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segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

CLAMOR




Dois anos já que Bié tinha parado de estudar. Chegou a completar o sexto ano, depois teve que parar. Os irmãos muito pequenos, a mãe trabalhando. O pai tinha sumido desde o primeiro aniversário do Davi. Uns diziam tinha virado mendigo, lá pras bandas da cidade. Bié não desacreditava, mas achava mais ele tinha se envolvido com alguma mulher e por isso largou a mãe e eles todos, filhos.
Mas não sentia falta nenhuma dele. Ao contrário, quando viu que o sumiço era pra valer, o alívio foi imenso. Não iam mais ser postos pra dormir no quintalzinho do fundo, com Naná, pra que ele e a mãe fizessem coisa suja. Agora dormiam de novo todos juntos, o quarto de cima ia ficar pronto logo, o pessoal estava ajudando, iam botar divisória, ela e Carol ficariam num dos lados, Léo, Juliana e Davi no outro. Criança pequena não precisa muito espaço, se ajunta, fica até mais fácil de cuidar. Mais uns dois meses e tudo estaria pronto. Quem sabe agora também não demorava mais muito pra Bié voltar a estudar? Pra ser advogada tem que estudar muito. Ia bem em Português, História e Geografia, a dificuldade maior era sempre Matemática, mas ela se esforçava e sempre conseguia ao menos nota pra passar.
Quando a mãe não matriculou no sétimo ano, demorou pra ficar sabendo. Foi só quando já estava perto do dia de voltar as aulas que a mãe falou que precisava dela, com esse novo trabalho na casa de dona Regina ela tinha que sair cedo e voltar só à noite, era longe, chegava em casa mais de oito horas. Precisava Bié ficasse em casa, fizesse almoço, cuidasse de Carol e Léo pela manhã, Juliana e Davi de tarde. Assim que desse voltava pra escola.
Sentiu muita raiva da mãe nesse dia, uma raiva que queria sair do seu corpo e alcançar os pratos debaixo da pia, na cozinha, vontade de lançar tudo na parede, mas as lágrimas escorrendo, descendo devagar, os pingos grossos, foi se sentindo uma porcaria de menina que não prestava pra nada, nem pra ajudar a mãe, que precisava tanto dela. Se não ficasse com as crianças, como a mãe ia trabalhar? E, se não fosse, como eles todos iam comer? Claro que ajudaria a mãe, era isso que devia fazer. E assim que desse ainda podia arrumar algum biquinho, já estava grande, podia colaborar, inda mais agora, sem os pingados do pai.
Em junho tinha feito catorze. Os seios mais crescidos, o corpo, muito magro, vagarzinho ganhava curvas ligeiras, e o desejo de namorar ia ficando grande, junto com o medo também. De casa agora saía sempre junto com algum dos irmãos, e foi num dia em que foi comprar pão com Léo e Juliana que viu André pela primeira vez. Moço, devia ter uns dezoito. Lindo. O boné virado pra trás, a camiseta regata, à mostra as tatuagens nos dois braços. A Gabi caidinha também, ela é que tinha descoberto um monte de coisas sobre ele. Que trabalhava na feira, ajudava o pai na barraca de tomate, mas já estava montando a própria banquinha, de CD e DVD. A Gabi já tinha até conversado um pouco com ele, na venda do seu Gustavo. Sabia que ele era muito simpático e também que lutava Muay Thai, tinha visto pela camiseta. A conversa não tinha sido nada mais que umas palavrinhas sobre a demora da mulher do seu Gustavo pra servir o pão, a fila de clientes já grande naquele final de tarde, mas Gabi tinha ficado ainda mais entusiasmada. Achava que ele tinha olhado de maneira especial pra ela.
As duas sonhavam juntas, queriam ambas namorá-lo e, talvez porque soubessem a impossibilidade da coisa, não sentiam ciúme uma da outra. Eram montes de sonhos e suspiros na escadaria que ficava quase em frente à casa da Bié, a que descia pra rua da feira de sábado, na direção da cidade. Gabi vinha pra lá toda tarde, depois que chegava da escola. Era pena André não trabalhar na feira ali do bairro, ele e o pai iam apenas pra feiras que ficavam muito longe, queriam vender pra gente com mais dinheiro, parece que iam mais pras bandas da Brasilândia, Freguesia, Limão, Bié não sabia direito.
Mesmo assim elas o viam passar muitas vezes, geralmente no meio da tarde, lá pras três, quatro horas, quando ele e o pai voltavam. Bié e Gabi passavam batom e ficavam sentadas como se estivessem apenas conversando, assim por acaso, sem intenção. Gabi já tinha beijado um menino da escola. Tinha sido muito estranho, quase ruim, mas achava que era porque o menino era muito novo, não sabia fazer direito. Bié era BV, essas duas letrinhas que ela odiava profundamente. Boca Virgem. Ter saído da escola atrapalhava também nisso, por enquanto não via como deixar de ser BV.
