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quarta-feira, 8 de abril de 2015

Dindinha


publicado originalmente em http://f417s-d1ver5.blogspot.com.br
de 19 a 28 de fevereiro de 2015




 A maior parte das crianças da vila nasceu na própria vila, e todas seguiam vivendo ali até o fim. Dizer “nascer na vila” quer dizer ter nascido mesmo lá, nas próprias casas, vindos à luz da vila pelas mãos da Velha, a parteira.
A Velha tinha uma neta, ou até bisneta, porque a Velha era muito velha, e a guria que andava com ela, sua ajudante desde muito pequenininha, na época dessa história, não devia ter catorze anos. Era certo que tinha catorze anos quando ela ajudou a nascer Nenê, o filho da sua melhor amiga. Depois que Nenê nasceu, a mãezinha dele virou Mãezinha. A melhor amiga, a primeira pessoa a ver a carinha amassada dele, virou Madrinha, ou Dindinha. Entre si, se chamavam Comadre.
Mãezinha foi tri corajosa, mais do que tinham sido as irmãs, que preferiram a cesária na Santa Casa. Quis ganhar de parto normal, em casa, como a mãe dela tinha ganho ela, as irmãs e o irmão. E quis que Nenê fosse o primeiro parto da melhor amiga, que chamou pra ser madrinha. Tinham a mesma idade, as gurias. As duas estavam economizando pra festa de quinze anos desde os treze. Compraram juntas o enxoval do Nenê.
Também tinha, na época dessa história, os guri, que sempre andavam juntos. Eram seis, os guri. Um dos seis era o pai do Nenê. Depois que Nenê nasceu, virou Paizinho, mas o que mais pegou foi Compadre, porque era mais engraçado, e nenhum dos guris se animou a chamar ele de Paizinho. Compadre era só um guri antes do guri dele nascer. Continuou um guri depois. Era bonito que era um diabo. Ficou com a Mãezinha, mas já tinha ficado com a Dindinha, e com quase todas as gurias da vila. Gostava da Mãezinha, gostava das outras também, não pra casar, ele dizia, Como assim, casar?. Mas depois que o Nenê nasceu, quis arrumar um emprego e começou a construir uma casa pra ir morar com a Mãezinha, nos fundos da casa da mãe dele. Era o único dos guri que trabalhava.
Outro dos guri, o mais velho, que os outros chamavam Mais Velho, morava sozinho com os três cavalos que criava na última casa na única rua da vila. Os outros debochavam dele. Se aquela rua fosse um intestino, a casa dele seria o cu. Ele ria junto. Só sai merda dessa vila mesmo, e todo mundo passa pela minha casa, tá certo. Na outra ponta da vila, na entrada, ficava, quem diria, uma boca. Eu não digo? E todo mundo ria. Os caras vinham de carro do centro, ou do bairro ali perto, passavam na boca, pegavam, pagavam ou, dependendo da cara deles, pagavam e depois pegavam, atravessavam todas as curvas da vila e saíam, passando pela casa do Mais Velho. Olhaí a merda indo embora. Eles riam que se mijavam. Mais velho era engraçado pra caralho.
Outro dos guri era o Caçula. Caçula era irmão do Compadre, tio do Nenê. Antes era só Caçula. Nasceu o Nenê, virou Tio Caçula. Devia ter onze, ou mais, ou menos, ele não dizia. Queria ser grande, como o Mais Velho, que era um touro. Tio Caçula descobriu a punheta só ano passado, e não quis mais saber de outra coisa. Tocava oito, dez, doze por dia. Ficava louco se ficasse mais de duas horas sem bater uma. Sentava no fundo da sala, estava no sexto ano, e batia até esporrar nas cuecas, olhando pra qualquer pedaço de pele das colegas que conseguisse ver. Vivia com cheiro de porra. A mãe deles deu nele até ele tomar vergonha, quando chamaram ela na escola. Ficou uma semana de castigo. Batia doze punhetas por dia, do mesmo jeito.
