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terça-feira, 28 de abril de 2015

TIQUIRA

            Analfabeta, burra, mais ignorante que a filha da Naná Marisqueira. Atoleimada, lerda, uma mula, uma besta, desmiolada e sem futuro. Mesmo assim, Marlene matou o traste do Pajé e fugiu de Barra do Corda.

         Marlene não nasceu. Na trajetória da humanidade, é apenas mais um quidam. Pessoas como ela não vêm ao mundo da mesma forma que as sofisticadas criaturas belas e etéreas que povoam os condomínios fechados. Como que estigmatizados por uma sina hereditária, os miseráveis são evacuados em favelas venéreas ou praças gatunas. Sob viadutos, nas esquinas e atrás das grades, mana uma cascata de escusos necessários à manutenção do bem-estar de uma minoria cujo sangue é azul celestial. Há marlenes aos montes, feitas em série, uma raça pré-moldada para servir de braço e sabujo aos suseranos modernos, que vivem em um simulacro comportamental dos mocinhos pedantes e sebosos das novelas das nove. As marlenes são desprovidas das vias nervosas periféricas da dor, não sentem nada. Treinadas apenas para suportar e suportar e suportar, ostentam a própria miséria como se possuíssem um dom divino. Não reclamam, não discordam, não exigem. A elas cabe apenas pedir, implorar, mendigar por um gesto qualquer de aprovação. Também são bem-vindas algumas peças de roupa usadas e gastas à exaustão, uma fatia dormida de tapioca, meia caneca d’água. Deus lhe pague. 

         E feia. Ai, Marlene é feia. Feia como apenas alguém que se agarra à fome a fim de esquecer um pouco da sede consegue ser. Seus dezoito anos não servem para nada. Marlene é velha, tão antiga quanto a exploração rotineira que castiga o sertanejo e o entorpece de cachaça e promessas desde que os poderosos descobriram que as calamidades naturais da seca e da cheia poderiam servir de perfeito nicho para suas gestões vigaristas, seus governos de escroques.

Marlene tem dois ou três apelidos, nenhum vestido de festa e uma impinge no lado interno de sua coxa sem carnes que, graças a Deus, fornece uma coceirinha gostosa, um indefectível prazer. Alguém diria impossível, difícil de acreditar que justamente ela ― mulherzinha ordinária e axucralhada ― possuía um sonho. E seu sonho era do tamanho de sua cabecinha de minhoca, seu pensamento de piaba. Queria porque queria casar com o Pajé, um sujeito tosco e abrutalhado que era dono de quatro barcos de pesca e, por isso, tido pelos menos afortunados como alguém que vivia no luxo. Desprovido de caráter e moral, Pajé era capaz de surrar aleijados e cuspir na cara de anjinho. E foram justamente essas desprezíveis qualidades que despertaram uma bizarra querença naquele coração que mal existe, que bate pouco, dentro daquela cabaça a qual Marlene chama peito. Pensava ela que apenas um homem indubitavelmente rico e educado poderia tratar a ralé com tão requintado desprezo, com aquele nojo exacerbado.
         Vem cá, diaba disse no dia de sua morte o corpulento Pajé, espalhafatado dentro de uma rede de vistosas varandas rendadas, nu, o membro bêbado, com o cordão de ouro dezoito esmagado entre seus imundiçados dentes. Marlene aproximou-se a adivinhar um nome de senhora, um vestido de noiva, a impinge coçando um pouco mais perto da virilha. Deitou-se sobre o corpo peludo e ensopado de suor, fedido a banha de porco, e permitiu que Pajé a deflorasse.

Ai que dor! Vou morrer, vou morrer... Vou casar, vou casar... sofria imersa em fabuloso contentamento uma esperançosa Marlene, que dentro de pouco tempo lamberia o caldo de galinha caipira impregnado nas pontas gordas de seus dedos cheios de anéis. Viajaria para os Lençóis Maranhenses e o menino que seguraria sua frasqueira comprada na capital a chamaria de Dona Marlene do Pajé. Que honra. Que pena daquela pata, filha da Naná Marisqueira.

         Encontraram o corpo do Pajé banhado em sangue no alpendre de sua casa de alvenaria, dentro da caprichada rede de varandas rendadas. A polícia caçou Marlene por todas as redondezas, mas ninguém a encontrou nas cercanias de Barra do Corda. Talvez tivesse fugido em uma canoa pelo Mearim ou entrado na boleia de um caminhão na BR-226. Marlene simplesmente havia desaparecido da face da terra da mesma forma que aqui havia chegado e permanecido até então: sem ser notada.

         Ao lado do cadáver, havia uma garrafa de Tiquira quase seca, pouco sobrava do líquido arroxeado no fundo do vasilhame. O cadáver do Pajé estava totalmente molhado, como se uma tina de água houvesse sido despejada sobre seu corpo ensebado, que já exalava odor ainda mais rançoso que quando em vida.

Vendo aquela cena, a velha Naná Marisqueira, meio bruxa e grande conhecedora das coisas, resmungou dentre suas pálidas gengivas, ganhando a atenção dos curiosos que se acotovelavam ao redor do defunto:

Deve de tê negado botá aliança no dedo daquela doida e ela fez essa servicidão com o desgraçado. Plantou bem oito, dez facada e, vendo que o desinfeliz num morria, entornou-lhe à fina força uma garrafa de Tiquira goela abaixo e depois banhô o excomungado. Assim num tem cristão que se assobreviva. Tiquira e bãe d’água fria... Num deu outra. Taí. Mortim, mortim. Manda o sanfoneiro Zé Pilintra tocar uma moda que Barra do Corda num tem mais dono. E, quem diria, meu povo? Foi Marlene.



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6 comentários:

maravilha! nem ainda li seu nome e estou aqui babada deste texto excelente! o texto que mostra como o português não tem brasil, angola ou outro a que pertença, o português tem apenas a força de uma palavra a seguir à outra a dar corpo, a dar pedaços de literatura como este! Obrigada Emerson, muito obrigada! (por isso e pelo tema, tá visto!)

Maria de Fátima, obrigado pelo carinho!

Que coisa, Emerson! Que texto! Parabéns, amigo!

Esse cabra é fora de série! Não tem nada que seja menos que muito bom. Mas esse Tiquira se superou! Impecável de maravilhoso de cabo a rabo. Eu vi a cena como se estivesse nela e pensei "dava um episódio de TV". Beijos!

Cecília, minha loura linda, quando você gosta de um texto meu, fico nas nuvens! Cínthia, minha madrinha arretada, quase sinto daqui sua empolgação. É gratificante quando ganhamos o apreço e o respeito de quem tanto admiramos... Beijos!!!!

Encontrei a revista por acaso, zapeei e encontrei Tiquira, caninha da melhor qualidade, me moveu a lê-lo. Inquietude e vigor q tiram a gente da modorra. Só presta assim. Grata surpresa. Obrigada pela ótima prosa!

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