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terça-feira, 15 de setembro de 2015

no início

no início, o livro é assim: 
          O teu pai gostava de ir à fruta, e levava-te.
          Seguia por estradinhas de terra, e nem um alcatrão que ali fosse esquecido entre buracos, as mais das vezes repletos com água da última chuvada. Alcatroado, só aquele pedaço na descida que ia até à ponte, até ao rio. Um troço pequenino. Um bocado de alcatrão ratado assim como se alguém tivesse desejado saber como seria uma estrada a sério. O alcatrão terminava ainda nem se via a ponte sobre aquele fio de água, que o rio corria lá mais longe, e era uma torrente, e era peixe, e eram enxurradas a alagarem tudo. Ali era apenas um braço de água a dar de beber a um gamo, um mabeco, uma pacaça. Um ribeiro rolando entre raízes.

Aqui não é o rio, senhora, diziam as mulheres .
E nem era uma ponte, mas meia dúzia de troncos equilibrados numas pedras grandes, pedras brancas como se fossem caídas de um céu entre tempestades.
E o carro bamboleava risadas que eram as do teu pai e eram as tuas.
E descalçavam-se.
Por uns breves instantes, saltitavam na água transparente, muito fresca. Descalços, à revelia do que a tua mãe recomendava, ela sempre ciosa de que usassem alpargatas ou sandálias fechadas. Ela que, se viesse, lamentaria o calor, e sobretudo os bichos. Maria Inácia que calçava sempre sapatos com atacadores em cima de peúgas. Mesmo nos dias de calor intenso, que eram quase todos. Mesmo quando se der o casamento da tua irmã, que só por insistência e muito rogo Maria Inácia calçará uns sapatos diferentes e ainda assim baixos. Verniz preto com duas tirinhas cruzadas sobre o pé, ossudo e com muitas veias. Um pé translúcido, o pé dela.
Tu e o teu pai chegavam à chitaca do Ernesto depois de muito morro de formiga. Fantasia ladrava-vos debaixo da única macieira, a árvore a destoar no que era um laranjal a perder de vista. E havia a horta onde crescia de tudo. Bem lhe tinham dito: Afonso, se te descuidas e deixas um pau de vassoura enterrado na terra, ao outro dia tem rebentos verdejando.
Às vezes, o Ernesto oferecia-te uma maçã e tu babavas o vestido.
Se escrevesses desse tempo, talvez começasses pelo odor das maçãs do Ernesto Fantasia.
Fantasia era o nome do cão, mas assentava ao homenzinho como se fosse nome de família, e o teu pai nunca lhe conheceu um sobrenome. Talvez o usasse para diferenciar de um outro Ernesto que tivesse conhecido. Ou talvez o fizesse por garotice.
Se escrevesses, talvez contasses que a terra era vermelha, e as casas habitadas pelos espíritos dos que ali tinham gerado filhos e arrotado refogados. E dirias de sorrisos e ruídos e descuidos por baixo de lençóis em noites de lua. 

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