Outro dos guri era filho da dona da boca. Os outros apelidaram ele de Dentinho, porque ele perdeu um dos dentes da frente numa briga. O dente era de leite, mas a história era boa. Nasceu outro no lugar. Era colega de aula do Tio Caçula. Dentinho era ruim de briga, mas era metido. Uma vez quis botar pra cima do Jamanta. Deu na cara dele no recreio. O Jamanta deu um soco na barriga do Dentinho que fez ele mijar nas calças, na frente de todo mundo. O Mais Velho e o Compadre esperaram ele passar pela casa do Mais Velho. Chamaram ele, de boa. E aí, Jamanta, tá a fim de jogar um Play? Jamanta era louco por videogame. Jamanta entrou na casa do Mais Velho. Os outros guri tavam lá dentro. Jamanta saiu da casa do Mais Velho, mancando e cheirando a merda. Depois disso, baixava a cabeça quando via o Dentinho.
Outro dos guri não morava na vila. Morava no bairro ali perto, com a avó, mas a mãe dele trabalhava na vila, na boca da mãe do Dentinho. Eles respeitavam. Nunca nenhum dos guri falou nada da mãe dele. Nem quando Mais Velho foi com ela. Ele era um cara tão gente fina que os guri chamavam ele Gente Fina. Pegou. Lá vem o Gente Fina. Aí, Gente Fina! Gente Fina levava coisas pra casa da avó, que a mãe dele mandava, e levava coisas pra mãe, que a vó dele mandava, e às vezes levava coisas da boca da mãe do Dentinho pra outros lugares, e ganhava uns pila. Comprava tudo em revista em quadrinho. Era fã do Batman. Batman é o cara!, ele dizia, enche os bandido de porrada, demule os cara, tá ligado, mas não mata os cara. Mataram os pai dele quando ele era guri, tá ligado., Grande merda, dizia o Mais Velho, mataram os meu e nem por isso eu sou o Batman., Minha vó contou que mataram meu pai ano retrasado., E daí?, E daí que era o meu pai, caralho., Grande merda, se mataram teu pai é porque ele merecia., Não conheci meu pai., Nem eu., Nem eu o quê?, Não conheci o meu também., Ah, tá, mas tu conheceu o meu?, Conheci., E aí?, E aí o quê?, Ele merecia morrer?, Sei lá, Gente Fina, era um merda, tá ligado, ficou devendo, não quis pagar, queimaram ele. É assim que funciona., É foda., É, é foda., Trouxe uma nova do Hulk, quer ler?, Bah, afudê, me amarro no Hulk!
Outro dos guri era o irmão da Mãezinha. Quando Compadre começou a namorar com a Mãezinha, o irmão dela virou Cunhado. Depois que o Nenê nasceu, virou Tio Cunhado. Tio Cunhado era um guri quietão, na dele. Tio Cunhado era apaixonado pela Dindinha, e isso era insuportável pra ele. Pensava nela o dia todo. Sentia a espinha gelar quando ela chegava. Ficava atrás da parede ouvindo a voz dela na sala, ela conversando sobre as coisas do Nenê com a Mãezinha, e sobre os outros nenês que ela ajudava a parir. Ela ria de um jeito lindo, não tinha vergonha de rir, como a Mãezinha. Quando Tio Cunhado tomava coragem, ia até a sala, sentava ali e fingia que assistia televisão, mas não se controlava e olhava pra ela, quando ela não estava olhando. Que cor linda. O jeito que ela arrumava o cabelo. O jeito que ela parava com as mãos. O jeito que segurava com tanto carinho as mãos da Mãezinha. Quando Dindinha olhava pra ele, o estômago ficava gelado, e ele desviava o olhar. Achava que ela sabia que ele gostava dela. Uns dias que ela ficou sem aparecer, ele teve febre. Quando soube que Dindinha tinha ficado com o Compadre antes de ficar com a Mãezinha, imaginou Cunhado sendo atropelado por um caminhão. Mas tinha o Nenê, e ele não queria que o Nenê crescesse sem pai. Eles eram amigos, no fim das contas. Mas ficou emburrado com Compadre por uma semana, sem explicar por quê. Mais Velho sacou tudo. Mais Velho sempre saca tudo. Um dia, Tio Cunhado tomou coragem de ir falar com Dindinha. Elas tavam combinando as coisas pro batizado do Nenê. Quando ela tava indo embora, de noitinha, ele chamou ela. Dinhinha., Oi, Tio., Posso falar contigo?, ele estava tremendo, talvez ela tenha percebido. Fala aí., Não sei se eu consigo., A vô tá me esperando, Tio Cunhado. Quer ir comigo até lá? Tá tarde. Ela morava com a vó no sítio, e o último poste era na frente da casa do Mais Velho. Dava pra ouvir o coração dele batendo. Saíram pelo portão. O que que foi, Tio?, ela perguntou, ele resmungou, mas ela não entendeu. Ela chegou mais perto. Fala, guri. Eles eram da mesma altura. Estavam passando debaixo do poste. A luz criou um negócio em volta dela, não dava pra ver o rosto dela, só o contorno iluminado. Ela parou, de frente pra ele, e o poste ficou atrás dela. Ela devia ver a cara dele, mas ele só via aquela luz em volta da cabeça dela. Ele nunca mais conseguiu esquecer aquela imagem. Eu to apaixonado por ti.
