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sexta-feira, 26 de outubro de 2018

Rebentação


Entre mãe e filha
surgem silêncios
intransponíveis
dores que a palavra
inalcança
ranços impenetráveis
trançados de fel e espinho
abismos cercados de neve

Do amor incondicional
provêm pactos do imaculável
omissões toscas e rudes
simulacros
ilicitudes
vermes que não morrem
medos que
nem uma nem outra
tocam
ilhas de fogo
que não penetram
lacunas
que não preenchem

Espera-se de mãe e filha
esforço de tanto altruísmo
afeto tão reto e sem culpa
que a farsa
não raro se impõe
por mero casuísmo

Deviam
ousar a verdade
arrombar ruídos,
traumas, heranças
confessar
cada desvio
domar desgostos
infringir 
o sangue
qualquer paradigma
simplificar-se

Mãe e filha
cada uma
vez ou outra
bem que podia 
rasgar o véu
do afeto perfeito
largar a vergonha
perder as estribeiras

Devia 
assentir 
a sentença
soberana
de que tudo é obra
dá muito trabalho
manter esse elo

Rebentar como que 
de novo
enquanto mãe
enquanto filha
escalando o poço profundo
de cada dia

Aprender assim
pouco a pouco
materno-filialmente
a lançar-se
de mãos dadas
heroicas
peitando a pirambeira

(Maria Amélia Elói)

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