Bié tinha os olhos sempre tristes, por mais que a boca sorrisse. A pele abaixo dos olhos era de um roxo azulado. A mãe vivia gozando dela, Ei, Bié, que tanto você fica assim, com esses olhos pretos, hein? Não dorme não, menina? Bié dormia, mas tinha sempre olheiras. Não sabia se era por isso, mas quando viu estava gostando de usar preto, ela e Gabi passavam esmalte preto nas unhas das mãos e dos pés, e um dia conseguiram comprar uma bisnaga de tinta preta para os cabelos. Uma pintou o cabelo da outra, as irmãs menores de Bié ajudaram. Nessas horas Bié esquecia que não estava mais estudando, esquecia de André, esquecia até que era BV. E apenas ria muito, beijando os irmãos que eram tão lindos e faziam a maior farra, de luva plástica nas mãos pequenas, os braços sujos de tintura, Carol falando que queria ser loira e Juliana dizendo preferia ser ruiva, ela sempre queria ser diferente. Gabi e Bié com os cabelos pretos retintos, os olhos tristes de Bié ainda mais tristes e brilhantes.
Dois dias depois foi que tudo aconteceu. Bié e Gabi, na escadaria, olhavam fotos no celular e esperavam André, como todo dia. Nesse horário Bié trancava as crianças um pouco em casa, para não ter que se preocupar com elas. Assim que André passava ela já corria a destrancar, a criançada já acostumada com a rotina.
As duas estavam sentadas há uns vinte minutos, André demorando mais que o costume, logo devia aparecer. Jogavam os cabelos de um lado para o outro, tentando decidir de que jeito ficavam mais bonitas e mais crescidas, quando seu Adailton surgiu, Corre, menina, corre que tem fogo na tua casa!
Seu Adailton era um velho nojento. Viúvo era como se apresentava, mas a verdade é que a mulher o tinha trocado por outro mais moço e mais bonito, há anos já, ele ficou sozinho e ela deixou inclusive o filho, o imbecil do Washington, que se achava o menino mais lindo e inteligente da vila. Depois de ver o filho criado, o desespero de seu Adailton por não ter mulher aumentou e ele passava a mão em todo canto, vivia tentando abocanhar alguma carninha, só dava confusão, ninguém o queria por mais que ele espichasse as notas graúdas, oferecendo.
Bié nem mais falava com ele, asco de ele vir com aquelas mãos peludas pra cima dela. Por isso quando ele apareceu ela nem olhou pra cara dele, continuou com Gabi como se nada. Só que na sequência veio a Maria Manicure, Bié, vamos lá, pelo amor de Deus, tem fogo na sua casa, onde tão seus irmãos? Aí Bié se assustou. Maria Manicure era amiga da sua mãe, tinha sido comadre da sua avó, não tinha por que mentir. Gabi ainda falou Espera Bié, o André tá vindo, ele acabou de apontar na esquina lá embaixo, mas Bié ficou com medo, tinha que ver a casa, os irmãos, Naná. Enfiou os pés nos chinelos e subiu os degraus de dois em dois, correndo, respirando pesado, nos olhos as imagens dos quatro carvõezinhos que já deviam ter virado seus irmãos, coisa mais horrorosa, mãe de Deus!
As mãos tremiam tanto quando chegou em frente da porta e viu a fumaceira que não conseguia pegar a chave no bolso do short, foi Maria Manicure quem precisou gritar, a voz forte e segura de velha vivida, Calma!, e enfiar a mão no bolso da menina pra pegar a chave, socando-a com força na fechadura. O fogo crescia, Bié entrou gritando os nomes dos irmãos. Por Deus, o choro deles era a resposta, estavam vivos! Conseguiu atravessar a sala e alcançar a cozinha, os quatro encolhidos junto ao basculante, em cima da pia, os olhos esbugalhados. Davi, de três anos, era o único que não chorava, os olhos claros parados, parecia nem piscar pro fogo. Bié viu que ia ter que tirar as crianças sozinha, Maria Manicure não ia conseguir passar pela fresta que ainda não tinha sido comida pelo fogo e que permitia o caminho da sala à cozinha. Gritou para que a mulher ligasse nos bombeiros, enquanto isso catou Davi no colo e foi refazer o trajeto com ele. Mal Bié o tirou do hipnotismo do fogo ele começou a se contorcer e a berrar, cabrito indo pra morte, então Bié gritou de novo para Maria Manicure, que ela pedisse ajuda dos vizinhos, o fogo crescia e ainda tinha que tirar os outros três, mais Naná, que esganiçava, ameaçando saltar sobre o fogo mas não finalizando o gesto, as patas parando no ar.