A Dindinha riu, na hora. Riu muito, daquele jeito que ela ria. No começo, ele riu também, nervoso. Talvez ela estivesse nervosa também, ou talvez tivesse achado graça. Ela não conseguia parar de rir. Tio Cunhado começou a ficar chateado. Um nó na garganta. O que é que foi? Por que tá rindo tanto?, Eu não acredito que tu disse isso, cara., Por quê?, Ela deu um passo na direção dele. Ele estava com os braços estendidos, caindo com o próprio peso. Dindinha segurou a cabeça dele com as duas mãos. Ele não sabia beijar. Ela teve que ensinar. Não sabia o que fazer com os braços, e ela ensinou isso também. O beijo era muito babado, com a boca muito aberta, e ela fechou a boca dele, com os dedos da mão assim, apertando de leve os lábios dele. Não abre muito, e mexe a língua mais devagar. Ele fez direito, depois. Ela gostou. Gostou de como ele era carinhoso, do jeito que fazia um negócio no cabelo dela, na nuca. Ela não conseguia ver, porque estava fazendo sombra na cara dele, o poste estava atrás dela, mas ele estava beijando de olho aberto. Queria ver ela, mas só via o breu. Sentia o hálito dela dentro da boca dele, a respiração dela perto da dele, as duas ficando mais forte. Não sabia se queria parar, se ela tava cansada, mas ela continou beijando ele. Ficou com vergonha quando sentiu que estava ficando de pau duro. Afastou um pouco. Eu te amo, Dindinha.
Dindinha deu um passo pro lado, mas continuou olhando pra ele. O rosto dela finalmente ficou iluminado. Meu Deus, como ela era linda, ele pensava depois, mesmo que não conseguisse mais lembrar a cara dela naquele dia. Ela riu. Deu uma ajeitada no cabelo crespo. Não fala merda, cara., Eu te amo, de verdade., Tá tarde, Tio. Me leva até lá na entrada. Eu te amo, ele disse, olhando pra baixo. Ela pegou na mão dele. Cunhado tava sentindo uma coisa que nunca mais voltou a sentir. Teve que se segurar pra não chorar na frente da Dindinha. Foram caminhando de mão dada até quase a esquina. Eles dois soltaram quando chegavam perto do poste, na frente da casa do Mais Velho. A estradinha que levava pra casa dela começava depois da cerca de arame farpado, era só pular. Tá bom aqui., ela disse. Te levo até lá., ele falou. Ela pensou um pouco, Não precisa mesmo, Cunhado. Ele ficou parado, olhando pra ela. Ela deu mais um passo, e deu um selinho nele. Amanhã eu passo lá., ela disse. A gente vai ficar de novo?, Não sei. Amanhã tu me traz de novo. Deram mais um beijo. Ela riu, daquele jeito. Ele riu também. Tchau., ela disse. Ele ajudou afastar os dois fios de arame pra ela passar. Ela se foi, sumiu na estradinha escura que conhecia como ninguém. Ele ficou sozinho, parado, por um tempo. Ninguém saberia dizer se ele riu ou se ele chorou naqueles minutos que não acabaram mais.
