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quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Beco

Não tenho janela que dê para cena bonita. Nem para um jardim visitado por pássaros bica-latas em frenesi de busca a um banquete de migalhas. Nada de flores sem-vergonha se oferecendo aos olhos como damas da noite. Nenhum parque onde crianças e idosos exponham o inevitável ciclo tese-antítese — irracionalmente injusto e belo — dos começos e fins.
Mas tenho o beco.
Durante anos, me recusei a olhar pelas vidraças. Nem mesmo um debruçar para que as narinas sentissem os cheiros ordinários das histórias urbanas; humanas, inumanas. Limitei minhas percepções ao para cá das cortinas sempre fechadas em todos os cômodos. E me deixei encaixotar por paredes seguras, por um teto limpo, linear, por um chão sem terremotos.
Quando as vozes me subiram da rua até os ouvidos de primeiro andar, dediquei-lhes a leve rotação de cabeça que permito aos incômodos, às coisas insignificantes, a tudo que está fora de lugar. Eram apenas pessoas trazendo alguns tons de plenitude ao meu espaço blindado. Mas as vozes ficaram, desde então. Recorrentes. Nítidas.
Três homens. Um deles denuncia a idade nos conselhos que dá aos outros dois. Em cada frase, a contrapartida de um alerta, de um já aconteceu comigo. É um velho. E os mais jovens se divertem com ele.
Às vezes, um deles não vem. E eu me pergunto o que estará fazendo. Desconforta-me não saber. Uma sensação que só mais tarde identifico como falta. Cada ausência, uma história inacabada. A namorada indecisa entre ceder ou guardar para futura chantagem uma virgindade a ser negociada a casamento. Um sofá em que quase tudo acontece entre as idas e vindas de um pai zeloso à cozinha. E no qual os sonhos de uma moça sem rosto se misturam ao tesão de um rapaz sem intenções. Cada ausência, outra história sem desfecho. O desespero do rapaz de voz grossa. Dívidas e os empréstimos que nunca deveriam ter sido feitos. E novos empréstimos. Um segundo emprego para fazer mais dinheiro. Uma crença perversa nos jogos de loteria.
O velho me irrita. Não gosto dele nem das suas rotas de fuga desgastadas. A bebida revelada no arrastado das frases; a ostentação de uma força inexistente; o óbvio sentenciado como verdade. Não gosto do descaso com que fala da própria mulher e do câncer que a tem levado aos poucos. Detesto gente em negação. Gente que não se quer realidade. Que não aceita sofrer, que olha para o outro lado para não fazer parte das dores, que se entrincheira em salas e quartos confortáveis, seguros, limpos, lineares, sólidos. Gente que cerra cortinas.
Hoje, me desenfreio. A janela aberta liberta meus olhos ávidos. Encostados à porta dos fundos do pequeno restaurante italiano, três homens falam e fumam. E eu vejo as vozes pela primeira vez. 
É apenas outra noite de conversas e conselhos. Uma noite de beco.

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Cinthia Kriemler
Formada em Comunicação Social/Relações Públicas pela Universidade de Brasília. Especialista em Estratégias de Comunicação, Mobilização e Marketing Social. Começou a escrever em 2007 (para o público), na oficina Desafio dos Escritores, de Marco Antunes. Autora do livro de contos “Para enfim me deitar na minha alma”, projeto aprovado pelo Fundo de Apoio à Cultura do Distrito Federal — FAC, e do livro de crônicas “Do todo que me cerca”. Participa de duas coletâneas de poesia e de uma de contos. Membro do Sindicato dos Escritores do Distrito Federal e da Rede de Escritoras Brasileiras — REBRA. Carioca. Mora em Brasília há mais de 40 anos. Uma filha e dois cachorros. Todos muito amados.
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