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domingo, 20 de maio de 2018

A SENHORA DOS SOLITÁRIOS

- Senhora, o Dr. Marcondes avisou que não vem para o jantar.
Ana Beth levantou a sobrancelha esquerda, sem tirar os olhos da mesa desabitada 
dos filhos crescidos e de um marido cada vez mais abduzido pelo mundo dos negócios. 
Sinalizou em silêncio para que a sopa pudesse ser servida.
                                                                                   
- Senhora, seu sexto sentido não falhou: aqui está a prova de que seu marido tem uma amante.
Ana Beth examinou as fotos entregues por um detetive particular. Marcondes chegava de táxi 
à porta de um hotel no centro da cidade, acompanhado de uma loura com idade de ser sua filha. 
Na sequência, andavam de mãos dadas em direção à portaria. Ela ainda para e dá uma ajeitadinha 
na sandália de salto. Moça fina, disse o detetive.                                           

- Senhora, aqui estão mais detalhes do affair.
O detetive expõe minúcias da investigação. Marcondes e a loura encontravam-se uma vez por 
semana neste mesmo lugar. Não se tratava de uma amante alucinante que pudesse
ameaçar o casamento. Era uma garota de programa, universitária de moda, danada de
bonitinha e carinha de capa de revista. Só queria se divertir e fazer um negócio: receber sua
parte de quem tem muito em troca de algumas horas semanais de sexo e auto estima a quem
beirava o ocaso da macheza.
                                         
Ana Beth se sentiu apunhalada entre a cervical e as escápulas. De nada adiantaram anos de 
plástica e botox, ginásticas localizadas e spinning, silicones, depilações a laser, bronzeamento 
artificial, luzes e chapinhas. A verdade é que o marido estava prevaricando com uma menina 
bem mais nova e fogosa, com tudo no lugar, de pele macia e peitos naturais. Não caiu na história 
do detetive de que garotas de programa não abalavam casamentos. Para ela, sexo fora de casa, 
com amantes assumidas, ou marafonas, ou casinhos de embriaguez, ou desfrutáveis inconsequentes, ou mesmo bonecas infláveis, era tudo a mesma coisa. Por outro lado, Ana Beth não sabia o que fazer. Chegou a pensar por que diabo procurou um detetive. Não imaginava obedecer a seus ímpetos de mulher traída e sair por aí a se esfregar em tórax malhados de academias, sentindo novos invasores de seu corpo, ouvindo sussurros revigorantes. 

Ana Beth dependia de Marcondes até para mandar a criada comprar pão ali na esquina, numa total sujeição ao provedor da casa, que por sua vez, ao perceber a mulher de cara amarrada – e ser chicoteado por uma culpa algoz -, um dia chegou cedo para o jantar, sem mais nem menos, com um agrado. E que agrado: um solitário da Tiffany´s, encomendado ao seu doleiro contrabandista. Os olhos de Ana Beth se encharcaram, tambores rufaram dentro do peito, as maçãs do rosto formigaram, surgiu um sorriso encabulado. Muito menos pelo gesto, muito menos pelo mimo em si, muito mais pela ideia ardilosa que teve, diante do brilho multifacetado da joia.

- Senhora, só para eu entender a sua proposta: a madame põe um detetive particular na cola do seu marido, descobre que ele anda saindo comigo, consegue meu celular e liga para mim, pedindo pelo amor de Deus para eu manter este caso eternamente. Certo? 
- Perfeito!
- Em troca, sem que ninguém saiba, num acordo de mulher para mulher, a senhora promete depositar na minha conta o mesmo que ele me paga, certo? 
- Certíssimo, menina. Você não é nada boba...
- Ou seja, vou receber em dobro para aturar seu marido babando em cima de mim. É isso? 
- Exatamente, minha filha.
- Por mim, está feito. Sou uma profissional. Mas acho que a senhora é meio maluca.

Um ano depois. 
Ana Beth entra no seu closet e retira do fundo do armário de calcinhas e sutiãs, uma caixa de joias majestosa e aveludada. Como criança diante de um álbum de figurinhas incompleto, admira embevecida sua coleção de mimos mais recentes: diamantes e solitários Tiffany´s, Boucherons, Harry Winstons, Van Cleefs e Cartiers. Escolhe um deles, gosta, não gosta, põe no dedo anelar esquerdo, estica o braço, movimenta a cabeça, franze os lábios, enfim, decide-se. Diante do espelho, leva a mão de unhas bem feitas às têmporas, ajeita os cabelos, gosta da última plástica, sorri enviesada e discreta. Tudo combinando: brincos, anéis, colares e estado de espírito. 
Está se sentindo linda e poderosa. Pronta para sair para jantar com seu marido Marcondes e um casal de amigos. Em grande e perfumado estilo.

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José Guilherme Vereza
Carioca, botafoguense, pai de 4 filhos. Redator, publicitário, professor, roteirista, escritor, diretor de criação. Mais de mil comercias para TV e cinema. Uma peça de teatro: “Uma carta de adeus”. Um conto premiado: “Relações Postais”. Um livro publicado “30 segundos – Contos Expressos”. Mais de 3 anos na Samizdat. Sempre à espreita da vida, consigo modesta e pretensiosamente transformar em ficção tudo que vejo. Ou acho que vejo. Ou que gostaria de ver. Ou que imagino que vejo. Ou que nem vejo. Passou pelos meus radares, conto, distorço, maldigo, faço e aconteço. Palavras são para isso. Para se fingir viver de tudo e de verdade.
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