Quando Cunhado voltou, Compadre, Caçula, Dentinho e Gente Fina estavam fumando sentados no cordão da calçada, na frente da casa do Mais Velho. E aí, Cunhado, perguntou o Mais Velho, Comeu? Vai à merda, Mais Velho., Já to na merda, disse o Mais Velho, todo mundo riu. Tá ligado que ela dá pro Jura, né?, disse o Compadre. Quem?, perguntou o Cunhado. A minha vó! A Dindinha, porra. A Dindinha dá pro Jura desde a quinta série. Diz que ele bate nela, e que ela gosta., disse o Compadre, rindo. Vai tomar no cu, Mais Velho. Vão tudo vocês tomar no cu, tá ligado. Vão se foder!, gritou Tio Cunhado. Os outros riram até não poder mais. Cunhado não parou, e continuou indo pra casa, puto da vida, com muita raiva dos guri. Ainda conseguiu ouvir o Mais Velho gritando, Ela te chupou do jeito que chupa o Jura, Cunhado? Ele diz que ela é a melhor. Cunhado chegou em casa, e teve que se controlar pra não bater a porta. O Nenê já tava dormindo. Teu namorado é um pau-no-cu, Mãezinha., disse Cunhado, com a cara vermelha de ódio. Se jogou na cama e ficou no escuro, sem conseguir dormir. Pensava ora na imagem da Dindinha com o poste atrás dela, com aquela luz dourada no cabelo dela, ora no Jura com cara de safado, e a Dindinha chupando ele, ora imaginando o Jura com a garganta cortada, esguichando sangue pelo buraco aberto, que nem naquele filme.
No outro dia, Cunhado não saiu de casa, não quis ir à aula. A mãe deles, que depois que o Nenê nasceu virou Vó Zinha, saiu antes das sete, ela trabalhava no centro, e voltava tri tarde, no último ônibus. Eles se viravam bem. A Mãezinha saiu logo depois, junto com o Compadre, antes de ele ir pro mercado, pra levar o Nenê no postinho. Cunhado ficou em casa, sozinho, dormindo, a manhã toda. Antes do meio dia, bateram na porta. Era Dindinha.
Oi, ele falou, assustado., Posso entrar, ela perguntou?, Entra, ele falou, saindo da frente da porta, fechando em seguida. O que tu falou pros teus amigos?, Eu não falei nada. Fala o que eles te falaram, então., Não interessa, eles são uns babaca., Fala agora o que eles te disseram, se não eu nunca mais olho na tua cara!, ela tava muito braba., Falaram que tu dá pro Jura desde a quinta série., ela botou as duas mãos nos olhos, Eu vou matar aqueles filhos da puta., Eles são uns babaca, não liga., Cunhado disse, tentando abraçá-la. Não chega perto de mim!, Mas eu não falei nada, Dindinha. Até te defendi. Não preciso que me defendam, tá me ouvindo? Esses merda não sabem nada da minha vida., Tu tá muito nervosa, Dindinha., E vou ficar mais ainda se eu não tirar isso a limpo. Tu sabe o que aconteceu? Alguém foi falar isso pra minha vó. Os teus amigo ficaram gritando na rua que eu isso, que eu aquilo, agora a minha vó tá louca, quer fazer escândalo. Tudo isso só por causa de uns piá de merda., Mas tu tem alguma coisa com o Jura?, Até tu, Cunhado?, Tem ou não tem?, Olha, vai à merda tu também. Vocês são tudo igual, um bando de piá cagado. Maconheiro de merda!, disse Dindinha, indo na direção da porta. Dindinha, calma. Calma, porra!, disse Cunhado, parando entre ela e a porta. Me deixa sair, se não eu., Senão tu o quê? Vai contar pro Jura?, Sai da minha frente, Cunhado., Vai contar pra ele?, Talvez. Se ele já não souber., Então é verdade que tu dá pra ele? Tu chupa o pau dele?, Não é da tua conta. Sai da minha frente!, Chupa ou não chupa?, Não, Cunhado. Eu não chupo ninguém. To com nojo de ti. Sai!, Desculpa, Dindinha., Anda, sai da minha frente agora, senão eu vou gritar., Dindinha, desculpa., Sai, porra!, ela disse, empurrando Cunhado. Cunhado se esquivou, agarrando o braço dela, Eu to com ciúme, caralho, tu não tá vendo?, E eu to com nojo da tua cara. Não fala mais comigo, seu babaca., A gente não vai mais ficar?, Eu nunca fiquei contigo, otário. Aquilo foi só um beijo. Um beijo ruim pra caralho, ainda. Tu não sabe beijar. Piá! É isso o que tu é. Um piá! Agora me solta.
