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segunda-feira, 16 de março de 2015

Uma conta que não fecha


O sangue. Esse delator maldito que navega arrogante por veias e artérias. É o sangue que vai lhe contar o que ele não quer saber. Quem ele não é; quem ele nunca foi. Que não é o primogênito de seus pais. Nem o irmão de seus irmãos. As sobrancelhas grossas como as do pai, o nariz alongado da mãe, o sinal sobre o ombro esquerdo: coincidências fabricadas à força do afeto. E ele não será o filho de mais ninguém. Somente um nada sem raízes próprias. Um pastiche.
O sangue vai mostrar que ele não serve, que não é compatível. Que num minuto é o provável doador para o seu pai e, no outro, apenas um desconhecido, uma conta que não fecha. E ele, que nunca se afasta dos fatos, não saberá o que fazer com os fatos: se confrontará a mãe ainda ali, no hospital precário, roubando para si uma cena que não é sua; se exigirá com urgência os detalhes da sua história desviada; se apenas perguntará por quê. 
Ele ainda não sabe que um estopim será aceso. No instante em que a mãe e os irmãos lhe pedirem que compreenda. Compreender é tudo o que ele não conseguirá. Ao contrário, será tomado por um deboche furioso. Uma vontade insana de chutar as portas frágeis da UTI onde o pai está deitado sem saber de nada. E de sacudir aquele homem que o enganou por tanto tempo. O pai paciente e amigo que o ensinou a assinar seu nome e sobrenome. E lhe mostrou as letras, os números, os mapas, os elementos, as constelações. O pai que lhe mostrou a vida por meio de uma prática respeitosa de atos sem voz. O pai que o levou para nadar, para andar a cavalo, para navegar no mar que ambos tanto amam. A quem entregou seus boletins escolares, suas dúvidas, suas discussões adolescentes, suas broncas com Deus, seus diplomas, suas paixões, seus argumentos. O homem que, ele ainda não sabe, será, brevemente, um estranho.
Ninguém devia saber assim, como ele saberá, que foi rejeitado. Por uma mulher quem nunca chamou de mãe. Que o jogou fora ou o entregou sob um pretexto qualquer; talvez, por dinheiro. Por um homem a quem nunca chamou de pai. Que sequer o conheceu ou que provavelmente nem tenha sabido que o fez existir. Ninguém devia se deparar com a própria história de repente. Não para descobrir que é uma história oca. Nem desse jeito, por acaso, por causa de um acidente de carro estúpido. O pai lançado de cabeça no asfalto; a falta de recursos da cidade pequena; a necessidade de uma transfusão; ele se oferecendo para doar, apesar da insistência estranha da mãe em lhe dizer que não precisa, que não precisa... Ele lendo na ficha do pai: sangue tipo A+. E se lembrando de que o sangue da mãe é O+, e de que o sangue dele é B-. Tudo isso antes que a voz apressada da enfermeira sentencie que o doador tem que ser da família ou alguém compatível. 
Um homem não devia ser lançado assim ao inferno. Cara ou coroa?, perguntam-lhe as atitudes. Desnorteio; e ele se reconduz, feto, ao útero de uma narrativa não escrita. Pertencimento; e ele volta, inteiro, à UTI onde há muito mais que sangue a ser doado. Porque sangue é uma conta que não fecha.



Ilustração: O Nascimento do Mundo, Salvador Dalí

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Cinthia Kriemler
Formada em Comunicação Social/Relações Públicas pela Universidade de Brasília. Especialista em Estratégias de Comunicação, Mobilização e Marketing Social. Começou a escrever em 2007 (para o público), na oficina Desafio dos Escritores, de Marco Antunes. Autora do livro de contos “Para enfim me deitar na minha alma”, projeto aprovado pelo Fundo de Apoio à Cultura do Distrito Federal — FAC, e do livro de crônicas “Do todo que me cerca”. Participa de duas coletâneas de poesia e de uma de contos. Membro do Sindicato dos Escritores do Distrito Federal e da Rede de Escritoras Brasileiras — REBRA. Carioca. Mora em Brasília há mais de 40 anos. Uma filha e dois cachorros. Todos muito amados.
todo dia 16


7 comentários:

Texto emocionante, de uma criatividade incrível. Só mesmo essa escritora fabulosa para fazer palpitar um drama que é tão recorrente e que quase ninguém presta atenção. Pra mim, um drama que se resume nessa construção antológica: "... e ele se reconduz, feto, ao útero de uma narrativa não escrita. Show, Cinthia!!

Fascinante como sempre. Seus contos me deixam totalmente concentrada, desejando que não acabe nunca mais. Parabéns, Cinthia querida.

Sempre implacável, você faz de uma simples doação de sangue o fio do drama de uma existência. Ótimo!

Nossa, Cinthia!!! Fiquei muito emocionada! seu conto é impecável! Amei demais!

Obrigada, Maria Silvia! E obrigada Vânia Diniz!

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