Davi ficou com Maria lá fora, Bié voltou pra pegar Juliana, que se agarrava os cabelos e não queria passar pelo caminhozinho estreito que levava à porta da rua. Bié precisou ir puxando-a pelos braços, gritando andasse rápido, o tempo passava, não dava pra ter enrolação agora. Enquanto Juliana paralisava, Bié olhou melhor a casa. O fogo queimava tudo. A tevê, o armário que dona Regina tinha dado, o sofá que era a cama dela e da mãe, os colchonetes. Lambia a parede e chegava ao teto, provocando terror e fascínio. Mal deixou Juliana com Maria e já correu pra dentro, pegando Naná no colo e dando uma mão pra Léo, outra pra Carol, puxando-os com força, a fumaça espessa.
Maria Manicure passava as mãos de dedos finos nos cabelos de Davi. Partiu levando os dois menores pra casa dela, Carol e Léo quiseram ficar ao lado de Bié, olhando o fogo consumir o resto da casa e esperando os bombeiros, que chegaram só quando o teto da sala rachou. Nessa hora já havia uma multidão, todo mundo querendo saber o que tinha ocorrido, qual era a causa do incêndio, como podia uma coisa daquelas. Quando começou a se espalhar a notícia de que a irmã mais velha tinha trancado os pequenos sozinhos em casa, e não tinha atendido quando avisada de que a casa pegava fogo, alguém começou a gritar que essa menina devia mais era pagar pelo que tinha feito. Os irmãos quase morreram, ela na certa devia estar atrás de homem, vagabunda, o castigo divino não deixaria que escapasse. Que Deus que nada, tinha que ser era castigada logo, aqui na Terra mesmo, merecia morrer, isso sim!
O burburinho foi ficando mais forte e chegou aos ouvidos de Bié, que não sabia pra onde ir. Surge uma mão que a agarra pelo braço esquerdo, era Maria Manicure de novo, Venha, menina, venha rápido, e Bié sai andando ligeira, seguida de Juliana e Léo, mas sem correr, pra não chamar a atenção, Naná no colo. O povo gritava cada vez mais, só mesmo o espetáculo dos bombeiros retardava alguma ação daquela gente endoidecida.
Quando sentou no sofá de Maria Manicure é que Bié chorou. Não conseguia falar, mas aos poucos foi ouvindo Léo responder às perguntas da velha. Estavam brincando, apenas brincando. Perseguiam uma baratinha, ela tinha se enfiado debaixo do sofá e eles a cercaram para que não conseguisse sair de lá. Cataram uma vela na cozinha, divertido ver se o bicho tinha medo da luz, se tentava fugir com a aproximação do calorzinho do fogo. Quando Léo viu, o fogo não estava mais só na vela, a ponta da colcha que cobria o sofá queimava, e tudo foi rápido, ele não sabia explicar mais.
Bié quase tinha deixado que os irmãos morressem queimados. Não merecia ser perdoada. A mãe confiava nela e ela fazia uma loucura dessas. Merecia apanhar, ser ela queimada no fogo, pra nunca mais fazer uma coisa assim. Tomando o suco de abacaxi que Maria Manicure serviu, comendo um bombom meio passado com gosto de cereja de bolo, Bié começou a pensar que talvez a culpa não fosse toda dela. Esse idiota do Léo afinal já tinha idade pra saber que com fogo não se brinca. Ele também tinha que apanhar, junto com ela. E essa mãe que sempre demorava. Quando chegasse ia ter um troço. Maria Manicure levou os quatro aos banheiro, colocou pra tomar banho, e disse que Bié ia ter que ficar uns dias trancada ali, o povo estava querendo linchamento, a raiva era muita.  
A casa de Maria era boa, até o banheiro era grande. A menina ficou esperando no sofá, os olhos fechados, molhados, tentando pedir a Deus que recebesse apenas um castigo justo, mas não muito gigante. Que ela seria boa e não descuidaria mais dos irmãos. Abria os olhos de pouco em pouco e olhava o quadro de Jesus na parede da sala de Maria, cada vez com mais fé, que ele a perdoasse, que não a deixasse arder pra sempre no Inferno, que o fogo na casa não fosse um sinal da sua vida que ainda estava por vir. E que ela conseguisse viver até ficar grande e estudar pra advogada, tirar a mãe e os irmãos dali e nunca mais ter os olhos arroxeados. Que a mãe não lhe batesse muito, e que eles conseguissem logo reconstruir a casa. Que Deus fosse bom, enfim, ao menos por um tempo, era só o que ela pedia.

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