Cunhado soltou. Dindinha abriu a porta e saiu. Cunhado caiu de joelhos, depois deitou, e ficou chorando até cansar.
Jura encontrou o Caçula e o Dentinho na saída do colégio. Todo mundo dizia que o Jura era perigoso, mas ninguém tinha visto ele fazer nada com ninguém. Era mais velho que o Mais Velho, já tinha até uns cabelos brancos. Que tinha sido preso, que tinha matado um cara, que tinha matado mais de um cara, que tinha feito um monte de coisa que ninguém sabia. Jura não falava com ninguém, e só aparecia na boca pra comprar cachaça, dava boa tarde e ia embora. Morava no campo, numa tapera perto da casa da Velha.
As pessoas na vila diziam um monte de coisas. Diziam que a Dindinha vivia meio que amaziada com ele. Que se ouviam os gritos dela, todos os tipos de grito, dentro de casa. Diziam que ele botava os bichos pra dormir dentro de casa, e que faziam coisas, o Jura, a Velha e a Dindinha. Que eram macumbeiros e tudo. O Jura esperou a saída do colégio. Caçula conseguiu escapar. Dentinho não. Deu dois tapas na cara do Dentinho. Disse, Vou capar um por um se continuarem falando o que não devem de mim e da guria. Olhou no grão do olho do Dentinho. Dentinho acreditou nele.
Mãezinha soube da história quando chegou em casa com o Nenê. Tentou ligar pra Dindinha, mas a Dindinha não atendia. Quis saber do Compadre, O que vocês andaram falando, pra Dindinha não querer falar comigo?, Compadre falou, A Dindinha é uma puta. Tu não tinha que andar mais com ela. Andou até dizendo que o Nenê não é meu filho. Ela é uma fingida, tá ligado. Ela tem inveja de ti, porque tu tem o Nenê e agora tem uma família. Mãezinha ficou pensativa. Cunhado tava no quarto, e ouviu tudo. Saiu de lá com sangue nos olhos. O Compadre se antecipou, O Cunhado levou ela pra casa ontem. Ela deu pra ele no mato. Ele contou pra nós., Mentira, Compadre! Que mentira!. O Nenê começou a chorar. Eu fiquei com ela, sim, mas foi só isso. Os guri que começaram a gritar na rua, depois, que ela dava pro Jura., O quê?!, gritou a Mãezinha, o Nenê cada vez mais furioso, Mas vocês são uns inútil mesmo! Vocês não sabem nada e ficam falando merda! Sai daqui os dois. Compadre!, alguém gritou na frente da casa, era o Mais Velho. Compadre e Cunhado sairam. Mais Velho estava na frente, com a mesma paciência de sempre. Chega aí, Compadre. Chega tu também, ô, pegador, temo que trocar uma ideia., Qual é?, perguntou o Compadre, Cunhado chegou logo depois. Mais velho disse, olhando pro Cunhado, O comedor da tua princesa mandou um recado pelo Dentinho. Mãezinha saiu na frente da casa. Onde é que vocês vão?, ela gritou pro Compadre, com o Nenê no peito. Relaxa, mulher., ele disse, Vamo ali resolver um bagulho.
Os seis guri estavam na casa do Mais Velho. Cunhado não sabia o que pensar. Estava confuso com tudo aquilo. O Jura mandou dizer que vai capar nós tudo se a gente continuar falando dele e da Dindinha, disse o Dentinho, pela oitava ou décima vez., O Jura é perigoso, disse o Gente Fina., Dá pra ver na cara dele. Vamo esquecer essa merda toda. Sei lá, pedir desculpa pra Dindinha. O Mais Velho serviu um martelinho de cachaça e tomou num gole. Ele quer capar a gente, vamo lá mostrar pra ele então, como é que se capa alguém. Seis contra um, doze bola contra duas. Vamo ver se ele é colhudo mesmo. Cunhado olhou nos olhos do Mais Velho. Mais Velho tinha sacado tudo. Ele sempre saca tudo.
