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sexta-feira, 20 de setembro de 2019

A DECOLAGEM

A comissária ajeitou minha mochila no compartimento da fila 16.
Muito bem, poltrona F, janela. Ao meu lado, lugar vazio.
Tomara que não venha ninguém, minhas pernas ficam mais à vontade,
posso espalhar o jornal, alternar leituras sossegado. Livro,
artigos, livro, crônicas, livro, notinhas maledicentes.
Mas eis que ela chega. Esbaforida, cabelos atrapalhados, bolsas,
uma para computador outra para coisas difíceis de se achar.
Sorriso contido, olhos de Capitu. Sou tragado.
- Bom dia.
- Bom dia.

Surpresa: me pego mais forte que minha timidez e ofereço o meu lugar.
- Na janelinha a gente vê melhor a paisagem.

Ela sorri, aceita, instantes de atrapalhação no troca troca.
Derrubamos coisas, deixamos o livro cair e perder a página marcada.
-Desculpe, lembra da página?

Digo que lembro, mentira, não tem importância. Fecho o livro e olho
para ela, que a esta altura está sorrindo para mim.
Pergunto alguma bobagem, ela responde com uma expressão nada de boba.
O comandante tem voz de locutor da madrugada.
- Atenção tripulação, preparar para a decolagem.

Ela faz o sinal da cruz e eu finjo que pratico o mesmo ritual.
Achamos graça, trocamos olhares e a conversa flui. Falamos de nós
mesmos, do trabalho, da vida. Gargalhamos discretos, tentando tapar
a boca, disparamos olhares gostosos.  Até que emudecemos no aviso
de apertar o cinto.

Quando chegamos ao desembarque, ofereço uma carona de taxi,
mesmo que seja fora do meu caminho. Ela aceita sem jeito e descobrimos
que iremos para o mesmo hotel.

Durante o dia inteiro, somos separados pelos afazeres. Ao cair da tarde,
corro para o hotel, afrouxo a gravata no engarrafamento e tenho uma
surpresa. No hall, ela está me esperando.
- Não tinha nada a fazer no quarto. Hotel é muito chato, impessoal.
Um drink, topa?

Perco a fala e quando passa a súbita pasmaceira emocional, desembesto.
- Cla, cla, claro...

Descubro que ela tem poder.
- Um Jack Daniels, por favor. Cowboy. Dois?
- Do-dois...

Escolhemos numa mesinha de canto, discreta e providencial.
A conversa que ficou no ar engrena de vez. Falamos mais coisas,
pedimos mais um, dois, três, quatro, infinitos Jack Daniels,
a esta altura já acompanhado de gelo e água cristal em copo longo,
para equilibrar a emoção e razão, e evitar um exagero vexatório.
Sentimos no travesso esbarrar de nossas mãos a excitação romântica
que pinta em cores fortes, a partir de um instante só os olhos falam.
E um beijo infinito se dá.
Ela é atingida por um raio de juízo.
-Nossa! Viu que horas já são?

E eu, num gesto inédito para um encabulado contumaz,
atiro meu relógio no balde de gelo.

Acordamos enroscados com o sol nas frestas da cortina que esquecemos
de fechar à chegada sôfrega. Não vou assustá-la pelo adiantado da hora,
mas ela, mais responsável do que eu, pula da cama, corre para o banheiro
e, enquanto uma cara de bobo acompanha a nudez dos seus movimentos,
creio que deusas existem e que uma delas, a mais perfeita, acabou de
operar um milagre na minha vida. Aos poucos vou me dando conta do feitiço
que me pegou e noto que não estou no meu apartamento. Vou catar minhas
roupas e enrolar ao máximo até seu banho acabar.
E me faço de sonso.
- Não sei do meu celular.
- No seu bolso, tontinho.

