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sexta-feira, 14 de outubro de 2016

dois tiros





Ele tinha-lhe trazido um pacote de cerejas. 
Um pacote daqueles com riscas encarnadas sobre fundo mate.
Pacotes em papel grosso que hoje diríamos papel reciclado, mas era apenas papel grosseiro. Folhas lisas, acinzentadas, para enrolar uma quarta de sabão ou de toucinho; mas se fosse meio litro de grão de bico ou um decilitro de feijão manteiga, já o material era aviado dentro dum pacote semelhante àquele que ele lhe trouxe com um quilo de cerejas derramando. Um pacote que ela recebeu entre as mãos estendidas, ainda ele dizia: toma, vamos comê-las ali no cais.
Se fosse o tempo das castanhas assadas, ele teria trazido uma dúzia delas num cartuxo feito, por mãos hábeis, dum pedaço de papel de revista ou de jornal.
E ficaram sentados na beira do cais, as sandálias dela balançando tirinhas brancas sobre um rio da cor das nuvens rosadas por ser à hora do ocaso.
E comeram cerejas, algumas tiradas da boca dele, pela boca dela, outras tiradas da boca dela, pela boca dele e, nisso, arrastando beijos e babando-se, cada um mais apaixonado do que o outro.
Saborearam, assim, o doce dos frutos que homens e mulheres vinham vender em carros traccionados pelas mesmas mãos que os teriam apanhado de madrugada. Gente da serra, e ele e ela a degustarem, ali no cais, as cerejas que essa gente tinha colhido: ele e ela com os dedos a ficarem borradas de vermelho, os mesmos dedos com que acenariam ao táxi, e as bocas deles a parecerem bocas de um palhaço que tivesse acabado a cena e se desmaquilhasse.
Eles rindo e trocando beijos ainda no banco de trás, depois de terem dito, a olhar os olhos do homem pelo rectângulo diminuto do retrovisor: para a Estefânia, por favor; deixe-nos no Largo.

***

Ela lembrar-se-á que as montras na rua do Arsenal já estavam iluminadas, e ele dirá que não sabe se o carro subiu a rua do Alecrim ou se seguiu outro caminho. 
Mas ambos estarão de acordo em afirmar que a corrida foi rápida, que o táxi terá feito o trajecto mais curto. 
E nem dirão, por desnecessário, que iam encostados um ao outro e de mãos dadas. 
Como, também, ela não contará, mas há-de recordar-se, que ele, a certa altura do trajecto, lhe colocou a outra mão sobre as pernas nuas, descobertas da saia de pregas que subira até quase às virilhas pela posição de estar sentada: uma saia que era azul escura a rasar-lhe os joelhos, quando andava.
 Era a tarde em que tinham decidido que casariam em Janeiro no dia em que ela faria vinte anos.
Diriam aos pais, quando fizessem a chamada das quintas-feiras: sempre à mesma hora, e sempre no mesmo dia, todas as semanas. Ele e ela, juntos na cabine, munidos de moedas e, do outro lado, os pais dele numa aldeia perto de Braga, se atendessem primeiro, e, de seguida, os pais dela que viviam a dois quilómetros de Tondela.
E iam dando beijos um ao outro.

***

Nenhum deles saberá contar.
Que iam entrar na Pastelaria Vitória junto à qual o táxi os tinha deixado: fiquem já aqui que isto hoje está complicado, tinha dito o homem a parar o carro e a desligar o taxímetro.
Que ele tirara a mão das pernas dela, quando o taxista falou, isso, ela não contaria mas havia de sorrir por se lembrar.
Que havia muita gente nos passeios, e que sim, que era uma multidão, confirmariam ambos.
Que tinham percebido que eram manifestantes e que havia cavalos e mais policia e que, por isso, tinham guinado passos para a pastelaria, também tinham dito.
E que não tinham chegado a entrar, que tinham surgido os tiros e mais não sabiam, dirão, um e outro, a serem inquiridos.

***

Não tinham morrido, por sorte, disseram todos, médicos incluídos.
Que ela, teve aquela perfuração no pulmão esquerdo que durou, sangrando, todo o mês de Maio; e ele teve a contusão no ombro pelo choque do disparo: de raspão, diziam todos e, no entanto, rasgara-lhe as carnes. Uma cicatriz de palmo, e muitos pontos: dezoito, disse-lhe a mãe que veio lá do norte com o pai, a deixarem tudo para vê-lo.
E tinham sido levados para o hospital sob prisão.
E tinham sido interrogados como se fossem eles os criminosos.

***

Nunca houve resultado: apenas que os disparos eram de uma Walther P3 porque a bala, nela, fora retirada de entre duas costelas e a dele ficara incrustada algures na pastelaria, e a polícia tinha resgatado, uma e outra.

***

- Que sorte que não te tivesse apanhado o pescoço ou o rosto - assim choramingou a mãe dele, por várias vezes.
Os pais dela tinham-se mantido sem lágrimas nem comentários e tinham conseguido que, no dia seguinte, lhes tivesse sido retirado o mandato de prisão.

***

Hoje passaram muitos anos.
Eles não tinham esquecido, mas nunca falavam nisso.
Hoje, Mariana, tem nas mãos um ramo de malmequeres brancos com uns salpicos de verde e, preso nele, um cartãozinho onde escreveu: saudade dos meus pais.
E o Jorge trouxe a filha de seis anos e os dois deitaram um bocado de terra nas covas do avô e da avó.  

***

Foi no regresso a casa, um apartamento espaçoso na Pascoal de Melo, logo ali ao Largo da Estefânia. Moraram aí desde que se casaram num Janeiro muito frio. 
Já nem trabalhavam nos arquivos da Imprensa Nacional, mas tinham lá ido e, no regresso, apanharam um táxi.
 - Eu vinha devagar a descer a rua do Salitre - assim disse o taxista, ainda em choque.
Tiveram morte imediata, um e outro, foi o diagnóstico.
Que tinham sido dois tiros da mesma arma: uma Walther P3, diriam os peritos.
Dois tiros, um a seguir ao outro: nele, o primeiro, desfizera-lhe a nuca; nela, o segundo, trespassara-lhe a cabeça.







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1 comentários:

Nossa, adorei o crescendo do suspense! Que sina! Ou seria proposital? Fiquei pensando em destino, mas se você quisesse continuar e escrever um romance policial, poderiam ter sido de propósito os tiros. Maestria nessa escrita. E um começo tão doce e sensual. Muito bom!

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