Os guri foram até a tapera pelo meio do mato, na trilha que eles mesmos usavam pra ir pescar no açude, que ficava depois da casinha do Jura. Ele tinha uns quatro cachorros, mas já tavam acostumados com os guri. Nem latiram quando viram eles saindo do meio das árvores, umas seis da tarde, quando já tava escurecendo. A chaminé tava fumegando, então, ele devia estar em casa. Ô Jura!, gritou o Mais Velho, Vem aqui fora capar a gente!. O Jura resmungou lá dentro, depois saiu. Mais Velho, Compadre e Gente Fina estavam na frente. Gente Fina, Caçula, e Cunhado, um pouco pra trás. O Jura saiu na porta. Os cachorros começaram a latir, ele assobiou e eles pararam. Jura não disse nada, estava com a mão pra trás. Mais Velho também estava. Se encararam. Jura mostrou que tava com um machado. Dentinho deixou cair uns pingos de xixi na cueca. Compadre bateu de ombro com Mais Velho e cochichou, Vamo embora, Mais Velho., Nada, só vamo dar um susto nele, só. Alguém espiou de dentro da casa. Volta pra dentro, disse o Jura. A pessoa saiu.
Era a Dindinha. Cunhado deu dois passos pra frente, ficou do lado do Dentinho. Cunhado e Dindinha se encararam. Ela tava chorosa. Tinha uma marca vermelha na cara. Ficou do lado do Jura, e tocou no peito dele, empurrando ele de leve, cochichando uma coisa que os guris não ouviram. Cunhado só conseguia ver a mão de Dindinha perto do pescoço do Jura. Lembrou da mão dela no rosto dele, ontem à noite, quando pensou que era a coisa mais inexplicável que já tinha sentido, e sentiu raiva quando Jura virou a cabeça de lado, aproximou a boca da boca da Dindinha. Cunhado pegou o revólver da mão do Mais Velho e não mirou. Acertou do lado da cabeça do Jura, meio no olho, o cérebro dele ir parar na fachada da casa.
Dindinha deu um berro, e tentou segurar o Jura enquanto caia. Cunhado caminhou até lá, com mais cinco balas. Imaginou Dindinha grávida do Jura, imaginou-a chupando o Jura depois de ter levado uma surra dele, não imaginou que ela estivesse deitada, meio por cima dele, tentando segurar a cabeça ensanguentada do homenzarrão, dizendo no meio do choro Pai... paizinho... Cunhado deixou a arma cair. Ela olhou pro Cunhado. Ela estava com a roupa empapada de sangue, o lindo cabelo ensanguentado, o rosto salpicado com sangue e pedaços do cérebro do Jura. Ela olhou para Cunhado e não reconheceu.
Cunhado olhou para trás. Os guri tinham corrido de volta pro mato, todos, menos Mais Velho, que estava parado no mesmo lugar. Dindinha saiu correndo, chorando, na direção da casa da Velha. Cunhado fez menção de ir atrás dela, mas o Mais Velho impediu. Deixa ela ir. Me ajuda aqui com o cara. Nenhum dos guris nunca falou quem tinha atirado no Jura. A arma foi encontrada junto com o corpo. Quando veio a polícia, Mais Velho se entregou, numa boa. Ele mesmo disse onde tinha enterrado. Disse que fez tudo sozinho. Nunca ninguém soube pra onde a Dindinha e a Velha tinham ido, depois daquilo. Dizem que ela voltou quando o Nenê já era grande, pra vê-lo uma última vez, antes de sumir pra sempre. Dizem que ela tinha também tinha um gurizinho, que ninguém sabe de quem era filho. Dizem também que a Dindinha perguntou pelo Tio Cunhado, mas a Mãezinha não soube dizer onde ele andava. Na real, dizem que ela não quis dizer o que tinha acontecido.

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