Começa a despedida em grande estilo, de novo as roupas no chão,
cabelos molhados pincelando meu corpo de cheiro de shampoo, salivas com
gosto de sexo e hortelã,  mais e melhores despudores. Juro que ouço fogos
de artifício, o tempo inexiste.
Até que embrenhados num torpor delicioso ela demonstra quem tem o juízo.
- A que horas é sua reunião?

Lembro do diabo da reunião.
- Acho que 11.

Agora tenho certeza de quem está mandando na minha vida.
- Corre que são quase 10.

O dia passa modorrento e disperso. A reunião chatérrima. O mundo corporativo,
mais uma vez, me apresenta sinais de cansaço e ventos tóxicos. O almoço com
o cliente caminha protocolar, hipócrita, interesseiro, com tudo para não
resultar em bons negócios. Digo foda-se.  Vou perder o avião, vou ficar mais
uma noite, vou acreditar no amor de filmes da sessão de tarde.
Salto esbaforido do taxi na porta do hotel, onde ela acaba de entrar num Uber.
Abro os braços de náufrago e me jogo no para brisa. Os seguranças tentam me
conter, grito pelo seu nome, socorro, ela abre a janela e diz:
- Vem.

E vou. Para onde o destino quiser. Vou viver a ardência da paixão, que vai
virar amor, que vai consolidar um amizade rara, que nunca vai perder o tesão,
o carinho e a vontade de viver o turbilhão que mereceremos viver:
casamento com amigos, dancing all night long, lua de mel em castelos normandos,
a volta feliz ao nosso ninho novinho e gostoso, que de tão gostoso, não
nos poupa em materializar a cumplicidade do nosso amor  num primeiro filho,
que logo terá uma irmã, que depois de alguns anos, surgirá um temporão
levado da breca, que nos encharcará os olhos, quando olharmos em volta o
nosso mundo esculpido, a nossa paz vivida, a sabedoria e a maturidade com
as quais enfrentamos  perrengues, indisposições da convivência, chatices
banais. É o amor companheiro, o sublime estado de arte dos relacionamentos.
Choramos abraçados e carinhosos, diante de tantos porta-retratos,
estantes que contam a nossa história, só em lembrarmos o quanto é
certo que a vida nasce do detalhe.

A comissária ajeitou minha mochila no compartimento da fila 16.
Muito bem, poltrona F, janela. Ao meu lado, o lugar vazio.
Tomara que não venha ninguém, minhas pernas ficam mais à vontade,
posso espalhar o jornal, alternar leituras sossegado. Livro,
artigos, livro, crônicas, livro, notinhas maledicentes.
Mas eis que ela chega. Esbaforida, cabelos atrapalhados, bolsas,
uma para computador outra para coisas difíceis de se achar.
Sorriso contido, olhos de Capitu. Sou tragado.
- Bom dia.
- Bom dia.

Surpresa: me pego mais forte que minha timidez e ofereço o meu lugar.
- Na janelinha a gente vê melhor a paisagem.

Ela sorri educada.
- Não, obrigado.

E mergulha na revista de bordo. 
O comandante tem voz de locutor da madrugada.
- Atenção tripulação, preparar para a decolagem.

O voo passa rápido, não trocamos uma palavra sequer.

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José Guilherme Vereza
Carioca, botafoguense, pai de 4 filhos. Redator, publicitário, professor, roteirista, escritor, diretor de criação. Mais de mil comercias para TV e cinema. Uma peça de teatro: “Uma carta de adeus”. Um conto premiado: “Relações Postais”. Um livro publicado “30 segundos – Contos Expressos”. Mais de 3 anos na Samizdat. Sempre à espreita da vida, consigo modesta e pretensiosamente transformar em ficção tudo que vejo. Ou acho que vejo. Ou que gostaria de ver. Ou que imagino que vejo. Ou que nem vejo. Passou pelos meus radares, conto, distorço, maldigo, faço e aconteço. Palavras são para isso. Para se fingir viver de tudo e de verdade.
todo dia 20


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