Receba Samizdat em seu e-mail

Delivered by FeedBurner

quinta-feira, 26 de setembro de 2019

Manual do Ponto Final



Adoro ler, ouvir, espreitar términos de relacionamentos. Caço intés. Apuro tiaus. Sou pesquisadora de adeuses.

Não é que eu seja má sádica perversa. Não é que eu torça para as pessoas quebrarem laços ou que me alegre em vê-las se despedindo. Simplesmente preciso dar vazão à curiosidade e catalogar prática tão comum. Como é que se rompe?
Fui a campo e consegui relacionar cada experiência profissa!
Lourdes Efigênia reuniu o anel, o perfume e o bichinho de pelúcia que recebera de Luiz Oscar e deixou o pacote em frente à porta da casa dele. Tocou a campainha e saiu correndo. Para não ter notícia do estado depressivo que certamente arrasaria o coitado, ela mudou de nome, de sexo, de cidade, de planeta. Até morreu para não correr o risco de reencontrá-lo.
O militar logo se refez. Na verdade não chegou a se desfazer. Verteu nem sangue nem lágrima na farda camuflada. Reaproveitou a joia da ex com a Maria Marlene – porque a fila tem de marchar. O novo namoro durou pouco, pois para ele era questão de honra terminar uma história. Levou a donzela a um restaurante, desdobrou-se em cavalheirismo, beijou-a com gosto, tirou cinco selfies em casal e pagou a conta sozinho. Então, ainda à mesa, ao fim da noite romântica, ele elencou os sonoros termos de demissão que havia ensaiado: “Bye bye, baby”, “Já vai tarde”, “C'est fini”, “Tiau, querida”, “Teje livre”, “Sai do meu pé, chulé”, “Larga de mim, xaxim”, “Vai cheirar pó, socó”, “Libertas quæ sera tamen”, “Adeus, amor”, “Vaza”. Maria quedou, apoplética. Depois disparou uma gargalhada interminável, seguida de soluço convulsivo. Aí se ergueu com olhos de fel, tomou a bandeja do garçom mais próximo e deu com ela na cabaça de Luiz, deixando-o tinto de vinho, sangue, molho de tomate e constrangimento. Ah, e de coma na UTI.
Mário César escolheu o Dia dos Namorados para surpreender Ana Francisca. Barbeou-se, comprou um bom vinho, reservou o quarto Supercaliente, no melhor motel da cidade, ornou o ambiente com pétalas de rosas vermelhas e levou o violão para uma suposta serenata. Vendou os olhos verdes da amada e disse que só tiraria a faixa assim que ela entrasse no local preparado. Quando Mário retirou-lhe a venda, porém, Ana disparou a berrar: “Aqui eu não quero. Me tira daqui. Me leva pra casa agora”. (É que a moça tinha vivido naquela mesmíssima suíte a noite mais voluptuosa de sua vida, com seu primeiro e inesquecível amor, e o fantasma de Alcides Ricardo atentou a memória dela, azando o escândalo.)
João Tenório me relatou que prefere levar um bico no buzanfã a dar um chega pra lá na companheira. “Mesmo quando sei que sou corno, deixo a namorada terminar. Depois do fora, relembro cada detalhe e sinto uma autopiedade bonita” – afirmou.
Já Aurélia Morgana disse que é proativa e não aceita ninguém desmanchar com ela. Ao pressentir o menor sinal de que será descartada, ela prepara o xeque-mate e arrasa o companheiro⁄oponente.
Márcia Juliane tem know-how. Já foi deposta de dezenas de rolos, namoros, noivados e casamentos. Contou que odeia as preliminares melosas que antecedem o arremate rescisório: “Não aguento quando a criatura vem com aquela lorota de que eu mereço alguém melhor, de que não consegue me fazer feliz. É ridícula essa falta de objetividade”.
Numa publicação do Face, Neuzinha Felicidade relatou: “Ô trem custoso ter que dizer com civilidade ao sparring que a gente gostaria de estar podendo não estar ali com ele”. Hoje em dia ela não julga mais quem termina relacionamento pelo WhatsApp. “Pé na bunda virtual foi feito pra pessoas como eu. É digno, é clean, não borra a maquiagem, não solta as tiras, não faz você ter que sair correndo de madrugada de pijama com medo do surto psicótico do conge”.
Reuni bastante conteúdo acerca dos derradeiros suspiros do amor. Dó, dor, vexame, alívio, desespero... Haverá de um tudo no meu Manual do Ponto Final, que em breve se tornará o best-seller dos refugos sentimentais.

Maria Amélia Elói

Share




6 comentários:

E não viveram felizes para sempre... Muito bom! Hahaha

Nossa, o Manual do Ponto Final vai vender mais que Veríssimo!Excelente!

Adorei a musicalidade e o humor na dose exata em se tratando de algo tãodelicado. Parabéns!

Já estou ansiando pelo pontapé na bunda, ou melhor, pelo Ponto final.

Postar um comentário