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domingo, 19 de maio de 2019

Triz

Gosto muito da palavra triz. Pela forma gostosa de pronunciar.
Trisss para a turma de São Paulo e Gerais, triezz para gauchada
e trish para cariocada. Não me ocorre como seja em outras regiões
do Brasil. Mas não importa como se diz, mas porque se diz.

A origem é discutível, mas fico com a tese de que ela vem do grego thriks,
que significa fio de cabelo. Faz todo sentido, quando precedida pela
preposição Por e pelo artigo indefinido Um. Pronto. Por um triz.
Por um fio de cabelo uma coisa deixa de acontecer ou acontece.
Metáfora perfeita, pois não há limite mais frágil do que aquele
determinado por um instante capilar.

Outro ponto que me encanta é que quando as pessoas expressam um
autêntico, oportuno e legítimo Por um triz, elas discreta ou indiscretamente
arregalam os olhos e dão à expressão adverbial uma expressão facial
que complementa a dramaticidade dos fatos.

Há quem atribua a divindades superiores o comando dos nossos destinos.
Respeito, compreendo e já tentei inúmeras vezes comprar tal ideia.
Mas, na altura do meu campeonato, confesso que ainda não encontrei
identificação com deuses ou demônios, capazes de tirar dos seus caderninhos
os comandos que regem vidas. Resisto a crer no estava escrito, ou foi 
a vontade de Deus ou isso é coisa do diabo. 

Quantas coisas acontecem ou desacontecem por um triz, ficam no quase,
no por pouco ou por um fio. Assim penso que é, sem justificativas
que vêm do Além.

O desesperado Romeu em busca de um encontro definitivo com sua Julieta,
por um triz não encontra o mensageiro que cruza na estrada levando o
recado que o veneno que a moça tomara era de mentirinha,
tudo combinado para ela despertar e os dois fugirem. A mensagem que
não chega a Romeu, poderia ter mudado o rumo da prosa.
Shakespeare, o criador da situação, operou o simples por um triz 
no lugar de um final feliz banal.

Na fatídica Copa de 82, o goleiro italiano Zoff, já nos acréscimos,
toma uma bola no pé da trave. Ela volta nas suas mãos e por um triz
não cai na ponta da chuteira do Sócrates (ou do Zico???) que estava
na pequena área, pronto para mudar o desfecho da história trágica
daquela noite no Sarriá na Espanha.

Dos olhos dos amantes do bom futebol, brota um filete lacrimal só
de imaginar que o destino do futebol-arte se deu por um triz,
o mesmo triz que fez o viajante perder o avião da Air France que
sumiu no mar, ou o sonhador endividado marcar os números
10 25 31 32 44 50 na megassena quando de fato, deu
o 10 25 31 32 44 49.

E assim caminha a humanidade colecionando por um triz na História.
No plano individual, cada um tem lá sua coleção particular de episódios
exemplares na memória.

Por um triz John Lennon deve ter pensado em ser antipático com aquele
fã maluco que lhe chamou para um autógrafo. Por um triz, a vértebra de
uma pessoa que amo não quebrou para dentro da medula óssea, mas para
fora da coluna. Felizmente.

Escrevo tudo isso ainda embalado pelo triz que recentemente se aboletou
no meu banco de carona. No fim da manhã da última sexta feira, ao sair
do trabalho na Barra em direção da Gávea, pressenti um engarrafamento
tedioso e resolvi ir ao banheiro antes, quando me despedi apressado
de alguns colegas professores, pois tinha hora para chegar. Foram os
cinco minutos que me deixaram a uns oito carros da viga que desabou
sobre um ônibus no fim do túnel. Por um triz, eu poderia não estar
escrevendo sobre por um triz. 

O que seria uma injustiça. Por um triz merece todas as minhas homenagens.
Se por um lado o triz é capaz de evitar ou operar tragédias produzidas
pela estupidez humana ou pela natureza, penso que o triz é o começo da vida.
Aquele espermatozoide esforçado do seu pai ficou em segundo lugar na
determinante corrida. Por um triz, o mais ágil chegou primeiro.


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José Guilherme Vereza
Carioca, botafoguense, pai de 4 filhos. Redator, publicitário, professor, roteirista, escritor, diretor de criação. Mais de mil comercias para TV e cinema. Uma peça de teatro: “Uma carta de adeus”. Um conto premiado: “Relações Postais”. Um livro publicado “30 segundos – Contos Expressos”. Mais de 3 anos na Samizdat. Sempre à espreita da vida, consigo modesta e pretensiosamente transformar em ficção tudo que vejo. Ou acho que vejo. Ou que gostaria de ver. Ou que imagino que vejo. Ou que nem vejo. Passou pelos meus radares, conto, distorço, maldigo, faço e aconteço. Palavras são para isso. Para se fingir viver de tudo e de verdade.
todo dia 20


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