registos de imagem, de que nessa noite estivera muitas horas num site de encontros masculinos; e eu fora apanhado por uma denúncia: a mais recente visita secreta de casa do Estêvão tinha sido meu companheiro tempos atrás e, coscuvilheiro e metediço, tinha andado a meter o nariz nas minhas coisas. O julgamento foi rápido e nem sequer estranhei a dureza da pena de prisão: 25 anos.

Joaquim Bispo

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Por seleção em concurso literário, este conto integra a coletânea Procurados — “policial do ponto de vista do criminoso” — publicada pela editora brasileira Illuminare, em novembro de 2019.

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Imagem: Peter Paul Rubens, Dois Sátiros, 1618-1619.
Alte Pinakothek, Munique.

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